ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.329 materiais14.657 seguidores
Pré-visualização50 páginas
no entanto bem mais profunda. Sociologicamente está se di­
zendo que a modernidade independe de sua origem ociden­
tal, e que sua aceleração pode inclusive superar os momen­
tos anteriores.271 O juízo \u201co Japão é hoje mais moderno do 
que os países europeus\u201d pressupõe um padrão comum parti­
lhado pelas sociedades européias e japonesa, e obviamente 
uma defasagem temporal entre elas. Dentro dessa perspecti­
va, os países já não mais se definirão por suas idiossincrasias,
24. Alguns intelectuais japoneses criticam muito a assimilação do conceito 
de "modernização\u201d ao de "ocidentalização\u201d. Para eles, isto seria uma argumento 
etnocêntrico, impedindo de se perceber a mudança do centro da modernidade 
da Europa/Estados Unidos, para o Japão. Ver H. Nakano, \u201cJapan\u2019s interna­
tionalization: becoming a global citizen" in E. Tiryakin (org.), The global crisis, 
Leiden, E. J. Brill, 1984.
eles serào \u201cadiantados\u201d ou \u201catrasados\u201d, \u201cdesenvolvidos\u201d ou 
\u201csubdesenvolvidos\u201d, ajustando seus ritmos ao batimento de 
uma evolução global.
* \u2666 *
Se é possível captar a emergência desta modernidade- 
mundo no século XIX, é necessário acrescentar, somente al­
guns países a contém. Ela é potencialidade, ainda não se rea­
lizou enquanto globalização. Um exemplo sugestivo: as 
exposições universais. Em alguns centros, como Paris, Lon­
dres e Nova York, elas reuniam as realizações econômicas e 
culturais das nações existentes na face da terra. Eram uma 
espécie de miniatura do mundo. Mercadorias, técnicas, in­
venções e costumes se congregavam neste espaço meta­
foricamente mundializado. Cada país, com seus edifícios e 
construções próprias, oferecia aos olhos do visitante um pa­
norama singular: bazar chinês, mercadores gregos ou ma­
ronitas, artefatos egípcios, etc. Qualquer pessoa, num pas^1 
seio de poucas horas, conhecia diferentes pontos do planeta, 
navegando pelos mares, caminhando pelos desertos, desven­
dando os segredos da China ou da Oceania. Os indivíduos 
que afluíam para um espetáculo como \u201cA volta ao mundo\u201d -~ 
exposição de Paris, 1900 - eram envolvidos pela miragem de 
Atenas, de Constantinopla ou de Tóquio. Eles apreciavam os 
espanhóis dançando ao som das castanholas, saboreavam 
um café turco, sentados em frente ao Bosforo. Um cronista 
descreve uma das atrações mais populares da exposição de 
1889 (Paris) da seguinte maneira: \u201cSobe-se pelo elevador. Ele 
o deixa no Pólo Norte. Uma galeria em espiral, após várias 
revoluções, leva o visitante às antípodas do ponto de partida. 
Durante o percurso, linhas coloridas permitem seguir as 
grandes linhas de navegação, de estrada de ferro, de telégra­
fos, e os itinerários dos exploradores famosos. Grupos de 
pregos coloridos lhe indicam os principais depósitos de me­
tal Nas paredes, vários cartazes, com quadros estatísticos
comparativos, fornecem essas informações que todos em princí­
pio deveriam saber, mas que sempre ignoramos, e que a um só 
olhar despertam tantas idéias. Vejo que a China tem apenas treze 
quilômetros de estrada de ferro, e que os Estados Unidos da 
América têm 242 mil; compreendo sem nenhum comentário 
a marcha atual da civilização no globo. Um outro quadro 
lembra que há cerca de 500 milhões de budistas, um terço da 
humanidade; isso aumenta minha consideração pelo Buda 
de bronze que sorri no vestíbulo das artes liberais\u201d.25
A mesma idéia de \u201cencurtamento\u201d das distâncias, quando 
falávamos da construção das ferrovias, se repõe. Mas com 
uma diferença substancial, ela é apenas uma representação 
ideal. O mundo unificado do século XIX conhece um con­
junto de transformações que aproxima suas partes, cabo sub­
marino, telégrafo, agências internacionais de informação 
(Havas, Reuter, WolQ. Não obstante, persistem várias dificul­
dades, o movimento de integração é incompleto. A transmis­
são de notícias enfrentava problemas consideráveis (não 
existia uma rede mundial de cabos submarinos), e o custo 
das mensagens limitava o serviço de telegrafia aos setores di­
plomáticos e aos meios financeiros. Por outro lado, o tempo 
despendido nas viagens marítimas era longo, sendo medido 
em dias. Apesar dos progressos ocorridos na navegação 
(substituição dos barcos de madeira pelos de ferro), o tempo 
de viagem dos transatlânticos entre meados e final do século 
praticamente permanece o mesmo. Concretamente, os conti­
nentes encontravam-se distantes uns dos outros, e o avião 
era ainda uma incerteza, uma promessa de instantaneidade. 
Por isso a diminuição do espaço mundial só pode se expri­
mir enquanto miniatura, ela não é real. A vivência do visitan­
te das exposições universais guarda algo de alusivo, e não 
resulta do mesmo tipo de experiência que o viajante de trem 
ou de automóvel possuía. Nesses casos, o indivíduo experi-
25 E Melchior de Vogué, A travers ¡'exposition, Revue des Deux Mondes, 
15 julho 1889, pp. 452-453.
mentava a sensação do encurtamento do trajeto, no outro, devia 
se conformar com a ilusão de um encolhimento planetário.
Na verdade, é apenas durante o século XX que o proces­
so de mundialização se realiza plenamente. Trata-se de uma 
progressão contínua, que na conjuntura posterior à da Se­
gunda Guerra sofrerá saltos e redefinições. Do ponto de vis­
ta que nos interessa, cabe ressaltar o advento das indústrias 
culturais. O modo de produção industrial, aplicado ao domí­
nio da cultura, tem a capacidade de impulsioná-la no circuito 
mundial. O que se encontrava restrito aos mercados nacio­
nais, agora se expande. Desde cedo o cinema tem um papel 
fundamental para o intercâmbio das imagens. Gêneros po­
pulares, aventura, folhetim, western consagram na tela dife­
rentes estilos. De \u201cO Grande Roubo do Trem\u201d, de Edwin 
Porter, a \u201cNosferatu\u201d, de Murnau, forma-se paulatinamente 
uma cultura da imagem que transcende sua origem nacional. 
Chaplin, Garbo e Valentino são ídolos internacionais.
Outro exemplo, talvez menos explorado, é o da indústria 
fonográfica. Com o fonógrafo de Thomas Edson (1877) e o 
aprimoramento das técnicas de fabricação de discos, come­
çam a ser formadas companhias como \u201cGramophone Co\u201d 
(Reino Unido, 1898), \u201cDeutsche Gramophon\u201d (Alemanha, 
1898), \u201cPathé Frères\u201d (França, 1897), \u201cVictor Talking Machine 
Co\u201d (Estados Unidos, 1901). O que caracteriza essas empre­
sas é sua política mundial de atuação. Como observam al­
guns estudiosos: \u201cAs grandes companhias, desde o principio, 
estabeleceram seus objetivos internacionais. Foram construí­
das fábricas nos mercados mais importantes, e através das 
agências subsidiárias, as companhias cobriam praticamente o 
mundo todo. Em 1910, existiam poucos países nos quais a 
indústria fonográfica não tivesse ainda se implantado\u201d.26 A 
\u201cGramophone Co\u201d possuía interesses na Escandinávia, Aus­
trália, África do Sul, Egito. A \u201cGerman Lindström\u201d tinha fábri­
cas na França, Espanha, Itália, Rússia, Argentina, Brasil, e a
26 P Gronow, T h e record industry: growth o f a mass medium\u201d in Popular 
Music 3 producers and markets, Cambridge, Cambridge University Press, 1983.
\u201cPatlié\u201d na Bélgica, império Austro-Húngaro, Estados Unidos. 
Também a indústria da publicidade adquire desde cedo uma 
feição transnacional. J. W. Thompson, ainda na década de 
20, abre escritórios em Londres, Berlim, Antuérpia, Sydney, 
Bombaim, Buenos Aires, São Paulo, Johannesburgo.27 Comer­
cializando alguns produtos americanos, ela familiariza o público 
com as marcas Pond\u2019s, Kraft, Kodak, Lux. Esta expansão das 
agências de publicidade se faz em estreita cooperação com a 
indústria automobilística. Os Estados Unidos encontram-se 
na liderança da produção mundial de automóveis, e buscam 
vender seus carros no mercado externo. Para isso Ford e Ge­
neral Motors possuem estratégias internacionais. A publicida­
de é crucial para suas ambições mercadológicas. Empresas 
como N. W. Ayer & Son, ao se responsabilizarem pela conta 
da Ford, vêm-se compelidas
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais