ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.321 materiais14.626 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais), 
Caxambu, MG, outubro 1992
Esclareço ainda um último aspecto. Este livro trata da 
temática cultural no contexto da sociedade global. Evidente­
mente, ao elaborá-lo, fui obrigado a considerar diversos ele­
mentos, economia e política. Sem eles, dificilmente eu pode­
ria montar o cenário no qual minha açào se desenrola. Tentei 
porém restringi-lo a uma dimensão da vida social. Talvez 
uma das vantagens de se falar em cultura é que conseguimos 
tocar em múltiplas dimensões da vida social. No entanto, 
apesar disso, o tema em si é por demasiado extenso. Fui, portan­
to, obrigado a restringi-lo. Alguns motivos encontram-se por trás 
desta opção metodológica. Primeiro, recortar de maneira coe­
rente um objeto de estudo. O mundo é vasto, e falar de cultura 
no sentido genérico seria perder-me no seu emaranhado. Se­
gundo, demarcá-lo de maneira clara, o que fiz privilegiando os 
aspectos referentes à sociedade de consumo (sobretudo nos ca­
pítulos IV, V e VI). Não foi uma escolha arbitrária, Estou con- 
vencido de que, no processo de globalização, a culturare 
consumo desfruta de uma posição de destaque. Na minha 
opinião, ela se transformou numa das principais instâncias 
mundiais de definição da legitimidade dos comportamentos 
e dos valores. Refletir sobre sua manifestação é tocar num 
dos eixos centrais das sociedades globalizadas. O mundo dos 
objetos (para utilizar uma expressão de Baudrillard) se mani­
festa assim como uma expressão da contemporaneidade.
* * *
Este trabalho é fruto de leituras e de discussões que pude 
realizar com diferentes colegas. Os debates foram feitos em 
ocasiões diversas, no Instituto de Estudos Avançados (USP), 
no CEDEC, e no Departamento de Geografia (USP). Eles en­
volveram interlocutores distintos - Octávio lanni, Milton San­
tos, Gabriel Cohn, José Mário Ortiz Ramos, Maria Lúcia Bueno 
Coelho de Paula, Maria Adélia de Souza, Lucrécia D \u2019Aléssio 
Ferrara - com os quais pude, a cada vez, apurar minhas refle­
xões. As leituras ficaram ao sabor das bibliotecas, brasileiras
e estrangeiras. Menciono o acervo brasileiro, porque nos 
acostumamos a negligenciá-lo. Mas para quem se interessa 
por livros e revistas, nossas bibliotecas, apesar dos tropeços, 
sào um ponto importante de partida. Tive, entretanto, a 
oportunidade de completar meu trabalho com uma estada 
em Paris, junto à Maison des Sciences de 1\u2019Homme. Aí, pude 
consultar não apenas as fontes francesas e européias, mas 
boa parte do acervo americano, contido na American Library 
e na American University. Conjunto de textos que avançou 
em muito minha análise sobre a atualidade.
Por fim, os agradecimentos. E friso, não os faço ritual­
mente. Ao CNPq, cuja pequena bolsa de pesquisa ainda per­
mite a alguns universitários escapar do que eufemisticamente 
denominamos de \u201cmercado de trabalho\u201d. A Fapesp, cuja bol­
sa de pós-doutoramento foi crucial para os meus estudos. Ao 
Centre de Recherche sur le Brésil Contemporain que, como 
das outras vezes, gentilmente recebeu-me no \u201cexterior\u201d (con­
ceito cada vez mais insatisfatório para descrever nossa 
vivência mundializada).
CAPÍTULO I
CULTURA E SOCIEDADE GLOBAL
Quando se lê a literatura produzida sobre a mundialização é 
inevitável sentir uma certa insatisfação. O assunto é tratado 
por diferentes disciplinas, tais como: economia, adminis­
tração de empresas e relações internacionais. E faz hoje par­
te da pauta da mídia (revistas, jornais e televisão). No entan­
to, são poucos os estudos realmente reflexivos, que se 
afastam de um interesse imediatamente pragmático ou de 
vulgarização do conhecimento. Vários são os escritos de ho­
mens de governo ou de administradores de multinacionais, 
porém, eles pensam o mundo a partir de um horizonte es­
treito, parcial. O que lhes importa é defender os interesses de 
seus países, competidores na arena geopolítica, ou a fatia 
cie seus lucros no mercado que se globalizou.1 Por outro 
lado existem os bestsellers tipo Alvin Toffler, traduzidos em 
várias línguas, que trazem uma mensagem otimista de um 
futuro próximo.2 Eles nos anunciam a boa-vinda de uma so­
ciedade feliz, marcada pela exuberância da técnica, e a comu­
nhão dos homens numa consciência planetária. Literatura fu­
turista, imaginativa e falsa, que de alguma maneira prolonga 
as preocupações de McLuhan, inauguradas na década de 60.
