ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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países em relação aos Estados Uni­
dos, por outro, o enfraquecimento das culturas nacionais.
A tese do imperialismo cultural, independentemente de 
sua postura crítica, tem a meu ver um forte apelo devido à 
inúmeras evidências empíricas. Sua verossimilhança se fun­
damenta em dados concretos. Vários são os exemplos que 
confirmam sua materialidade. A articulação entre a indústria 
norte-americana de comunicação e o complexo militar é ver­
dadeira, não uma ficção ideológica. A invenção do computa­
dor não se deve apenas ao gênio dos homens, mas decorre 
da convergência de interesses científicos e militares. Os historia­
dores da informática são categóricos: \u201cA Segunda Guerra Mun­
dial e a guerra fria que se seguiu constituíram-se no fator decisi­
vo que permitiu a invenção do computador moderno. Assim 
como para o nuclear, a guerra e os imperativos da defesa nacio­
nal permitiram o encontro dos sonhos mais avançados dos 
melhores cientistas com amplas possibilidades de financia­
mento e de experiência oferecidos pelo exército de um país 
altamente industrializado: os Estados Unidos\u201d.32 Seria inútil 
elidir as relações intrínsecas entre a construção do sistema
32. P. Breton, Historiada informática, S. Paulo, Ed. Unesp, 1991, p. 123.
internacional de telecomunicação norte-americano, as instân­
cias políticas (International Communication Agency, CIA) e 
as corporações multinacionais. Trata-se de fatos documenta­
dos.33 Também a propagação de alguns produtos comerciais 
contam com uma atenção especial das agências estatais america­
nas. A distribuição mundial da Coca-Cola se fez com o auxílio 
cordial das forças armadas.31 Durante a Segunda Guerra Mun­
dial, para atender a demanda dos soldados, o exército insta­
lou plantas de engarrafamento em diversos pontos do mun­
do. Para o seu funcionamento, o Pentágono providenciou 
ainda maquinário e pessoal especializado; com o término do 
conflito, a companhia incorporou, sem despesas, as produ­
ções locais.35 Os estudos realizados pela U nesco não deixam 
dúvidas quanto à hegemonia norte-americana no campo da in­
dústria cultural. Os Estados Unidos dominam a produção e a 
distribuição mundial de dramaturgia televisiva, filmes e publi­
cidade. Todas as estatísticas comparativas entre produtos im­
portados versus exportados confirmam seu predomínio.
No entanto, a certeza das evidências oculta a parcialidade 
da interpretação. Apesar de serem diametralmente opostas, a 
ideologia americanista e a crítica do imperialismo partilham 
as mesmas premissas m etodológicas expressas nos conceitos 
de difusão e de aculturação. A centralidade do \u201cfoco cultural\u201d 
se repõe, só que em termos de uma outra entidade, o Estado- 
nação. Quando Lenin escreve: \u201cO imperialismo, fase superior 
do capitalismo\u201d, ele distingue o imperialismo dos tempos
33- Consultar H. Schiller, Mass communications and American empire, 
Boston, B eacon Press, 1971; Y . Eudes, La colonización de las conciencias: las 
centrales USA de exportación cultural, M éxico, G ustavo Gili, 1984.
34. Ver T. Oliver, The real coke, the real story, N. Y ork , Random House, 
1986.
35. Ver Repports and papers on mass communication publicados pela 
Unesco. Em particular: T. Varis, N. N ordenstreng, \u201cT elevision trattic: a on e way 
street?\u201d, n® 70, 1974; T. G uback, T. Varis, T ransnacional com m unication and cul­
tural industries\u201d, n8 92, 1982; G. Murdock, N. Jan u s "La com m u nication de m asse 
et 1\u2019industrie publicitaire\u201d, n9 97, 1985; T. Varis, \u201cInternational flow o f television 
programmes\u201d, n° 100, 1987.
modernos das sociedades passadas (Roma antiga, por exem­
ple). Não teríamos mais um único império tendendo ine­
xoravelmente ao crescimento, mas um conjunto restrito de 
sociedades avançadas competindo em escala internacional. 
A nação é o núcleo deste capitalismo monopolista que abar­
ca o planeta, dividindo-o geograficamente em pedaços dife­
renciados. O imperialismo vem portanto marcado pela sua 
origem (inglês, americano, francês, ou japonês). Cada foco 
de difusão procura propagar, isto é, impor suas idéias, seus 
modos de vida, aos que se encontram sob seu jugo.
