ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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em Picasso, 
demonstrando a familiaridade e a competência cultural que 
os caracteriza.
Quando lemos sobre Sociologia da Cultura, tudo se passa 
como se a autonomização do mundo das artes fosse um fe­
nômeno abrangente e universal. Mas seria isso verdadeiro? 
Basta olharmos a América Latina para percebermos que nào. 
No Brasil, quando os poetas modernistas, nos anos 20, canta­
vam as asas do avião, os bondes elétricos, o cinema, o jazz- 
band, a indústria, eles procuravam por sinais de modernidade. 
O modernismo queria ser um movimento radicalmente novo, 
daí sua atração pelas vanguardas européias. No entanto, sua 
visão da técnica, da velocidade, era um tanto desfocada. Ela 
encobria a existência de um país provinciano que se ajustava 
mal ao ideal esculpido. O Brasil possuía \u201ctradição\u201d em dema­
sia. O processo de industrialização era incipiente e a propos­
ta de modernização, realizada pelo Estado, encontrava-se 
ainda no horizonte dos tempos (só se consolida nos anos 
50). O modernismo ocorreu sem modernização, manifestan­
do um hiato entre sua expressão e a sociedade que lhe dá
sustentação/1 Na Europa ocidental, ele exprimia o dinamismo 
da sociedade industrial, o progresso material, a mobilidade 
da vida urbana. O mundo emergente da Revolução Industrial 
exigia do pensador e do artista uma reformulação de suas idéi­
as. O impressionismo e o art-nouveau correspondiam à rea­
lidade social que os envolvia. Eles traduziam a materialidade da 
vida moderna. Os intelectuais brasileiros tinham apenas a in­
tenção de ser modernos. Sua proposta, longe de ser algo pal­
pável, era sobretudo uma projeção. Não é por acaso que a 
partir de 1924 o modernismo se identifica com a questão na­
cional, pois tratava-se de construir um país que pudesse de fato 
espelhar a intenção utopicamente imaginada. Pode-se dizer 
o mesmo dos muralistas mexicanos. Como sublinha Garcia- 
Canclini: \u201cRivera, Siqueiros e Orozco propuseram sínteses 
iconográficas da identidade nacional, inspirados na obra dos 
maias e dos astecas, dos desenhos e das cores de (alfarería 
poblana), as (lacas) de Michoacan e os avanços experimen­
tais das vanguardas européias\u201d.7 A mescla de elementos não 
é um anacronismo, mas a resposta possível da modernidade 
mexicana, que somente existia enquanto potencial, canaliza­
do pela ação do Estado e configurado na busca de uma iden­
tidade nacional. O apelo à tradição era uma exigência social. 
A recuperação da cultura popular foi a maneira encontrada 
para se exprimir os ideais vanguardistas e o projeto de constru­
ção nacional. Os artistas latino-americanos encontram-se dis­
tantes do ideal de Flaubert. O componente político atravessa 
constantemente o ideário nacionalista, comprometendo o pro­
cesso de autonomização. Arte e política são termos comple­
mentares. O artista é um intelectual \u201cengajado\u201d, cujo compro­
misso com o destino nacional encontra-se indelevelmente 
expresso no seu texto, sua pintura, sua música, sua poesia.8
6. Ver R. Ortiz, A moderna tradição brasileira, S. Paulo, Brasiliense, 1988.
7. N Garcia Canclini, Culturas híbridas: estrategias para entrar y salir de la 
modernidad, México, Grijalbo, 1989, pp. 78-79.
8 Para uma visão abrangente sobre a América Latina, ver J . Franco, The 
modem culture of Latin America, London, Penguin Books, 1970.
Mas o exemplo latino-americano pode parecer suspeito. 
Afinal, poderíamos tomá-lo como sintoma de subdesenvolvi­
mento, sinal de uma modernidade incompleta. Um contra- 
exemplo nos ajuda a dirimir as dúvidas. Também nos Esta­
dos Unidos o panorama é semelhante. A evolução cultural 
norte-americana se faz orientada por dois princípios: a con­
cepção puritana da vida e o sucesso da sociedade capitalista. 
Este ambiente adverso faz com que inúmeros intelectuais 
americanos se exilem na Europa, onde encontravam uma at­
mosfera propícia às suas idéias (Henry James, Ezra Pound, T. 
