ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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ainda a produção de 
vídeos, videogames, livros e periódicos.29 Talvez a forma 
mais evidente de se constatar este fenôm eno é voltarmos 
para as recentes megafusões entre as firmas transnacionais. 
News Corporation, de Rupert Murdoch\u2019s, \u201co barão da mídia 
australiana\u201d, inclui o New York, Post, Cbicago-Sun-Times, 
Boston Herald American , The Economist, South China 
Morning Post, Metromedia, e Fox, Time W arner Inc. concen­
tra atividades na área jornalística ( Time, Life, Fortune, 
People), cinematográfica (W arner), televisão a cabo (Ame­
rican Television, Communication Corporation); Bertelsmann 
possui canais de satélite que cobrem toda a Alemanha, inte­
resses editoriais (Bantam Books, D oubleday) e fonográficos 
(RCA, Arista); Pathé comprou MGM/UA Communication, 
Sony, CBS Records e Columbia Pictures, Matsushita, MCA/ 
Universal.30 Habitualmente, a literatura sobre com unicação 
tem tratado este processo com o sendo uma via de mão úni­
ca. Dentro da perspectiva do imperialismo cultural, as gran­
des nações estariam por trás da exploração dos países perifé­
ricos. Ele é no entanto mais com plexo. A rigor, devido à 
magnitude do mercado global, e da com petição entre as em­
presas, as fusões resultam com o uma forma de maximização 
dos lucros. As grandes corporações, independentemente de 
suas fidelidades nacionais, se juntam para m elhor adminis­
trar suas políticas (por isso, nos Estados Unidos surgem críti­
cas à \u201cinternacionalização\u201d de Hollywood).31 A estratégia das
29. Ver R. Negrine e S. Papathanassopoulos, \u201cThe internationalization of 
television\u201d, European Journal of Communication, vol. 6, nQ 1, 1991.
30 Ver A. Smith, The age of behemoths: the globalisation of mass media 
firms, N. York, Priority Press Publications, 1991.
31 Entre 1985 e 1991, várias firmas norte-americanas, produtoras de filmes, 
música e programas de TV foram adquiridas por outras, estrangeiras, com o Ca-
empresas refletem as transformações ocorridas nos níveis 
tecnológico e econômico. A forma \u201cconglomerado\u201d é uma 
resposta às exigências do mercado. A associação de empre­
sas diferenciadas, mas afins, multiplica a capacidade de ação 
global. Provavelmente o exemplo mais significativo deste 
tipo de fusão seja o casamento hardware/software. Sony/ 
Columbia, Matsuchita/MCA e Phillips/A&M Records conju­
gam a dinâmica de grupos dominantes do setor eletrônico 
com a mídia. Cultura e infra-estrutura se apóiam mutuamente.
A tendência à oligopolização desvenda uma dimensão 
diversa da fragmentação. Concentração significa controle. As 
conseqüências disso são graves, pois as agências transna­
cionais são instâncias mundiais de cultura, sendo responsáveis 
pela definição de padrões de legitimidade social. Se realmen­
te nos encontramos diante de uma totalidade mundializada, 
é preciso reconhecer que os mecanismos existentes no seu 
interior são em boa parte (mas não exclusivamente) molda­
dos pelas \u201cindústrias culturais globalizadas\u201d. Elas represen­
tam um tipo de instituição que supera em muito o alcance de 
outras instâncias, cujo raio de ação é limitado. Tanto a escola 
como as tradições populares têm um âmbito de atuação res­
trito aos domínios regional ou nacional. Por outro lado, se 
imaginarmos o mundo como um espaço no qual se afrontam 
diferentes concepções e ideários políticos, temos que a pre­
sença dos conglomerados adquire um peso desproporcional. 
Como o Estado-nação possui uma capacidade específica 
para ações internacionais, restam a eles uma grande margem 
de manobra. Vários autores têm chamado a atenção para 
este fato.32 As grandes empresas, pela sua filosofia e pelos
nal Plus, Pioneer, Bertelsmann, Australian Investment, etc. Consultar, E. Mc- 
Ababy e K. Wilkinson, \u201cFrom cultural imperialism to takeover victims?\u201d, 
Communication Research, vol. 19, n° 6, December 1992.
