ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.329 materiais14.648 seguidores
Pré-visualização50 páginas
ge assim como uma referência privilegiada. A voz de Vincent 
Price habita o fantasma do casarão da Thunder Mesa, ela \u201car­
repia\u201d o visitante. Bela Adormecida, apesar da expectativa vã 
do patriotismo francês - diz um estudo do governo, cujo 
objetivo era fornecer subsídios para a construção do parque: 
\u201cA companhia Disney, tomando como fonte de inspiração 
para o castelo da Bela Adormecida a gravura do antigo 
torreão do Louvre, do livro (As Ricas Horas), do duque de 
Berry, mostrou sua capacidade de adaptar-se ao contexto eu­
ropeu. Isso, para atender a algumas expectativas poderia ser 
aprofundado, valorizando-se o fundo comum euro-america- 
no\u201d39 - , pouco tem a ver com a cultura popular dos folclo- 
ristas europeus. A personagem, os anões, o castelo e a ma­
drasta são retratos retirados do arquivo Disney. Inclusive o 
futuro tem um sabor banal. Ele é uma soma heteróclita de ci­
tações de George Lucas, com sua Guerra nas Estrelas; a mú­
sica, os robôs, a nave espacial, a paisagem estelar e os ani­
mais divertidos são fragmentos de situações projetadas nas 
telas de cinema.
39 \u201cRapport de mission sur le pare à thèmes de Disney World (Floride, 
USA, 24-29 octobre 1988\u201d, Region ci Ile de France, Comité Economique et Social, 
décembre l l)88 p S8
Peter Berger considera que os universos simbólicos pos­
suem um valor central em todas as sociedades 10 Eles inter­
pretam a ordem institucional das coisas, conferindo sentido à 
vida dos homens. Os universos simlx)licos ordenam a histó­
ria, localizando os eventos numa sequência que inclui o pas­
sado, o presente e o futuro. Km relação ao passado estabele­
cem uma \u201cmemória", partilhada pelos com ponentes de uma 
coletividade; com respeito ao luturo, definem um conjunto 
de projeções, modelos para as ações individuais. Certamente, 
os universos simbólicos variam de acordo com os tipos de 
sociedades que os constituem. O mito tem um papel funda­
mental nas sociedades primitivas. Ele explica a atualidade 
pelos acontecimentos passados nos tem pos imemoriais, na 
idade em que os deuses ainda estavam fixando a mitologia 
dos povos. A saga das divindades possui um valor exemplar, 
ela fixa a conduta e o destino dos homens. O presente é uma 
constante rememorizaçào do que \u201cse passou\u201d, reminiscência 
idílica de algo que se cristalizou na memória coletiva. O 
mundo das sociedades primitivas encontra sua razão de ser 
no relato mitológico, garantindo a eternidade do gesto fun­
dador contra os avatares do futuro. Já a mentalidade utópica 
caminha em outra direção. Presente e passado são preteri­
dos pelo topos criado pela imaginação. O pensamento entra 
assim em contradição com a realidade existente. As energias 
são canalizadas para a construção de uma ordem que se en­
contra ainda fora do história. Transformação e esperança ali­
mentam a visão utópica.
O que dizer da memória internacional-popular? A visita à 
Euro-Disney nos sugere algumas idéias. Nela, passado e fu­
turo se fundem na familiaridade dos objetos. O ensinamento 
deste grande espetáculo é lembrar-me que não posso esca­
par da inexorabilidade do mundo que me rodeia. Se eu imaginar 
o futuro, terei de fazê-lo como George Lucas; se me inclinar 
para as épocas pretéritas, descobrirei diante de mim uma car-
40. P. Berger, A construção social da realidade, Petrópolis, Vozes, 1973
tografia onírica mapeada em seus mínimos detalhes. Na ver­
dade, uma memória-arquivo me aprisiona no presente. Os 
elementos que a compõem são atemporais, podendo ser 
reciclados a qualquer momento. Como a desterritorialização 
eliminou o peso das raízes, cada sinal, traço, adquire uma 
mobilidade que desafia a seqüência temporal. A imagem de 
Humphrey Bogart existe como virtualidade, e se atualiza ape­
nas quando \u201ccitada\u201d em algum filme ou anúncio publicitário. Os 
robôs de Guerra nas Estrelas desfrutam a mesma posição 
que Bogart. Eles repousam, lado a lado, no universo virtual 
do arquivo-memória. Passado e presente partilham da mes­
ma dimensão. A desterritorialização prolonga o presente nos 
espaços mundializados. Ao nos movimentarmos percebemos 
que nos encontramos no \u201cmesmo lugar\u201d. Neste sentido, a 
idéia de viagem (saída de um mundo determinado) encon­
tra-se comprometida. Desde que o viajante, nos seus deslo­
camentos, privilegie os espaços da modemidade-mundo, no 
\u201cexterior\u201d, ele carrega consigo seu cotidiano. Ao se deparar 
com um universo conhecido, sua vida \u201cse repete\u201d, confir­
mando a ordem das coisas que o envolvem. Por isso Frederic 
Jameson dirá que as sociedades \u201cpós-modemas\u201d têm uma 
\u201cnostalgia do presente\u201d.41 Nos grupos primitivos, para se 
atualizar, o mito tinha a necessidade de se materializar nos ri­
tuais mágico-religiosos. Porém, entre um rito e outro, urna 
\u201cdúvida\u201d pairava no ar. A memória coletiva, a cada vez que 
era invocada, funcionava como alimento na renovação das 
forças sociais. Nas sociedades atuais, a ritualização deve ser 
permanente, sem o que o presente se esvairia na sua subs- 
tancialidade. Os objetos e as imagens têm de ser incessante­
mente reatualizados, para que o vazio do tempo possa ser 
preenchido. Neste sentido, a memória internacional-popular 
se aproxima do mito como Barthes o define42 (e não como os
41. Ver F. Jamenson, Postmodernism or the cultural logic of late capitalism, 
London, Verso, 1992.
42 R Barthes, Mithologies, Paris, Seuil, 1970.
antropólogos o entendem). Mito enquanto palavra despoliti­
zada que \u201ccongela\u201d a historia. Ele imobiliza o presente dan­
do-nos a ilusão que o tempo chegou a seu término.
\u2666 * *
Muitas vezes temos tendência a imaginar as sociedades 
modernas como um organismo anômico. A fragmentação seria 
sua característica principal. Na multidão solitaria, o homem 
caminharia sem sentido nas malhas de sua irracionalidade. 
Cada parte formaria assim uma entidade fechada, opaca, evo­
luindo segundo sua lógica interna, incomunicável às outras. No 
entanto, basta olharmos para os \u201cnão-lugares\u201d (retomo a ex­
pressão de Marc Augé) para percebermos como nesses espa­
ços señalizados a ordem se instaura na sua plenitude. Um 
aeroporto possui um conjunto de normas que orienta o via­
jante desde que chega ao estacionamento até o momento do 
embarque - horário de chegada e de partida, compra do bi­
lhete, check-in, check-out, acesso às bagagens, exibição do 
documento de identidade. Cada ação é minuciosamente des­
crita no plano de funcionamento do todo-aeroporto, e 
independe da individualidade daquele que a executa. Um 
supermercado agrupa de maneira lógica os produtos nas 
suas prateleiras: cereais, latarias, laticínios, carnes e frangos, 
além de sugerir ao cliente toda uma atitude de comporta­
mento quando este caminha pelos corredores repletos de 
mercadorias. Um shopping center,; apesar do movimento 
errático da multidão que nele transita, tem uma lógica inter­
na, dispondo suas lojas de maneira adequada nas ruas cuida­
dosamente projetadas em seu plano arquitetônico. O deslo­
camento das pessoas é particular, porém, como ocorre em 
função de uma atividade-fim, sua orquestração é coletiva. 
Não se trata, é claro, de uma ordem pensada em termos 
durkheimianos, na qual a solidariedade entre os indivíduos 
pertence inteiramente ao domínio das representações coleti­
vas. Com efeito, Durkheim compreendia a coesão social
como resultante de uma consciência coletiva, cimento das re­
lações sociais. Como a religião, que entre os povos primiti­
vos, ou nas civilizações cristã e islâmica, congregava as pes­
soas dispersas na malha social. O todo pode desta forma ser 
ordenado segundo os princípios de um mesmo universo 
simbólico. A comunhão entre os homens se faz na medida 
em que partilham ideais semelhantes. Evidentemente, essas 
premissas não são válidas para o quadro atual, pontilhado 
pela multiplicidade ideológica. A modernidade é pluri-reli- 
giosa, abrindo espaço para que as mais diversas
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais