ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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de seria apenas sua extensão.
A relação entre técnica e civilização deve ser pensada em 
outros termos. Lewis Munford já nos ensinava que a cada 
formação social específica correspondia um grau de desen­
volvimento técnico. Com base nesta idéia ele divide a histó­
ria da tecnologia em três grandes períodos. A fase eotécnica 
(1000-1750) se caracterizaria por um sincretismo técnico, 
acumulando as descobertas provenientes das mais diversas 
culturas (roda hidráulica, usada pelos egípcios; moinho de 
água, conhecido dos romanos; moinho de vento, prove­
niente da Pérsia; papel, bússola e pólvora, originários da Chi­
na) e pela utilização da energia natural - água, vento, tração 
animal. A debilidade desta fase residiria na impossibilidade 
de se produzir energia com regularidade. O homem enge­
nhosamente empregava os recursos imediatamente disponí-
veis na natureza. Uma segunda etapa da progressão, Mun- 
ford denomina de paleotécnica, e coincide com a Revolução 
Industrial. A ela segue-se uma terceira, neotécnica, que 
emerge no final do século XIX com a descoberta de formas 
desconhecidas de energia. Sinteticamente a história pode ser 
descrita nos seguintes termos: \u201ca fase eotécnica é um com­
plexo de água e madeira; a paleotécnica, um complexo de 
carvão e de ferro; a neotécnica, um complexo de eletricidade 
e de ligas de metal\u201d.44
Entretanto, se existe uma correspondência entre técnica e 
civilização, ela não se resume a uma relação de causalidade. 
Lewis dirá: \u201cda mina saiu a bomba de vapor, logo a máquina 
de vapor e em seguida a locomotiva a vapor e depois o bar­
co a vapor\u201d.45 Isto é, a mina, enquanto unidade de produção, 
articula os níveis técnico e econômico. A sociedade industrial 
não é produto imediato da \u201cferramenta\u201d vapor, embora esta 
venha a constituir o substrato material de sua cultura. O con­
ceito de \u201csistema técnico\u201d, proposto por Bertrand Gille, nos 
ajuda a trabalhar melhor a relação entre as culturas e os ní­
veis técnicos.46 Ele considera que todas as técnicas, em graus 
diversos, são dependentes umas das outras; existe entre elas 
uma relação de coerência, e o conjunto dessas coerências 
encontra-se articulado numa mesma estrutura. Em princípio, 
um sistema técnico só se torna viável quando obtém um cer­
to equilíbrio. A partir de um determinado limite estrutural, 
ele não consegue mais se expandir. Os limites tecnológicos 
podem bloquear todo o sistema, criando desequilíbrios e cri­
ses. Nesse caso, a sociedade industrial, que se fundamentava 
em formas energéticas como o vapor e o gás natural, e em 
materiais como o ferro, entra em crise, não conseguindo mais 
se projetar para além de sua base estrutural. As transforma­
ções que ocorrem, com a descoberta de outras formas de 
energia (eletricidade, petróleo), com a produção de energia
44. L Munford, Técnicay cunlisación, Madri, Alianza Ed., 1987, p. 129.
45. Ibid, p. 178.
46. B. Gille, Histoire des techniques, Paris, Gallimard, 1978.
(novos conversores: turbinas hidráulicas, motor de explo­
são), com o advento de materiais como o aço e as ligas de 
metais, implicam uma mutação técnica integral. O final do 
século XIX vê assim surgir um sistema técnico que substitui o 
anterior.
O argumento se aplica igualmente às transformações re­
centes. A microeletrônica, a engenharia genética e a energia 
nuclear constituem o conjunto tecnocientífico da sociedade 
\u201cpós-industrial\u201d. Não é por acaso que os sociólogos irão 
vinculá-las ao surgimento de um outro padrão societário. A 
recorrência na utilização do prefixo \u201cpós\u201d revela a tentativa 
de se compreender esta nova configuração social. Diversos 
autores têm procurado caracterizar o quadro das sociedades 
atuais como uma passagem de um \u201ccapitalismo organizado\u201d 
para um \u201ccapitalismo desorganizado\u201d, ou do \u201cfordismo\u201d para 
um \u201ccapitalismo flexível\u201d.47 Independentem ente de como as 
mudanças são apreendidas, essas interpretações sublinham a 
importância das tecnologias de ponta no processo de organi­
zação da produção fabril. São elas que permitem uma \u201cop­
ção global\u201d pelas empresas multinacionais, facilitando o 
surgimento das unidades dispersas pelo planeta. Por isso al­
guns estudiosos dirão que nos encontramos diante de um 
\u201cnovo modo de industrialização\u201d, substancialmente distinto 
daquele fundamentado no vapor, aço, automóvel, petróleo.48
É, no entanto, inquietante perceber com o muitas vezes 
este processo é entendido de maneira oblíqua. Creio que 
neste ponto existe uma confluência entre as problemáticas 
da mundialização, da pós-modernidade e da tecnologia. Em 
todas elas temos uma valorização superlativa da ruptura. 
