ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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concepções 
de mundo, inclusive ideários políticos conflitantes, coabitem 
entre si. Eu diria que a globalização acentua a erosão do mo- 
nolitismo simbólico. Nem mesmo os ideais nacionalistas pos­
suem mais a dinâmica que os caracterizavam. A coesão na­
cional, quer se queira, ou não, é de alguma maneira minada 
pelo avanço da modemidade-mundo.
Entretanto, seria ilusório imaginarmos a vida social como 
resultado das volições pessoais. Como se seu fundamento re­
sidisse no âmbito da escolha individual. Esta visão, bastante 
difundida no senso comum, geralmente procura justificar a 
existência do consumo como algo exclusivo de caráter pes­
soal. Argumento recorrentemente utilizado pelo meio em­
presarial e publicitário. O produto é sempre apresentado ao 
cliente como decorrente de sua vontade. Na verdade, a pul­
verização das vontades revela uma anomia aparente. Jean 
Baudrillard tem razão quando insiste em dizer que o consu­
mo \u201cé uma conduta ativa e coletiva, uma imposição moral, 
uma instituição. Ele é todo um sistema de valores, com tudo 
o que esse termo implica, isto é, sua função de integração 
grupai e de controle social\u201d.43 Moral que, mesmo vivida soli­
tariamente, ultrapassa a contingência das necessidades parti­
culares. O sistema de produção e o de consumo se integram 
no mesmo conjunto. As exigências objetivas da esfera da 
produção são assimiladas subjetivamente, sem que os atores
43 J Baudrillard, La société deconsommation, Paris, Denoel, 1970, p. II*:.
sociais tenham uma clara consciência de seus mecanismos. 
Mas para isso é preciso um aprendizado, uma socialização de 
determinados hábitos e expectativas. A substituição da ética 
do trabalho pela ética do lazer nada tem de natural. Ela é fru­
to de mudanças sociais e econômicas. Vimos como na pas­
sagem do século XIX para o XX existe ainda uma indefinição 
a este respeito. A moral da frugalidade prevalece frente à 
condenação da \u201cinutilidade do luxo\u201d. O trabalho é considera­
do uma virtude essencial, seja para o capitalista, que aumen­
ta seus lucros, ou para o operário, que não só melhora suas 
condições de vida, como se afirma enquanto parte de uma 
classe social emergente. Até mesmo as grandes filosofias en­
tendem o trabalho como fonte de liberação. Hegel e Marx 
viam no trabalho não alienado o espaço de realização das 
pontencialidades humanas. O trabalho deixa de ser um valor 
no momento em que a ética do consumo supera a ética ante­
rior (Clauss Offe44 considera que ele já não mais seria uma 
categoria central nas sociedades atuais). No entanto, foi ne­
cessário, para isso, um enorme esforço de socialização e de 
convencimento. Da mesma maneira que o camponês teve 
que aprender a prática da labuta industrial - postura do cor­
po, pontualidade no serviço, técnicas específicas, etc. - , o 
que lhe exigiu um esforço de disciplinarização profundo, nós 
tivemos de interiorizar um conjunto de valores e de compor­
tamentos que nos permitem circular com naturalidade entre 
os objetos. Neste sentido, a memória intemacional-popular 
cumpre um papel de destaque na constituição e na preserva­
ção deste universo, ela se revela como instância de reprodu­
ção da ordem social. Sua presença não garante apenas a pos­
sibilidade de comunicação entre os espaços planetarizados, 
ela confirma os mecanismos de autoridade contidos na 
modemidade-mundo.
Mas fica a pergunta: qual a especificidade desta memória 
em relação às outras? Uma comparação entre memória coleti-
44. Ver C. Offe, \u201cTrabalho: categoria sociológica chave?\u201d in Capitalismo de­
sorganizado, S. Paulo, Brasiliense, 1989
va e memoria nacional nos ajuda a refletir sobre este aspecto. 
Quando Halbwachs define o conceito de memória coletiva, 
ele toma o grupo como unidade de referência sociológica. 
