Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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de 
determinar o conflito fundamental entre Filosofia e Política. A 
distinção entre \u201cgovernante\u201d e \u201cgovernados\u201d e entre os que \u201csabem\u201d 
e \u201cnão sabem\u201d governar acabou com a pluralidade dos atores 
políticos envolvidos
259
, bem como com a imprevisibilidade 
característica das atividades humanas, subordinando a política a 
critérios de aferição de verdades absolutas. Acima de tudo, porém, 
visualiza-se que a delicada relação entre Estado, poder e indivíduos 
estava apenas começando. 
 
 
Aristóteles, ao contrário de Platão, desenvolveu os seus 
questionamentos de maneira realista, observando e questionando a 
prática das diversas formas de administração da pólis
260
. A política 
para Aristóteles tem uma concepção oposta à dada pela 
modernidade. Enquanto que esta, ligada à inspiração maquiavélica 
que está na sua origem, apresenta a ciência política como um 
problema de técnica e de produção do poder, Aristóteles a definia 
 
258 PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 246. 
259 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 289. 
260 \u201cA mudança de paradigma filosófico operada por Aristóteles não é nem um pouco mais fácil de 
definir brevemente que o complexo pensa-mento platônico. Muitas vezes se propôs uma 
simplificação enganosa: um Platão amigo das Essências metafísicas, o dedo apontado em direção ao 
céu inteligível, e um Aristóteles \u2018realista\u2019, às vezes até mesmo prosaico.\u201d BILLIER, Jean-Cassien; 
MARYIOLI, Aglaé. História da filosofia do direito. Barueri, SP: Manole, 2005. p. 72. 
 
como ação (ou práxis), fundamental para o conhecimento e 
realização do ser humano
261
. 
Aristóteles expõe que a pólis é uma criação natural, e que o 
homem é por natureza um animal social
262
. A sociedade política, 
portanto, é anterior ao indivíduo, pois não se pode desvincular o ser 
humano de sua natureza social e política. A inclinação natural leva 
os homens a ela
263
. O homem é parte integrante da polis, inútil 
quando desarticulado do Estado, pois este é o primeiro objeto a que 
se propôs a natureza
264
. O homem afastado da sociedade política é 
semelhante às mãos e aos pés que, quando separados do corpo, só 
conservam o nome e aparência
265
. 
Segundo Aristóteles
266
, \u201cmesmo que não tivéssemos 
necessidade uns dos outros, não deixaríamos de desejar viver 
juntos\u201d, já que o interesse comum também une os homens. Não foi 
apenas para viver juntos que se fez o Estado, mas para \u201cbem viver\u201d 
juntos. A individualidade é construída na sociabilidade, pois a ação 
humana é sócio-política
267
. Porém, pelo fato de o homem ser dotado 
de inteligência e vontade, é necessário existir normas que 
regulamentem a sua conduta dentro da comunidade, pois, da mesma 
forma que \u201co homem civilizado é o melhor de todos os animais, 
aquele que não conhece nem justiça nem leis é o pior de todos\u201d
268
. 
Assim, a ordem estatal deve pressupor as formas éticas de vida e 
nelas se fundamentar. Nesse fundamento, há uma unidade 
indissolúvel entre ética e política, entre Direito e Moral. A estrutura 
social e jurídica determina o tipo de sociabilidade existente, pois não 
se pode saber qual é a organização e a Constituição ideal, sem saber 
qual é a vida mais digna de ser escolhida
269
. 
 
261 NEDEL, José. A ética em Aristóteles. In: Os gregos e nós. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2009. 
262 Segundo o Estagirita, \u201cé evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é 
naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, 
existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do 
homem, segundo Homero: Um ser sem lar, sem família e sem leis. Aquele que fosse assim por 
natureza só respiraria a guerra, não sendo detido por nenhum freio e, como uma ave de rapina, 
estaria sempre pronto para cair sobre os outros. Assim, o homem é um animal cívico, mais social do 
que as abelhas e os outros animais que vivem juntos\u201d. ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova 
Cultural, 2005. p. 8. 
263 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 9. 
264 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 6. 
265 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 8. 
266 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 26. 
267 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 61. 
268 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 10. 
269 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 79. 
 
Portanto, ao Estado se designa um fim ético, mais educativo 
do que jurídico. As normas estatais (direito positivo) são entendidas 
como direcionamentos à virtude do cidadão, pois a sociedade, além 
de bastar a si mesma, é organizada não apenas para \u201cconservar a 
existência, mas também para buscar o bem-estar\u201d
270
. É por isso, que 
Aristóteles considera a política a parte fundamental de seu sistema, 
pois diferentemente da caracterização dada à ciência política pela 
modernidade, não há separação entre a política e a moral. Além 
disso, para o filósofo grego, na definição do éthos, parte-se de um 
juízo moral concreto, nos modos e costumes institucionalizados na 
sociedade, e da \u201cexperiência na pólis (senso moral da comunidade) 
para atingir a norma universal\u201d
271
. Para Aristóteles, portanto, a 
justiça atua não só no plano privado, mas também é a virtude de 
maior importância no plano coletivo, fazendo a ligação entre o 
indivíduo e a pólis. A justiça fica, portanto, essencialmente unida à 
moral, pois o fim último do Estado deve ser sempre a virtude e a 
formação moral dos cidadãos. 
A ordem política se fundamenta, portanto, nas formas éticas 
de vida, demonstrando uma ligação fundamental entre ética 
(doutrina moral individual) e política (doutrina moral social). Para o 
estagirita, o bem constitui o fim de todas as ciências, sendo o maior 
dos bens (a justiça) encontrado justamente na maior de todas as 
ciências (a política). O interior da pólis constitui o local no qual o 
indivíduo poderá efetivar suas virtudes éticas e ter uma vida boa e 
feliz, demonstrando a importância primordial da lei para que ela se 
constitua de maneira justa, \u201cassegurando não apenas a convivência, 
mas uma maneira nobre de viver\u201d
272
. 
A justiça, nesses termos, seria indissociável da pólis, ou 
seja, da vida em comunidade, se desenvolvendo a partir desse 
conhecimento prático de senso comum e se realizando na prática 
constante da relação com o outro
273
. Nota-se que nessa teoria há 
uma defesa de educação e da melhoria da consciência ética dos 
cidadãos por meio de uma práxis moral, visando constituir uma 
sociedade justa que garanta a vida plena aos cidadãos. Há, portanto, 
 
270 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 7. 
271 ROSS, William David. Aristóteles. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987. p. 217. 
272 ROBLEDO, Antonio Gómez. Ensayos sobre las virtudes intelectuales. México: Fondo de Cultura 
Económica, 1986. p. 197. 
273 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 61. 
 
uma relação circular entre ética e política no pensamento de 
Aristóteles: a pólis emerge em razão da realização moral plena do 
homem. É uma instituição ética, que não visa apenas a 
sobrevivência e a realização de necessidades materiais
274
. 
O Estado, portanto, depende dos mesmos princípios que o 
indivíduo para \u201cser feliz\u201d: \u201cnão há nada de bom a esperar dele, nem 
tampouco de um