ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.322 materiais14.630 seguidores
Pré-visualização50 páginas
segundo as regras culinárias vigentes O peso dos 
costumes os enraiza à terra. Daí a oportunidade em carto­
grafá-los. Considerando-se os três principais tipos de materia 
gordurosa para se cozinhar - banha, manteiga e azeite - , é 
possível então localizá-los dentro do território trances. O 
azeite situa-se sobretudo no litoral mediterrâneo e na região 
da Provence. A manteiga, praticamente desconhecida na 
maior parte da França, restringe-se à Bretanha e ao vale do 
Loire. Já a banha constitui a base principal da cozinha rural 
francesa, ela se estende por várias regiões do país, de norte a 
sul, de leste a oeste. Restaria ainda precisar algumas subespe- 
cializaçòes. A gordura de ganso, limitada à Alsácia e a alguns 
departamentos do Midi; o óleo de nozes, confinado a lugares 
como Cantai, Puy-du-Dôme, Jura. Como entender o predo­
mínio de certas matérias gordurosas em determinadas re­
giões? Febvre sugere ao pesquisador: \u201cEis o caso da mantei­
ga. Onde procurar o seu centro de propagação na França? O 
uso se difundiu do oeste para o leste, da Bretanha para a 
Touraine, depois para os Alpes? Teria ele se espalhado a par­
tir de um centro, da Touraine, por exemplo, para o leste e 
para o oeste? \u201d . 11 Suas dúvidas estão próximas a dos difusio- 
nistas, que a todo custo buscam pela inteligibilidade da pro­
pagação dos costumes.
Alguns autores tentaram aplicar a proposta de Febvre a 
um objeto mais complexo. Michel Cepède e Maurice Lan­
gelle tinham a intenção de traçar um mapa alimentar do
10. L. Febvre, \u201cPour la première enquête d\u2019alimentation de 1936, Annales, 
Economies, Société, Civilisations, ne 4, juillet-aoüt 1961, p. 749. Sobre o mesmo 
tema consultar, J. J. Hémardinguer, \u201cLes graisses de cuisine en France, essais de 
cartes\u201d in J. J. Hémardinguer (org.), Pour une bistoire de l alimentation, Paris, 
Colin, 1970.
11. L. Febvre, op. cit. pp. 754-755.
mundo.12 Eles elaboraram uma geografia qualitativa dos ali­
mentos, dividindo as áreas mundiais segundo o consumo de 
óleo, banha e manteiga. Cada zona definiria assim um tipo 
de \u201ccivilização\u201d. O mesmo raciocínio se aplica ao consumo 
de carne, leite, cereais, tubérculos, raízes, etc. O globo pode 
ser então cartografado como sendo uma sucessão de territó­
rios no interior dos quais predominam determinados produ­
tos e hábitos alimentares. Japão (cereais e raízes); Escandi­
návia (leite e peixe); Itália (carne e matéria gordurosa fluida); 
Bálcãs (cereais). Existiriam ainda sub-regiões da carne, como 
na Argentina e no Uruguai.
História, Antropologia e Geografia convergem na afirma­
ção da territorialidade das culturas. Da mesma forma que os 
orixás preservam suas qualidades de origem, os hábitos ali­
mentares se moldam no espaço. No entanto, a modernidade 
é o contrário da fixidez. Ela é mobilidade. O princípio da cir­
culação, que se realiza nas reformas urbanas (Paris de Hauss- 
mann, Viena de Camilo Sitte), nos meios de transporte (trens, 
automóveis, aviões), na moda (a fugacidade dos modelos), 
penetra também nossos hábitos recônditos. A alimentação 
deixa de ser um universo ao abrigo da fragmentação e da ra­
pidez do mundo moderno. O advento das técnicas de con­
servação, o barateamento do transporte, a invenção da comi­
da industrial transformam radicalmente este quadro. Por isso 
alguns estudiosos começam a falar de internacionalização 
dos comportamentos alimentares. \u201cTudo se passa como se 
os hábitos alimentares, regionais ou nacionais, caracterizados 
por um número limitado de produtos, e uma certa monoto­
nia, recorrente nas preparações culinárias, explodissem os 
meios técnicos - conservação, transportes, distribuição dos 
produtos - e o nível de renda, permitindo a expansão do 
consumo a uma gama de produtos não tradicionais.\u201d13 Na
12. M. Cepède, M Langelle, Economie alimentaire du globe, Paris, Libr. 
Mediei^ 1953
131 M. Guerry de Beauregard, "Vers une internationalisation des com - 
portemeWs ^límentaires^\u2019 Annales de Géographie, n° 493, mai-juin 1980, p. 301.
