Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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o Império Romano começou a 
declinar de modo lento e gradual, o que se deveu a uma 
desestruturação econômica, social, cultural e militar. Naquele 
momento, começaram a penetrar no território do império os povos 
germanos, chamados bárbaros. Estes, no ano de 476, marcharam 
sobre Roma e depuseram o Imperador Rômulo. 
 Tem início, então, a Idade Média, período que durará até o 
ano de 1453. 
As invasões bárbaras mudam a face da Europa. Durante os trezentos 
anos seguintes, o continente manteve uma estagnação cultural, 
muito embora instalado sobre a complexa e elaborada cultura do 
Império Romano, que nunca chegou a ser perdido por completo, 
mas esteve em um ostracismo. 
 
 
 O império de Carlos Magno (742-814) constituiu-se no 
primeiro intento de criar uma nova ordem depois dos transtornos 
produzidos pelas referidas invasões. 
 Apesar de um evidente arrefecimento do fenômeno urbano 
que caracterizava tão fortemente as estruturas sociais e políticas do 
mundo greco-romano, as cidades ainda têm muita vitalidade
188
. 
 A tradição alemã faz do rei francês o primeiro grande 
legislador da Europa germânica, aquela que quase não fora tocada 
pelo direito romano. 
Após a morte de Carlos Magno, seguiram-se novas comoções, 
produzidas em grande parte por migrações e invasões. Os 
normandos, provenientes da Escandinávia, se dirigiram à Rússia, 
Inglaterra, norte da França e Mediterrâneo. 
 
187 LOPES, José Reinaldo de Lima. O direito na história: lições introdutórias. 4. ed. São Paulo: Atlas, 
2012, p. 30. 
188 FAVIER, Jean. Carlos Magno. Trad. Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação da Liberdade, 
2004, p. 91. 
 
 Todas as mudanças ocorreram no meio de uma 
transformação geral das formas econômicas, sociais e políticas. As 
cidades se deterioraram, diminuiu o comercio internacional, foi 
reduzido o uso da moeda e a terra surgiu como a principal riqueza. 
Lentamente foi formada uma nova ordem, a qual recebeu o nome de 
feudalismo
189
. 
 Em meio a intermináveis guerras, os homens optaram, 
acima de tudo, por poder desfrutar de proteção e segurança. Como 
os poderes centrais haviam perdido a autoridade, tiveram de recorrer 
aos poderes locais, generalizando-se o costume de submissão a 
quem pudesse defendê-los, chamando-os de \u201csenhor\u201d, enquanto os 
protegidos passaram a ser chamados de \u201cvassalos\u201d
190
. 
 Entre o senhor e o vassalo estabeleceu-se uma espécie de 
contrato; aquele prometia proteção e este se comprometia, mediante 
um juramento de fidelidade, a realizar certos serviços. O sistema de 
vassalagem se generalizou através de toda a sociedade, onde o rei 
encabeçava a pirâmide, seus vassalos eram os duques, condes e 
outros senhores poderosos. Este, por sua vez, recebia a fidelidade 
das pessoas mais ricas e influentes de sua região, as quais recebiam 
os serviços de vassalos mais modestos. Desta forma, do alto da 
pirâmide até a base da sociedade, todas as pessoas estavam 
vinculadas entre si
191
. 
 
 
 Em meio à desorganização administrativa, econômica e 
social produzida pelas invasões germânicas e ao esfacelamento do 
Império Romano, praticamente apenas a Igreja Católica, com sede 
em Roma, conseguiu manter-se como instituição. Consolidando sua 
estrutura religiosa, foi difundindo o cristianismo entre os povos 
bárbaros, enquanto preservava muitos elementos da cultura greco-
romana. Valendo-se de sua crescente influência, passou a exercer 
importante papel em diversos setores da vida medieval, servindo 
como instrumento de unificação, diante da fragmentação política da 
 
189 HOBSBAWM, Eric. Do feudalismo para o capitalismo. In: A transição do feudalismo para o 
capitalismo. Trad. Isabel Didonnet. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1977, p. 263. 
190 LE GOFF, Jacques. São Luis: biografia. Trad. Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 597. 
191 LE GOFF, Jacques. O apogeu da cidade medieval. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 153. 
 
