Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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de Estudios Constitucionales, 1992, p. 17. 
 
 A compreensão histórica do Direito demonstra que durante 
muito tempo a temática referente aos princípios ocupou os debates 
entre juristas e operadores do Direito, iniciando-se com as 
concepções jusnaturalistas, segundo as quais os princípios jurídicos 
eram compreendidos como verdadeiros axiomas, portadores de 
verdades morais inquebrantáveis. Não tardou em consolidar-se a 
migração dos princípios para os sistemas codificados, adotando-se 
uma dimensão jusprivatista, mas já com reconhecido caráter 
normativo, muito embora ainda legitimados como fonte subsidiária 
do Direito. Finalmente, faz-se mister referir o fenômeno do 
constitucionalismo, determinante para a inserção de princípios nos 
textos constitucionais, passando-se a falar em "pós-positivismo", 
concepção dotada de uma positividade mais de caráter aberto e 
axiológico, calcada nas grandes constituições do século XX
76
. 
 Existem varias formulações conceituais sobre princípios, e 
cada uma destas construções é o reflexo de determinada forma de 
compreensão deste fenômeno. O jusfilósofo Genaro R. Carrió refere 
a possibilidade de sete focos de significação dos princípios: 
 
(I) Con las ideas de 'parte o ingrediente importante de algo', 
'propiedad fundamental', 'núcleo básico', 'característica central'; 
(II) Con las ideas de 'regla, guía, orientación o indicación 
generales'; (III) Con las ideas de 'fuente generadora', 'causa' u 
'origen'; (IV) Con las ideas de 'finalidad', 'objetivo', 'propósito' o 
'meta'; (V) Con las ideas de 'premisa', 'inalterable punto de 
partida para el razonamiento', 'axioma', 'verdad teórica 
postulada como evidente', 'essencia', 'propiedad definitoria'; 
(VI) Con las ideas de regla práctica de contenido evidente'; 
'verdad ética incuestionable'; (VII) Con las ideas de 'máxima', 
'aforismo', 'proverbio', 'pieza de sabiduría práctica que nos 
viene del pasado y que trae consigo el valor de la experiencia 
acumulada y el prestigio de la tradición77. 
 
 Destas variadas formas de compreensão dos princípios 
jurídicos, é possível vislumbrar a importância do tema para 
 
76 Sobre a expressão "pos-positivismo" e sua significação, ver BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito 
Constitucional. 6. ed. São Paulo: Malheiros, 1996, p. 260-65; ALEXY, Robert. Teoria de Los derechos 
Fundamentales. Traduzido por Ernesto Garzón Valdés. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 
1997, p. 74 e OLIVEIRA, Fábio Corrêa de Souza. Por uma Teoria dos Princípios. O Princípio 
Constitucional da Razoabilidade. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003, p. 63. 
77 CARRIÓ, Genaro R. Notas Sobre Derecho y Lenguaje. 4. ed. Buenos Aires: Abeledo-Perrot, 1990, p. 
209-10. 
 
profissionais e estudantes de Direito, eis que conhecer princípios é 
conhecer aquilo com o material de trabalho para resolver problemas 
jurídicos. 
 Conforme já destacado, quando se fala de Direito, é 
importante problematizar as condições para construir 
hermeneuticamente um conceito, sendo que o mesmo objetivo 
aplica-se relativamente à teoria dos princípios. Uma vez 
ultrapassados os debates entre positivismo jurídico ou 
jusnaturalismo, mas reconhecendo as insuficiências do modo de ser 
do positivismo para lidar com os princípios jurídicos, é importante 
pensar o tema sob a perspectiva da hermenêutica jurídica. De certo 
modo, também é isto que se propõe a Teoria Geral do Direito. 
O Direito ainda hoje está submetido ao modelo 
racionalizador do Estado Moderno. Na sua gênese, portanto, está a 
necessidade de racionalizar o exercício do poder e a busca por 
segurança, como refere Manuel Calvo García, \u201cla razón va a ser el 
hilo conductor de la progresiva secularización del pensamiento 
práctico moderno y la seguridad es la luz que guía y alumbra ese 
proceso\u201d
78
. 
O caráter científico do conhecimento jurídico impõe a 
construção de sistemas com o objetivo da perfeição e elaboração 
detalhada de institutos jurídicos. É o modo de ser da metafísica, no 
sentido utilizado por Martin Heidegger. Para o filósofo, a metafísica 
constitui-se no pensamento que não soube manter-se no nível da 
transcendência constitutiva do Dasein
79
. Desta forma, o pensamento 
jurídico moderno, com relação à pergunta pelo fundamento, 
manteve-se no âmbito restrito da lógica formal. É importante que o 
aluno do Curso de Direito compreenda o seguinte: não que o 
pensamento lógico e racional não seja importante, mas resolver 
problemas jurídicos exige mais de cada um de nós! 
Até que ponto este horizonte formal de compreensão irá 
influenciar as concepções dogmáticas sobre os princípios jurídicos? 
 
