ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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\u201cA difusão é processo pelo qual os elementos 
ou sistemas de cultura se espalham. Obviamente ela está liga­
da â tradição, na medida em que a culaira material passa de um 
grupo para outro. Porém, como é usualmente entendida, a tradi­
ção se refere à transmissão de conteúdos culturais, de uma gera­
ção para outra (do mesmo grupo de população); a difusão, de 
uma população para outra. A tradição opera essencialmente 
em termos de tempo, a difusão em termos de espaço.\u201d4
O conceito pressupõe a existência de um centro difusor e 
um espaço comum partilhado pelas culturas que interagem 
entre si. Por isso o difusionismo se interessa tanto pela compara­
ção entre as áreas da civilização, e pela migração dos traços cul­
turais de uma área para outra. Isto fica claro quando abordamos 
os chamados fenômenos de aculturação. Nesse caso, supõe-se 
o contato de grupos provenientes de dois universos diferen­
tes, e como resultado, mudanças nos padrões culturais de 
um ou de outro grupo.5 Um exem plo, o exílio dos deuses 
africanos na América Latina, dando origem ao candomblé 
brasileiro, ao voudou haitiano, às santerías cubanas.6 Adiás-
4 A L. Kroeber, Diffusion ism, Encyclopaedia o f Social Sciences, N. York, 
Macmillan Co., 1963, vol. 5, p. 139.
5 Sobre o conceito de aculturação consultar M. Herskovits, R. Linton, R. 
Redfield, "A m em orandum for the stydy o f acculturation\u201d, American 
A nth ropologist, vol. XXXVI 11,1936.
6 Ver R Bastide, As Americas negras, S. Paulo, Difel, 1974.
pora africana se distribui no espaço, reproduzindo sua \u201cau­
tenticidade\u201d nos lugares longínquos. Na verdade, os estudos 
de aculturação privilegiam o movimento das populações - 
imigrantes na Europa, negros nos Estados Unidos, índios na 
cidade, etc. Como as culturas entram em contato por meio 
dos homens, a base referencial deve ser um agrupamento, 
uma coletividade de indivíduos que se desloca espacialmen­
te. O choque ou a assimilação cultural se faz sempre no seio 
de um território, a nação, a cidade, o bairro. Dentro deste 
quadro, o conceito de memória coletiva torna-se fundamen­
tal para a análise antropológica, pois sabemos que as trocas 
se fazem em detrimento do grupo que parte, para se implan­
tar, em condições adversas, em terras estranhas. Ora, Halb­
wachs já nos dizia que o ato mnemónico requer a partilha e a 
participação daqueles que solidariamente se comunicam uns 
com os outros.7 A lembrança é possível porque o grupo exis­
te, o esquecimento decorre de seu desmembramento. En­
tretanto, para ser vivificada, a memória necessita de uma re­
ferência territorial, ela se atualiza no espaço envolvente. 
Quando os negros africanos são trazidos para a América, a 
infra-estrutura material de suas sociedades desaparece. Eles 
devem, portanto, reconstruir suas crenças, no contexto do 
mundo escravocrata. Os mecanismos da memória coletiva 
lhes permite recuperar as lembranças do esquecimento. Mas 
para isso é preciso que os grupos construam nichos no seio 
dos quais a lembrança possa sobreviver. Um novo território é 
redesenhado, no qual a identidade anterior é preservada.
Minha digressão sobre a difusão e a aculturação tem um 
objetivo: argumentar que o pensamento antropológico se 
fundamenta em duas premissas metodológicas: centralidade 
e oposição entre interno e externo. Mesmo quando falamos 
de sincretismo, fenômeno característico de mudança cultural, 
essas condições estão presentes. Basta retomarmos a defini­
ção de Bastide: \u201cO sincretismo consiste em unir os pedaços
7. M Halbwachs, La mémoire collective, Paris, PUF, 1968.
das histórias míticas de duas tradições diferentes em um todo 
que permanece ordenado por um mesmo sistema\u201d.8 Existe 
uma tradição dominante que ordena os \u201cpedaços das histó­
rias míticas\u201d segundo a pertinência de um único sistema sig­
nificativo, de uma memória coletiva. Fora dela, encontram-se 
os elementos da tradição subdominante, que lhe servem de 
matéria a ser sincretizada. O \u201csistema-partida\u201d ordena e co­
manda a escolha do que será absorvido. A divindade exu, ao 
viajar para a América, irá sofrer inúmeras modificações em 
seus atributos espirituais (sua ligação com os cultos divina­
tórios irá desaparecer devido ao declínio da organização sa­
cerdotal que se ocupava das tarefas de adivinhação). Porém, ao 
ser sincretizada com São Pedro, no Brasil e em Cuba, ela conser­
va o caráter de entidade mensageira, papel que possuía na cul­
tura iorubá, sendo capaz de abrir e fechar as portas de acesso 
entre o sagrado e o profano. Neste sentido o sincretismo en­
tre santos católicos e orixás africanos revela apenas a másca­
ra cristã. Seu verdadeiro rosto esconde a persistência da 
\u201cessencialidade\u201d africana. Portanto, a especificidade da ma­
triz cultural permanece enquanto diferença, cada uma delas 
atuando como filtro seletor do que é trocado. As culturas se­
riam assim definidas internamente, tendo a capacidade de 
reinterpretar os elementos estranhos, oriundos \u201cde fora\u201d.
Na medida em que me proponho a discutir a modemidade- 
mundo, pergunto: faz sentido retomar a idéia de centra- 
lidade? Sabendo que o processo de desterritorialização é 
imanente à modernidade, seria convincente estabelecer com 
tanta clareza esta oposição entre interno e externo? É possí­
vel imaginarmos hoje um mapa cultural da maneira como 
nos propunha Toynbee, ou a escola difusionista?
Para responder às perguntas procurarei encaminhar meu 
pensamento a partir de um caso concreto: a alimentação. 
Não se trata de uma escolha fortuita. O consumo de alimen-
8. R Bastide, Mémoire collective et sociologie du bricolage, L\u2019Année 
Soc :iologique, vol. 21, 1970, p. 101.
tos é governado por regras particulares, revelando a natureza 
dos agrupamentos sociais. A comida representa simbolica­
mente os modos dominantes de uma sociedade.9 É o caso de 
alguns grupos melanésios, nos quais o homem é obrigado a 
doar parte da colheita à sua irmã, enquanto sua esposa rece­
be uma parcela igual de seu irmão. As relações de parentes­
co se exprimem por meio das trocas alimentares. Ou das so­
ciedades estamentais, nas quais os membros de uma 
determinada casta são proibidos de comer na presença de 
pessoas de uma casta inferior. A alimentação revela e preser­
va os costumes, localizando-os em suas respectivas culturas. 
Ela traduz a estabilidade do grupo social. As velhas análises 
sobre a modernização dos países subdesenvolvidos (que es­
tiveram na moda nos anos 50 e 60), sublinhavam este aspec­
to, quando consideravam os hábitos alimentares como \u201cbar­
reiras culturais para a mudança\u201d, isto é, um obstáculo ao 
\u201cprogresso\u201d.
Mas não são apenas os antropólogos que se voltam para 
o estudo da alimentação. Também os historiadores se ocu­
pam do tema. Em 1936, Lucien Febvre, representante da Es­
cola dos Anais, propõe uma pesquisa sobre os ingredientes 
para cozinhar. Por que o interesse por tal assunto? Ele nos 
explica: \u201cA maneira de se preparar os alimentos, em par­
ticular a utilização das gorduras, é de uma relativa fixidez. A 
rigor, não sem dificuldades os homens aceitam alimentos no­
vos, quando consentem provar algum animal ou vegetal, até 
então desconhecidos de seus pratos. Mas esses pratos novos
*
se acomodam a seus hábitos. E raro quando não passam 
pelo mesmo tratamento dos pratos tradicionais. A técnica culi­
nária, que preferencialmente usa as gorduras, para cozinha 
trivial ou excepcional, parece de uma fixidade notável; em 
todos os lugares, ela possui a solidez dos hábitos que não
9 Ver Y. Cohen, \u201cFood: consumption patterns\u201d in International Encyclo­
paedia of Social Sciences, N. York, Macmillan Co, 1972.
são nunca questionados \u201d. 10 A fixidez dos modos de cozinhar 
revela a permanência da tradição. Febvre raciocina como os 
antropólogos culturalistas. A inovaçao, isto e. os pratos que 
vêm \u201cde fora\u201d, se adaptam ao paladar local, sendo "sincrc- 
tizados\u201d
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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