Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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historicamente. 
Dessa forma, Maquiavel concentra seus esforços no fato 
político em si, sem qualquer preocupação com seu aspecto moral, 
rompendo com as tradições passadas sobre o tema e estabelecendo 
um novo paradigma para a ciência política. Se a \u201cpolítica\u201d para 
 
284 ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 92. 
285 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Edições Loyola, 1993. p. 83. 
286 BIGNOTTO, Newton. Maquiavel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 10. 
 
Aristóteles e Platão é orientada, por uma lado, pela ideia de um 
princípio fundamental de sociabilidade humana e, por outro, pela 
função do Estado de determinar uma formação moral aos cidadãos, 
para Maquiavel a política e, consequentemente, o Estado tem uma 
orientação própria e independente, voltada para seus interesses e sua 
própria razão. A obra maquiavélica é, portanto, uma reflexão sobre 
o poder político inerente ao Estado, que, segundo o autor, é 
caracterizado por uma correlação de forças sociais fundadas no 
eterno conflito entre o desejo de poder e domínio dos poderosos e o 
desejo de liberdade do povo. A ação política do príncipe deve estar 
voltada para a compreensão dessa realidade
287
. 
As ideias de Maquiavel foram alvos de muitas 
interpretações superficiais que alimentaram o mito de um autor que 
pregava o imoralismo e a indecência política acima de tudo. Porém, 
a separação entre moral e política presente em sua obra apresenta 
contornos muito mais complicados que qualquer simplificação 
ligeira. A sua análise sobre as relações de poder na experiência 
concreta dos povos acabaram por dar uma nova definição de 
política, relacionada diretamente a conquista e manutenção do 
poder. A política deixa de ser apenas teoria e passa a requerer 
prática, levando o príncipe a se ater apenas à verdade efetiva das 
coisas
288
. 
 Essa face singular da política dada pelo autor acaba no 
desenvolvimento de um conceito chave de seus escritos: a 
necessidade
289
. É ela que deve delimitar as ações do príncipe e fazê-
lo aprender a usar ou não a bondade conforme as circunstâncias. 
Impor a necessidade como cerne da política acaba por impor duas 
questões fundamentais ao Estado. A primeira é que os homens não 
são éticos, portanto, o Estado não tem nenhum papel moral e 
educativo
290
. O poder deve ser utilizado unicamente para conciliar 
 
287 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 25. 
288 \u201cMaquiavel retoma aqui um tema que já foi de Aristóteles: a políticaé a arte do possível, é a arte 
da realidade que pode ser efetivada, a qual leva em conta como as coisas estão e não como elas 
deveriam estar. Existe aqui uma distinção nítida entre política e moral, pois esta última é que se 
ocupa do que deveria ser. A política leva em consideração uma natureza dos homens que, para 
Maquiavel, é imutável: assim a história teria altos e baixos, mas seria sempre a mesma, da mesma 
forma que a técnica da política.\u201d GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel (As concepções de 
estado em Marx, Engels, Lênin e Gramsci). Porto Alegre: L&PM, 1985. p. 11 
289 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 60. 
290 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 65. 
 
os conflitos entre as classes contrárias, visando manter e fortalecer o 
poder central. 
O segundo aspecto da necessidade diz respeito justamente 
ao rompimento das relações entre ética e política
291
. A ação do 
príncipe deve ser movida pelos fatos e não pelo \u201cdever ser\u201d. Ele 
deve aprender a se desvincular de qualquer questão moral e utilizar 
todos os meios que estão disponíveis
292
. A política é autônoma e não 
respeita nenhuma hierarquia de princípios ou valores que devem 
reger a sua conduta. O resultado e as consequências da ação política 
se tornam os critérios fundamentais do Estado. Maquiavel não 
prega, portanto, um simples amoralismo no trato da política, mas 
define o bem do Estado como justificativa máxima para os meios 
escolhidos pelo Príncipe, jamais os interesses particulares. Assim, 
afasta os preceitos morais individuais da \u201cmoral política\u201d, fazendo 
com que atitudes que seriam aprovadas na perspectiva individual, 
sejam reprovadas na esfera política
293
. 
Nesse contexto, insere-se também dois conceitos muito 
importantes para a compreensão da teoria política de Maquiavel. O 
primeiro deles é a virtù
294
. Esse termo não tem o mesmo significado 
de \u201cvirtude\u201d, no sentido dado pelos pensadores gregos. Para 
Maquiavel, virtù significa uma qualidade especial, inerente aos 
\u201cpríncipes\u201d que foram capazes de realizar grandes obras e provocar 
mudanças na história
295
. Não tem, portanto, relação alguma com a 
excelência moral, mas sim com a capacidade de perceber o jogo de 
força política e agir com eficácia a fim de defender o poder como 
um fim em si mesmo. Trata-se de uma \u201cexcelência prática\u201d que 
dispensa preceitos morais e religiosos preestabelecidos, pois 
reconhece as questões que podem levar um Estado a sua ruína. 
Os homens de virtù são, então, aqueles que sabem agir 
diante da situação presente, impondo a sua vontade no desenvolver 
dos fatos. Essa qualidade exige que o governante atue com bondade 
ou com crueldade, dependendo da situação em que se encontra
296
. 
 
291 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 36. 
292 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 55. 
293 GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel (As concepções de estado em Marx, Engels, Lênin 
e Gramsci). Porto Alegre: L&PM, 1985. p. 10. 
294 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 64. 
295 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 65. 
296 GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel (As concepções de estado em Marx, Engels, Lênin 
e Gramsci). Porto Alegre: L&PM, 1985. p. 11 
 
Assim, a ação política é legítima quando visa o bem coletivo, 
podendo apresentar violência e crueldade desde que o interesse do 
Estado se encontre acima de tudo e de todos. 
Por outro lado, a \u201cfortuna\u201d (referência à deusa romana 
detentora da \u201croda\u201d que define a tomada de tudo o que os homens já 
conquistaram) é uma força que não pode ser dominada inteiramente 
pelo homem
297
. A virtú é a único caminho para se antecipar aos 
efeitos da \u201cfortuna\u201d. O autor afirma que aqueles que somente por 
fortuna se tornam príncipes, só com muito esforço assim se mantêm, 
pois encontraram muitas dificuldades
298
. Nesse caso, então, o 
príncipe deverá ter tamanha virtude capaz de prepará-lo para 
conservar aquilo que a fortuna lhe deu
299
. O sucesso ou o fracasso 
do príncipe, portanto, não estará sujeito ao acaso, nem sequer estará 
determinado a priori em manuais ou princípios religiosos e morais. 
O caso real e concreto é a única guia para a ação política. 
O sucesso e a popularidade positiva do príncipe não são 
influenciados por suas qualidades morais individuais, mas pela sua 
competência na prática da ação política e pelo êxito de suas 
decisões
300
. Não há espaço para julgamentos morais na ordem 
política, pois isso leva inevitavelmente ao fracasso e a ingerência do 
Estado. O príncipe não pode ter como base aquilo que observa nas 
épocas de paz, nem acreditar na boa vontade de seus súditos, pois 
quando eles precisam do Estado prometem as mais variadas 
atitudes, mas na adversidade poucos são os primeiros a fugir
301
. 
Assim, um príncipe hábil deve descobrir uma maneira de fazer com 
que os seus cidadãos