32. Refiro-me, por exemplo, à série de textos sobre a ordem internacional e 
o controle da informação, produzidos pela Unesco. Ver, também, H. Schiller, 
Culture Inc.: the corporate takeowr of public expression, Oxford, Oxford 
University Press, 1989.
se us interesses econômicos, são agentes políticos privilegia­
dos no contexto de uma \u201csociedade civil mundial\u201d. Elas su­
peram os partidos, os sindicatos, as administrações públicas 
ou os movimentos sociais, todos esses atores confinados ao 
horizonte dos conflitos nacionais. Isto compromete inevita­
velmente a constituição de um \u201cespaço público\u201d (como o en­
tende Habermas), restringindo a liberdade do debate demo­
crático. As maneiras de pensar, distintas da ideologia de 
mercado, dos valores de uma cultura internacional-popular, 
encontram um espaço reduzido, previamente demarcado, 
para se manifestarem. A oligopolização, longe de favorecer o 
pluralismo, reforça um sistema de crenças, integrando todos 
a uma ordem coercitiva.
Centralização ou descentramento? A discussão oscila en­
tre dois extremos. Uma primeira proposta nos induz a imagi­
nar a existência de um indivíduo inteiramente livre, solto na 
malha social, capaz de escolher, sem hesitação, suas roupas, 
seus programas de televisão, seus objetos. Cada escolha re­
fletiria a profundidade de seu Ser. Mas a tendência real de 
oligopolização dos cartéis de cultura aponta noutra direção. 
Controle, monopólio e tolhimento da liberdade surgem 
como traços intrínsecos ao processo de mundialização. Seria 
possível nos desvencilharmos desta visão esquizofrênica? 
Creio que sim, mas para isso devemos afirmar: concentração 
e fragmentação não são termos excludentes. Retomo a litera­
tura empresarial, com a qual iniciei minha reflexão.
Quando os administradores globais dizem que \u201cuma com­
panhia é um sistema\u201d, eles estão propondo: primeiro, que as 
partes existem enquanto realidades específicas; segundo, 
elas podem, ou melhor, necessitam ser articuladas entre si. 
Cabe à gestão unir o que se encontra disperso. Daí o proble­
ma que enfrentam: como administrar, de maneira eficiente, 
esses elementos desconexos? São essas as premissas de um 
conceito, fartamente utilizado pela inteligência empresarial, o 
de sinergia - \u201ccoordenação de uma companhia de forma que 
o funcionamento do todo é mais vantajoso do que o funcio-
namento das partes\u201d. Mas o que os administradores enten­
dem por isso? Cito dois exemplos. Sony Corporation, pro­
prietária da Sony Music, Columbia Pictures e da Columbia 
House, descobriu uma maneira de colocar suas divisões em 
contato permanente. Ela induziu um artista como Michael 
Jackson, contratado por Sony-CBS Records, a realizar um fil­
me produzido pela Columbia Pictures. Com isso Sony conse­
guiu maximizar as relações cross-media, vinculando música, as­
tro e cinema, aproveitando ainda sua estrutura publicitária 
para a promoção da empresa como um todo. Turner Pu­
blishing e Citadel Press co-produziram um livro chamado 
Kisses, presente para o dia dos namorados. O livro continha 
150 páginas de fotografias oriundas dos arquivos da MGM- 
Tumer Entertainment. Simultaneamente, a CNN, do mesmo 
grupo empresarial, veiculava os anúncios. Uma estratégia 
clara: o catálogo de fotografias inspira o livro, e o canal de te­
levisão da firma se encarrega da publicidade. Uma compa­
nhia é, portanto, um todo no qual as divisões contribuem 
para o andamento do conjunto. Cada \u201cgrão\u201d está sinerge- 
ticamente articulado a outros. Por isso é importante para as 
empresas possuírem windows (uma linguagem de computa­
dor) na produção e veiculação dos produtos. Elas são os ca­
nais de comunicação entre as partes. A \u201cjanela\u201d livro se abre 
para a fotografia e o cinema, que por sua vez se comunicam 
com os discos, vídeos e spots publicitários.
Sistema: esta é a palavra-chave. Como as companhias, o 
mundo é um sistema no qual os espaços locais devem ser re­
vertidos pela mentalidade gerencial. Pouco importa se o pen-» V
sarnento apreende esta realidade em termos ideológicos.
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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