sociedade feudal. Além da autoridade religiosa, o Papa, chefe da 
hierarquia eclesiástica, contava também com poder temporal
192
. 
 Em geral, os monges foram os melhores lavradores da 
Europa; conservaram algumas técnicas de construção dos romanos e 
realizaram progressos dignos de nota em muitas artes industriais, 
principalmente no entalhe de madeira, no trabalho em metais, na 
tecelagem, na fabricação de vidro e de cerveja. Além disso, eram os 
monges que escreviam a maior parte dos livros, copiavam os 
manuscritos antigos e mantinham a maioria das escolas e 
bibliotecas
193
. 
 
 
 
 No reino franco do século X, o império de Carlos Magno já 
pertencia ao domínio da utopia. Numa atmosfera de 
enfraquecimento político, a Europa ocidental sofreu o impacto das 
segundas invasões bárbaras: vikings, árabes e húngaros ameaçavam 
todas as fronteiras, tanto terrestres quanto marítimas. O exército dos 
últimos carolíngios, demasiado pesado para se reunir, revelou-se 
incapaz de oferecer uma proteção eficaz à população aterrorizada. 
Esse fracasso criou o descrédito quanto à função real. 
 A vassalagem, referida acima, foi a maneira pela qual os 
poderosos formaram um conjunto de exércitos armados. Assim, no 
século XI, era em torno do castelo que se formava o essencial do 
poder político. O senhor feudal tinha como missão manter em seus 
domínios a paz e a justiça e, em caso de ataque, reunir as tropas. A 
população vizinha podia buscar refúgio dentro das muralhas de seu 
castelo
194
. 
 Este senhor também fazia sentir seu poder por meio do 
exercício da justiça aplicada. A menor falta podia ser punida com 
pesada multa, mutilação ou, até mesmo, a morte
195
. 
 
192 BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental. Do homem das cavernas até a bomba 
atômica: o drama da raça humana. Trad. Lourival Gomes Machado, Lourdes Santos Machado e 
Leonel Vallandro. 2. ed. Porto Alegre: Ed. Globo, 1970, p. 258/259. 
193 BURNS, op. cit., p. 265. 
194 LE GOFF, op. cit., p. 234. 
195 PERNOUD, Régine. Luz sobre a Idade Média. Trad. António Manuel de Almeida Gonçalves. Lisboa: 
Publicações Europa-América, 1996, p. 56. 
 
 Na verdade, não existia nenhuma limitação ao poder dos 
senhores feudais. Além das requisições, das corveias
196
, das taxas, o 
senhor podia impor novos serviços, como o uso obrigatório do 
moinho, de um forno de pão ou de uma moenda, o que lhe permitia 
estender sua atividade a todos os aspectos da vida econômica do 
território que ocupava
197
. 
 Para que o leitor conheça mais sobre o período da Idade 
Média referente ao século XII, sugerimos a leitura da mais antiga e 
bela canção do período. Trata-se da \u201cCanção de Rolando\u201d
198
, fonte 
incomparável para compreender o universo mental da aristocracia 
francesa nos séculos XI e XII. 
 
 
 
 Não podemos, porém, deixar de citar a existência de um 
importante advento ocorrido na Idade Média, o qual veio ocupar 
uma brecha, uma lacuna deixada pelo Direito Romano. Segundo 
Gilissen
199
, o Direito Canônico é o direito da comunidade religiosa 
dos cristãos, mais especialmente o direito da Igreja católica. O 
termo canon deriva do grego, empregado nos primeiros séculos da 
igreja para designar as decisões dos concílios. 
 Conforme Gilissen, qualquer estudo histórico do direito na 
Europa seria incompleto se não englobasse um esboço da evolução 
do Direito Canônico. Para ter-se uma ideia da considerável 
importância deste Direito na Idade Média, é preciso considerar os 
seguintes fatores, 
 
a) O caráter universal da igreja: