ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
235 pág.

ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


DisciplinaSociologia Geral1.326 materiais14.639 seguidores
Pré-visualização50 páginas
continuidade dos laços de um passado agrícola. Entretanto, 
no seu conjunto, os países europeus conhecem mudanças 
profundas - terceira revolução industrial, mecanização do 
campo, generalização do modo de vida motorizado, difusão 
das telecomunicações, envelhecimento da população, parti­
cipação cada vez maior da mulher na força de trabalho, redu­
ção da jornada de trabalho, aumento do tempo de lazer. Um 
exemplo: em I960, a taxa de carros por habitantes variava 
entre 1 p/ 8 na França e 1 p/ 30 na Itália. Esses desvios se re­
duzem para: 1 p/ 3 (Alemanha, França, Bélgica e Itália) ou 1 
p/ 4 (Inglaterra, Dinamarca e Irlanda). O que permite a 
Scardigli afirmar: \u201cDe um país a outro, quer se trate de se ves­
tir, ou de sair de férias, aos consumidores são propostos - ou 
impostos - uma gama extensa, mas uniforme de bens seme­
lhantes, produzidos e distribuídos em grande escala. Através 
dos meios de comunicação, ou da vida escolar e profissional, 
difunde-se um número cada vez mais restrito de modelos de 
organização do modo e do ciclo de vida do cotidiano\u201d.49
Mas é possível ir mais longe em nossa análise. Sociólogos 
e geógrafos denominam de \u201cestrutura de consumo\u201d o gasto 
individual com um conjunto de itens - alimentação (inclui 
bebidas e tabaco), alojamento (energia), transporte e teleco­
municações, equipamentos para habitação, roupas e calça­
dos, cultura e lazer, outros bens de serviços . Eles podem, as­
sim, isolar uma série de fatores, conseguindo estabelecer 
uma escala de comparação entre os países. Geralmente, o 
que se faz é tomar os Estados Unidos como unidade de refe­
rência, tomando possível medir a \u201cdistância\u201d de cada nação 
em relação a este marco zero. Os resultados, para um perío­
do relativamente longo, 1960-1980, mostram que para todos
49. Idem, p. 11.
os itens ha uma tendência de aproximação. Os estudos afir­
mam: o modo de vida europeu\u201d se avizinha do \u201cmodo 
americano\u201d (seria mais correto dizer: o processo de mun- 
dializaçâo se acelera na Europa, nivelando-o com os Estados 
Unidos). De qualquer maneira, os dados empíricos indicam, 
em todos os países, que os gastos com a alimentação caem 
vertiginosamente (na França, eles passam de 49,9% em 1950 
para 19,6% em 1989); já as despesas com lazer e serviços 
(restaurantes, hotéis) aumentam. Esta convergência é ainda 
maior quando se utilizam outras formas de comparação. Alguns 
estudos sublinham: \u201cQuando se examina, não mais as estru­
turas (as posições relativas de grupos de produtos), mas os 
níveis absolutos de consumo, percebe-se que para todos 
os domínios, o \u2018nível americano\u2019 (a aspa é minha) aumentou 
nos últimos 25 anos, 1960-1985, sendo que sobretudo nos 
anos mais recentes\u201d.50 O consumo de eletrodomésticos, tele­
fone, televisão, automóveis, viagens, que no passado se as­
sociava à idéia de americanismo, se nivela.
Esses números não são válidos apenas para a União Eu­
ropéia, eles se aplicam também ao Japão. Em 1953, os gastos 
com alimentação e roupas, nos Estados Unidos, Japão, Fran­
ça e Alemanha, eram de respectivamente: 35,6%, 62,5%, 
63,7%, 53% - uma distância importante. Para 1981 temos os 
seguintes resultados: Estados Unidos (25,4%), Japão (32,3%), 
França (28%), Alemanha (34,9%).51 No início dos anos 80, a 
relação de geladeiras por domicílios era: 99% (Japão), 92% 
(Suécia), 87% (Países Baixos), 71% (Estados Unidos). A varia­
ção da densidade de telefones por habitantes também é pe­
quena: 1 telefone para 1,1 hab. (Suécia), 1 p/ 1,3 hab. (Esta­
dos Unidos), 1 p/ 1,6 hab. (Alemanha), 1 p/ 1,8 hab. (Japão)
- dados para 1984-1986.52 Na verdade, nos encontramos diante
50. \u201cRevolution et les perspectives des besoins des Français et leur mode
de satisfaction", Paris, Conseil Économique et Social, 1990, p. 302.