78 Los Fundamentos Del Método Jurídico: uma revisión crítica. Madrid: Tecnos, 1994, p. 32. 
79 A expressão Dasein também é utilizada como \u201cpre-sença\u201d, em que pese ser comum a tradução 
para línguas latinas a expressão \u201cser-aí\u201d, cf. LEÃO, Emanuel Carneiro. Notas de Ser e Tempo. 
Petrópolis: Vozes, 1995, p. 309. Segundo esclarece \u201cpré-sença\u201d não é sinônimo de homem, nem de 
ser humano, nem de humanidade, embora conserve uma relação natural. Evoca o processo de 
constituição ontológica de homem, ser humano e humanidade. É na pre-sença que o homem constrói 
seu modo de ser, a sua existência, a sua história, etc., de acordo com entrevista de Heidegger ao Der 
Spiegel. Ver Tempo Brasileiro, nº 50. 
 
Como esta concepção contribui para o distanciamento entre teoria e 
prática, aprofundando o abismo entre Estado e sociedade? 
 Um dos graves problemas gerados pela vivência moderna 
para a construção das ciências foi aquilo que Hans-Georg Gadamer 
denominou ao longo de toda sua obra: a recusa dos prejuízos. Para 
este filósofo "desde luego es cierto que tanto el movimiento de la 
Ilustración en la Edad Moderna como su conciencia científica 
reposan sobre el rechazo de los prejuicios, y que este implica no 
aceptar tampoco la mera apelación a la autoridad"
80
. Assim, a 
Ciência Jurídica construída a partir do edifício de experiências da 
modernidade, no intuito de dotar-se de objetividade, deixou de 
questionar os próprios juízos prévios determinantes de toda a 
compreensão dos entes jurídicos. 
Deve-se destacar que o Direito é marcado pelos princípios 
epocais da modernidade. Outrossim, é pensado como algo que 
assume a forma de um sistema de enunciados cabais que funciona 
politicamente como fins revolucionários, constituindo-se, por 
exemplo, como modo de ser racional, a centralização e a 
burocratização. Este imaginário da época influenciou também as 
construções teóricas sobre os princípios jurídicos, como enunciados 
abstratos. Tem-se, assim, a institucionalização dos princípios como 
axiomas vinculados ao modo de pensar dedutivo
81
. Esta talvez seja 
uma das grandes questões a ser enfrentada pela Teoria Geral do 
Direito, qual seja, os princípios jurídicos não podem ser 
responsáveis por um pensamento abstrato, desvinculado da prática, 
do mundo da vida. 
Não é por outro motivo que a construção dos institutos 
jurídicos é centrada na lei, mas dotada de fundamento metafísico, ou 
seja, um fato do qual, metodologicamente, padrões de conduta são 
retirados. A tarefa do intérprete seria, com base em determinados 
métodos jurídicos, reconstruir o sentido da lei e resolver os 
problemas jurídicos a partir do mundo fechado das matérias 
jurídicas. 
 Tal desiderato atendia certos postulados do modo de ser 
positivista de fazer ciência como a imperiosidade de alcançar níveis 
 
80 GADAMER, Hans-Georg. Hermenéutica y Autoridad, p. 60. 
81 Ver OLIVEIRA,