ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura
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ORTIZ, Renato. Mundializacao e Cultura


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economia capitalista mundial, a conseqüência de nos­
sas tentativas, coletivas e históricas, em nos relacionarmos 
com as contradições, as ambigüidades, e a complexidade da 
realidade sócio-política desse sistema particular\u201d.21 Não nos 
encontramos mais diante de um mero economicismo, há a 
tentativa de se conferir ã dimensão cultural uma abrangência 
maior. No entanto, o esforço analítico confirma sua rigidez 
anterior. Cultura nada mais é do que a esfera ideológica des­
te world-system. Os limites epistemológicos nos impedem de 
pensá-la como \u201cmentalidade\u201d, como fazem os historiadores, 
ou \u201cuniverso simbólico\u201d, como diriam os antropólogos, dei­
xando de lado uma infinidade de manifestações, gratuitas ou 
não, da vida dos homens. Por isso Wallerstein irá associá-la à 
idéia de geopolítica, caracterizando-a como \u201ca estrutura na 
qual o sistema mundial opera\u201d.22 A rigor, os universos cultu­
rais teriam apenas uma função de \u201cgeocultura\u201d, assegurando 
a manutenção de uma ordem que se impõe por si própria, e 
a sua revelia.
As críticas à perspectiva sistêmica permitem retomar a 
problemática cultural em outro nível. Minha preocupaçãojni- 
cial é não reforçar uma visão economlcísta. Há na idéia de 
globalização uma conotação que nos sugere uma certa 
unicidade. Quando falamos de uma economia global, nos re­
ferimos a uma estrutura única, subjacente a toda e qualquer 
economia. Os economistas podem inclusive mensurar a di-
21. I. Wallerstein, \u201cCulture as the ideological baltleground o f the modern 
world-system\u201d in M. Featherstone (org.), Global Culture, Newbury Park (CA), 
Sage Publ., 1990, p. 38.
22. Ver Wallerstein, Geopolitics and geoculture, Cambridge, Cambridge
University Press, 1991.
nâmica desta ordem globalizada por meio de indicadores 
variados: as trocas e os investimentos internacionais. A esfera 
cultural nào pode ser considerada da mesma maneira. Uma cul­
tura mundializada nào implica o aniquilamento das outras 
manifestações culturais, ela cohabita e se alimenta delas. Um J 
exemplo: a língua.
Durante as discussões da Segunda Internacional, Kautsky 
lembrava que o desenvolvimento das relações mundiais im­
punha cada vez mais a necessidade de uma língua unitária. 
Com a internacionalizaçào do comércio, a vida dos homens 
ultrapassava sua comunidade de origem, tornando insufi­
ciente para os indivíduos o conhecimento dos idiomas nacio­
nais. O mundo caminharia assim, pelo menos numa primeira 
fase evolutiva, para a seleçào de algumas línguas universais 
(árabe, francês, inglês, espanhol e russo) cobrindo determi­
nadas áreas geográficas. Mas o caráter especulativo e inter- 
nacionalista do pensamento de Kautsky, que se contrapõe 
aos defensores da experiência nacional, vai mais longe. Uto- 
picamente ele imagina um futuro no qual estaria preparado 
\u201co terreno para um retrocesso gradual, e posterior desapare­
cimento das línguas nacionais mais pequenas, num primeiro 
momento, culminando com a unificação de toda a humani­
dade civilizada, numa só língua e numa só nacionalidade\u201d.23 
Esse tipo de argumento ilustra, a meu ver, todo um senso co­
mum, identificando o processo de globalização à unicidade 
cultural. Mesmo a análise de alguns lingüistas atuais deixa 
muitas vezes subentendida a possibilidade do desapareci­
mento das línguas, locais e nacionais, diante da progressão 
de um idioma mundial. A crítica ao \u201cimperialismo\u201d do inglês 
se faz muitas vezes nesses termos.24 Penso, no entanto, que 
as coisas podem ser vistas de outra maneira. Evidentemente
23 K. Kautsky, "Nacionalidade y internacionalidade" in La segunda inter­
nacional y el problema nacional y colonial, México, Cuadermos de Pasado y 
Presente, 1978, p. 141.
24. Ver R. Phillipson, Linguist imperialism, Oxford, Oxford University Press,
1992.
sua difusão como língua mundial não é fortuita nem inocen­
te. São várias a$ causas que determinaram sua posição 
hegemônica no mundo atual: a existência da Inglaterra como 
potência colonizadora, o papel econômico dos Estados Uni­
dos no século XX, a presença das corporações multina­
cionais, as transformações tecnológicas (invenção do compu­
tador e de uma linguagem informatizada), o peso de uma 
indústria cultural marcada por sua origem norte-americana. 