verdade, durante o século XX, dois movimentos acentuam o 
processo de mundialização. Primeiro, a diversificação dos 
produtos. Uma região já não se define apenas pela presença 
de um número limitado de alimentos cultivados ou fabrica­
dos em suas áreas. Segundo, a passagem da cozinha tradicio­
nal, com a preparação de pratos típicos, para uma cozinha 
industrial. Dentro desse contexto, a pergunta sobre a difusão 
(a manteiga teria se propagado da Bretanha para outras re­
giões da França?) ou sobre o enraizamento das receitas faz 
pouco sentido. Os alimentos descolam de suas territoriali­
dades para serem distribuídos em escala mundial. Não existe 
nenhuma \u201ccentralidade\u201d nas cervejas, chocolates, biscoitos, 
refrigerantes. Trata-se de produtos consumidos mundialmente e 
distribuídos por grupos multinacionais. Mercado de bebidas: 
Coca-Cola (Estados Unidos - 44,7% de vendas no exterior), 
Lonrho (Reino Unido - 34,8%), Segram (Canadá - 92,9%), 
Gruiness (Reino Unido - 51%), Molson (Canadá - 56%).H 
Mercado de chocolate, dominado por grandes companhias 
como Mars Incorporation (EUA), Hershey Foods Corpo­
ration (EUA), Rowntree-Mackintosh (Reino Unido), Nestlé 
(Suíça), Cadbury-Sweppes (Reino Unido), Jacobs-Suchard 
(Suíça). Mercado de biscoitos, cuja concentração mundial, 50%, 
encontra-se nas mãos de quatro grandes empresas: Nabisco, 
United Biscuits, Générale Biscuit, Bahlsen.15 Produtos que se en­
contram em exposição nas prateleiras dos supermercados, sen­
do ainda veiculados pelas cadeias de hotéis e de restaurantes 
internacionais. Na Inglaterra, United Biscuits está associado à 
Whimpy e Pizzaland, Grand Metropolitan à Crest Hotels; nos 
Estados Unidos, Pepsico promove Kentucky Fried Chicken, 
Pizza Hut, Taco Bell, e Campbell Soup se ocupa de Petro\u2019s
14. Consultar F. Clairm onte, J . Cavanagh, Alcool et les pouvoir des trans- 
nationales, Lausanne, Favre, 1986.
15. F. Savary, \u201cUne Strategie d \u2019im plantation des firmes m ultinationales: le 
cas de la biscuiterie, de la chocolaterie, de la brasserie\u201d, tese de doutoram ento,
Jniversité Paris II, 1986, da mesma autora, Les multinationales du chocolat, Pa­
ris, Centre Français du Com m erce Exterieur, 1986.
Pizza. Na França, Socopa se vincula à Freetime (companhia 
francesa apesar do nome), e na Suíça, Nestlé se agrupa à ca­
deia norte-americana Stouffer Hotels.16
Rompe-se assim a relação entre lugar e alimento. A comi­
da industrial não possui nenhum vínculo territorial. Não que­
ro sugerir que os pratos tradicionais tendam com isso a desa­
parecer. Muitos deles serão inclusive integrados à cozinha 
industrial. Mas perdem sua singularidade. Existiria alguma 
\u201citalianidade\u201d nas pizzas Hut, ou \u201cmexicanidade\u201d nos tacos 
Bell? Os pratos chineses, vendidos congelados nos super­
mercados, têm algum sabor do império celestial? O exemplo 
de McDonald\u2019s é a meu ver heurístico. Ele permite com­
preender melhor o tema da deslocalização. Uma forma de 
analisá-lo é sublinhar sua \u201cessência\u201d norte-americana. Esta 
maneira de pensar faz parte de todo um senso comum, e su­
põe uma idéia partilhada por muitos: a \u201camericanização\u201d do 
mundo. Os dados empíricos tendem a confirmar esta impres­
são apressada. De fato, McDonald\u2019s tem uma presença 
insofismável, oferecendo seus préstimos na Europa, Ásia e 
América Latina. Sua \u201cmarca\u201d abraça as cidades de Paris, Nova 
York, São Paulo, Moscou e Tóquio. Entretanto, sua história 
nos sugere uma outra leitura. Afinal o que significa realmen­
te este fenômeno?
Em 1940, os irmãos McDonald abrem um drive in em São 
Bernardino, ao lado de Los Angeles.17 Esse tipo de restauran­
te floresce na Califórnia, incentivado pela abertura das rodo­
vias e pela expansão da indústria automobilística. Reserva-se 
assim um lugar relativamente tranqüilo para os motoristas e 
seus acompanhantes, onde, sem deixar seus automóveis, se­
jam atendidos
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais