Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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à falsidade, esquece a 
moral, dando lugar a mais pura demagogia
233
. 
O embate com os sofistas resultou na produção de um 
pensamento filosófico e político único, marcado principalmente pelo 
aspecto ético nas matérias relativas ao bem comum, o qual deve 
estar profundamente ligado à verdadeira virtude da justiça. A 
filosofia de Platão deu origem ao governo político-metafísico da 
República, baseado em normas imutáveis que devem reger a vida de 
todos os indivíduos. 
Assim, Platão abre a República com um diálogo relativo ao 
conceito e significado de justiça que serve de fio condutor ao 
modelo ideal de Estado proposto pelo filósofo. Nessa argumentação, 
Trasímaco afirma que a justiça, não é outra coisa que \u201ca 
conveniência do mais forte\u201d
234
 e que cada governo faz as leis para 
seu próprio proveito: a democracia, leis democráticas; a tirania, leis 
tirânicas, e as outras a mesma coisa
235
. Depois de estabelecidas, as 
leis declaram justos os interesses próprios e castiga quem as 
transgride. Além disso, Trasímaco apresenta outro argumento, 
afirmando que a injustiça é mais vantajosa do que a justiça, de tal 
forma que o grau máximo de injustiça se traduz na maior felicidade 
possível
236
. 
Platão, através das palavras de Sócrates, afasta os 
argumentos de seu opositor afirmando que o governante justo é 
sábio, bom, e não pauta suas ações pela conveniência do mais forte 
ou pela aquisição de riquezas
237
. Para comprovar seus argumentos, o 
filósofo entra na análise de sua forma ideal de Estado ao afirmar que 
a justiça é um atributo não apenas do indivíduo, mas também de 
 
231 ROGUE, Christophe. Compreender Platão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. p. 22. 
232 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 36. 
233 KOYRÉ, Alexandre. Introdução à leitura de Platão. Lisboa: Editorial Presença, 1988. p. 14 
234 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 18. 
235 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 19. 
236 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 20. 
237 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 21. 
 
toda a cidade
238
. Assim, expõe que a cidade justa e ideal é aquela 
governada pelo mais sábio, de forma virtuosa. 
A cidade platônica, então, tem origem no fato de os 
indivíduos não serem autossuficientes, mas sim apresentarem 
necessidade de muitas coisas
239
. Na República de Platão, chama a 
atenção o fato de o homem ter uma característica e uma natureza 
política, sendo de fundamental importância, portanto, a boa 
ordenação da cidade
240
. Essa essência política, porém, é baseada em 
uma concepção hierárquica que afirma que os homens são desiguais 
por natureza e cada um deve executar sua função para toda a 
comunidade
241
. 
Dessa forma, devem existir determinadas classes que 
atendam a essas necessidades essenciais. Para suprir as suas 
condições de formação e segurança, o Estado deve ter uma classe de 
guardiões e guerreiros, dotados de mansidão e de ousadia; fortes e 
ágeis no físico, irascíveis, valentes e amantes do saber na alma
242
. A 
eles não será concedido nenhuma posse de bens e riquezas, tendo 
habitação e posses comuns. Eles devem zelar pelo equilíbrio do 
Estado, não permitindo demasiada pobreza ou riqueza nas outras 
classes, observando o cumprimento das funções respectivas e da 
devida educação aos mais jovens
243
. 
 
238 Nesse momento, Sócrates afirma que \u201cnuma cidade, a justiça é mais visível e mais fácil de ser 
examinada. Assim, se quiserdes, começaremos por procurar a natureza da justiça nas cidades; em 
seguida, procuraremos no indivíduo, para descobrirmos a semelhança da grande justiça com a 
pequena\u201d. PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.p. 52. 
239 \u201cSócrates \u2013 O que causa o nascimento a uma cidade, penso eu, é a impossibilidade que cada 
indivíduo tem de se bastar a si mesmo e a necessidade que sente de uma porção de coisas; ou juIgas 
que existe outro motivo para o nascimento de uma cidade?\u201d PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação 
Calouste Gulbenkian, 1996.p. 56. 
240 \u201cPara ele é a vida má do homem a razão última da catástrofe da vida política. Ora, o papel da 
filosofia é formar os quadros dirigentes para que estes, uma vez de posse da verdade sobre o homem 
e o Estado, possam provocar a radical transformação da vida política. Por esse motivo, o pensamento 
de Platão, de certo modo, encerra um paradoxo: por um lado, não pretende tomar posição diante de 
problemas políticos concretos da sociedade de seu tempo; por outro, ele é essencialmente político à 
medida que procura descobrir os princípios fundamentais da organização política humana. A filosofia, 
para Platão, era a única capaz de descobrir o que é justo para o indivíduo e para a polis: ela é a fonte 
do saber tanto para a sociedade como para o indivíduo\u201d. OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e 
sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 35. 
241 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 54. 
242 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 187. 
243 \u201cComo se vê, toda a problemática de Platão gravitava em torno de uma organização racional não 
no sentido da razão instrumental e funcional, como razão tecnológica, mas como razão ética. Por 
isso, como veremos, Platão vai defender a \u2018aristocracia\u2019 como domínio dos melhores, no sentido do 
conhecimento e da vida moral. Nunca a política se reduz à administração de coisas, mas tem a ver 
com a organização da vida humana a partir de normas. Sem a dimensão ética, para Platão, a vida 
 
Para Platão, a força da organização política que propõe 
reside no fato de não existir ricos nem pobres. Reside, portanto, na 
existência de uma igualdade material. A força da República deve 
residir na sua unidade
244
. Não pode existir privilégio de classes. 
Deve-se fazer com que haja, através de suas capacidades próprias, 
vantagens recíprocas entre elas. Desse modo, o pensamento 
platônico define a justiça como uma virtude fundamental no Estado, 
pois a injustiça leva exatamente ao fim dessa unidade, gerando 
instabilidade, conflitos, desigualdades e, acima de tudo, a 
desintegração dos vínculos morais e sociais
245
. 
A ordem política platônica, portanto, é baseada na 
necessidade para a realização da justiça
246
. Platão leva o Estado às 
últimas consequências, pois ele é como a ampliação da alma. Há 
uma correlação recíproca entre eles, pois a tríplice divisão da alma é 
o paradigma estrutural da organização do Estado e de sua divisão de 
tarefas, determinando que cada um deve fazer a sua parte e não 
interferir na do outro
247
. Neste modelo, as partes estão subordinadas 
ao todo, e a sua finalidade é o bem do todo. A ordem é sinônimo de 
justiça, a desordem significa injustiça
248
. 
O caminho que Platão indica para orientar cada função do 
Estado é a filosofia, pois só assim se possibilitará acesso aos valores 
de justiça e de bem, que são o fundamento verdadeiro de toda 
política autêntica. Aprofundando esse raciocínio, Platão chega à 
definição das características daquele que deve governar a República: 
o Rei-filósofo
249
. Conforme o exposto no \u201cmito da caverna\u201d, o 
 
política transforma-se em repressão\u201d. OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São 
Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 41. 
244 ROGUE, Christophe. Compreender Platão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. p. 15. 
245 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de.