ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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levam a um certo barateamento das análises. Po­
rém, existem a meu ver outras causas, talvez mais profundas, 
que contribuem para tanto. Na verdade, a globalização é um 
fenômeno emergente, um processo ainda em construção. 
Mesmo a ciência econômica, disciplina que provavelmente 
melhor trabalhou o problema, reconhece a novidade do tema. 
Se entendermos por globalização da tecnologia e da economia a 
internacionalização das trocas, de produtos e de conheci­
mento, evidentemente não estamos diante de um fato original. 
O mesmo pode ser dito quando falamos da multinacionali- 
zação de empresas nacionais que operam em escala interna­
cional. Por isso os economistas começam a estabelecer uma 
distinção entre internacionalização e globalização. \u201cEmbora se­
jam usados muitas vezes como sendo intercambiáveis, esses 
termos não são sinônimos. Internacionalização se refere sim­
plesmente ao aumento da extensão geográfica das atividades 
econômicas através das fronteiras nacionais; isso não é um 
fenômeno novo. A globalização da atividade econômica é/ 
qualitativamente diferente. Ela é uma forma mais avançada, 
e complexa, da internacionalização, implicando um certo
grau de integração funcional entre as atividades econômicas 
dispersas.\u201d6 O conceito se aplica, portanto, ã produção, distri­
buição e consumo de bens e de serviços, organizados a partir 
de uma estratégia mundial, e voltada para uma mercado 
mundial. Ele corresponde a um nível e a uma complexidade 
da história econômica, no qual as partes, antes inter-nacionais 
se fundem agora numa mesma síntese: o mercado mundial.
Para se dar conta do que está ocorrendo é necessário 
uma reformulação do próprio ponto de vista que orienta o 
pensamento. As metáforas abundam diante da falta de con­
ceitos. Nos encontramos ainda apegados a um instrumental 
teórico construído no final do século XIX. Classe, indivíduo, 
Estado e desenvolvimento são noções forjadas no interior de 
uma entidade nodal, mas cuja crise se agudiza em face das 
mudanças atuais: a nação. Por isso Octávio lanni dirá que 
muitas vezes não percebemos que \u201co objeto das Ciências So­
ciais se transformou qualitativa e quantitativamente. De ma­
neira implícita ou explícita, as controvérsias [teóricas] estão 
referidas ao indivíduo e à sociedade, vistos naturalmente em 
termos de relações, processos e estruturas nacionais. As di­
mensões globais da realidade social parecem desafiar ainda 
pouco as ciências sociais. Mesmo a economia e a política - 
que se dedicam bastante às relações internacionais e às con­
dições multinacionais - continuam a apoiar-se em cânones 
referidos à sociedade nacional. O padrão de mercado, para a 
economia, continua a ser o nacional. E o padrão de sobe­
rania, para a ciência política, continua a ser o de Estado- 
Nação\u201d.7 Dentro dessa perspectiva, o \u201cmundo\u201d, na sua espe­
cificidade, enquanto categoria, não mais filosófica, mas socio­
lógica, devido a uma resistência epistemológica de postulá-lo 
como objeto, na sua inteireza, como unidade sintética sui 
generis, escapa à própria análise conceituai. O pensamento
6 P Dicken, Global shift, London, Paul Chapman Publ.,1992, p.l. Ver tam­
bém R. Petrelia, \u201cLa mondialisation de la technologie et de l\u2019economie", Futuri- 
bles, n® 135, septembre 1989
7 O. lanni, A sociedade global, R. Janeiro, Civilização Brasileira, 1992, p.l72.
hesita em conferir um estatuto científico a esta entidade que 
deveria ser considerada como uma espécie de \u201cmega-socie- 
dade\u201d, modificando as relações políticas, econômicas e cultu­
rais, entre as partes que a constituem.
