Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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Valquíria Soares; KOGAN, Flávia. História do direito: 
uma breve viagem do direito na história. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 2003, p.16. 
 
Neste aspecto, o Direito dos povos mais diversos contribuiu 
para esquematizar os grandes quadros históricos, através dos 
quais projeta o progresso da humanidade; partindo dos 
costumes de tribos primitivas, chamadas a testemunhar as 
origens do Direito. O estudante fica maravilhado ao 
contemplar a presença do Direito dos povos mais antigos na 
civilização moderna. 
 O oriente será sempre magnífica fonte onde investigar 
nosso passado cultural, pois como afirma Karl Jaspers
144
, \u201cnesta 
época (800-200 a.C.), são constituídas as categorias essenciais com 
as quais pensamos e iniciam as religiões mundiais, com as quais 
ainda hoje convivem os homens. Em todos os sentidos se põe em pé 
o universal\u201d. 
 Examinemos, daqui para frente, a modo de delineamento, as 
culturas mais importantes do Oriente, em suas origens, até 
encontrarem com o Ocidente. 
 O primeiro rascunho histórico das diversas culturas nos 
ajudará a compreender a comunidade de ideais, fins, aspirações e 
destino dos homens por meio do Direito e do Estado. 
 
 Segundo Altavila
145
, 
 
a consciência jurídica do mundo assemelha-se a uma árvore 
ciclópica e milenária, de cujos galhos nodosos rebentam os 
densos ramos e, deles, a floração dos direitos. Quando em 
vez, as flores legais emurchecem sob o implacável calor do 
tempo e a ventania evolucionista e revolucionária, oriunda 
das carências sociais, agita as ramagens e as faz rolar para o 
solo poroso, onde são transformadas em adubo e absorvidas 
pelas raízes poderosas e insaciáveis. 
 
 Entendamos que a evolução do homem caminha 
paralelamente com sua evolução cultural e, deste modo, também o 
desenvolvimento jurídico, o qual trilha o mesmo caminho 
civilizacional. O trato entre a raça humana obrigou o 
estabelecimento de regras para a convivência harmônica. 
 
144 JASPERS, Karl. Origen y meta de la historia. Versión española de Fernando Vela. Madrid: Editorial 
Alianza, 1980, p. 86. 
145 ALTAVILA, Jayme de. Origem dos direitos dos povos. 7. ed. São Paulo: Ícone, 1989, p. 9. 
 
 
 
 O conquistador árabe Amrú, referindo-se ao Egito, assim 
expressou-se: \u201cÉ sucessivamente um campo de pó, um mar de água 
doce e um jardim de flores\u201d. A par desta ditosa definição, segundo 
A. Aymard e J. Auboyer
146
, 
 
faltam, ao mesmo tempo, os textos de leis ou editos, e os 
documentos da prática, isto é, as próprias atas 
administrativas, os testemunhos diretos e originais da 
máquina administrativa. Por isso, afora alguns casos 
excepcionais esclarecidos por raríssimos papiros, precisamos 
recorre a fontes de qualidade muito inferior. 
 
 Entretanto, a reconstituição do Egito é um dos capítulos 
mais brilhantes da arqueologia. A Idade Média só conheceu o Egito 
como colônia romana e cristã; o Renascimento admitia que a 
civilização havia começado na Grécia; mesmo o Século das Luzes, 
embora inteligentemente se preocupasse com a Índia e a China, nada 
sabia do Egito além das Pirâmides. A egiptologia foi um subproduto 
do imperialismo napoleônico. Quando o corso partiu para a 
expedição do Egito, levou consigo um grupo de engenheiros e 
desenhistas para o levantamento topográfico do terreno, além de 
alguns estudiosos absurdamente interessados na história antiga. 
Foram estes homens os primeiros reveladores dos templos de Luxor 
e Carnac; e a exaustiva Descrição do Egito (1809-13) que 
prepararam para a Academia Francesa constitui a primeira pedra dos 
estudos sistemáticos daquela esquecida civilização
147
. 
 Seja como for, é certo que no Egito, ao lado de um Direito 
consuetudinário, existiram corpos de lei, de Direito substantivo e de 
Direito adjetivo, orientados de acordo com a vontade e a 
determinação do soberano
148
. 
 
