ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.322 materiais14.629 seguidores
Pré-visualização50 páginas
processos sociais não contemplados pela análise 
sociológica. Mas a hesitação permanece. O objeto não des­
fruta ainda de pleno direito de cidadania. Talvez o primeiro 
texto da literatura sociológica que irá reverter esta indecisão 
será o de Wilbert Moore, \u201cSociologia_global: o mundo como 
um sistema singular\u201d.12 Publicadoem 1966, ele reivindica 
uma outra abordagem, a elaboração de uma Sociologia abran­
gendo o globo terrestre. A extensão territorial, reduzida antes 
às sociedades nacionais, pode assim se prolongar no interior 
de um espaco muito mais amplo. O mundo toma-se um 
\u201csupersistema\u201d englobando outros \u201csistemas\u201d menores, em 
tamanho e complexidade.
Existe, porém, uma distância considerável entre uma 
proposta e sua realização. A rigor, os estudos sobre o mundo 
como sistema se iniciam apenas em meados dos anos 70. 
Neste movimento de reformulação das idéias Immanuel 
Wallerstein terá um papel de destaque. Seu livro O moderno 
sistema mundial lança as bases de uma história sistêmica 
do capitalismo.13 Sua crítica ao Estado-nação como unidade 
de análise abre a perspectiva de se pensar o movimento con­
creto de estruturação do mundo. \u201c World-systenf toma-se
12 O texto de Moore tem a meu ver mais um interesse histórico do que 
propriamente analítico Trata-se de uma proposta, de uma intenção ainda desar­
ticulada, distante de uma reflexão sistematizada ou de um programa de pesqui­
sa. Ver TheAmencanJournal o jSociology, vol 71, n® 5, 1966.
13 I.Wallerstein, The modem world-system« N.York, Academic Press, 1976. 
Ver ainda \u201c World-systems analysis'* in A. Giddens e J. Turner, Social theory 
today, Stanford, Stanford University Press, 1987, e "An agenda for word-systems 
analysis" in W Thompson (org.) Contending approaches to uvrld-system analysis, 
Beverly Hills (CA), Sage, 1983
assim uma categoria analítica para se dar conta da totalidade 
envolvente.*
* * *
Como pensar esta realidade mundial a partir da proble­
mática cultural? A questão não é simples, pois a herança inte­
lectual tende a ressaltar os aspectos específicos de cada cul­
tura. Herder, que inaugura uma maneira de pensar, vai 
considerá-la como \u201ca totalidade de um modo de vida\u201d, o \u201ces­
pírito de um povo\u201d.14 Crítico da filosofia de sua época, ele se 
recusa a considerar o \u201cuniversal\u201d, a \u201chumanidade\u201d, e se volta 
para as identidades particulares. As sociedades escapariam 
assim das malhas da história global, elas seriam análogas aos 
organismos vivos, centrados sobre si mesmos. Cultura existi­
ria apenas no plural, enfoque antagônico ã visão abrangente 
do iluminismo. Apesar das polêmicas sobre como defini-la 
conceitualmente, esta dimensão pluralista permanece e permeia 
a tradição antropológica. Os estudos comparativos realizados 
no século XIX, como os de Tylor, tentam mostrar como a 
mentalidade primitiva difere da do homem moderno. A obra 
de Frazer tem como objetivo central revelar as crenças \u201cbizar­
ras\u201d de nossos ancestrais. Existe, pois, uma distância entre as 
culturas primitivas entre si, e entre elas e os princípios mo­
dernos. Mesmo quando mais tarde a Antropologia se insti­
tucionaliza como disciplina científica, este aspecto de separa-
* É interessante notar que a discussão sobre a globalização surge nos Esta­
dos Unidos. Provavelmente, sua posição hegem ônica no cenário internacional 
desafia e instiga a imaginação dos intelectuais. São vários os textos que pro- 
blematizam o tema, e em distintas disciplinas. Theodore Levitt publica \u201cG lo­
balization o f markets\u201d {Harvard Business Review, May-June 1983) dando início a 
uma longa discussão sobre o \u201cmarketing global\u201d . E' Tiryakian acredita que o en­
sino da Sociologia deveria ser transformado diante da emergência de um mundo 
globalizado (ver \u201cSociology\u2019s great leap forward: the challenge o f internatio­
nalization\u201d, International Sociology, vol. 12, na 1, 1986). O \u201cclima\u201d é outro, por 
exemplo, na França. Até meados dos anos 80 há um relativo silêncio sobre o as­
sunto. Neste momento, quando Henri Lefebvre se interessa pela problemática, 
ele se choca com \u201ca indiferença dos franceses pela mundialidade\u201d. (Ver R. Hess, 
Henri Lefebvre et VaVenture du siècle, Paris, A. M. Metaillé, 1988.)