De alguma maneira, a história das idéias nos ajuda a to­
mar consciência dessas hesitações; o próprio conceito de so­
ciedade global tem um passado revelador. Cunhado por 
Gurvitch em 1950, ele tem a ambição de compreender os fenô­
menos sociais totais que englobam e ultrapassam os grupos, 
as classes sociais, e até mesmo os Estados. A sociedade global 
seria um \u201cmacrocosmo dos macrocosmos sociais\u201d, possuin­
do uma originalidade e uma vida própria.8 Gurvitch conside­
ra assim diversos tipos de sociedades globais: a nação, os 
impérios (Roma, China, etc.), e as civilizações (Islão). Não 
obstante, sintomaticamente, o macrocosmo gurvitchiano não 
é suficientemente amplo para abarcar o planeta como um 
todo. Este seria composto por um conjunto de \u201csociedades 
globais\u201d que se tocam, mas, no fundo, se excluem. Esta vi­
são é a meu ver homóloga à que vários historiadores pos­
suem. Mesmo Braudel, cuja contribuição é fundamental para
o entendimento da formação do sistema mundial, quando se 
trata de pensar os tempos atuais, partilha deste ponto de vis­
ta. Seu livro O mundo atual: história e civilizações nos 
apresenta a Terra como um conjunto de civilizações geogra­
ficamente dispersas: Islão, continente negro, Extremo Oriente, 
Europa, América, etc.9 Cada espaço é marcado por valores par­
ticulares e por uma mentalidade coletiva modal, pois uma ci­
vilização é uma continuidade no tempo da larga duração. 
Tudo se passa como se cada \u201ccultura\u201d tivesse um núcleo es­
pecífico, permanecendo intacto até hoje. O mundo seria um 
mosaico, composto por elementos interligados, mas indepen­
dentes uns dos outros.
8. G. Gurvitch, \u201cLes types cie société globale\u201d in La vocation actuelle de la 
sociologie, Paris, PUF, 1950.
9. F. Braudel, Las civilizaciones actuales, México, Ed. Tecnos, 1991.
Um texto que ilustra bem a ambigüidade das ciências so­
ciais em reconhecer o novo objeto é o de Talcott Parsons, 
\u201cOrdem e comunidade no sistema social internacional\u201d. Par­
sons parte da seguinte indagação: a ordem internacional for­
maria um \u201csistema social\u201d? Como sua própria definição de 
sociedade implica a integração das diversas partes que a 
compõem, permanece a dúvida. Afinal o mesmo grau de 
coesão não se repetiria em nível macro? Evidentemente este 
tipo de pergunta só pode ser colocado conferindo-se um 
peso relativo à própria idéia de soberania. O que Parsons em 
princípio reconhece: \u201cDa mesma maneira que existem gru­
pos internos, cujos interesses atravessam as linhas nacionais, 
a idéia de uma soberania absoluta dos governos é, na melhor 
das hipóteses, uma aproximação da verdade\u201d.10 Coerente 
com suas premissas, o raciocínio do autor caminha no senti­
do de explicitar a existência de alguns elementos normativos 
de caráter internacional: a regulação do comércio, a legisla­
ção internacional, as religiões que se expandem fora de suas 
bases territoriais, as associações científicas, o sistema de co­
municação, rádio, imprensa, etc. Retomando a tradição we- 
beriana, ele sublinha a existência de uma cultura ocidental 
partilhada inclusive pelos países comunistas. O processo de 
ocidentalização não conheceria fronteiras. No entanto, após 
a enumeração de todos esses traços sua conclusão é hesitan­
te, dúbia: \u201cEu argumentei que, num determinado nível dos 
valores, existe um genuíno consenso. Mas deveria deixar claro 
que as implicações deste consenso encontram-se, no nível 
das normas institucionalizadas, da forma mais fragmentária, e 
que deveríamos especificá-las melhor, antes que qualquer or­
dem internacional, moderadamente estável, possa emergir\u201d.11
Creio que esta dubiedade das ciências sociais pode ser 
compreendida se lembrarmos que elas são sempre uma
10 T Parsons, Order and community in the international social system\u201d in 
Politics and social structure, N York, The Free Press, 1%9, p 300.
11 Ibid , p 309
autoconsciência crítica da realidade. Quando Gurvitch escre­
via, em 1950, o processo de globalização não era ainda evi­
dente. O pensamento tinha dificuldade em apreender algo 
que existia (pois há uma história da mundialização), mas não 
havia se cristalizado. Talcott Parsons, alguns anos depois, e 
em outro lugar (os Estados Unidos desfrutavam inquestio­
navelmente da posição de potência mundial), intui a emer­
gência de
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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