Charles Jenks é claro no seu diagnóstico: \u201cA idade moderna, 
que parecia durar para sempre, está rapidamente tornando-
47. Ver S. Lash e J. Urry, The end of organized capitalism, Madison, 
University o f Wisconsin Press, 1987; D. Harvey, The condition of postmodemity, 
Cambridge, Basil Blackwell, 1990.
48 J. Henderson, 'The globalisation of high technology production, London, 
Routledge, 1991
se uma coisa do passado\u201d/19 estaríamos assistindo hoje o iní­
cio de uma \u201cera pós-moderna\u201d. Tudo se passa como se os 
modernistas não tivessem captado como o mundo mudou. 
Transformações vitais da sociedade contemporânea teriam 
sido negligenciadas, deixadas de lado. Os pós-modemos 
procuram vincular sua proposta estética à emergência desta 
nova articulação social, desta \u201caldeia global\u201d, na qual o con­
sumo, o poder, a produção e as relações sociais se encontra­
riam cada vez mais descentralizados. O modernismo seria 
portanto uma visão ultrapassada, obsoleta, pretende-se supe­
rá-lo por algo mais integrado aos novos tempos. O mesmo 
pensamento, a mesma insistência, se exprime em outros con­
textos. Um autor como Alvin Toffler não hesita em dizer: 
\u201c[Vivemos] na aurora de uma nova era do Poder, momento 
no qual toda sua estrutura, que mantinha o mundo coeso, 
está se desintegrando. Uma estrutura de poder radicalmente 
diferente está emergindo. Isso ocorre em todos os níveis da 
sociedade\u201d.50 Já alguns participantes do Clube de Roma con­
cluem: \u201cEstamos convencidos de que nos encontramos nas 
primeiras fases de um novo tipo de sociedade mundial, que 
será tão diferente da atual, do que o mundo anunciado pela 
Revolução Industrial em relação à sociedade agrária que o 
antecedeu. A força motriz dessa transformação, embora não 
seja a única, foi o surgimento de um conjunto de tecnologias 
avançadas da microeletrôncia e dos novos descobrimentos 
da biologia molecular\u201d.51 A sociedade informática instituiria 
assim um corte profundo com o passado.
Por mais imprecisas que sejam, tais observações pos­
suem pelo menos um mérito: reconhecer a especificidade da 
etapa que atravessamos. Sem esta consciência da mudança 
facilmente caímos numa certa tentação conservadora. E pre-
49 C. Jenks, What is post-modernism, London, Academ y Editions, 1986,
P 7.
50 A Toffler, Power shift, op. cit., p. 3.
51. A. King, B. Schneider, La primera revolución mundial, op. cit. p., 17.
ciso, no entanto, reorientá-ias. A noção de sistema técnico já 
nos ensinava que toda expansão implica continuidade e su­
peração. A substituição do momento anterior preserva, no 
seio da nova configuração, um conjunto de elementos, dan­
do-lhes agora a possibilidade de radicalizarem sua expressão. 
Abre-se assim a possibilidade de se expandir o potencial da 
modernidade herdada do século XIX. O aparato tecnológico 
não é \u201ccausa\u2019 da mudança social, mas fonte potencializadora. 
Na verdade, o movimento da modernidade é aprofundado 
pelas técnicas informatizadas.
Existe um caminhar da modernidade-mundo. A Sociolo­
gia nos ensina sobre seus contornos recentes, sua originali­
dade, a História corrige nosso olhar, desvendando os traços 
de continuidade que persistem no seu interior. Creio que 
Norbert Elias tem razão quando reflete sobre a mudança
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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