51 Dados in V. Scardigli, op. cit.
52 Dados in \u201crevolu tion et les perspectives\u2019.\u2019,., op. cit.
de uma tendência mundial. Por isso os executivos globais 
podem dizer: \u201cAs mudanças socioculturais em curso re­
duzem as diferenças entre os consumidores dos países in­
dustrializados, aproximando o pólo norte-americano, euro­
peu e japonês\u201d.53 A tríade (Estados Unidos - União Européia 
-Jap ão) se configura não apenas como núcleo hegemônico 
de produção (como insistem os economistas), mas como 
mercados segmentados cujas demandas são relativamente 
homogêneas.
Mas faria sentido aplicarmos essas conclusões ao Tercei­
ro Mundo? À primeira vista, não. Os países do Sul (eufemis­
mo criado pelos burocratas do Norte) dificilmente poderiam 
ser comparados ao desempenho da tríade. Esta não é, po­
rém, a questão central para a nossa discussão. Importa enten­
der como a modernidade-mundo se reproduz de maneira 
desigual no conjunto desses países. Qualquer manual de 
marketing ensina que o consumo e a renda são partes de 
uma mesma equação. Mas eles acrescentam: \u201cOs países 
semidesenvolvidos possuem freqüentemente setores indus­
triais altamente desenvolvidos, propiciando uma oportunida­
de mercadológica para os produtos industriais. O mercado 
de consumo nesses países tem também um tamanho signifi­
cativo e uma renda per capita considerável. Alguns deles, 
como o Brasil, possuem cidades e regiões com todas as ca­
racterísticas dos países desenvolvidos. Para efeito de mar­
keting, esses mercados dentro do mercado deveriam ser con­
siderados como se fossem um distrito, ou um mercado 
equivalente aos países desenvolvidos\u201d.54 O espaço geográfi­
co do consumo nos países do Sul não é homogêneo, ele 
concentra riqueza e pobreza em determinadas áreas. Aos
53 A, Vulpian, "Lem ergence de typologies transnationales\u201d, op. cit., p. 67. 
Sobre a transformação do consum o no Japão, consultar G. Fields, Gucci on the 
ginza. Japan's new consumer generetion, Tokyo/N. York, Kodansha Interna­
tional, 1989.
54. W. J. Keegan, Multinational marketing management, N. Jérsei, Pren- 
tice-Hall Inc., 1984, pp. 78-79.
executivos globais interessam as core area , nas quais se en­
contram uma população com um potencial de consumo pró­
ximo ao dos níveis internacionais.* São nesses espaços, e em 
determinados segmentos, que os objetos da modernidade- 
mundo - automóveis, telefones, geladeiras, eletrodomésticos
- se concentram. Ou, com o pondera cinicamente um desses 
autores globais: \u201cNão importa que haja uma diferença de 
1.000% entre a renda p er capita americana e a brasileira: a 
loja de chocolates Godiva ou a Fendi alcançam bom nível de 
vendas em São Paulo, Paris, Buenos Aires e em Nova York. 
O que muda é o número de lojas e o volume de vendas\u201d.55 O 
exemplo das franquias das marcas é um bom indicador deste 
processo desigual de globalização. Apesar dos problemas so­
ciais sérios que enfrenta, nas áreas de educação e de saúde, e 
da disparidade de renda da população, o Brasil é o oitavo 
maior faturamento mundial por lojas franqueadas, superando 
a Itália, a Espanha, e aproximando-se do Japão. Já a percen­
tagem de franquias em relação ao PIB (0,7% ) mostra uma 
participação na econom ia superior ao mercado espanhol, ita­
liano e alemão. Daí o interesse das grandes firmas de fast- 
food - McDonald\u2019s, Burger King, Subway - e das griffes de 
perfume e de confecções, pelo mercado brasileiro.** O Ter­
ceiro Mundo não está excluído da sociedade mundial. Por
* No caso do Brasil, o territorio nacional é dividido em duas grandes áreas. 
O \u201cnúcleo global\u201d (70% da p op u lação) e o \u201cp eriférico\u201d (30% ). O \u201cnúcleo g lobal\u201d 
por sua vez se subdivide em quatro partes. A core area concentra 40% da popu­
lação e abrange as regiões m etropolitanas d e São Paulo, capitais do Sul e Sudes­
te, e algum as cidades do interior. Este é o principal m ercado dos ob jetos de con­
sumo. Ver \u201cD istribuição G eográfica d o M ercado Brasileiro - 1986\u201d, S. Paulo, 
Alpha.
55. M. G. Souza; A. Nem er, Marca & distribuição: desenvolvendo domina­
ção estratégica e vantagem competitiva
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
2 aprovações
Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
2 aprovações
Carregar mais