Os grupos podem ser ocasionais e instáveis como um núme­
ro pequeno de amigos que se reúnem para relembrar uma via­
gem feita em conjunto. Ou permanentes, no caso das coletivida­
des religiosas. Eles possuem uma característica em comum, 
trata-se de comunidades de lembranças. O ato mnemónico 
atualiza uma série de fatos, situações, acontecimentos, parti­
lhados e vivenciados por todos. O exemplo do candomblé, 
já citado, é esclarecedor. A celebração do ritual reforça os la­
ços de solidariedade entre os membros da comunidade reli­
giosa. Cada terreiro é uma unidade de evocação, promo­
vendo, entre seus componentes, os valores negro-africanos 
dispersos pela história da escravidão. Mas a memória coletiva 
possui um inimigo, o esquecimento. Ele espreita a evocação 
do passado, trabalhando no sentido de sua desagregação. 
Todo o empenho da memória coletiva é lutar contra o esque­
cimento, vivificando as lembranças no momento de sua 
rememorização. Esquecer fragiíiza a solidariedade sedimen­
tada entre as pessoas, contribuindo para o desaparecimento 
do grupo. Comunidade e memória se entrelaçam.
A situação é outra quando falamos de memória nacional. 
Neste caso, o grupo já não pode mais ser restrito, pois a na­
ção se define pela sua capacidade em transcender a diversi­
dade da população que a constitui. Elà é uma totalidade que 
nos faz passar da \u201ccomunidade\u201d à \u201csociedade\u201d (como dizia 
Tõnnies). \u201cSociedade\u201d enquanto conjunto de interações im­
pessoais, distante portanto dos laços solidários imanentes à 
vida comunal. Na comunidade, os vínculos pessoais prevale­
cem e o ato da rememorização reforça a vivência comparti­
lhada por todos. A sociedade-nação quebra esta relação de 
proximidade entre as pessoas. Os cidadãos participam de 
uma consciência coletiva, mas já não se situam mais no nível 
das trocas restritas a um grupo autônomo e de tamanho re­
duzido. Por isso a memória nacional é um universo simbóli-
co de \u201csegunda ordem\u201d, isto é, engloba uma variedade de 
universos simbólicos. Ela pressupõe um grau de transcen­
dência, envolvendo os grupos e classes sociais em sua totali­
dade. A memória nacional pertence ao domínio da ideologia 
(no sentido positivo de ordenação do mundo como a consi­
dera Gramsci), dependendo de instâncias alheias aos meca­
nismos da memória coletiva - Estado e escola (quando nos 
referimos a \u201ccomunidade nacional\u201d o termo é utilizado no 
sentido metafórico e não conceituai como entendia Tõnnies). 
No fundo, todo o debate sobre a autenticidade das identida­
des nacionais é sempre uma discussão \u201cideológica\u201d. Importa 
definir qual a identidade legítima, isto é, política e cultural­
mente plausível para a maior parte da população de um ter­
ritório determinado. Cito Renan: \u201cUma nação é uma alma, 
um princípio espiritual. Duas coisas, que na verdade fazem 
uma, constituem esta alma e este princípio espiritual. Uma 
está no passado, outra no presente. Uma, é a posse em co­
mum de um rico legado de lembranças; o outro é o consenti­
mento atual, o desejo de viver juntos, a vontade de validar a 
herança que recebemos como indivíduo. A nação, como o 
indivíduo, é resultado de um longo passado de esforços, de 
sacrifícios, e de devotamento. O culto dos antepassados é, de 
todos, o mais legítimo; os antepassados fizeram o que nós 
somos\u201d.45 Mas seria realmente importante lembrarmos de 
\u201ctudo\u201d? O que dizer dos eventos contraditórios, violentos, 
que poriam em risco a harmonia do presente? Renan é ex­
plícito: \u201cO esquecimento e, eu diria, o erro histórico são fato­
res essenciais na criação de uma nação. Por isso o progresso 
dos estudos históricos coloca freqüentemente a nacionalida­
de em perigo. Com efeito, a investigação histórica ilumina os 
fatos de violência que se passaram na origem de todas as for­
mações políticas, mesmo aquelas nas quais as conseqüências 
foram benéficas\u201d.46 Contrariamente ao caso anterior, o realis-
45 E. Renan, Qu\u2019est-cequ'une nation?, Paris, Presses Pocket, 1992, p. 54.
46. Idem, p. 41.
mo do passado é uma ameaça. A construção da memória na­
cional se realiza através do esquecimento.
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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