ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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o 
impacto da modernidade as desloca enquanto fontes de le­
gitimação. Nos países europeus, com a Revolução Industrial, as 
culturas tradicionais se desagregam. O industrialismo e a for­
mação das nações comprometem definitivamente os antigos 
modos de vida, regionais, locais, cujas manifestações literá­
ria, poética e espiritual possuíam características particulares.1
1. Sobre a cultura tradicional européia, consultar R. Muchembled, Culture 
populaire et culture des élites, Paris, Flammarion, 1978.
Por isso os folcloristas são uma invenção do século XIX. Eles 
descobrem que as \u201csuperstições\u201d são sobrevivências de um 
passado longínquo, mas que se encontram ameaçadas. Dian­
te da transformação da sociedade, eles buscam desesperada­
mente uma atividade salvacionista. Curiosos dos costumes 
populares, eles colecionam os pedaços desta memória fraccio­
nada, procurando reificá-la nos museus, livros e exposições.2 
No fundo, todo seu esforço consiste na construção de um sa­
ber enciclopédico, cujas raízes sociais se extinguiram.
O cenário é evidentemente outro, na América Latina. Aí, 
a constituição da modernidade é um processo complexo e 
difícil. No entanto, mesmo assim, a crise de legitimidade das 
culturas populares é visível. Isto não ocorre no século XIX, 
como na Europa, mas se cristaliza nos anos vindouros, com a 
formação das sociedades nacionais. Na Argentina, Brasil e 
México, as mudanças sociais e a constituição do Estado-na- 
ção irão rearticular a força das tradições. A modernização da 
sociedade tem, como contrapartida, uma reorganização da 
esfera cultural, sobretudo com a consolidação, nos anos 60 e 
70, das indústrias culturais (Televisa, Rede Globo). Não que­
ro passar ao leitor a impressão de que o processo é análogo 
ao europeu. Seria insensato. Mas sublinho o aspecto que in­
teressa para nossa discussão. Mesmo que a presença das tra­
dições populares seja real, ela só pode se exercer enquanto 
fato local. Sabemos que não existe uma, mas um conjunto 
fragmentado de culturas populares, cujo raio de ação é cur- 
to-circuitado pelo Estado-nação e pelas indústrias culturais. 
As festas, o artesanato e os divertimentos são perpassados 
pela totalidade das relações capitalistas.3 A tradição é pene­
trada, e modificada, nos seus elementos essenciais. Como o 
culto dos mortos, no México. No passado, ele estabelecia um
2. Ver, G. Cocchiara, Storia delfolklore in Europa, Torino, Einauldi, 1952; R. 
Dorson, The british folklorist: a history, Chicago, The University of Chicago Press, 
1968.
3 Ver N. Garcia Canclini, As culturas populares no capitalismo, S. Paulo, 
Brasiliense, 1983
vínculo entre os homens e seus ancestrais. Uma forma de se 
vivificar as relações sociais. Hoje, as mudanças são drásticas. 
O culto transformou-se numa festa, na qual tradição e econo­
mia monetária (inclusive com a exploração do turismo) en­
contram-se amalgamadas. Algo semelhante ocorre com as 
crenças indígenas ou afro-americanas. Ao longo da história 
da América Latina, elas subsistem, mas em boa parte sincre- 
tizadas com as mais diversas influências. Entretanto, dificil­
mente elas poderiam ser reivindicadas como sendo as únicas 
tradições das classes populares. Penetradas pelo descen- 
tramento da modernidade, elas sofrem a concorrência direta 
de outros credos (pentecostalismo, catolicismo popular, espi­
ritismo de Allan Kardec, etc.). Pluralidade que, longe de confir­
mar a continuidade da tradição, expõe um quadro atual de 
diversidade, no qual a autoridade religiosa se fragmenta.
Se as tradições populares entram em conflito com as so­
ciedades industrialistas, a autonomia das artes decorre justa­
mente do seu advento. Não pretendo me alongar sobre este 
ponto, já bastante trabalhado pelos sociólogos e historiado­
res, mas sublinho: é somente na passagem do século XVIII 
para o XIX que o universo artístico toma-se independente 
das injunções políticas e religiosas.4 Até então, a obra de arte 
cumpria uma função religiosa (habitava as igrejas e os con­
ventos), política (luta entre burguesia iluminista e o poder 
aristocrático), ou ornamental (os retratos nas cortes ou nas 
famílias dos grandes comerciantes). Este constrangimento se 
reforçava ainda com a existência do mecenato. O artista de­
pendia materialmente daquele que o sustentava. A modernidade 
reformula este quadro. Surge o artista enquanto indivíduo li­
vre (isto é, capaz de escolher sçus temas e sua linguagem), e 
uma esfera autônoma (quase sagrada) da arte enquanto tal. 
