ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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a abrir filiais na Europa e na 
América Latina, e J. W. Thompson, ao associar-se à General 
Motors, integra-se imediatamente à sua estratégia overseas.
Não se deve imaginar que as indústrias fonográfica e 
publicitária estejam consolidadas globalmente nesse período. O 
mercado era ainda reduzido para se pensar em \u201cmarketing 
global\u201d, e a tecnologia para gravação e prensagem dos dis­
cos era rara fora dos países mais industrializados.28 Importa, 
porém, ressaltar que está sendo construído um circuito de 
trocas culturais com dimensões mundiais. Circuito que irá se 
expandir e se fortalecer com o rádio e a televisão. No início, 
esses equipamentos se concentram sobretudo nos países do 
\u201cPrimeiro Mundo\u201d, mas aos poucos sua presença toma-se 
relevante nas localidades mais distantes. Pode-se sempre 
ressaltar as disparidades existentes entre as sociedades
27 Um estudo histórico interessante sobre a expansão da publicidade am e­
ricana é o de J L. Merron, \u201cAmerican culture goes abroad: J. W. Thom pson an( 
the General Motors export Account, 1927-1933\u201d, Tese de doutorado, The Uni­
versity of North Carolina at Chapel Hill, 1991.
28. Pode-se ter uma idéia deste m ercado quando se sabe o núm ero de dis­
cos vendidos em alguns países em 1929. Finlandia, Noruega, Irlanda (1 milhão), 
Suécia (3 milhões), Alemanha (30 milhões), França (20 milhões). Números relati­
vamente importantes, mas em nada comparáveis ao consum o atual.
\u201cdesenvolvidas\u201d e \u201csubdesenvolvidas\u201d. Mas nào se pode dei­
xar de entender que também no chamado \u201cTerceiro Mundo\u201d 
os meios de comunicação têm um crescimento extraordi­
nário. Em I960 existiam na América Latina 22 milhões de 
aparelhos de rádio e 3,5 milhões de receptores de televisão. 
Em 1989 esses números subiram para 149 milhões e 69 mi­
lhões, respectivamente. O mesmo ocorre numa região como 
a da Ásia/Pacífico (excluindo Japão e Ásia do Sul); entre 
I960 e 1985, o número de aparelhos de rádio sobe de 4,3 
para 244,5 milhões, e os televisores passam de 110 mil para 
61,9 milhões.29 Em algumas partes do planeta, o crescimento 
dos equipamentos de comunicação é notável. Em 1970, a Ásia 
era responsável por 10% dos receptores de rádio e 13,4% dos 
televisores mundiais. Em 1989 sua participação é respectiva­
mente de 27,8% (contra 28,5% da América do Norte, 28,3% 
da Europa) e 22,6% (contra 27,2% da América do Norte, 
36,4% da Europa).30 Uma distribuição que redimensiona o 
quadro anterior.
De qualquer maneira, para a linha de meu raciocínio, 
não são tanto as desigualdades entre países ricos e pobres 
que gostaria de reter no momento.31 Os exemplos do cinema, 
da publicidade, da indústria fonográfica, da televisão e do rá­
dio são significativos na medida em que indicam a existência 
de uma malha imprescindível para a mobilidade cultural. A 
circulação, princípio estruturante da modernidade, se realiza 
no seu interior. Como as antigas estradas de ferro, a materia­
lidade dos meios de comunicação permite interligar as partes 
desta totalidade em expansão.
É importante compreender que instâncias comunicativas 
atuam simultaneamente nos níveis nacional e internacional.
29 Consultar R. Stevenson, Radio and television growth in the third world: 
1S>60-19S5, Gazette, vol. 38, 1986.
30. Dados in Statistical Yearbook, Paris, Unesco, 1991.
31 Para se ter uma idéia clara das disparidades entre os países, no que se
refere às tecnologias e meios de com unicação, consultar Informe sobre la
comunicación en el Mundo, Paris, Unesco, 1990.
No Brasil, a emergência de um sistema de telecomunicação 
(meados dos anos 60) favorece a integração do mercado e da 
consciência nacional, as imagens televisivas, pela primeira 
vez, podem ser veiculadas em todo o país.32 Até então, devi­
do a deficiências técnicas e econômicas, a televisão possuía 
um caráter regional, cobrindo uma parte minoritária do terri­
tório. As telenovelas, produtos de expressão local, irão assim 
transformar-se em símbolos nacionais, levando ao público 
uma auto-imagem moldada pelas grandes redes televisivas. 
