Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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não é em vão que os Romanos 
definiram a jurisprudência como a arte do bom, do justo e como 
saber de todas as coisas, humanas e divinas. 
 Na verdade, como disse o poeta Schiller, citado por 
Radbruch:
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 enquanto a pedra sofre pacientemente a ação do 
escultor, e as cordas dos instrumentos musicais aguardam a vibração 
produzida pelos dedos do músico, tudo parece responder à ação do 
homem sem lhe opor resistência\u2026 Só o legislador trabalha um 
matéria sempre activa e rebelde: a liberdade humana. 
 O estudante de Direito depara-se logo no início do Curso 
com uma matéria de análise que em geral não esperava encontrar. 
Talvez, no seu íntimo, sempre perscrutasse os reclames da busca por 
liberdade. Em geral vê nas leis uma prisão, e ingressa no curso 
jurídico buscando dominá-las, para escapar dessa prisão. Entretanto, 
as leis também podem significar liberdade. E daí o grande desafio 
ao estudante, compreender o Direito na sua mais profunda 
dimensão, de luta pela Justiça, uma Justiça que prima pela igualdade 
e liberdade. Tais os grandes desafios do Direito, o equilíbrio entre 
segurança jurídica (que se espelha na Lei) e a Liberdade. 
 
31 SERRA, Truyol y. Historia de la filosofia del derecho y del Estado: Idealismo y positivismo. Alianza 
Editorial. 2005. p. 43. 
32 Schiller, citado por Radbruch, p. 185. 
 
O que é o Direito? Esta pergunta alimenta diversos debates 
entre juristas e filósofos ao longo dos tempos, reconhecendo-se as 
grandes dificuldades de fixar um conceito universal e absoluto. No 
entanto, é digno de nota um aspecto: o Direito em sua construção 
histórica esteve ligado a um grande símbolo, que era uma balança 
com dois pratos colocados no mesmo nível, com um fiel no meio em 
posição vertical, como destaca Tércio Sampaio Ferraz Júnior.Tal 
imagem é significativa e proporciona diversas incursões sobre o 
tema. 
 Aliás, este tem sido um trabalho da dogmática jurídica: 
buscar critérios para caracterizar o Direito. No entanto, ainda 
permanece válida a observação de Kant: \u201cos juristas ainda estão à 
procura de uma definição para o Direito\u201d. É possível observar das 
diversas obras de Introdução ao Estudo do Direito e de mais 
recentemente, Teoria Geral do Direito, a apresentação de critérios 
variados, mas sem existir uma formulação unívoca do que seja 
Direito. 
 É comum empregar-se o vocábulo Direito referindo-se à 
Ciência do Direito, e que, segundo Paulo Nader, \u201ccorresponde ao 
setor do conhecimento que investiga e sistematiza os conhecimentos 
jurídicos. Em stricto sensu, é a particularização do saber jurídico, 
que toma por objeto de estudo o teor normativo de um determinado 
sistema jurídico.\u201d
33
 Também o Direito é compreendido como fato 
social, sendo que a partir deste critério, constitui-se \u201cum conjunto de 
fenômenos que se dão na vida social, como fato de convivência 
ordenada, independente de ser um conjunto de significações 
normativas\u201d, como destaca Antonio Bento Betiolli.
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 Muito embora 
o Direito não seja apenas um fenômeno social, tal modo de 
compreendê-lo é significativa , pois possibilita entender a 
complexidade do fenômeno jurídico, deixando de ver a regra 
jurídica desconectada do contexto histórico-social. Aqui igualmente 
abandona-se a visão formalista do Direito. No entendimento de Eros 
 
33 Introdução ao Estudo do Direito. 34ª ed. Rio de Janeiro: GEN/FORENSE, 2012, p. 73 e ss. 
34 Introdução ao Direito. 11ª ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2011, p. 147. 
 
Roberto Grau, seriam formalistas aquelas construções apoiadas 
sobre um discurso abstrato de proposições reduzidas
35
. 
 De qualquer modo, o estudante de direito deve estudar o 
significado do Direito enquanto norma, na medida em que se trata 
de uma das concepções mais comuns do vocábulo Direito e 
corresponde à legislação escrita, ao direito objetivo, referindo-se ao 
conjunto de leis. No entendimento de Antonio Bento Betioli, trata-se 
de um \u201cconjunto de regras jurídicas de uma comunidade, traçando-
lhe determinadas formas de comportamento ou de organização e 
conferindo-lhe possibilidade de agir\u201d
36
. 
 O Direito como faculdade, adota o entendimento a partir de 
outro critério, acentuando a importância do conceito no poder ou 
faculdade de uma pessoa agir, amparada por uma regra jurídica. O 
direito de utilizar um imóvel, cobrar uma dívida, ingressar com uma 
ação, constituem-se exemplos de direito-faculdade ou direito 
subjetivo. Esta acepção explica-se considerando que o Direito aqui é 
considerado um poder do sujeito. 
 Finalmente o Direito-Justo é outro critério digno de nota 
para entender o significado da expressão, relacionando o Direito 
com o conceito de Justiça. No entendimento de Antonio Bento 
Betiolli, trata-se do Direito em que a acepção de justo pode 
significar (1)o bem devido por justiça a uma pessoa ou (2)em outras 
circunstâncias, o Direito significa conformidade com determinadas 
exigências de justiça
37
. Conforme o aluno estudará durante todo o 
curso de Direito, a noção de justo/injusto é extremamente complexa, 
sendo que no próximo item, no qual a relação entre Direito e Moral 
serão problematizadas, já é possível dimensionar as dificuldades do 
tema, assim como sua importância. 
 De qualquer modo, tudo que foi mencionado já permite 
concluir as dificuldades de responder a pergunta o que é o Direito? 
 Há um texto bastante interessante de Martin Heidegger, 
"Que é isto - a filosofia?" no qual, conforme o próprio título sugere, 
faz a interrogação sobre o que seria a filosofia, mencionando que a 
resposta a tal indagação, para alguns, estaria relacionada com a 
 
35 Direito Posto e o Direito Pressuposto. São Paulo: Malheiros, p. 27. 
36 Introdução ao Direito, p. 147. 
37 Introdução ao Direito, p. 148. 
 
razão; a filosofia não seria o racional, mas aquilo que guarda a 
razão
38
. 
 Tal afirmação, para o autor, importa em determinar 
previamente uma concepção de filosofia, pois dizer que a filosofia é 
racional ou até mesmo irracional, pressupõe o que é racional. Com 
efeito, na própria pergunta cuja resposta se procura obter está já 
antecipadamente dado um caminho. Assim, para responder tal 
questionamento - que é isto - a filosofia ? - é crucial lançar o olhar 
para dentro da filosofia, mas, por outro lado, somente é possível 
lançar este olhar se já se sabe o que é filosofia. 
 Heidegger conclui dizendo tratar-se de uma relação circular, 
exigindo uma resposta filosofante e que assim pode ser entrando-se 
em diálogo com os filósofos: "não encontramos a resposta à 
questão, que é a filosofia, através de enunciados linguísticos, sobre 
as definições da filosofia, mas através do diálogo com aquilo que se 
nos transmitiu como ser do ente"
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. 
 Considerando essa afirmação, a resposta filosofante não 
consiste simplesmente em descrever o dito pelos filósofos, mas 
mergulhar naquilo para onde a filosofia está a caminho. Pode-se, 
desta forma, compreender a relação do pensamento de Heidegger 
com a história da filosofia. A reposta filosofante não consiste em 
romper com a história, mas, utilizando suas palavras, uma 
apropriação e transformação do que foi transmitido, ou seja, 
"desmontar" as afirmações puramente históricas sobre a história da 
filosofia
40
. 
 A partir dessas premissas, o Direito pode ser (re)pensado 
filosoficamente por meio de uma prática interrogativa capaz de 
abrir-se para as várias faces do sentido, quer dizer, um novo 
"pathos" jurídico voltado não para as evidências lógico-formais do 
dogmatismo, mas