Historia e Politica  - Walmir Barbosa
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Historia e Politica - Walmir Barbosa


DisciplinaCiência Política e Teoria Geral do Estado1.218 materiais16.387 seguidores
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A instituição da ditadura na República Romana, por exemplo, encontra-se prevista 
na lei sob determinada circunstância, forma de exercício e tempo de duração. 
 
2.2 A Finalidade da Política 
 
Ao se identificar o elemento específico da Política pelos meios de que ela se serve, 
caem as definições teleológicas da Política, ou seja, definições que se apoiam numa 
articulação necessária entre o fato e sua causa final, ou, ainda, pelo fim ou fins que ela 
persegue. 
Os fins que se pretende alcançar pela ação dos agentes políticos são aqueles que, em 
cada situação, são considerados primordiais para uma determinada classe ou grupo social, 
ou para amplos setores sociais: em épocas de lutas sociais e civis, por exemplo, o fim poderá 
ser a unidade do Estado, a concórdia, a paz, a ordem pública, etc; em tempos de paz interna 
e externa, o fim poderá ser o bem-estar; em tempos de opressão por parte de um Governo 
despótico, o fim poderá ser a conquista dos direitos civis e políticos. A Política não tem fins 
perpetuamente estabelecidos e, muito menos, um fim que os englobe a todos e que possa ser 
considerado como o seu único fim. Os fins da Política variam de acordo com os interesses 
de classes, o tempo e as circunstâncias. 
Esta rejeição do critério teleológico não significa que não se possa falar de um fim 
mínimo na Política. A própria leitura de Maquiavel nos indica como fim básico da política a 
ordem pública nas relações internas, a defesa da integridade nacional de um Estado em 
relação a outros Estados e a proteção do povo em face dos poderosos. Este fim é o fim 
mínimo porque é condição necessária para a consecução de todos os demais fins, 
conciliável, portanto, com eles. Mesmo um estado de \u201cdesordem social\u201d desencadeado por 
um partido ou movimento revolucionário não é o seu objetivo final, mas um objetivo 
conjuntural necessário para a mudança da ordem social e política vigente e criação de uma 
nova ordem. 
A superação das concepções teleológicas de Política, acarreta, ainda, a superação de 
recomendações políticas prescritivas, isto é, que não definem o que é concreta e 
normalmente a Política, mas indicam como é que ela deveria ser para ser uma boa Política. 
Obviamente, tal superação tende a valorizar a ação concreta conduzida pelos atores políticos 
em aliança e/ou conflito, no cotidiano, onde a práxis se realiza. 
 
 
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Finalmente é necessário superar as definições de Política que a concebem como uma 
forma de prática de poder que não tem outro fim senão o próprio poder, isto é, onde o poder 
é um fim em si mesmo. A concepção de Política que concebe o exercício do poder pelo 
poder decorre, por um lado, do fato de que não há um objetivo específico da política que se 
convertesse em um guia da ação política, do outro, da própria construção de uma 
representação subjetiva de quem ocupa o poder e de quem teoriza esta ocupação, 
relativizando/banalizando a importância do poder de forma a sacrificar o seu sentido público 
e instrumentaliza-lo por meio de uma ação voltada para os seus próprios interesses pessoais 
ou corporativos. 
Caso o fim da Política fosse realmente o poder pelo poder, de nada serviria a Política. 
Esta concepção de política, que se materializa na prática do homem político \u201cmaquiavélico\u201d, 
busca respaldo por meio de uma leitura parcial e deturpada de Maquiavel. 
 
