ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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de regulação é essencial para o au­
tor, ela pilota a inteligibilidade do fluxo comunicativo. A pro­
posta cibernética entende a informação como uma lingua­
gem abstrata, sem conteúdo específico. Não apenas os homens 
podem se comunicar entre si, mas também as máquinas. Há 
uma separação entre forma e conteúdo. Uma informação 
pode ser reduzida a um conjunto de sinais sem nenhuma sig­
nificação. Processadatecnicamente ela será codificada nume­
ricamente, e transmitida de um local para outro. Eu diria que 
os meios favorecem o \u201cdesencaixe\u201d. Seu circuito desterrito- 
rializado constitui o suporte material de uma comunicação- 
mundo (para utilizar uma expressão de Mattelard)38 transcen­
dendo as particularidades locais ou nacionais.
A reflexão sobre os meios focaliza a relevância da tecnologia 
nas sociedades contemporâneas. Na verdade, como sublinham 
diversos autores, seu papel é fundamental na organização da 
sociedade pós-industrial39 A articulação entre ciência e tecnologia 
implica transformações profundas do setor produtivo, criando 
novas classes sociais e padrões de racionalidade. Não pretendo, 
porém, retomar este debate. Para dar seqüência a meu raciocínio 
quero reter da literatura disponível a idéia de que as novas 
tecnologias incidem diretamente sobre as noções de tempo e 
de espaço, estimulando a integração e a sincronia. Nesse sentido 
elas não são apenas uma técnica para se obter um produto, ou 
atingir um objetivo qualquer, mas um \u201cprocesso-orientado\u201d 
que afeta diferentes esferas de atividades.40 Um exemplo bas­
tante conhecido dos sociólogos do trabalho é o da automação.41
38. A. Mattelard, La communication-monde, Paris, La D écouverte, 1992.
39. A. Touraine, La sociétépost-industrielle, Paris, D enoel, 1969; D. Bell, The 
coming of post-industrial society. N. York, Basic Books, 1976.
40. M. Castels (org ), High technology, economic restructuring in the urban- 
regional process in the United States, Beverly Hills, Sage Publication, 1985.
41. Ver R Kaplinsky, Automation: the technology and society, London, 
Longman, 1984. Consultar também H. Rattner, Impactos sociais da automação: o 
caso do Japão, S. Paulo, Nobel, 1988.
Desde a Revolução Industrial, existe uma preocupação dos em­
presários em relação à racionalização da produtividade. A efi­
cácia do trabalho fabril está diretamente vinculada ao lucro. 
Para isso, diferentes procedimentos foram utilizados: discipli- 
narização do trabalho, taylorização das tarefas, burocratização 
da gerência e da administração. No entanto, diversos setores 
desta cadeia permaneciam ainda separados. As esferas de pro­
jeto (desenho e concepção dos produtos), fabricação (produ­
ção em série) e coordenação (gerência) existiam enquanto 
unidades autônomas. De uma certa forma, a história do setor 
produtivo pode ser vista como uma especialização de cada 
um desses domínios. A taylorização se realiza sobretudo no 
setor da fabricação dos produtos, ela privilegia as tarefas 
repetitivas, exigindo uma mão-de-obra com pouca formação 
intelectual. A gerência deve contar com trabalhadores especia­
lizados - engenheiros, contadores, técnicos em administração, 
implicando operação de vendas e de marketing. A automação 
irá reverter este quadro. Com o uso de computadores, combi­
nados com máquinas-ferramentas de controle numérico, ro­
bôs, veículos sem condutores, almoxarifados automatizados, 
banco de dados, o processo de trabalho é organizado dentro 
de um sistema integrado. As chamadas novas tecnologias são 
mais \u201cflexíveis\u201d, tendo a capacidade de combinar serviços que 
se encontravam separados. Baseadas na transmissão de infor­
mação, elas permitem um concatenamento das partes, sincro­
nizando as ações, antes dispersas.
As inovações tecnológicas têm evidentemente uma in­
fluência capital na mundialização da cultura, formando a 
infra-estrutura material para que ela se consolide. Computa-j 
dor, fax, satélites possibilitam a comunicação a distância, fa- . 
vorecendo o desenvolvimento das cadeias televisivas plane- i 
tárias e das firmas globais. Se no século XIX, e ainda no 
início do XX, existiam dificuldades técnicas em relação à co­
municação, hoje, cada vez mais, elas são irrelevantes. O pla­
neta é uma rede informacional cujas partes encontram-se in-
terligadas.* Ocorre inclusive uma tendência à unificação do 
sistema técnico existente, contribuindo para a integração 
mundial. Até há algum tempo, os diferentes ramos da indús­
tria cultural, do ponto de vista tecnológico, evoluíam de ma­
neira independente. Cada um deles possuía sua especifici­
dade e um meio técnico correspondente. Filmes, programas 
de televisão, música, conversas telefônicas não se mistura­
vam. Com o advento da telemática, os meios de comunica­
ção se articulam a um único fluxo. O que pensadores como 
Wiener imaginavam no plano teórico, com o avanço tecno­
lógico torna-se realidade. Com a microeletrônica, a codifica­
ção e a transmissão das mensagens adquirem um caráter de 
trãnsversalidade.42 Som, imagem e texto são convertidos em 
bits e reconvertidos em seus respectivos conteúdos quando 
chegam a seus destinos. Atividades paralelas tornam-se co­
nexas. A televisão já não está simplesmente conectada aos 
diversos canais (grandes redes, TV a cabo, parabólica) mas a 
tela faz o papel de visor, integrando os cassetes, os jogos ele­
trônicos e o computador. A tecnologia de ponta confere um 
substrato material à modemidade-mundo, articulando suas 
partes constituintes. Um evento remoto tom a-se próximo, e 
o que nos rodeia pode estar afastado.
No entanto, apesar da preponderância tecnológica na 
vida moderna, é necessário não se envolver pelo clima de 
euforia que predomina na literatura sobre os meios de co­
municação. E freqüente encontrarmos afirmações do gênero: 
\u201co mundo de amanhã será feito de satélites e de cabos\u201d, \u201ca 
era da informática nos oferece ocasiões fabulosas\u201d, \u201ca eletrô­
nica mudará inteiramente o homem do futuro\u201d. 13 Raciocínio
* Entre 1980 e 1991 foram lançados 152 satélites, dos quais 28 com alcance 
mundial, 15, regional, 109, nacional. Dados da Unesco.
42. P. Breton, História da informática, S. Paulo, Unesp, 1991.
43. Ver, por exem plo, W Shaw cross, Le tillage planétaire, Paris, Stock, 
1993 Este otimism o se exprim e tam bém em publicações para o grande público, 
do tipo: \u201clnfo-Révolut»on, usages des technologies de l\u2019inform ation\u201d, Autrement, 
n9 113, mars 1990. Um texto crítico desta perspectiva é o de F. W ebster e K. 
Robin, \u201cPlan and Control: towards a cultural history o f the inform ation society\u201d, 
Theory and Society, vol. 18, nQ 3, 1989.
simplista, sempre acompanhado de dados objetivos para 
corroborá-lo: \u201cos cabos coaxais carregavam antes 24 canais 
telefônicos, hoje, 8 mil. Com as fibras óticas pode-se chegar a 
500 mil conversas telefônicas!\u201d. O enunciado é verdadeiro, 
mas a atitude diante dele nào difere da do homem do século 
XIX, quando afluía às exposições universais, extasiando-se 
com as maravilhas dos inventores: fonógrafo, elevador, estei­
ra rolante, automóvel. Ou da multidão, ainda no século XX, 
aclamando os pilotos que cruzavam o Atlântico como se fos­
sem heróis mitológicos (vôo de Lindberg, Nova York-Paris). 
Antes de se banalizar, as conquistas tecnológicas estimulam a 
imaginação sugerindo idéias fantásticas sobre os homens e a 
sociedade. Elas têm algo de mágico - Mauss dizia que a ma­
gia era técnica - , de sobrenatural. Isso induz uma interpreta­
ção determinista da história, atribuindo-se à tecnologia uma 
capacidade sensacional. Diz-se assim que a imprensa de 
Guttemberg \u201ccria\u201d o indivíduo, que a televisão \u201cgera\u201d uma 
sensibilidade mosaica, o videoclipe \u201cmolda\u201d uma consciência 
fragmentada. O debate encontra-se profundamente compro­
metido com tais incompreensões. Como se a tecnologia car­
regasse em si mesma uma ontologia do Ser social. A socieda­
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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