S. Eliot, Gertrude Stein, Ernest Hemingway). A rigor, as gran­
des inovações modernistas nos Estados Unidos eram o jazz e 
o cinema, ambos centralizados pela indústria cultural, e igno­
rados pelo universo \u201cculto\u201d. Até a década de 40, os museus 
americanos expunham sobretudo as pinturas européias, 
consagrando sua hegemonia entre os artistas. Somente com 
o Expressionismo Abstrato, a dominância européia se rom­
pe. Pela primeira vez, um grupo de pintores americanos se 
constitui enquanto vanguarda, definindo um universo estéti­
co independente, no qual as imposições da sociedade e o 
determinismo estrangeiro são contestados.9 Como oportuna­
mente observa Daniel Bell: \u201cEmbora tenham havido corren­
tes modernistas, até a Segunda Guerra Mundial, não existia 
nos Estados Unidos nenhuma cultura modernista coerente, 
que dominasse qualquer gênero ou campo de atividades. A 
emergência - e o rápido domínio - do modernismo na cultu­
ra americana ocorreu bem após a guerra. Ele surgiu com o 
colapso das pequenas cidades, o predomínio dos protestan­
tes na vida americana, a emergência de um novo urbanismo, 
a explosiva expansão das universidades, a emergência dos 
intelectuais de Nova York com árbitros culturais, e o aumen­
to de uma nova audiência de classes média... Pela primeira 
vez na vida dos americanos, o artista, e nào o público, ditava
9 S. Guilbaut, Comment New York vala 1'idéed\u2019art moderne, Marseille, Ed. 
Jacqueline Chambón, 1989
a definição do que seria cultura e a apreciação dos objetos 
culturáis\u201d.10 Mas, é necessário acrescentar, esta dominância é 
passageira. Nos anos 50, a pop art se encarrega de reorientar 
o curso das coisas, retomando a sociedade como fonte prin­
cipal de inspiração e de referência.
Dizer que a esfera das artes se autonomiza parcialmente 
significa considerar como impropria urna nítida separação 
entre um pólo de produção restrita e outro de produção am­
pliada. Esta contradição, que na França constitui-se no nú­
cleo da oposição entre o artista e o mercado, se dilui. No 
caso brasileiro, devido à fragilidade do capitalismo existente, 
uma dimensão particular dos bens simbólicos não consegue 
se expressar plenamente. O exem plo da literatura é escla­
recedor.11 Dificilmente poderíamos ter, com o na Europa, a 
constituição de um público leitor que pudesse, por um lado, 
liberar o escritor do mecenato, por outro, promovê-lo segun­
do critérios estritamente estéticos. Para isso contribui de ime­
diato a baixa escolarização e o elevado índice de analfabetis­
mo da população (1890: 84%; 1920: 75%; 1940: 57%). Neste 
contexto, o comércio de livros só pode ser incipiente. A tira­
gem de um romance era em média de mil exemplares, e um 
best-seller,; na década de 20, não ultrapassava 8 mil cópias.* O 
escritor não podia \u201cviver de literatura\u201d, o que o levava a exer­
cer funções no magistério e nos cargos públicos. O relacio­
namento dos intelectuais com a esfera de bens ampliados, 
como o jornal, tinha de ser específico. Como se dizia na épo­
ca, os jornais eram o único meio de o escritor se fazer ler. No 
Brasil, as relações do intelectual com seu público se inicia­
ram pelo mass media. Para o escritor, o jornal desempenha-
10. D. Bell, \u201cResolving the contradictions o f m odernity and modernism, 
Society\u201d, vol. 27, nQ 4, May-June 1990, pp. 67-68.
11. Ver A. Cândido, Literatura e sociedade, S. Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1985; 
A. L. Machado Neto, Estrutura social da república das letras: sociologia da vida 
intelectual brasileira, 1870-1930, S. Paulo, Grijalbo, 1973.
* Números que se com param ao m ovim ento editorial francês na passagem 
do século XVIII para o XIX.
va funções econômicas e sociais importantes; ele era fonte 
de renda e de prestígio. Devido à insuficiente institucio­
nalização da esfera literária, um órgão de \u201cmassa\u201d cumpre o 
papel de instância de legitimidade da obra literária. No caso 
dos Estados Unidos, não é a fragilidade que compromete o 
processo de autonomização.
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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