Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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de verossimilhança, ao contrário da busca pela certeza própria das ciências da natureza 
inaplicáveis à moral e ao direito, enquanto ciências do espírito (BAPTISTA DA SILVA, Ovídio Araújo. 
Execução e Jurisdição. São Paulo: RT, 1996, p. 107, 114-115). 
 
positivismo
66
 , constatando-se uma redução ou até esquecimento da 
razão prática pela racionalidade teorética. 
 O sistema jurídico assumirá a característica de fechado, no 
sentido já de completo e que não admite lacunas (ou as que existem 
são apenas aparentes), além de vislumbrar o sistema como um 
método dogmático subsuntivo, herança do jusnaturalismo
67
. 
Expressão típica do pensamento moderno é a Escola Positivista, que 
desde o final do século XIX até o início do século XX dominou as 
demais escolas, assim é que são transmitidas as influências dos 
pensamentos de Galileu, e com ainda mais impulso, através de 
Comte, Darwin e Spencer, porque forneciam, principalmente, 
argumentos contra as doutrinas tradicionais
68
. 
 Entre as representantes do positivismo, a Escola da Exegese 
irá representar a ciência jurídica ligada à lógica do direito, com 
tarefa puramente explicativa, e não criativa. Por fim ainda cita 
Norberto Bobbio a questão das pressões do regime napoleônico 
sobre o ensino superior, surgindo um controle político sobre as 
Faculdades para que só fosse ensinado o direito positivo e não mais 
teorias gerais do direito e concepções jusnaturalistas (consideradas 
coisas inúteis \u2013 ou perigosas\u2026). 
69
 Para Escola da Exegese, a lei 
conteria todo o direito e o trabalho do jurista se reduz a descrevê-
la\u2026
70
. 
 É importante evidenciar as três espécies distintas de 
positivismo apresentadas por Wieacker: o positivismo científico do 
século XIX, positivismo legalista e o positivismo científico em 
geral. O positivismo científico deriva do formalismo gnoseológico 
de Kant, e seria melhor designado por formalismo científico; já o 
positivismo legalista representa a convicção de que todo direito é 
criado pelo legislador estadual, enquanto o positivismo científico em 
 
66 Dizendo com António M. Hespanha, que a imagem histórica que temos tanto da justiça quanto do 
direito judiciário, como zonas adjectivas da ordem jurídica, contribuem para que a atividade 
constitutiva ou substantiva de fazer a lei torne-se mais interessante do que a atividade subordinada 
de aplicá-la (HESPANHA, António Manuel. Justiça e litigiosidade: história e prospectiva. Lisboa: 
Calouste Gulbenkian, 1993, p. 383). 
67 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. A ciência do direito. cit, p. 34. 
68 Cfe. DEL VECCHIO, Giorgio. Lições de filosofia do direito. Cit, p. 186-187. 
69 Os maiores expoentes da Escola da Exegese seriam Alexandre Duranton, Charles Aubry, Frédéric 
Charles Rau, Jean Ch. F. Demolombe e Troplong (já na fase do declínio), que apesentaram longos 
\u201ctratados\u201d durante as principais fases da escola, desde seus primórdios (entre 1804-1830), o seu 
apogeu (1830-1880) e finalmente seu declínio (1880 em diante) \u2013 este anunciado por Gény, em 1899 
(PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica, cit., p. 31). 
70 SALDANHA, Nelson. Ordem e hermenêutica. ob. cit., p. 246 e 259. 
 
