ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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nacional, o confronto é inevitável. Na ver­
dade, o tema da dominação não se restringe às dimensões, 
política e econômica; a rigor, a própria especificidade das 
culturas nacionais estaria em risco diante da constante amea­
ça de uma cultura estranha. Neste sentido, o nacional onto- 
logicamc-nte se contrapõe ao que vem de \u201cfora\u201d. Como di­
riam alguns: \u201cAssim como, no plano econômico, a colônia 
exporta matéria-prima e importa produto acabado, assim 
também, no plano cultural, a colônia é material etnográfico 
que vive da importação do produto cultural fabricado no ex­
terior. Importar o produto acabado é importar o ser, a forma, 
que encarna e reflete a cosmovisão daqueles que a produzi­
ram. Ao importar o cadillac, o chicletes, a coca-cola e o cine­
ma não importamos apenas objetos ou mercadorias, mas 
também todo um complexo de valores e de condutas que se 
acham implicados nesses produtos\u201d.'10 O texto reproduz a 
consciência de um autor, mas reflete uma tendência generali­
zada. Nos diversos lugares onde se trava uma luta antiimpe­
rialista, o diagnóstico apresentado ressoa como verdadeiro. 
Sua plausibilidade se sustenta sobre expectativas reais, a pos­
sibilidade de uma reação nacional diante dos constrangimen­
tos de natureza internacional. Não tenho dúvidas que este 
tipo de postura tem conseqüências importantes no plano 
político. Sem ele, o desejo de dominação imperial de alguns 
países não encontraria maiores obstáculos para se concreti­
zar. No entanto, do ponto de vista de uma reflexão sobre a con­
dição contemporânea, a proposta encontra seus limites. A 
discussão sobre as culturas nacionais reatualiza a dicotomia 
entre interno e externo, promovendo o pensamento dualista. 
Os países centrais são vistos como núcleos difusores de uma 
determinada formação cultural, chocando-se em princípio
40. R. Corbisier, Formação e problema da cultura brasileira, R. Janeiro, 
ISEB, 1960, p. 69.
com a veracidade dos costumes locais. O que é externo se 
configura como elemento estranho, alienado, distante da 
modalidade nacional. Dentro desta perspectiva, o mundo se­
ria formado por unidades distintas, submetidas, é claro, à he­
gemonia dos mais poderosos. A crítica antiimperialista ra­
ciocina em termos de geopolítica. As grandes corporações, 
enraizadas nacionalmente, e o Estado-naçào delimitariam 
geograficamente as fronteiras do poder. Da mesma maneira 
que Toynbee buscava cartografar as civilizações, é possível 
esboçar o mapa da dominação mundial. Existiriam espaços 
difusores de cultura (em particular os Estados Unidos) e lo­
cais periféricos, sujeitos às suas influências.41 ^
A dificuldade com a tese da americanização é que ela se fixa 
sobremaneira na difusão dos elementos nacionais, esquecendo- 
se de analisar a globalização enquanto processo. A evidência 
dos balanços estatísticos (cultura importada x cultura expor­
tada) pertence ao reino da quantidade. Entretanto, seu valor 
explicativo é frágil. Primeiro, porque o raciocínio opera uma 
redução da cultura a seus produtos - discute-se McDonald\u2019s, 
Dallas, Cadillac, e não o fast-food, a serialização da drama­
turgia televisiva, ou o automobilismo nas sociedades moder­
nas. Segundo, as expressões culturais são assimiladas aos 
bens econômicos, sendo desta forma pesadas em função dos 
fluxos de importação e de exportação. Cultura e economia 
seriam assim dimensões equivalentes. Isto significa, porém, 
que a mundialização só pode ser compreendida como um 
fenômeno externo aos países que a adotam. Ela decorreria 
necessariamente de uma indução social. Os países que se 
encontram fora de seu círculo determinante só podem por­
tanto experimentá-la enquanto imposição alheia. Por isso é 
comum encontrarmos, na discussão que estamos enfrentan-
41. É interessante observar que m esm o autores com o Braudel e Wallerstein
não conseguem se desvencilhar do tema da centralidade. Para eles, o capitalis­
mo mundial teria sempre um núcleo a partir do qual se organizaria. Com o movi­
mento da história ele se deslocaria - Amsterdã, Londres, N. York - , mas a idéia
de centro permaneceria intacta através dos tempos.
