Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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daquele que, por 
nada, demonstra interesse? A pergunta, portanto, aqui, sempre 
possui um lugar privilegiado. Ela é a prova de que alguém existe e 
está inserido, conscientemente, na História. Só pensar para existir 
pode ser a máxima cartesiana, mas na atualidade é necessário 
modificar um pouco o questionamento: o outro existe, e, no diálogo, 
nos reconhecemos, com nossas alegrias e tristezas partilhadas, e 
existimos. 
Há mais uma observação que merece ser posta: na 
atualidade há uma tendência generalizada à desconstrução, inclusive 
uma tendência ao apagamento de tudo. A longa tradição da 
produção cultural está ameaçada por uma \u201ccultura das massas\u201d, que 
é habitada por um \u201chomem das multidões\u201d, como chama Mattéi, um 
novo \u201cbárbaro\u201d que vê o mundo atual como \u201cabsolutamente chato\u201d, 
e produz a \u201ccultura bárbara\u201d do nosso tempo, aplicando essa 
\u201cprodução\u201d ao apagamento do mundo, de modo que a cultura 
contemporânea procura reflexivamente sua própria aniquilação. 
Parece que os efeitos da modernidade, que tinham por tendência 
provocar o choque, prolongam-se agora na forma da destruição da 
memória. É uma forma de causar o choque, que alimenta o bárbaro 
contemporâneo e que busca uma comoção para o espírito na forma 
da desconstrução \u2013 esses efeitos da decomposição são engendrados 
espontaneamente pela cultura de massas quando ela se relaciona 
com um sujeito vazio e incapaz de inserir-se no mundo.
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De certa forma, o declínio dos conceitos, compreensão dos 
termos, muito bem explicado por MacIntyre,
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 pode levar os alunos a 
um sentimento de simpatia pela qualificação de \u201cbárbaro\u201d, pois, 
afinal, perdemos boa parte da significação original dos termos por 
várias razões, mas a globalização de certa forma explica muita 
coisa. \u201cBárbaro\u201d pode ser visto como \u201cradical\u201d, e este é visto como 
 
4 MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. Trad. Isabel Maria 
Loureiro. São Paulo: UNESP, 2002. p. 259, 261. 
5 MACINTYRE, Alasdair. Justiça de quem? Qual racionalidade? São Paulo: Loyola, 1987. 
 
\u201cvirtuoso\u201d, o que não tem sentido nenhum com a origem grega dos 
termos, se é que pretendemos compreender algo da paideia grega.
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Mas o que importa é que, na atualidade, esse mesmo 
\u201cbárbaro\u201d, que muitos jovens podem ver como \u201cbom\u201d, é também o 
típico aluno receptor que decodifica uma mensagem dada por um 
professor emissor que codifica uma mensagem. E então os 
conhecimentos, como nos diz Mattéi,
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 não são um só saber dotado 
de significação substancial, mas uma mera informação ligada a um 
fluxo máximo transmitido pelo canal de comunicação \u2013 e o ensino 
não é um esforço de pensamento crítico, e sim uma soma 
indeterminada de informações de que é preciso apoderar-se. Essa é 
a razão pela qual o aluno fica mudo! \u2013 Responde o autor às 
perguntas insistentes e silenciosas de muitos professores. Não 
queremos alunos mudos, reduzidos a receptores de informações, 
próprio da cultura de massas \u2013 que não têm conteúdo nenhum. 
Por isso, os professores sabem que não são meros suportes 
e transmissores de informações. São muito mais do que isso. E esse 
é um dos motivos do porquê se propuseram a escrever a presente 
obra, que se destina exclusivamente a seus alunos. Esta obra é a 
prova viva da importância do trabalho de cada professor, de cada 
mestre, com seus discípulos em sala de aula. Ela tem uma pretensão 
simples, mas é grandiosa em si mesma, pois deseja tão somente 
estabelecer uma ponte entre o aluno, que se prepara para dar os 
primeiros passos no campo jurídico, e o professor, que se prepara 
para ensinar esses primeiros passos. Por isso, a obra pretende 
espelhar o sagrado de cada um \u2013 ou o modo sagrado como cada um 
contempla e vive o ensino jurídico com seus alunos. 
Precisamos estar conscientes, unindo-nos em mútuo auxílio 
para nos manter conscientes. Vivemos atualmente na \u201ccultura de 
massas\u201d e podemos ser identificados ou corresponder a esse \u201cser 
humano das multidões\u201d, que é vazio de sentido. Precisamos estar 
conscientes do perigo da adoração do nada, pela simples reação e 
correspondência ao desejo do nada da multidão em si.
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6 JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. 3. ed. São Paulo: 
Martins Fontes, 1995. 
7 MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. Trad. Isabel Maria 
Loureiro. São Paulo: UNESP, 2002. p. 220-221. 
8 A onda de greves na França, entre 2006 e 2007, tinha como razão a redução da carga horária, de 
modo que as pessoas lutavam para dar maior sentido à vida. Mas depois se percebeu que o que 
passou a estar em jogo era a própria questão sobre qual é o sentido da vida. E nesse caso, todo o 
 
Diante disso, podemos tentar encontrar um sentido através 
da dedicação ao estudo, à compreensão do tempo e do espaço da 
humanidade e ao resultado de sua produção jurídica. Assim, 
poderemos dizer que fizemos de fato nossas escolhas. Do contrário, 
teremos sido transformados em objeto \u2013 de uso e gozo \u2013 dessa 
\u201chumanidade barbarizada\u201d
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, que tem antes anseio pela destruição do 
que pela construção. O final disso tudo é fácil de ser percebido. Pela 
primeira vez na história, o ser humano conseguirá destruir o que 
jamais pensou que pudesse deixar de possuir: o livre-arbítrio. 
 Imaginando, assim, que aos nossos alunos seja possível 
enfrentar os desafios de estudar Direito com uma base doutrinária 
proposta por nossos professores, que busque aproximar os primeiros 
passos do Curso de Direito de maneira crítica, clara, coerente e 
simples, mas que, sendo simples, não deixe se ser igualmente 
profunda e que essa profundidade seja, não apenas técnica, mas 
também ética. Nesse sentido, são todos parte de uma construção 
permanente.
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 É assim que vemos os primeiros passos em um Curso de 
Direito podendo ser dados de modo firme, com um olhar sobre a 
teoria e outro sobre a prática, sem desconhecer os vários percalços 
que as distintas racionalidades do mundo estão a sugerir. E em 
atitude alerta, pois se corre sempre o risco de sucumbir às tentações 
de uma rotina jurídica. Por isso o título da obra envolve a 
\u201cformação\u201d do jurista, relembrando a paideia grega, palavra 
também tão cara a Gadamer. A visão ontológica do sujeito deve 
sempre dialogar com a existência real do mundo no qual ele também 
se insere. E ali não existe rotina, ali estaremos dialogando com 
 
trabalho pode ser simplesmente insignificante, caso não dermos um sentido a ele, dentro do que 
concebemos como vida que é boa. Quer dizer, o sentido à vida também é dado por cada um de nós. 
Daí também a importância da análise das \u201cordens éticas\u201d do mundo, a observação sobre o que dá 
conteúdo à ideia de Bem, que na ética aristotélica concentrava-se nas causas finais e na ética 
moderna passou a referir-se aos interesses do indivíduo (LAMEGO, José. Hermenêutica e 
jurisprudência. Lisboa: Fragmentos, 1990. P. 167). 
9 Ainda que o termo \u201cbárbaro\u201d tenha adquirido um sentido pejorativo em quase todos os livros de 
história, e que muitas vozes legitimamente se levantam defendendo a recondução do termo a um 
lugar mais adequado na história. O bárbaro passa a ser etimologicamente revisto e pode adquirir 
tanto significado quanto o virtuoso, enfim, deve-se explicar bem o sentido que se quer dar, então, às 
palavras quando utilizadas, mormente aquelas que passam por reformulações conceituais. Os livros 
de história estão sendo constantemente reescritos, e não poderia deixar de ser diferente. Reescreve-
-se diariamente, basta revisitar com a maturidade