Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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levantados pela filosofia 
hermenêutica, bem como pela teoria do direito, propõe-se pensar 
hermeneuticamente a teoria dos princípios. Trata-se de laborar na 
esteira do que alguns autores trabalham de forma pioneira no campo 
 
115 Cf. FERNANDEZ-LARGO, Antonio Osuna. La Hermenéutica Jurídica de Hans-Georg Gadamer, p.75. 
 
da filosofia do direito no Brasil, como Lênio Luiz Streck
116
, ao 
defender a importância de construir uma teoria da decisão e uma 
teoria dos princípios. 
 Estes são apenas alguns dos desafios para os estudantes de 
Teoria Geral do Direito, devendo-se reafirmar que falar de 
princípios não é mera abstração. No fundo, sempre está em jogo 
uma espécie de argumentação de caráter moral, no sentido do que é 
certo ou errado decidir. É instigante a reflexão de Ronald Dworkin 
no seu último livro, Justiça para Ouriços
117
, quando defende o 
entendimento segundo o qual o Direito é uma parte da moral 
política, a partir da moral pensada como a estrutura de uma árvore. 
Para o jusfilósofo, o Direito é um ramo, uma subdivisão, da moral 
política. Reafirma-se o caráter prático dos princípios, pois indicam a 
dimensão daquilo que se deve fazer. 
 
116 Desde as primeiras edições do livro, Hermenêutica Jurídica e (m) Crise. Uma exploração 
hermenêutica da construção do Direito até a obra original no campo da Filosofia e do Direito, 
Verdade e Consenso. Constituição, Hermenêutica e Teorias Discursivas. Sobre as questões 
envolvendo positivismo, direito e moral, hermenêutica ver FERRAJOLI, Luigi, STRECK, Lenio Luiz e 
TRINDADE, André Karam. Garantismo, hermenêutica e (neo)constitucionalismo: um debate com Luigi 
Ferrajoli. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012. 
117 Justiça para Ouriços. Coimbra: Almedina, 2012, p.414. 
 
 
 
 
 
 \u201cVerba volant, scripta manet\u201d. 
 As palavras voam, a escrita permanece. Eis o significado da 
expressão acima referida. E é possível constatarmos empírica e 
historicamente sua validade, uma vez que sendo a palavra escrita o 
instrumento mais eficiente à expressão e fixação dos conhecimentos 
científicos e técnicos da sociedade, a leitura se apresenta como 
tarefa de alta relevância na percepção de saberes, vez que permite ao 
seu leitor a possibilidade de já partir de pressupostos antes 
realizados e descritos, \u201cpoupando o trabalho da pesquisa de campo 
ou experimental\u201d
118
, pois \u201ca maior parte dos conhecimentos é obtida 
através da leitura, que possibilita não só a ampliação, como também 
o aprofundamento do saber em determinado campo cultural ou 
científico\u201d
119
. 
 Justamente por trazer consigo uma bagagem de saberes à 
disposição de quem a acessa, a leitura vem se mostrar como um 
 
118 LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho científico: 
procedimentos básicos; pesquisa bibliográfica, projeto e relatório; publicações e trabalhos científicos. 
4. ed. São Paulo: Atlas, 1992, p. 15. 
119 Idem, ibidem. 
 
elemento indispensável à busca de novas soluções: assim, se se 
considera como finalidade o incremento intelectual do ledor, seja 
em cultura geral ou em áreas específicas de seu interesse, faz-se 
necessário concordar com Gagliano: \u201ctoda leitura cultural tem 
sempre um destino, não caminha a esmo\u201d
120
. 
 Entretanto, é preciso estar atento à possibilidade da leitura 
não se mostrar plenamente satisfatória por falta de condições de 
compreensão plena do seu operador; assim ocorrendo, prejuízo 
irrecuperável pode vir a acometer ao exercício. Alertar é preciso: 
 
