Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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permanecendo aberto a críticas. O operador do Direito, advogado, 
juiz, promotor de justiça, abandona a postura de passividade e atua 
como um questionador comprometido, exigindo-se uma mudança da 
própria racionalidade. 
 É fundamental para adotar este modo de vislumbrar o 
fenômeno jurídico a postura do diálogo, não apenas com o texto de 
lei, mas com os diversos modos de produção do Direito, como 
doutrina e jurisprudência. Neste ponto reside o caráter pedagógico 
do trabalho desenvolvido por Tércio Sampaio Ferraz Júnior, 
especialmente para os alunos que ingressam no Curso de Direito: 
trabalhar com o fenômeno jurídico exige o habito da leitura 
permanente, todos os dias, como se a cada dia o estudante 
construísse novas condições de melhor perguntar: a final de contas, 
o que é o Direito? 
 No entanto, outra possibilidade é aquela em que predomina 
o aspecto da resposta, na qual determinados elementos são 
subtraídos da dúvida e do questionamento problematológico. 
Segundo o autor acima mencionado, \u201cpostos fora de 
questionamento, mantidos como respostas não atacáveis, eles são, 
pelo menos temporariamente, postos de modo absoluto\u201d.
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 Assim, 
um dos objetivos da dogmática jurídica é criar condições para a 
decidibilidade de conflitos juridicamente definidos, valendo-se, para 
tal, de alguns modelos de compreensão do fenômeno jurídico. 
 Considerando os aspectos suscitados neste tópico, vale 
destacar que as maiores críticas sobre o modo de compreender o 
fenômeno jurídico são direcionadas contra o dogmatismo, que se 
diferencia da dogmática jurídica. Esta última é uma das formas de 
sistematização do conhecimento, estabelecendo algumas bases de 
compreensão, enquanto o dogmatismo configura-se pelo conjunto 
de entendimentos doutrinários despreocupados em aprofundar as 
possibilidades da justiça no conhecimento do Direito, de aspectos 
relacionados com a moralidade e com os fundamentos históricos do 
Estado Democrático de Direito, no qual os direitos e garantias 
fundamentais devem ocupar papel preponderante na formulação de 
juízos teóricos. 
 
27 Cf. FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. A Ciência do Direito. São Paulo: Editora Atlas, 2010, p.46. Ver 
também Introdução ao Estudo do Direito. Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Editora Atlas, 
2012, p.16. 
 
 Ao longo do Curso de Direito, o estudante, cada vez mais, 
compreenderá melhor a importância de mergulhar no universo da 
Constituição Federal, não como simples texto de caráter político, 
mas autêntica instância de virtudes fundamentais, responsáveis pela 
concepção de uma vida boa para os cidadãos. 
 Para Tércio Sampaio Ferraz Júnior, compreender o 
fenômeno jurídico a partir de um modelo analítico traz algumas 
consequências que limitam o trabalho do operador do Direito. O 
modelo analítico é formalista e apenas identifica o direito como lei e 
o texto legal é a única condição de possibilidade de construir a 
racionalidade
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. Há um distanciamento do mundo da vida e a 
neutralização dos conflitos econômicos, políticos e sociais. Aqui o 
grau de abstração é tão grande que os problemas jurídicos são 
tratados dentro de um imaginário reduto normativo, por meio de 
instituições, conceitos e classificações absolutas. 
 É claro que os conceitos e classificações podem ocupar um 
papel significativo na vida do estudante do direito, pois indicam 
uma das possibilidades de abordagem do fenômeno jurídico. Dentro 
do pensamento de um dos maiores filósofos do século XX, Martin 
Heidegger, são indícios da forma como as coisas do mundo chegam 
até nós. As críticas ao modelo analítico, portanto, referem-se mais 
ao modo como nós que lidamos com o Direito, nos relacionamos 
com o \u201cmundo dos conceitos\u201d! 
 O segundo modelo dogmático apresentado por Tércio 
Sampaio Ferraz Júnior é o hermenêutico, no qual serão fixadas as 
condições de compreensão do fenômeno jurídico, quais sentidos 
podem ser atribuídos legitimamente aos textos legais? Aqui, a 
atividade do operador do Direito não se restringe a buscar a regra 
capaz de abarcar o conflito, mas de construir critérios jurídicos para 
compreender o próprio Direito. Doutrina e jurisprudência exercem 
papel crucial, pois são responsáveis pelo modo de compreensão. A 
dogmática jurídica, ao longo da história, construiu um conjunto de 
diversos \u201cmétodos de interpretação\u201d, conforme o estudante de 
Direito terá a oportunidade de familiarizar-se. Qual o papel que 
desempenham? Há um método melhor que outro? Tais indagações 
são instigantes e alimentam até hoje os debates de hermenêutica 
jurídica e filosofia do Direito. 
 
28 A Ciência do Direito, p. 51-52. 
 
 Por fim, Ferraz Júnior destaca o modelo empírico ou a 
dogmática da decisão e refere, de forma expressa: 
 
...nestes termos, o modelo empírico deve ser 
entendido não como descrição do direito como 
realidade social, mas como investigação dos 
instrumento jurídicos de e para controle do 
comportamento. Não se trata de saber se o direito 
é um sistema de controle, mas, assumindo-se que 
ele o seja, como devemos fazer para exercer este 
controle. Neste sentido, a ciência jurídica se revela 
não como teoria sobre a decisão, mas como teoria 
para a obtenção da decisão
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 Neste ponto, o processo de argumentação jurídica 
desenvolve papel importante para a obtenção da melhor decisão 
jurídica. 
 Para Luiz Alberto Warat, o trabalho de decisão dos 
profissionais do direito é influenciado por diversas noções e 
representações, chamadas pelo autor de sentido comum teórico. 
Portanto, Juiz, advogado, promotores, etc., são fortemente 
influenciados pelo sentido comum teórico que se constitui em um 
pano de fundo que condiciona todas as atividades cotidianas, eis que 
\u201crepresenta um sistema de conhecimentos que organiza os dados da 
realidade pretendendo assegurar a reprodução dos valores e 
práticas predominantes\u201d.
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 Questionar este pano de fundo, é a árdua 
tarefa de todos aqueles que lidam com o Direito. Ao longo do Curso 
de Graduação, o estudante terá a oportunidade de compreender as 
diversas concepções teóricas que construíram as possibilidades de 
significar o fenômeno jurídico, o que leva ao debate sobre o próprio 
conceito de Direito, conforme será examinado. 
 
 
 O material de trabalho do futuro jurista não é o esquadro e a 
madeira, nem seringas e esparadrapos. Nem resina que corrige a 
 
29 Cf. FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. A Ciência do Direito, p. 87-88 e Introdução ao Estudo do 
Direito, p. 285. 
30 Introdução Geral ao Direito II. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 1995, p. 57. 
 
dentição, nem qualquer outro material que tantos profissionais da 
engenharia, saúde, ou outros cursos, necessitam lançar mão para 
exercerem suas profissões. Quando um professor questiona seus 
alunos sobre o material de trabalho que os aguarda, a maioria 
responde sem nenhuma dúvida: A Lei. Perguntados se a Lei é o 
Direito, muitos respondem novamente que sim, sem nenhuma 
dúvida. 
 Mas o que é o Direito? Que coisas fazem parte do mundo 
jurídico? A partir do momento em que o aluno aprende a lidar com 
os conceitos jurídicos, também pertence ao mundo jurídico com um 
novo status. Mas o manuseio jurídico não se restringe ao 
conhecimento da Lei. No Direito, expresso em leis, regulamentos, 
sentenças, parece que está depositado un tesoro espiritual de 
sabiduría ética, que há ido decantándose a través de la experiencia 
histórica y al calor de las más esforzadas reflexiones de los 
hombres. Por isso, diz Truyol Serra,
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