Formacao Juridica   1. ANO
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Formacao Juridica 1. ANO


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do direito e da história. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 185. 
 
sociabilidade. Com o estudo dos fundamentos da sociabilidade, e do 
Direito, e ainda, da própria natureza humana, vem a pergunta sobre 
a origem da sociabilidade e do próprio Direito. Direito, sociedade e 
ser humano estão numa relação intrínseca, circular e dependente? Se 
tivéssemos que organizar os 3 itens, Direito, sociedade e ser 
humano, em uma ordem de gênese, de nascimento, qual deles viria 
primeiro? E qual viria por último? O homem vem primeiro, ou a 
sociedade? Ou afinal, é o direito que vem antes da sociedade, ou a 
sociedade é que vem antes do Direito? 
 Independente da origem do ser humano, desde Aristóteles, 
pelo menos, ensina-se que o ser humano é por natureza social. É um 
ser social e político. Social porque em uma tendência natural à vida 
em sociedade, e político porque procura estabelecer condições de 
convivência com os demais. O ser humano historicamente sempre 
foi retratado em estado de convívio com outros, de modo mais ou 
menos ordenado, seja uma ordem imposta, seja uma ordem 
dialogada. Mas como se poderia explicar esse \u201cimpulso\u201d humano 
para o grupo e a convivência social? Um bom caminho é a análise 
da natureza humana. 
 A sociabilidade é sua propensão a viver em conjunto, 
enquanto a politicidade é a relação que mantém com os demais. Para 
Platão o Homem é \u201calma\u201d, e alcança a Felicidade na contemplação 
das Ideias. Devido ao corpo surge uma série de necessidades como a 
sociabilidade. Esta só irá existir enquanto a alma estiver ligada ao 
corpo. Já para Aristóteles a alma e corpo constituem o homem e por 
isso ele é ligado a vínculos sociais. É a natureza que induz o 
indivíduo a associar-se. Assim, o ser humano é político e aquele que 
não possui estado é visto como superior ou inferior ao homem, ou 
um \u201cdeus\u201d, ou um animal.
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 Estamos assim, diante do naturalismo. 
 Na modernidade surgem os contratualistas, Spinoza, 
Hobbes, Locke, Leibniz, Vico e Rousseau, para quem a sociedade 
não passa de um acordo de vontades, um contrato hipotético 
celebrado entre os homens. Nesse contratualismo, que é classificado 
por Reale como \u201ctotal\u201d ou \u201cparcial\u201d, é que se perceberá a distinção 
entre Direito e moral. No contratualismo total a própria sociedade é 
fruto do contrato, enquanto que outros mais moderados dirão que a 
 
23 Como explica Betioli, citando \u201cA Política\u201d, de Aristóteles (BETIOLI, Antônio Bento. Introdução ao 
Direito : lições de propedêutica jurídica tridimensional. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 40-41. 
 
sociedade é um fato natural, mas o Direito constitui um fato 
contratual. O Direito estaria baseado no contrato social, enquanto a 
Moral seria anterior ao contrato positivo e sua condição primordial. 
Tanto Hobbes quanto Rousseau são partidários de um 
contratualismo total, não obstante o contratualismo de Hobbes ser 
pessimista (o homem é um ser mau por natureza) e o de Rousseau 
ser otimista (crê na bondade natural dos homens, mas a sociedade os 
corrompeu). Um contratualismo parcial vemos em Grócio, para 
quem a sociedade é um fato natural, oriundo do appetitus societatis, 
mas o Direito positivo é resultado de um acordo ou convenção. Para 
ele o Direito natural é uma expressão da moral segundo 
ensinamentos tradicionais, mas o Direito Positivo é expressão de um 
contrato, como diz Reale, em suma: enquanto a Moral é \u2018natural\u2019, o 
Direito é \u2018convencional\u2019. 
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 Disso se pode concluir, de todo modo, que o direito in 
genere é, como diz Del Vechio,
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 fenômeno comum a todos os povos 
e em todos os tempos \u2013 nesse caso o Direito é produto da 
necessidade humana, existindo fatores gerais e comuns a todos os 
povos que levaram à formação da lei ou costume. E isto não pode 
ser descoberto pela ciência jurídica stricto sensu, que tem por objeto 
um campo particular, delas escapando as causas genéricas e 
universais que só podem ser abrangidas pela Filosofia do Direito \u2013 
que envolve a chamada investigação meta-histórica do direito. 
 Enfim, seja para naturalistas, seja para contratualistas, a 
sociedade é fruto da própria natureza humana, e o Direito constitui o 
fundamento dessa sociabilidade. 
 