1. Ver por exemplo J. Attali, Milenio, Barcelona, Seix-Barral, 1991; K. 
Ohmae, Mundo sem fronteiras, S. Paulo, Makron Books, 1991. Ou ainda os tex­
tos produzidos pelo Clube de Roma: A. King, B. Schneider, La primera 
revolución mundial, Barcelona, Plaza-Janes Ed., 1991
2. A. Toffler, The third wave, N. York, Bantam Books, 1980; Power Shift, N. 
York, Bantam Books, 1991. No mesmo estilo temos: J. Pelton, Global talk, The 
Harvester Press, 1981.
Sugestivamente, \u201cA Aldeia Global\u201d tem como subtítulo \u201ctrans­
formações da vida mundial e da mídia no século XXI\u201d.3 Bas­
tante citado, mas creio pouco lido, o livro preconiza a supe­
ração da parte esquerda do cérebro, núcleo da razão ocidental, 
pela direita, abrindo-nos uma nova vida sob o signo de Aquário.
O cérebro, metáfora da integração das duas dimensões do 
homem - razão e sentimento - com o advento da tecnologia 
encontraria sua expressão plena no universo eletrônico.
Chama a atenção nesses textos a profusão de metáforas 
utilizadas para descrever as transformações deste final de sé­
culo: \u201cprimeira revolução mundial\u201d (Alexander King), \u201ctercei­
ra onda\u201d (Alvin Toffler), \u201csociedade informática\u201d (Adam 
Shaff),4 \u201csociedade amébica\u201d (Kenichi Ohmae), \u201caldeia glo­
bal\u201d (McLuhan). Fala-se da passagem de uma economia de 
\u201chigh volunté\u2019 para outra de \u201chigh valué \u2019 (Robert Reich),5 e 
da existência de um universo habitado por \u201cobjetos móveis\u201d 
(Jacques Attali) deslocando-se incessantemente de um canto 
para o outro do planeta. Por que o abuso das metáforas? Elas 
revelam uma realidade emergente ainda fugidia ao horizonte 
das Ciências Sociais. As idéias de sociedade informática ou 
de aldeia global sublintiãm a importância da tecnologia mo­
derna na organização da vida dos homens. A descrição da 
passagem de uma economia de high volume para de high 
value enfatiza uma mudança atual no campo da economia; já 
não seria mais a produção em massa que orientaria a estraté­
gia comercial das grandes empresas, mas a exploração de 
mercados segmentados ( customized products). No entanto 
toda metáfora é um relato figurado; o que se ganha em cons­
ciência perde-se em precisão conceituai. O mundo dificil­
mente poderia ser realmente entendido como uma aldeia 
global, e mesmo sabendo que o peso das novas tecnologias 
é considerável na rearticulação da ordem social, não se pode
3. M McLuhan e B. R. Powers, The global village, Oxford, Oxford University 
Press, 1989.
4. A. Shaff, A sociedade informática, S. Paulo, Unesp/Brasiliense, 1990.
5 R Reich, The work of nations, N. York, Vintage Books, 1992.
esquecer que as técnicas se inserem sempre nas condições 
objetivas da história. Entre os homens que se comunicam 
nesta aldeia existem tensões, interesses e disputas que os 
afastam de qualquer ideal comum, construído apenas pela 
razão preguiçosa. Dizer que as empresas orientam suas polí­
ticas no sentido de uma produção customized, visando o 
gosto do cliente, capta evidentemente uma face do que está 
acontecendo. Mas sem qualificá-la, a afirmação leva fre­
qüentemente a associações indevidas. Por exemplo, a des- 
massificação do consumo é vista como a realização da liber­
dade individual, sinônimo de democracia. Por isso as metáforas 
nos dão um retrato incompleto e nebuloso do que se está 
querendo apreender.
Seria cômodo atribuir essa imprecisão apenas ao tipo de 
literatura em questão (o que é em parte verdade). Os jogos 
econômicos e ideológicos, assim como a necessidade de 
vulgarização
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais