Formacao Juridica   1. ANO
304 pág.

Formacao Juridica 1. ANO


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.747 materiais617.900 seguidores
Pré-visualização50 páginas
desde os seus primórdios, o 
cristianismo colocou-se como a única religião verdadeira 
para os homens. 
b) Certos domínios do Direito privado foram regidos 
exclusivamente pelo Direito Canônico, durante vários 
 
196 Trabalho gratuito que o camponês era obrigado a prestar ao seu senhor. 
197 LE GOFF, Jacques. As raízes medievais da Europa. Porto Alegre: Editora Vozes, 2010, p. 167. 
198 Poema épico composto no século XI, em francês arcaico, acerca da batalha de Roncesvalles, 
travada no desfiladeiro do mesmo nome por Rolando, conde da Bretanha e sobrinho de Carlos 
Magno. 
199 GILISSEN, op. cit., p. 133 e seg. 
 
séculos, sendo que qualquer conflito era resolvido pelos 
tribunais eclesiásticos. 
c) Foi, durante a maior parte da Idade Média, o único Direito 
escrito. 
d) Constituiu-se em objeto de trabalhos doutrinais, muito mais 
cedo que o Direito laico
200
. 
 
 O Direito canônico é um direito religioso e, desta forma, 
retira suas regras de preceitos divinos, da mesma maneira que o 
fazem o Direito hebraico, o Direito hindu e o Direito muçulmano. 
 Ainda é um Direito bem vivo e apesar da secularização das 
instituições públicas e privadas e da separação da Igreja e do Estado 
estabelecidas em inúmeros países, continua a reger as relações entre 
os membros da comunidade cristã, que a ele se submetam 
voluntariamente. 
 
 
 
 Renascimento é o nome dado ao período da história 
europeia caracterizado por um renovado interesse pelo passado 
greco-romano clássico, especialmente pela sua arte. Teve início na 
Itália do século XIV, nas cidades do norte da península, difundindo-
se pelo resto da Europa, durante os dois séculos seguintes. 
 Essa volta à Antiguidade possibilitou aos escritores e 
artistas renascentistas uma atitude mais secular e diferenciada do 
imaginário medieval. Neste sentido, os indivíduos passaram a 
demonstrar, por um lado, crescente preocupação com a vida terrena, 
aspirando, conscientemente, traçar seus destinos, e, por outro, 
empreender uma busca incessante, por meio dos seus principais 
expoentes, para se diferenciarem das concepções e percepções 
medievais imediatamente anteriores. Neste sentido, entendiam estar 
vivendo uma nova época, laica e politicamente mais progressista, o 
que os levou a caracterizar a Idade Média como a Idade das Trevas, 
que deveria ser esquecida e substituída pelo esplendor das culturas 
da Grécia e de Roma antigas
201
. 
 
200 Neste aspecto, vide a obra de S. Tomás de Aquino. 
201 BEDIN, Gilmar Antonio. A idade média e o nascimento do estado moderno: aspectos históricos e 
teóricos. Ijuí: Ed. Unijuí, 2008, p. 68, apud PERRY, 1999. 
 
 A Itália não teve um regime feudal muito acentuado, 
especialmente no norte, cujas cidades-repúblicas mantiveram 
elevado grau de soberania e formaram centros de comércio com 
intenso movimento mercantil urbano
202
. Ora, estas cidades 
entregam-se em larga escala ao exercício do comércio e isto origina 
contatos cada vez mais frequentes entre habitantes de diferentes 
cidades. Mercadores de Bolonha ou Florença passam seguidamente 
pelas portas de Módena ou Veneza, para aí estabelecer relações de 
comércio com comerciantes locais. Começa, então, a surgir o 
fenômeno de um habitante de uma cidade ser demandado perante a 
justiça de outra cidade, surgindo a pergunta inevitável: qual o 
Direito aplicável neste caso?
203
 