 
 
24 REALE, Miguel. Filosofia do direito. p. 648. O contratualismo comporta uma distinção ainda quanto 
a sua natureza, que pode ser histórico ou deontológico. Para alguns o contrato apresenta-se com a 
força de um fato histórico \u2013 ele ocorreu em certo momento da evolução histórica, na passagem do 
estado selvagem para o estado civilizado. Rousseau e Hobbes nunca pensaram o contrato como um 
fato histórico, ao contrário de Altúsio e Grócio, que se referem-se apenas à origem do Direito e do 
Estado. Tal teoria vai atingir em Kant um grau ainda mais especializado, quando o contrato vai 
adquirir significado lógico-transcendental. Kant parte do pressuposto de que o homem é um ser que 
desde seu nascimento possui um direito inato, o direito de liberdade. O contrato é condição 
transcendental, sem a qual seria impossível a experiência do Direito \u2013 e por isso define o direito 
como o conjunto das condições mediante as quais o arbítrio de cada um se harmoniza com os dos 
demais, segundo uma lei geral de liberdade. O contratualismo de Kant é assim deontológico, com 
base lógico-transcendental, enquanto o de Rousseau tem fundamento psicológico (p. 651). 
25 DEL VECCHIO, Giorgio. Lições de filosofia do direito. cit., p. 306. 
 
 
 A partir do examinado no item anterior, é importante 
destacar as diversas possibilidades de compreender o fenômeno 
jurídico, surgindo a discussão sobre o que significa o dogmatismo 
como modo de entender os diversos significados do Direito. Aqui é 
importante a leitura da obra de Luiz Alberto Warat, cujo trabalho na 
área da Introdução ao Estudo do Direito foi profícuo, originando três 
livros muito interessantes sobre o tema. Para este autor, dogmatismo 
\u201capresenta-se como a tentativa de construir uma teoria sistemática 
do direito positivo, sem formular nenhum juízo de valor sobre o 
mesmo, convertendo-o em uma mera ciência formal\u201d.
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 Ademais, 
apresenta como característica estabelecer premissas com caráter 
vinculante, predominando a \u201cinegabilidade dos pontos de partida\u201d, 
constituindo-se, assim, um discurso monológico, no qual a própria 
fala já vem previamente habitada. 
 Esta passagem do texto de Warat é desafiadora para o 
estudante e profissionais do Direito! 
 Como mencionado, o processo contínuo de construção da 
civilização e da democracia indica que a segurança jurídica é crucial 
para a vida moderna, mas, tal objetivo não pode converter o Direito 
naquilo que o jusfilósofo nomina de \u201cmera ciência formal\u201d. 
 As discussões sobre o fenômeno jurídico também 
relacionam-se com questões morais, conforme será posteriormente 
melhor examinado, sendo que o futuro profissional não pode 
desconhecer este aspecto e mergulhar na crença de reduzir o 
fenômeno jurídico àquilo que acontece na instância da lei. 
 Outro jurista fundamental para trabalhar esta discussão é 
Tércio Sampaio Ferraz Júnior, ao destacar que a análise dos 
institutos jurídicos pode revestir duas possibilidades. A primeira 
perspectiva dá maior importância para o aspecto da pergunta. Esta 
seria a principal postura no processo de investigação científica, 
sendo que os conceitos dogmatizados são postos em dúvida. Dentro 
de tal concepção, o sistema dentro do qual o problema a ser 
resolvido está inserido, adquire um caráter de possibilidades, 
 
26 Introdução Geral ao Direito II. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, p. 16.