Também na índia, país de imensa diversidade cultural, a in­
dústria fonográfica e cinematográfica, ao veicular produtos 
para uma audiência de \u201cmassa\u201d, contribui para a integração 
nacional. Peter Manuel observa que apesar da variedade de 
tipos de música indiana existe uma relativa homogeneidade, 
um denominador comum, para a música popular. \u201cO cinema 
indiano e os filmes musicais têm principalmente uma audiên­
cia nas cidades, onde se disseminam mais facilmente. Vários 
citadinos são migrantes da zona rural, mas suas consciências 
étnicas, regionais, tendem a ser diluídas quando, em contato 
com a sociedade urbana, se aclimatam a nova \u2018Grande Tradi­
ção\u2019 da cultura popular. Na índia, como em vários países em 
desenvolvimento, a música popular tornou-se uma expres­
são importante, e o veículo de uma identidade urbana pan- 
étnica.\u201d33 O caso dos Estados Unidos é interessante. Não é 
apenas Hollywood que funciona como cimento social na 
unificação da consciência nacional. As histórias em quadri­
nhos desempenham um papel análogo. No início, publi­
cadas pelos jornais de grande tiragem, elas compõem uma 
espécie de idioma nacional.34 Um autor como Max Lemer irá 
caracterizá-las da seguinte maneira: \u201cOs heróis do Oeste e das 
novelas baratas foram substituídos pelos personagens dra-
32. Ver A. Costa, alii, Um país tio ar, S. Paulo, Brasiliense/Funarte, 1986.
33 P Manuel, \u201cPopular music in India: 1901-1986\u201d, Popular Music, vol. 10, 
n9 2, May 1988.
34. Consultar D. M. White e R. Abel, The funnies: an american idiom, N. 
York, The Free Press o f G lencoe, 1963.
máticos das historias em quadrinhos; Paul Bunyan e John 
Henry, que exprimiam a imagem de um Hércules das frontei­
ras, sào hoje Super-Homem e Dick Tracy; os heróis da flores­
ta, numa versão burlesca, transformaram-se em L\u2019il Abner; as 
fábulas de animais de Tar Baby e Br\u2019er Rabbit tomaram-se 
Pogo e seus companheiros; os contos dos sapos encantados 
são transformados na moderna lenda de modelo T, de Henry 
Ford\u201d.35 Os personagens míticos do passado são remanejados 
no contexto da \u201csojidariedade\u201d nacional norte-americana.
Este processo é real, mas não deve nos iludir. Os meios 
de comunicação contêm uma dimensão que transcende suas 
territorialidades. O circuito técnico sobre o qual se apoiam as 
mensagens é também responsável por um tipo de civilização 
que se mundializa. Filmes, anúncios publicitários, música po­
pular e séries televisivas são formas de expressão que circu­
lam no seu interior, independentemente de suas origens. 
Neste sentido, McLuhan tem razão quando afirma que \u201co meio é 
a mensagem\u201d.36 Não me refiro tanto à idéia de ser a técnica o 
elemento determinante das relações sociais (discutirei poste­
riormente esta concepção reducionista). Interessa-me na afir­
mação de McLuhan a idéia que o meio possui uma autono­
mia em relação à mensagem. Conteúdos diversos, conflitivos, 
contraditórios podem por eles ser veiculados. A rigor, a dis­
cussão sobre os meios de comunicação pode ser lida dentro 
desta perspectiva. De uma certa forma, a teoria da informa­
ção elaborada na década de 40 é uma tradução, no plano da 
consciência científica, deste processo mais amplo. Este é o 
momento em que Wiener imagina a sociedade como sendo 
algo análogo a um sistema de comunicação.37 A ação de cada 
indivíduo encerraria assim uma quantidade de informação a 
ser decodificada pelos outros. Como habitamos um mundo
35 M. Lerner, America as a civilization, N. York, Simon and Schuster, 1957, 
p 804.
36. M McLuhan, Understanding media, the extensions of man, N. York, 
McGraw Hill Book Company, 1964.
37 N Wiener, Cibernética e sociedade, S. Paulo, Cultrix, s. d. p.
complexo, teríamos cada vez mais necessidade delas. \u201cViver 
eficazmente é viver com a informação adequada\u201d, nos diz 
Wiener. Por isso a noção
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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