Crise Financeira Global
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Crise Financeira Global


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o PIB,14 em 2009, aumentou com o transcurso do ano e com a aproximação do 
período ao qual se referiam as previsões, e disparou no último trimestre. Essa evo-
lução ocorreu em sentido inverso ao que seria normalmente esperado e ao que, de 
fato, se verificou nos anos anteriores, em que a incerteza em relação ao nível de 
atividade no ano seguinte tendia a diminuir conforme se aproximava seu início 
e reduzia-se a heterogeneidade das expectativas. Efetivamente, em 2006 e 2007, 
o desvio-padrão das expectativas de crescimento do PIB no ano seguinte tende a 
convergir, a partir de meados do mês de setembro, para valores próximos a 0,3. 
Em 2008, pelo contrário, o desvio-padrão \u2212 que apresentava, em janeiro, níveis 
próximos a 0,35, inferiores, inclusive, aos verificados nos anos anteriores \u2212 atinge, 
ao finalizar o ano, valores próximos a 0,65 \u2212 mais do que duas vezes superiores 
aos desvios verificados ao final dos anos anteriores. O coeficiente de variação, 
mais afetado em função da redução ocorrida ao longo do ano no valor absoluto 
das previsões para o PIB, mais do que triplicou em apenas um mês \u2212 outubro \u2212, 
estabilizando-se no novo patamar até o final de dezembro.
Tamanha variabilidade nas previsões construídas por indivíduos que nor-
malmente compartilham a mesma visão sobre a forma de funcionamento da 
economia e cujas expectativas apresentam, de modo geral, um alto grau de ho-
mogeneidade e, por outro lado, caracterizam-se pelo comportamento fortemente 
mimético, revela a incerteza reinante em relação ao futuro, e é indicativa do 
reduzido grau de confiança depositado pelos agentes nas previsões construídas 
com base aos fundamentos aqui discutidos.
5 ComportAmento ConVenCionAL e eXpeCtAtiVAS
Como já sugerido, a insuficiência dos fundamentos objetivos é característica 
do próprio processo de formação das expectativas sob incerteza. Seguindo 
Keynes (1936), sugeriu-se também que, de modo a conviver com essa incerteza 
inerente, os agentes normalmente formam suas expectativas basicamente por 
meio da adesão à convenção de que o estado atual dos negócios continuará 
indefinidamente, a menos que tenhamos razões específicas para esperar uma 
mudança. Entretanto, justamente em situações como aquela, vigente a partir do 
último trimestre de 2008, em que se verificam profundas alterações na economia 
mundial, os agentes passam a ter as razões específicas necessárias para acreditar na 
ocorrência de mudanças importantes. Quando isso ocorre, a projeção no futuro 
da situação atual não pode mais ser vista como uma base adequada a partir da 
qual são formadas as expectativas.
14. O mesmo movimento se verifica no caso do desvio-padrão da produção industrial, não mostrado aqui.
90 Crise Financeira Global
Em tais contextos, portanto, em que se generaliza o sentimento de grande 
incerteza quanto às ações e às expectativas de cada um e do conjunto dos agentes, 
não somente os fundamentos econômicos são particularmente deficientes para 
subsidiar a construção das previsões para o futuro, mas também as condições atuais 
mostram-se igualmente inadequadas para tanto. Como resposta a essa situação, 
os agentes procuram ainda aderir a uma convenção (SALAIS; STORPER, 1992) 
que vai, entretanto, além daquela referida por Keynes. Efetivamente, em tais 
situações em que a manutenção do estado atual mostra-se altamente improvável 
ou mesmo impossível, a convenção à qual os agentes aderem estabelece-se a 
respeito das razões específicas que conduzem à mudança \u2212 vista como inevitável 
\u2212 e aos resultados e à forma pela qual essa mudança dar-se-ia. Essa convenção 
não necessita estar apoiada nos fundamentos \u201ccorretos\u201d, de todos os modos 
incertos, e sua importância não é fazer com que qualquer incerteza em relação 
aos outros agentes (e, de modo geral, quanto ao futuro de todos e de cada um) 
desapareça, mas servir como uma referência coletivamente reconhecida que 
interrompe, pelo menos temporariamente, a especulação quanto às suas intenções 
(ORLÉAN, 1994) e permite a formação das expectativas.