 O interesse manifestado pela arte greco-romana estende-se, 
também, ao Direito Romano, o qual passa a ser estudado pelos 
juristas como solução para os litígios decorrentes das relações de 
comércio. 
 Os juristas da escola de Bolonha foram os 
primeiros a estudar o Direito como uma ciência. Analisando o 
conjunto da codificação de Justiniano, estudaram o Direito Romano 
como um sistema jurídico coerente e completo, independentemente 
do direito do seu tempo, contribuindo, assim, para o 
desenvolvimento de uma ciência do Direito, cujo ensino é 
assegurado em escolas, mais tarde chamadas Faculdades, 
exclusivamente reservadas aos estudos jurídicos
204
. 
 O emprego da expressão glosa
205
 vem desta época. Os 
juristas de Bolonha ampliaram o seu uso a toda uma frase, às vezes 
até a todo um texto jurídico. Tais explicações tornaram-se cada vez 
mais longas e complexas. As glosas muito curtas eram escritas entre 
as linhas do manuscrito (interlineares) e as mais longas eram 
colocadas à margem dos textos (marginais). 
 
 
 
 
202 CORREIA, Ferrer. Lições de direito internacional privado. Coimbra: Almedina, 2000, p. 200/201. 
203 DOLINGER, Jacob. Direito internacional privado: parte geral. 9. ed. atual. Rio de Janeiro: Renovar, 
2008, p. 132. 
204 GILISSEN, op. cit., p. 343. 
205 Anotação interlinear, nota explicativa de palavra ou do sentido de um texto, comentário, 
interpretação. 
 
 
 
 Segundo José Reinaldo de Lima Lopes206, abre-se com 
eventos de extraordinária repercussão: a Reforma protestante e a 
chegada dos europeus à América. A conquista da América coloca 
para os juristas novos problemas e surgem questões para serem 
decididas, tais como: o direito de conquista e descoberta, o direito 
de posse, a invenção, o tesouro, o direito do mar (a liberdade dos 
mares) e, sobretudo, a alteridade
207
, a liberdade natural dos índios. 
 As deficiências da sociedade política medieval 
determinaram as condições para o surgimento do Estado moderno. 
A aspiração à antiga unidade do estado Romano, jamais conseguida 
pelo Estado Medieval, rira crescer de intensidade. Ao senhores 
feudais já não toleravam as exigências de monarcas aventureiros e 
de circunstâncias que impunham uma tributação indiscriminada e 
mantinham um estado de guerra constante, que só causavam 
prejuízo à vida econômica e social
208
. 
 Isto tudo foi despertando a consciência para a busca da 
unidade, que afinal se concretizaria com a afirmação de um poder 
soberano, no sentido de supremo, reconhecido como o mais alto de 
todos dentro de uma precisa delimitação territorial. Os tratados de 
paz de Westfália
209
 tiveram o caráter de documentação da existência 
de um novo tipo de Estado, com a característica básica de unidade 
territorial dotada de um poder soberano
210
. 
 As gigantescas consequências sociológicas e econômicas 
desse conflito foram sentidas decênios depois de seu término. Todo 
o interesse social das guerras é perfeitamente demonstrado nesse 
espantoso afresco de um momento crucial na existência de povos 
inteiros. Não há dúvidas de que o trauma, tanto humano quanto 
político, sofrido pelos territórios alemães durante esse conflito e em 
decorrência dos tratados de 1648, contribuiu em larga medida para 
 
206 LOPES, op. cit, p. 164. 
207 Qualidade do que é do outro. 
208 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 25ª ed. atual. São Paulo: Saraiva, 
2005, p. 70. 
209 Os tratados de Westfália deram fim à guerra dos trinta anos, assim chamada por ter se estendido 
de 1618 a 1648. Marcou o fim das guerras de religião e o surgimento da política internacional e da 
diplomacia modernas. Curiosamente, no livro \u201cMinha Luta\u201d, Hitler invocará a iniquidade dos 
tratados para qualificar a França de inimiga eterna da Alemanha. 
210 DALLARI, Id., ibid., p. 70. 
 
impedir a formação de uma nação, que surgirá somente no século 
XIX, a ferro e sangue, e com alguns séculos de rancores 
acumulados. 
 No século XVI a cristandade cindiu-se em duas. Após a 
Reforma, ficaram frente a frente uma Europa católica e uma Europa 
protestante,