Os julgamentos políticos, religiosos, ou comerciais (antago­
nismo entre os românticos e a literatura de \u201cmassa\u201d, o folhe-
4. Consultar, J. P. Sartre, L\u2019iäiot de la famille, Paris, Gallimard, 1972; R. 
Williams, Culture and society, N. York, Columbia University Press, 1958.
tim) são substituídos por critérios exclusivamente estéticos. A 
afirmação de Flaubert, \u201ca arte pela arte\u201d, revela um novo espí­
rito, a presença de um domínio fechado sobre si mesmo, cujas 
regras de funcionamento escapam às ingerências externas.
A autonomia das artes (literatura, música, artes plásticas) 
possibilita a criação de uma nova instância de legitimidade 
cultural. Legitimidade que nào deriva apenas dos valores in­
trínsecamente artísticos, mas se associa a uma determinada 
classe social. A \u201cgrande arte\u201d, como nos mostram Lukács e 
Lucien Goldman, de alguma forma exprime uma estrutura na 
qual a burguesia detém um papel preponderante. A autori­
dade da esfera artística é, simultaneamente, estética e social. 
Muito do debate sobre \u201ccultura burguesa x cultura proletá­
ria\u201d, \u201ccultura erudita x cultura popular\u201d, \u201cbom gosto x mas­
sificação\u201d, apesar da redução que essas polaridades indu­
zem, resulta da vinculação da cultura a um tipo específico de 
dominação. Valores e disponibilidades estéticas, que se re­
produzem com as instituições que os socializam entre o 
grande público. Penso nos museus e nas escolas, espaços de 
transmissão de um saber legitimamente consagrado. Os indi­
víduos podem desta forma serem hierarquizados como sen­
do \u201cmais\u201d ou \u201cmenos\u201d cultos, pois a esfera erudita serve 
como escala em relação à qual os gostos e as pessoas sào 
aferidos. São esses os pressupostos das análises de Bourdieu. 
Em A Distinção, os julgamentos estéticos são ordenados se­
gundo os valores clássicos\u201d (isto é, cuja validade é historica­
mente definida pela sociedade burguesa do século XIX) vei­
culados pela educação (escola, museus, livros, programas 
culturais no rádio e na televisão, etc.).5 Concepção de mundo 
que permite aos indivíduos se distinguirem socialmente, mas 
que encobre um mecanismo profundo de discriminação. 
Todo o trabalho de Bourdieu é mostrar como esta segrega­
ção social se inscreve na materialidade da escolha dos obje­
tos. Quando alguém de classe média, entre o \u201cConcerto para
5. P. Bourdieu, La distinction, Paris, Minuit, 1979
mào esquerda\u201d de Ravel e Charles Aznavour (um cantor po­
pular), aponta para a segunda opção, seu julgamento não re­
vela apenas uma preferência individual. Sem ter consciência 
de seu ato, tal pessoa desvenda sua indigência cultural, sua 
condição de classe. Ela \u201csó poderia ter agido assim\u201d. Seu ca­
pital cultural é suficiente para este \u201cgosto\u201d módico, mas inca­
paz de se aplicar a um Ravel (pelo menos a um concerto tão 
pouco conhecido, diferente de \u201cBolero\u201d, já divulgado pela 
indústria cinematográfica, e pelas emissões populares de mú­
sica clássica). O mecanismo é análogo nas classes populares. 
Um operário consegue discernir entre alguns nomes de pin­
tores famosos, como Picasso, mas sem compreendê-los real­
mente na natureza de suas obras. Ele reconhece um signo 
(veiculado pela escola e pela mídia), sem conhecê-lo pro­
priamente. Já os membros das classes superiores possuem 
capital cultural para tanto. Eles podem, inclusive, discursar 
sobre as fases da vida de um pintor, o cubismo
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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