Seria inconseqüente imaginar que a imposição de uma lín­
gua se faz à revelia das relações de força. Como no passado, 
o árabe no mundo islâmico, o latim no Império Romano, o 
poder cumpre um papel central na sua difusão.
Entretanto, disso não decorre necessariamente uma uni­
formidade lingüística. Para existir enquanto língua mundial o 
inglês deve se nativizar, adaptando-se aos padrões das cultu­
ras específicas.25 A diversidade de usos determina estilos e re­
gistros particulares. Ao lado do inglês britânico e americano, 
co-habitam as variedades da índia, Gana, Filipinas, etc. Mas é 
possível ir além desta constatação, válida unicamente para os 
países nos quais o inglês se apresenta como \u201csegunda língua\u201d. 
Na verdade, sua abrangência ultrapassa as fronteiras dos po­
vos anglofônicos. Ele penetra domínios distintos - informática, 
tráfego aéreo, coloquios científicos, intercâmbio entre multina­
cionais - para se transformar na língua oficial dás relações in­
ternacionais. Isto não implica, no entanto, o declínio de outros 
idiomas. Como observa Claude Truchot, o inglês se caracteriza 
pela sua transversalidade, ele atua no interior de um^espaco 
transglóssico\u201d no qual outras expressões lingüísticas se manifes­
tam. Ele \u201cengloba todos os usos de caráter extranacional, mas 
apenas esses usos. O desenvolvimento de um espaço transglóssi­
co não abole a função veicular das línguas locais, ele a setoriza\u201d.26
25 Sobre a nativização consultar B. Kachru, \u201cInstitutionalized second-
language" in S. Greenhaum (org), The english language today, Oxford,
Pergamon Press, 1985.
26. C Truchot, L'anglais dans le monde contemporain, Paris, Le Robert,
1900, pp. 306-307.
O mundialismo não se identifica pois à uniformidade. Uma 
língua não existe apenas como estrutura, objetivamente trans­
cendente ao sujeito falante, é necessário contextualizar o seu 
uso.27 As situações concretas irão determinar os domínios nos 
quais o inglês evolui; em alguns casos, ele será preponderan­
te (tecnologia, mídia e educação superior)^ em outros, estará 
ausente, ou terá um peso menor (família, religião e trabalho).
Retomando meu raciocínio anterior, creio ser interessan­
te neste ponto distinguir entre os termos \u201cglobal\u201d e \u201cmun­
dial\u201d. Empregarei o primeiro quando me referir a processos 
econômicos e tecnológicos, mas reservarei a idéia de mun- 
dialização ao domínio específico da cultura. A categoria 
\u201cmundo\u201d encontra-se assim articulada a duas dimensões. Èla 
vincula-se primeiro ao movimento de globalização das socie­
dades, mas significa também uma \u201cvisão de mundo\u201d, um uni­
verso simbólico específico à civilização atual. Nesse sentido 
ele convive com outras visões de mundo^estabelecendo en­
tre elas hierarquias, conflitos e acomodações. Por isso, prefi­
ro dizer que o inglês é uma \u201clíngua mundial\u201d. SuaJtransversa- 
lidade revela e exprime a globalização da vida moderna; sua 
mundialidade preserva os outros idiomas no interior deste 
espaço transglóssico.
Um outro problema que vinha discutindo diz respeito ao 
grau de integração dos sistemas. A pergunta que se pode fa­
zer é a seguinte: o mundo é realmente \u201csistêmico\u201d? Mesmo os 
economistas têm algumas dúvidas sobre esse fato, pois o 
\u201cQuarto Mundo\u201d (mas não o \u201cTerceiro\u201d) se integra mal ao 
mercado mundial.28 Por outro lado existem manifestações de 
cunho político e cultural que não me parecem ser apenas 
\u201cdisfunções\u201d no interior de um conjunto mais amplo. O fun- 
damentalismo islâmico pode ser compreendido como uma 
recusa da modernidade, um rechaço aos valores do Ociden-
27. J. Fishman, R L Cooper, A. W. Conrad (org ), The spread o f english,
Rayanne
Rayanne fez um comentário
Gostei muito! gostaria de ter acesso, poderia me ajudar é para eu usar no meu tcc
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Lu
Lu fez um comentário
tem como me enviar por email? l.taninha
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