geral será propugnado por Comte a uma filosofia geral, ou até 
religião, limitando as possibilidades de explicação do mundo à 
observação e organização científica dos fatos físicos, sociais e 
psicológicos (daí se passar a falar em um \u201cnaturalismo\u201d ou 
positivismo das ciências da natureza) \u2013 todos teriam em comum 
apenas a recusa de uma fundamentação metafísica do direito e o 
reconhecimento da autonomia absoluta da ciência especializada. Já 
o positivismo dominado pela Jurisprudência dos Conceitos refere-se 
ao positivismo científico, ou seja, derivado de Kant71 - enquanto a 
Escola da Exegese liga-se antes ao positivismo legalista. 
 O direito moderno vai então recusar o pluralismo jurídico, 
separar-se por completo da moral, e por conseguinte, buscará 
legitimidade através do procedimento. E em outras palavras, isso 
significa que o direito assume um modelo que possui uma razão sem 
conteúdo, justamente pelo privilégio do ideal da segurança jurídica, 
em detrimento da Justiça. Com o culto exclusivo aos meios 
(procedimento) descuidando do fim do direito, a leitura de Rudolf 
Von Ihering voltaria a ser atual
72
, como pondera Eros Roberto Grau. 
A razão sem conteúdo, que se legitima pelo procedimento, torna o 
Direito como instrumento e a segurança jurídica como fim. O 
positivismo, em suas diversas formas, a jurisprudência dos 
interesses e a teoria pura do direito acabam sendo expressão da 
transformação do Direito e em mero instrumento de poder
73
. 
 
 Digna de nota são os seis critérios de distinção entre direito 
 natural e direito positivo, apresentadas por Norberto 
 Bobbio:74 
a) o direito natural é universal, enquanto o direito positivo é 
 particular e contingente; 
 b) o direito natural é imutável no tempo, enquanto o 
 positivo sofre alterações (ainda que Aristóteles também 
 admitia alterações no tempo para o direito natural, mas se 
 mantendo imutável no espaço); 
 
71 Cfe. WIEACKER, Franz. História do direito privado moderno, cit., p. 493. 
72 Cfe. GRAU, Eros Roberto. O direito posto e o direito pressuposto, cit., p. 22 e 72-73. Para o autor, 
trata-se de um modelo de direito exclusivamente posto, que recusa qualquer direito pressuposto, ou 
também em outros termos, o direito formal/moderno recusa qualquer possibilidade de justiça 
material que ameace o primado da justiça formal. 
73 Cfe. COING, Helmut. Fundamentos de filosofia del derecho, cit., p. 33. 
74 BOBBIO, Norberto. O positivismo jurídico \u2013 lições de filosofia do direito, cit., p. 22-23. 
 
 c) o direito natural é fundado na natureza, enquanto o 
 direito positivo na \u201cpotestas populus\u201d, ou seja, no 
 poder popular; 
d) o modo pelo qual o direito natural é conhecido é através da 
 razão, enquanto o direito positivo é conhecido através de 
 uma declaração de vontade alheia (promulgação); 
e) o objeto do direito natural é a regulamentação de 
 comportamentos que são bons ou maus por si mesmos, 
 enquanto os comportamentos regulados pelo direito positivo 
 são em si mesmos indiferentes e assumem qualificação 
 porque foram de alguma forma atingidos pelo direito 
 positivo; 
f) o direito natural estabelece aquilo que é bom, enquanto o 
 direito positivo estabelece o que é útil. 
 
 Naturalmente tais critérios estabelecidos por Norberto 
Bobbio não podem ser tomados como estanques, e nem 
considerados como a palavra final sobre as distinções entre direito 
natural e positivo. Na realidade o que é possível perceber é a 
tendência de uma aproximação entre correntes tradicionalmente 
vistas como opostas e contraditórias. De fato, a contraposição entre 
direito natural e direito positivo encontra-se desgastada, e tem sido 
mais interessante aproveitar a função de cada forma de se pensar o 
Direito, em busca de um lugar comum. 
 
 
 Considerando o que até aqui foi exposto, é imprescindível 
uma breve referência ao tema relacionado com os princípios 
jurídicos, pois interessa não apenas para melhor compreender o que 
é o Direito, mas possibilita aprofundar os debates sobre as relações 
entre Direito e Moral. Há diversas concepções dogmáticas e 
filosóficas sobre os princípios, sendo que para alguns há uma nova 
"idade de ouro dos princípios", não apenas no âmbito da filosofia do 
Direito, como da própria Ciência Jurídica
75
. 
 
75 Cf. SANCHÍS, Luis Prieto. Sobre Principios y Normas: problemas del razonamiento jurídico. Madrid: 
Centro