146 AYMARD, A.; AUBOYER, J. História geral das civilizações. Vol. I. Feira de Santana: Ed. Difel, 1956, p. 
30. 
147 DURANT, Will. A história da civilização: nossa herança oriental. Trad. de Mamede de Souza Freitas. 
Vol. I. Rio de Janeiro: Ed. Record. 
148 NASCIMENTO, Walter Vieira do. Lições de história do direito. 15. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: 
Forense, 2008, p. 21. 
 
 A organização da sociedade era teocrática, onde o Faraó 
exercia, ao mesmo tempo, os poderes de governante, sacerdote, 
magistrado e chefe militar, isto é, elencava todos os poderes do 
Estado e, desta forma, administrava todas as classes, a religião, a 
justiça e a guerra. Assim, principalmente na sua dupla função de 
sacerdote e juiz, tudo quanto emanasse do rei em forma de normas 
jurídicas mostraria uma profunda influência religiosa \u2013 influência 
que de resto vem a ser a regra entre os povos da antiguidade
149
. 
 O Faraó ocupava a posição mais elevada na hierarquia 
social egípcia, havendo, ainda, as seguintes camadas sociais: nobres, 
sacerdotes, escribas, soldados, camponeses, artesãos e escravos. 
 
 
 É num mundo de crenças e superstições que o Direito 
babilônico e o Direito hebreu, cada um ao seu modo, aparecem 
como exceções. Ainda segundo Nascimento
150
, a diferença essencial 
entre os dois sistemas é a seguinte: a Lei de Hammurabi tem um 
caráter puramente jurídico, enquanto a lei mosaica apresenta caráter 
religioso e insiste claramente no aspecto ético do Direito. 
 Interessante explicação para o desenvolvimento do ser 
humano nos dá Durant
151
, ao dizer que 
 
A civilização, como a vida, é uma perpétua luta contra a 
morte. E como a vida só se mantém pelo abandono do 
velho e o reaparecimento do novo, assim a civilização 
realiza a sua precária sobrevivência mudando de habitat e 
de sangue. Move-se de Ur para Babilônia e a Judeia, da 
Babilônia para Nínive, depois para Persépolis, Sárdis e 
Mileto, depois para o Egito e Creta, para Grécia e Roma. 
 
 Quem hoje olha para o local onde antes existiu a Babilônia 
não faz ideia que aquele quente e triste local onde se situa o Iraque, 
já foi a rica e poderosa capital de uma civilização que muito 
acrescentou à medicina, estabeleceu a ciência da linguagem, 
preparou o primeiro grande código de leis, ensinou aos gregos os 
 
149 NASCIMENTO, op. cit., p. 21 e 22. 
150 NASCIMENTO, op. cit., p. 23. 
151 DURANT, op. cit., p. 150. 
 
rudimentos da matemática, da física, da filosofia, deu aos judeus a 
mitologia que eles transmitiram ao Ocidente e aos árabes parte do 
saber científico e arquitetônico com que interromperam o sono da 
Idade Média. 
 Graças à abundância trazida pelos rios Tigre e Eufrates e ao 
trabalho de muitas gerações, a babilônia se tornou o Éden da lenda 
semítica, o jardim e o celeiro da Ásia Ocidental
152
. 
 Conforme Bouzon
153
, a sociedade babilônica a que nos 
referimos é aquela regida pelo célebre Código de Hammurabi, de 
1750 a.C. E, da mesma forma, não podemos usar o termo \u201cCódigo\u201d, 
senão entre aspas, vez que não engloba a totalidade das leis 
existentes no século XVIII a.C. na Babilônia. Sua interpretação 
atual é de que apresenta-se mais como casos particulares do que 
normas gerais aplicáveis a todos os casos
154
. De qualquer modo, 
trata-se de importante instrumento jurídico, inscrito em uma pedra 
de basalto, de mais de dois metros de altura, com inscrições de 
ambos os lados e que se encontra no Museu do Louvre, em Paris. 
 Direitos Cuneiformes é o nome dado ao conjunto de direitos 
da maior parte dos povos do Oriente Próximo da Antiguidade, os 
quais se serviram de um processo de escrita denominado