ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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\u201cCom isso um 
ator pode iniciar uma canção a qualquer momento, e em
* Em 1989, a índia produziu 781 longa-m etragens contra apenas 345 nos 
Estados IJnidos. No entanto, enqu anto os film es am erican os penetram o m erca­
do mundial com o um todo, os indianos se restringem praticam ente ao território 
nacional. Ver Statistical Yearbook, 1990, 1991.
19 O taçao in P. Manuel, "Popular Music in India: 1901-1986\u201d, op. cit., p. l60.
qualquer lugar. Um casal, saltitando num parque, canta 
acompanhado por uma orquestra de cordas invisíveis; ou 
durante uma canção, o ator é mostrado em seu apartamento 
em Bombaim, e, em seguida, numa queda d\u2019água no Ca­
chemir. Este uso da música parece implausível para os in­
dianos educados, para não mencionar os ocidentais, acostu­
mados com uma gramática da verossimilhança. Mas para a 
maioria dos expectadores tais efeitos parecem naturais.\u201d Os 
cantores, ausentes das imagens, desfrutam portanto de um 
prestígio, igual ou superior, aos atores. Com suas vozes eles 
participam deste star system, cuja base é uma reinterpretação 
da tradição indiana. As canções são modais (não se baseiam 
na escala harmônica) e apresentadas em urdu ou hindi, as 
línguas com maior difusão no país. Os musicais cumprem as­
sim uma função de solidariedade, unificando as diversas 
etnias que compõem o Estado-nação.
Outro exemplo: a música \u201cenka\u201d no Japão. Como o filme 
indiano, ela não pertence à tradição ancestral japonesa, mas 
é fruto de um acomodamento à modernidade iniciada pela 
Revolução Meiji. Seus traços principais: a escala pentatônica 
(sem o 4- e 1- graus) e o estilo vocal melismático. A escala é 
distinta da modal indiana, e da harmônica (maior e menor), 
o que dificulta a percepção para os não-japoneses. O estilo 
melismático - as vogais se estendem para o conjunto das no­
tas, além da dimensão estética - tem uma função específica: 
transmitir o texto para o ouvinte. \u201cConseqüentemente, o rit­
mo da enka permanece numa íntima relação com a língua ja­
ponesa. Em japonês, a maior parte das consoantes é seguida 
de vogais. A palavra é o resultado das seqüências que ligam 
unidades de consoantes-vogais. A cada uma dessas sílabas é 
atribuída uma mesma cadência métrica. Esta uniformidade 
reflete por sua vez na música. O ritmo da enka encontra seu 
fundamento no idioma japonês.\u201d20 Texto, música e ritmo se
20. M Okada, \u201cMusical characteristics o f Enka\u201d, Popular Music, vol. 10, n2 3, 
October 1991, p 290.
fundem numa mesma unidade. Certamente uma musi­
calidade desta natureza encontra barreiras para ser com­
preendida. Por isso o Japão, apesar de sua posição privile­
giada no ranking mundial - é o segundo maior produtor de 
discos - nào consegue \u201cexportar\u201d sua música.21
Os exem plos do cinema indiano e da "enka\u201d sugerem 
duas coisas. Primeiro, o modo de produção industrial de 
cultura não é suficiente para que ela se mundialize. O cine­
ma pode ser assim explorado com ercialm ente, articulando 
as tradições indianas às exigências de um meio técnico mo­
derno. Isto ocorre também na América Latina, onde a rádio 
e a televisão reciclam as tradições populares, inserindo-as, 
ressemantizadas, no texto das histórias a ser contadas.22 Este 
é um padrão de desenvolvim ento que se repete em vários 
países. Em cada um deles, as indústrias culturais combinam 
as tecnologias, os interesses pecuniários, e as especificida­
des culturais. No entanto, elas se limitam aos contextos na­
cionais. Segundo, as produções marcadamente nacionaliza­
das contrastam com o processo de mundialização. Isto 
significa que o mercado internacional encerra disponibilida­
des estéticas nas quais os gostos se encontram predetermi­
nados. A riqueza das m anifestações culturais, específicas a 
certos povos, enfrenta uma barreira intransponível. Sua au­
tenticidade é limitativa. Daí o interesse das grandes corpo­
rações em fabricarem produtos culturais mais abrangentes, 
os empresários diriam \u201cuniversais\u201d. É o caso da telenovela 
brasileira. Quando exportada, ela scfre uma profunda trans­
mutação. O número de capítulos é reduzido (passa de 180- 
200 capítulos para uma média de 60), a história é com­
pactada, o merchandising é retirado, assim com o tudo que
21. Ver S. Kawata, \u201cT h e japanese record industry\u201d, Popular Music, vol. 10, 
n\u201c 3, O ctober 1991; Y. Oshim a, \u201cStratégies des industries audiovisuelles japo- 
naises\u201d, tese de doutorado, Nanterre, Université de Paris X, 1988.
22. Ver, J. M artin-Barben>, De los medios a las mediaciones, México, 
Gustavo Gili, 1987.
lembre em demasia os matizes locais. O que é sobremaneira 
brasileiro torna-se supérfluo, sendo por isso eliminado. A tri­
lha sonora é modificada, sendo introduzida uma faixa com 
músicas de fácil entendimento do público internacional. Os 
produtores de telenovelas reinterpretam as cenas num códi­
go estético, de uma linguagem de vídeo, comum aos consu­
midores do mercado exterior. O mesmo faz a Toei Anima­
tion com os desenhos japoneses.23 Ela se apropria de uma 
tradição mundializada, o desenho animado, adaptando-a às 
histórias consagradas de ciência-ficção, aventura e melodra­
mas. A introdução de técnicas como a \u201canimação limitada\u201d 
permite ainda uma adequação da história aos imperativos 
econômicos; elas economizam tempo, dinheiro, restringindo 
o fluxo das imagens. Mas para que o produto se adaptasse in­
teiramente à expectativa da audiência global, seus produtores 
não esqueceram de um pequeno detalhe - as modificações 
gráficas eliminaram os traços demasiadamente orientais dos 
olhos dos personagens.
As trocas internacionais não são, porém, simples inter­
câmbios econômicos, elas determinam uma escala de avalia­
ção, na qual os elementos específicos, nacionais ou regio­
nais, são rebaixados à categoria de localismo. O caso da música 
\u201cenka\u201d é sugestivo. No Japão, ela é desvalorizada pela juventude 
como uma manifestação desgastada, passadista. Os jovens 
preferem um tipo de escuta sound-oriented, no qual a sono­
ridade supera a riqueza do texto. O ouvinte deixa assim de 
se interessar pelo conteúdo, pela mensagem melismati- 
camente construída, fixando-se no encadeamento do ritmo.24 
Para isso a pop music, sobretudo quando veiculada em in­
glês, é ideal. Ela remete o texto para segundo plano, promo­
vendo a sonoridade das canções. Poderíamos imaginar que a 
oposição \u201cenka\u201d x \u201cpop music\u201d seja um embate entre \u201cOrien-
23 Ver B Comier-Rodier e B. Fleury-Vilatte, \u2018\u2018The cartoon boom \u201d, The 
Unesco Courier, O ctober 1992.
24. J Kitagawa, \u201cSom e aspects o f Japanese popular m usic\u201d, Popular Music, 
vol. 10, na 3, O ctober 1991.
te\u201d e \u201cOcidente\u201d. Os jovens, ao declinarem seu passado, te­
riam se \u201cocidentalizado\u201d. Mas creio ser esta uma interpreta­
ção restrita do que está ocorrendo. O mesmo antagonismo se 
revela em outros lugares. Também na França a pop music su­
pera as \u201cvelhas\u201d canções. Não se trata porém de uma mera 
preferência dos jovens, ela se associa a todo um modo de 
vida - freqüência às casas noturnas, concertos, shopping 
centers, etc.25 As rádios FM, que massivamente as veiculam, 
não são apenas um meio de comunicação, mas instâncias de 
consagração de um determinado gosto, intolerante com o es­
tilo chansonnier. No Brasil, o conflito entre rock x samba re­
vela a mesma contradição. Enquanto símbolo da identidade 
nacional, isto é, um valor aceito internamente, o samba vê-se 
ameaçado por uma musicalidade estranha às suas raízes his­
tóricas. Na verdade, nos encontramos diante de um fenôme­
no mundial, no qual as novas gerações, para se diferencia­
rem das anteriores, utilizam símbolos mundializados. A idéia 
de sintonia surge assim como elemento de distinção social. 
Escutar rock-and-roll significa estar sintonizado com um con­
junto de valores, vividos e pensados como superiores. Prefe­
rir outros tipos de canções é sinônimo de descompasso, de 
um comportamento
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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