Essas expectativas, portanto, especialmente quando formadas em 
contextos em que se verifica um elevado grau de incerteza em relação ao 
comportamento das variáveis fundamentais e aos seus impactos sobre a 
economia, longe de ser o resultado direto de algum tipo de cálculo racional 
elaborado a partir daquelas variáveis \u2013 de resto pouco confiável, quando não 
impossível \u2013, ou a simples reprodução da situação corrente \u2013 de todos os 
modos, em contínua mutação \u2013, são formadas seguindo fundamentalmente 
uma lógica convencional (ORLÉAN, 1999).É nesse tipo de lógica que se 
apoia o comportamento \u2013 convencional \u2013 dos agentes que não adotam sua 
própria avaliação individual para uma determinada situação, nem aderem 
às avaliações realizadas por outros agentes, estejam elas ou não apoiadas nos 
fundamentos mais sólidos possíveis, mas que procuram identificar e adotar 
a avaliação a qual o conjunto dos agentes considera como sendo a opinião 
majoritária, terminando por impor-se na realidade.
Longe de apontar para uma situação de irracionalidade coletiva, o 
comportamento convencional descrito mostra-se perfeitamente racional, se 
considerar-se que, ao transformar-se numa convenção, a opinião majoritária 
proporciona um mecanismo de avaliação comum dos elementos em torno dos 
quais os agentes podem coordenar-se, reduzindo fortemente as incertezas próprias 
à interação (EYMARD-DUVERNAY et al., 2005). Por outro lado, a adesão à 
convenção permite a cada agente preservar sua posição relativa face aos demais 
atores no mercado específico em que ocorrem as transações, o que constitui um 
comportamento defensivo certamente compatível com a racionalidade econômica 
em contextos de elevada incerteza (DEQUECH, 1999b).
91A transmissão da Crise: incerteza, expectativas e Comportamento Convencional
Em função dessa conveniência em aderir a uma convenção, o comportamento 
convencional generaliza-se e a convenção acaba adquirindo um status muito 
similar àquele atribuído aos fundamentos econômicos, esquecendo-se, inclusive, 
de seu caráter convencional (CHERNAVSKY, 2008). O \u201cfundamento\u201d das 
expectativas passa a ser a própria convenção.
As características da convenção, a partir da qual são formadas as expectativas 
quanto ao futuro, são o resultado da interação continuada entre os agentes. 
Dessa interação emerge um padrão específico de comportamento habitual, 
esperado e autoaplicável, não por ser esse padrão intrinsecamente o mais 
correto ou adequado, mas devido às circunstâncias históricas específicas, não 
reduzíveis aos valores assumidos por um conjunto limitado e estável de variáveis 
econômicas objetivas,15 que o colocaram à frente dos demais (YOUNG, 1996). 
Independentemente de quais sejam suas qualidades particulares, uma vez tendo 
tomado a dianteira, aciona-se um mecanismo de realimentação o qual faz com 
que esse padrão específico transforme-se numa convenção e seja adotado pelo 
conjunto dos agentes, passando a determinar seu comportamento. É por esse 
motivo que, para compreender as características das expectativas, que como 
sugerido, não se explicam de forma satisfatória pelos fundamentos econômicos 
nem pela crença na manutenção da situação corrente, é fundamental conhecer 
quais são aquelas circunstâncias específicas em que a convenção que baliza a 
abrupta deterioração das expectativas relativas ao nível de atividade emergiu.
Essas circunstâncias são marcadas pela profusão de sentimentos 
profundamente pessimistas no ambiente, caracterizado, desde o mês de setembro 
de 2008, por uma grande turbulência e pela ocorrência efetiva de pesadas perdas 
por parte de várias empresas \u2212 financeiras e não financeiras \u2212 nos mercados de 
capital nacionais e estrangeiros. No caso das firmas produtivas, não apenas grandes 
grupos exportadores como Sadia e Aracruz, que sofreram prejuízos medidos em 
bilhões,