do, afirmações do tipo: \u201cos países do Terceiro Mundo imitam 
os do Primeiro Mundo\u201d; \u201co rock-and-roll latino-americano é 
uma imitação dos valores americanos\u201d; \u201cñas sociedades peri­
féricas o consumo é a imitação das sociedades de Primeiro 
Mundo\u201d. A categoria \u201cimitação\u201d surge como elemento expli­
cativo da propagação dos costumes. O argumento lembra as 
teorías de Gabriel Tarde, que entendia a sociedade como um 
conjunto de relações resultante das \u201cleis de imitação\u201d. Desta 
maneira, ajopinião pública seria um fenômeno de propaga­
ção que se realizaria graças ao movimento social da imitação 
dos cérebros.42 Os indivíduos, ao tomarem contacto com 
uma opinião veiculada por um pólo emissor, seriam persua­
didos a aceitá-la. Seria o caso da moda, que se difundiria en­
tre as diferentes camadas sociais por meio deste mecanismo 
de reprodução de si mesma.
Na verdade, este tipo de pensamento capta apenas as 
aparências das coisas, identificando modernidade com 
american way of life. Vários estudos sobre a \u201cexportação da 
cultura\u201d assumem implicitamente este ponto de vista. E o 
caso de Emily Rosenberg, cujo livro Divulgando o sonho 
americano traça uma crítica severa, a meu ver pertinente, do 
expansionismo norte-americano. No entanto, sugestivamen­
te a autora inicia seu texto com a Exposição Universal de 
Chicago no final do século XIX. Ela procura decifrar no pas­
sado, isto é, na apresentação das máquinas agrícolas e das 
técnicas de transporte, o futuro dos Estados Unidos. As ex­
plorações tecnológicas e a pujança das mercadorias expostas 
visualizariam os traços do caráter nacional norte-americano. 
Até mesmo a apresentação do show de Búfalo Bill é percebi­
da como \u201cuma expressão temporã, mas já plenamente de­
senvolvida da cultura de massa americana\u201d.43 Técnica e con­
sumo são desta maneira entendidos como atributos da 
americanidade. Ora, bastaria olharmos para as exposições
42. Ver G. Tarde, ¿ \u2019opinion et la foule, Paris, PUF, 1989.
43- E. Rosenberg, Spreading the American dream, op. cit., p. 6.
universais européias para nos desvencilharmos desta con­
cepção inadequada. Elas são também uma mistura de merca­
doria, técnica e entretenimento. Walter Benjamin as conside­
ra uma espécie de \u201cescola para o consumo\u201d, ensinando ao 
público o gosto prazeroso da contemplação, e depois da 
compra, dos objetos.4\u201c1 As exposições universais - um agru­
pamento heterogêneo de máquinas, invenções, aparelhos, 
roupas, e lazer - promovem as trocas comerciais num clima 
de divertimento e efusão.45 Nesse contexto, o show de Búfa­
lo Bill (que também se apresenta na Europa) se define como 
expressão de um movimento intrínseco à modernidade. Ele 
se alinha a outras atrações apresentadas em Londres ou Paris 
- rodas-gigantes, torre Eifel, viagens ao fundo do mar, pas­
seio pelos ares, ou os mareoramas, onde o visitante, a bordo 
de um navio gigantesco, tem a ilusão de navegar pelos ocea­
nos. As exposições universais contêm os germes da amál­
gama entre o consumo, a técnica e o lazer. Por sua abran­
gência planetária, congregando povos dos diferentes lugares 
da Terra, elas são uma miniatura da modemidade-mundo. Por 
isso, parece-me impróprio dizer que o mundo \u201cse americani­
zou\u201d (o que não significa negar o papel dos Estados Unidos 
enquanto potência mundial ou agente cultural internacional). 
A circulação dos bens culturais ganha maior consistência ao 
ser pensada em termos de mundialização, e não de difusão. 
Neste caso, é necessário vincular as expressões culturais ao 
solo da modernidade que lhes dá sustentação.
* * *
Eu havia observado que o conceito de imperialismo cul­
tural restringia a compreensão da mundialização. Devo 
acrescentar que ele não é apenas negativo. O imperialismo é
44. W.
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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