Não é surpreendente constatar que a discussão sobre a 
especificidade das culturas, que fizemos anteriormente, res­
surja no quadro da americanização. Ao escrever \u201cA mídia é 
americana\u201d, Jeremy Tunstall se pergunta sobre as razões da 
supremacia dos Estados Unidos. Sua visão substancialista 
nada mais é do que uma racionalização das opiniões cotidia­
nas dos homens de negócio. Tunstall considera que a mídia 
é fundamentalmente comércio e tecnologia, por isso seria 
\u201cessencialmente\u201d norte-americana. A indústria cultural, ao se 
desenvolver preferencialmente em solo americano, teria in­
ventado um tipo de cultura irresistível, e pela sua extensão, 
portadora dos germes da universalidade. Caberia aos outros 
imitá-la. A história do predomínio dos Estados Unidos teria 
assim pouco a ver com os elementos políticos ou econômi­
cos. \u201cO apelo da mídia americana em outros países se deve 
apenas à gramática dos filmes, da televisão, das histórias em 
quadrinho e da publicidade.\u201d36 Evidentemente, outros povos 
podem copiar esse modelo, mas com ressalvas. \u201cOs japone­
ses e os outros podem e fazem filmes de ficção científica, 
mas eles se ressentem da autenticidade dos americanos.\u201d37 A 
identidade americana estaria assim preservada das imitações 
incompletas. Curioso, Tunstall busca ainda a essência ameri­
cana no uso do inglês como língua internacional. Sua pers-
36. J. Tunstall, The media are American, London, Constable, 1977, p. 85.
37. Idem, p. 86.
pectiva fundamentalista supõe que ele seria, por natureza, o 
idioma mais adequado para expressar a sociedade mediática. 
O inglês é percebido como \u201cbrevidade, concisão, compasso 
e precisão. Sua gramática é mais simples do que qualquer 
outra língua rival, como o russo. O inglês é a língua que me­
lhor se adequa às histórias em quadrinhos, às manchetes de 
jornais, às frases concisas, às ilustrações das fotos, aos no­
mes, aos subtítulos, às canções populares, aos gracejos dos 
disc-jóquei, aos flashes, aos comerciais\u201d.38 Em suma, os ge­
nuínos produtos da indústria cultural seriam a expressão de 
um americanismo profundo.
Embora antagônica à visão anterior, a perspectiva anti­
imperialista se move no seio de pressupostos semelhantes. 
Em nenhum momento a centralidade do imperialismo é co­
locada em dúvida, pelo contrário, ela se afirma por meio dos 
mecanismos de dominação. Isto significa que o embate cul­
tural se realiza no contexto de um universo dual. A noção de 
\u201csituação colonial\u201d explicita bem este aspecto. No jogo da 
luta política, colonizador e colonizado se opõem como ter­
mos antitéticos. Por isso diversos autores dirão (com o Franz 
Fanón) que a situação colonial se funda no processo de \u201calie­
nação\u201d.39 Da mesma forma que para Hegel o senhor se opõe ] 
ao escravo, o colonizado é a negação radical do colonizador./ 
A dominação persiste enquanto o \u201cser\u201d do escravo se encol? 
tre alienado no \u201cser\u201d do senhor, isto é, separado de sua ver­
dadeira essência. A proposta antiimperialista, à revelia de 
suas intenções políticas, reforça a perspectiva substancialista 
da existência de uma cultura norte-americana. Evidentemen­
te, esta não se manifesta como afirmação do espírito huma­
no, mas como \u201cessência alienada\u201d, negadora do outro. O de­
bate se desloca assim para a questão da autenticidade das
38. Idem, p. 128.
39 Ver F. Fanón, Les damnées de la terre, Paris, Maspero, 1970; ou ainda, J.
P Sartre, \u201cLe colonialisme est un systèm e\u201d, Les Temps Modernes, nc 123, mars- 
avril 1956; G. Balandier, \u201cLa situation coloniale: approche théorique\u201d , Cahiers
Intemationaux de Sociologie, n° XI, 1951.
culturas nacionais. Como se considera que o colonizado rea­
lizaria sua liberdade apenas no momento da conquista de 
sua autenticidade
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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