2.3 Política e Conflito 
 
O conflito acompanha a história do homem. Nos primórdios o homem conflitua 
consigo mesmo por meio de comunidades. Ordenadas a partir do sexo e da idade e 
praticando economias destruidoras dos recursos naturais, as comunidades disputam as 
regiões de caça e as florestas. A liberdade e o igualitarismo da comunidade contrasta com a 
constante condução de guerras às outras comunidades. Não há lugar para a Política porque 
não há conflito de interesses sociais distintos e uma estrutura de pensamento racional na 
comunidade. 
O surgimento da propriedade privada, usufruída pela aristocracia agrária, a exemplo 
da Antiga Grécia, ou da propriedade pública, usufruída pela burocracia de Estado, a 
exemplo do Antigo Egito, inaugura o conflito de interesse social distinto. A comunidade dá 
lugar à sociedade, isto é, uma organização social fundada na diferenciação social. 
A Política, tal como a conhecemos hoje, é inventada em uma sociedade na qual a 
propriedade privada, a desigualdade social e os novos conflitos são acompanhados por uma 
forma racional de conceber o mundo. A Política consiste em uma forma racional de 
administrar e/ou superar os conflitos a partir da construção de uma esfera pública por meio 
de leis, de instituições e da prática do debate público. 
A Política não assegura objetivos comuns. A Política se constitui inicialmente em um 
campo de prática tendo em vista legalizar, justificar e legitimar a propriedade privada e a 
opressão sobre o mundo do trabalho. Nesta direção, a classe proprietária e dominante lança 
 
 
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mão dos filósofos (intelectuais) que, liberalizados da produção, produz idéias e concepções 
de mundo do interesse desta classe. 
A Política se constitui, também, em um campo de prática tendo em vista resistir e, no 
limite, romper com a propriedade privada e a opressão do mundo do trabalho. 
Diferentemente da classe proprietária e dominante, as classes do mundo do trabalho não 
pôde dispor, por um longo período histórico, de filósofos (intelectuais) que, liberalizados da 
produção, produzissem idéias e concepções de mundo do seu interesse. 
A Política possui como função associar e defender os amigos em face dos inimigos. 
Estes podem se servir de leis, instituições, instrumentos políticos, isto é, de diversos meios 
legais, físicos e culturais para atingir os próprios fins. Isto transforma o poder político em 
um poder superior a todas as outras formas de poder e ao qual todos recorrem para resolver 
os conflitos. A não solução dos conflitos no contexto de uma ordem social e/ou internacional 
pode acarretar a decomposição do Estado e/ou da ordem internacional, de forma a dar lugar 
a anarquia destrutiva do Estado e/ou da ordem internacional e das próprias relações de 
produção, a reformulação do Estado e/ou da ordem internacional nos limites das relações de 
produção vigentes ou a construção do novo Estado e/ou nova ordem internacional a partir de 
novas relações de produção. 
 
2.4 A Delimitação da Política 
 
 Na tradição clássica a Política compreende toda a vida da Pólis. Abrange toda sorte 
de relações sociais, de tal forma que o \u201cpolítico\u201d coincide com o \u201csocial\u201d. 
A delimitação da Política no mundo ocidental tem início com o cristianismo. Ele 
efetua a separação entre o poder espiritual e o poder temporal com a própria idéia de 
ressurreição de Cristo, isto é, Cristo morre em matéria e renasce em espírito, o que terá que 
ser vivenciado por todos que queiram alcançar a salvação. Os homens podem escolher entre 
agir segundo o poder espiritual ou o poder temporal, sendo que o primeiro possui primazia 
em relação ao segundo perante Deus. 
O cristianismo, nascido na teocracia judaica, subtrai a esfera Política do domínio da 
vida religiosa e inaugura o conflito entre poder espiritual e poder temporal. Conflito que 
pode configurar, no âmbito da separação, o domínio do poder espiritual sobre o poder 
temporal (Alta Idade Média Ocidental), o domínio do poder espiritual por parte do poder 
temporal (Idade Moderna Ocidental) ou a separação sem interdependência direta entre o 
poder espiritual e o poder temporal (Idade Contemporânea Ocidental). 
 
 
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O surgimento da economia mercantil burguesa no período moderno é um outro 
momento desta delimitação. A liberdade de ação econômica da burguesia em um mercado