A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios guarani -   Pierre Clastres
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A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios guarani - Pierre Clastres


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eles se ergam em sua totalidade.
E veja: a propósito dos adornados,
a propósito daqueles que não são seus adornados,
a propósito de todos, eu questiono.
Também, por tudo isso,
não é de forina nenhuma em vão que tenho, quanto a mim,
necessidade de suas palavras:
as das normas futuras da força,
as das normas futuras de um coração valoroso,
as das normas futuras do fervor.
Nada mais, entre a totalidade das COIsas,inspira valor ao
meu coração.
Nada mais me faz sinal para as futuras normas de minha
existência.
Entretanto, quanto a tudo isso,
as palavras, você não as pronuncia mais, Karai Ru Ete:
nem por mim, nem por seus filhos destinados à terra
E o mar maléfico, o mar maléfico,
você não fez com que eu o atravessasse.
É por isso, na verdade, é por isso que só existem
em pequeno número, meus irmãos,
que só existem em pequeno número, minhas irmãs.
Veja: a propósito dos poucos numerosos que existem,
faço ouvir minha lamentação.
A propósito deles, novamente pergunto:
pois Namandu faz com que se ergam.
As coisas estando assim dispostas,
quanto aos que se erguem, em sua totalidade,
é a sua alimentação que dirigem a atenção de seu olhar,
todos eles;
e disso que a atenção de seu olhar se dirige para sua
alimentação futura
eles são então os que existem, todos eles.
Você faz que tenham saída suas palavras,
você inspira seu questionamento,
você faz que deles todos se eleve uma grande lamentação.
Mas veja: eu me ergo em meu esforço,
e todavia você nãC?pronuncia as palavras, não, em verdade,
você não' pronuncia as palavras.
Em conseqüência, eis o que fui levado a dizer,-
Karai Ru Ete, Karai Chy Ete:
aqueles que não eram pouco numerosos,
os destinados à terra indestrutível,
à terra eterna que nenhuma pequenez altera,
todos aqueles, você fez que em verdade eles questionassem,
antigamente,
a propósito das normas futuras de sua própria existência.
E seguramente eles as conheceram em sua perfeição,
antigamente.
E se, quanto a mim, minha natureza se livra d' . 11 I
costumeira imperfeição.
se o sangue se livra de sua costumeira imperfciçuo til
antigamente:
então, seguramente, isso não provém de todas as (;oisn. 11\ I
mas de que meu sangue de natureza imperfeita,
minha carne de natureza imperfeita
se sacodem e jogam para longe de si
sua imperfeição.
É por isso que você pronunciará em abundância as PltlllVI I
as palavras de alma excelente,
para aquele cuja face não é dividida por nenhum sinllllln,
Você pronunciará em abundância as palavras,
Oh! Você, Karai Ru Ete, e você, Karai Chy Ete,
para todos os destinados à terra indestrutível,
à terra eterna que nenhuma pequenez altera,
Você, Vós!
Cadogan, León. Ayvu Rapyta. Textos niíticos de los mbya-gual'ani deI
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