Compreender não significa atribuir um sentido ou descobrir o 
sentido que o autor quis dar ao texto (leitura parafrástica), mas 
reconhecer os mecanismos de funcionamento do discurso, de 
um processo de significação para chegar a uma leitura 
polissêmica (...)121, 
 
 pois \u201c(...) ele [o discurso, o texto em que se trabalha] é o 
espaço do confronto de ideologias...\u201d
122
. O leitor competente, por 
conseguinte, empregará técnicas para bom aproveitamento do 
material explicitado, mas, pari passu, lançará mão de uma 
abordagem plural, ancorada no contexto da obra (histórico, social, 
outras obras, etc.) para que seu objeto de estudo se mostre o mais 
abrangente possível. Sendo possíveis várias abordagens, as formas 
de análise de texto dependerão precipuamente do leitor; inobstante, 
analisar é, portanto, decompor um todo em suas partes, a fim de 
poder efetuar um estudo mais completo. Porém, o mais 
importante não é reproduzir a estrutura do plano, mas indicar os 
tipos de relações existentes entre as ideias expostas123, 
municiando de informações aquele que realiza tal tarefa no material 
ao seu dispor, tornando, por esse viés, inadmissível a dissociação da 
análise da leitura. 
 Partindo da ideia de que a leitura é antes um prazer do que 
uma obrigação, os autores pretendem traçar para os leitores um 
 
120 Idem, ibidem. 
121 HENRIQUES, Antonio; MEDEIROS, João Bosco. Monografia no curso de Direito: trabalho de 
conclusão de curso. São Paulo: Atlas, 1999, p. 73. 
122 Idem, ibidem. 
123 LAKATOS et. al, p. 23. 
 
painel sobre a História do Direito, começando com indicações de 
como realizar uma boa interpretação de um texto, de maneira que 
dele possam extrair maior satisfação e conhecimento. A seguir, 
iniciam um relato de como se desenvolveram as instituições, 
passando por diferentes épocas da história da humanidade. 
 
 
 À realização da tarefa de leitura, conforme o modo em que 
é desempenhada, há como classificá-la em seis formas ou tipos
124
: 
as cinco primeiras, de Harlow, são por ele denominadas (1) 
scanning (em \u201cvarredura\u201d, à procura de elementos pontuais, i.e., não 
é fixa ao cerne do texto, mas à busca de dados mais precisos), (2) 
skimming (em \u201cfiltragem\u201d, mais preocupada à procura da 
abordagem do texto, e não necessariamente ao conteúdo), (3) de 
significado (à procura de elementos essenciais à compreensão do 
conteúdo, conforme esteja apresentado), (4) de estudo (analisando 
completa e diferenciadamente as informações que estão disponíveis, 
compreendendo pontualmente a função de cada parte do documento 
no conjunto em que é oferecido) e (5) crítica (para análise 
comparada a informações exteriores às disponíveis na letra da 
redação); a sexta e última, de Moral, é a (6) de erudição (por 
sapiência), fracionada em (6.1) leitura-trabalho (para conhecimento 
científico), (6.2) leitura-crítica (com análise e opinião sobre a 
matéria) e (6.3) leitura-descanso (para lazer). Entretanto, parece-nos 
que uma leitura de erudição não seja propriamente um tipo como a 
mesma seja desempenhada, mas como se emprega as informações 
que nela estão disponíveis, de forma que parece se encontrar em 
situação que corre paralela e bem distintamente das demais; assim, 
uma leitura de erudição não faz parte de um crescendo na 
classificação, mas lhe está ao lado, podendo-se fazer, por exemplo, 
uma leitura-trabalho (por conseguinte, de erudição) em simples 
scanning, no interesse de se perceber maior vocabulário, ou uma 
leitura-descanso em skimming, apenas para se antecipar os destinos 
de um romance qualquer. 
 
124 Idem, p. 20. 
 
 Javier Vega
125
 entende ser a leitura a consequência de 
quatro operações \u2013 a saber, (a) reconhecimento (identificação do 
significado), (b) organização (compreensão holística do texto), (c) 
elaboração (coadunação com outras ideias) e (d) valoração 
(avaliação do conteúdo); aplicadas à leitura dita de aproveitamento