14 VerJ. Herder, Une autre philosophic de Vhistoire, Paris, Aubier, 1964.
çào, de distanciamento, se mantém. O próprio método de 
observação participante o pressupõe. Como o observador é 
um estrangeiro, se encontra \u201cfora\u201d do ambiente que lhe inte­
ressa captar, ele deve dele se aproximar, \u201cfazer-se nativo\u201d 
para apreendê-lo de maneira convincente (Geertz dirá que 
\u201cfazer etnografía é como tentar ler um manuscrito estranho\u201d). 
fCada \u201cpovo\u201d é uma entidade, um \u201cmundo\u201d diverso dos ou-
I tros. Decifradores de uma linguagem oculta, os antropólogos 
j se vêem como estudiosos das diferenças. A categoria cultura 
( lhes permite dar conta desta pluralidade dos modos de vida 
e de pensamento.
Evidentemente uma análise que se abre para o entendi­
mento da mundialização da cultura se choca com boa parte 
da tradição intelectual existente. O que se propõe estudar é 
justamente um conjunto de valores, estilos, formas de pen­
sar, que se estende a uma diversidade de grupos sociais vis­
tos até então como senhores de seus_próprios_destinos.15 Os 
antropólogos estavam habituados a tratar com uma~escala 
restrita da realidade. Voltados para o estudo das sociedades 
primitivas, ou de segmentos das sociedades modernas, eles 
conseguiam delimitar um objeto coeso no interior de limites 
precisos - a tribo, a etnia, a cultura popular negra, etc. Neste 
contexto, observador e objeto partilham da mesma dimen­
são, do mesmo \u201ctamanho\u201d (Lévi-Strauss afirma que a Etno­
logia opera com modelos mecânicos, isto é, cujos elementos 
constitutivos possuem a escala dos fenômenos observados). 
A globalização é também uma questão de escala, por isso re­
quer uma estratégia compreensiva distinta. Esta rotação do 
pensamento se impõe, não apenas por causa de exigências
15 Sào poucos os antropólogos que têm se interessado pelo processo de 
mundialização Na maioria das vezes eles resistem ao tema. como Marshall 
Sahlins, quando pretende refutar os pontos de vista de Wallerstein (ver 
\u201cCosmologías do capitalismo, o setor trans-pacífico do sistema mundial\u201d, XVI 
Reunião da ABA, Campinas, Unicamp, 1988) Cito como uma tentativa de se 
abrir a reflexão para a compreensão de uma sociedade global o artigo de Paula 
Montero, \u201cQuestões para a etnografia numa sociedade mundial\u201d, Novos Estudos 
Cebrap, n 0 56, julho, 1993.
disciplinares (por exemplo trocar o ponto de vista antropológico 
pelo sociológico), mas devido às profundas transformações 
por que passa o mundo moderno. Urna cultura mundializada 
corresponde a mudanças de ordem estrutural. Essas transfor­
mações, que consideraremos mais adiante, constituem a base 
material sobre a qual se sustenta sua contemporaneidade.
Tomar seriamente a proposta de se pensar o mundo 
como especificidade implica, pois, deslocar o olhar analítico 
para um outro patamar. Pode-se, desta forma, integrá-lo en­
quanto elemento constitutivo da reflexão. No entanto, a preo-, 
cupaçào dos antropólogos com as diferenças permanece a 
meu ver pertinente. Como integrá-la a um horizonte que bus­
ca conferir à cultura uma envergadura tào ampla? A dúvida 
só pode ser satisfatoriamente contornada se retomarmos criti­
camente alguns pontos que avancei anteriormente.
Se por um lado o paradigma do world-system faz avançar 
o pensamento, por outro, ele não deixa de trazer problemas 
que, ignorados, podem nos levar a impasses. O primeiro de­
les é a forte inclinação economicista das análises, pois a história 
do sistema mundial se confunde inteiramente com a evolução 
do capitalismo. Como a base econômica constitui a unidade pri­
vilegiada de análise, as manifestações políticas e culturais 
surgem como seu reflexo imediato. Na verdade, esta
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais