ÉTICA E ADMINISTRAÇÃO CONTEXTUALIZANDO A DISCUSSÃO SOBRE OS DESAFIOS DA ÉTICA NO MUNDO DOS NEGÓCIOS
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ÉTICA E ADMINISTRAÇÃO CONTEXTUALIZANDO A DISCUSSÃO SOBRE OS DESAFIOS DA ÉTICA NO MUNDO DOS NEGÓCIOS


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aos enfrentamentos com-
plexos que suas escolhas e decisões podem cau-
sar. O trabalho do administrador está sujeito, sem
dúvida, a avaliações que tendem a julgá-lo mo-
ralmente. Se sua postura moral não estiver de
acordo com o que a opinião pública considera
como padrão de conduta moral legítima, então a
vida de seu empreendimento estará comprome-
tida, mesmo que isto se faça por meio de uma
mídia que denuncia sem fundamentos e injusta-
mente uma causa, como foi o caso que ocorreu
com os administradores de uma escola. Vejamos:
Basta citar o famoso caso da Escola
Base, no Bairro da Aclimação em São Paulo, em
março de 1994, quando os donos do estabeleci-
mento foram acusados, de maneira infundada,
de estarem envolvidos em práticas de abuso se-
xual de crianças (...). Mesmo sem provas con-
cretas, o delegado e duas mães de aluno passa-
ram informações à mídia que a divulgou sem pré-
via apuração da veracidade dos fatos. Em razão
da exploração sensacionalista das denúncias, a
repercussão foi devastadora. Os acusados che-
garam a temer linchamento, apesar de se decla-
rarem inocentes (...). Três meses depois, as no-
vas investigações provaram que tudo não passou
de uma série de erros das mães, do delegado e
da imprensa, que noticiou a versão que lhe foi
passada sem questioná-la, chegando até a incen-
tivar a violência física contra os acusados. A casa
em que funcionava a escola foi depredada na épo-
ca das denúncias; os indiciados perderam seu ne-
gócio e tiveram de reformar o imóvel que era
alugado, tomando dinheiro emprestado. Por fim,
com as reputações destroçadas, não conseguiram
reconstruir suas vidas cinco anos depois do epi-
sódio, apesar do fato de, em dezembro de 1999,
o Tribunal de Justiça de São Paulo ter fixado uma
indenização de cem mil reais por dano moral para
cada uma das vítimas (a serem acrescidos de ju-
ros e correção monetária). O Tribunal também
decidiu que os danos materiais seriam ressarci-
dos. (in SROUR, 2000, p.23).
A ética nos negócios empresariais não
é imune, pois carrega um peso muito vasto no
poder que certas decisões têm der causar impac-
tos que irradiam seus efeitos à distância. Daí a
preocupação das empresas pela formação ética
de seus funcionários. Em termos práticos, afe-
tam o que se chama de stakeholders (SROUR,
2000, p.41), ou seja, os agentes direta e indireta-
mente ligados às decisões organizacionais ou de
gestores administrativos. São eles, na linha in-
terna: trabalhadores, gestores, proprietários; e
na externa: clientes, fornecedores, prestadores
de serviço, autoridades governamentais, entida-
des da sociedade civil, tais como movimentos
sociais de defesa dos direitos dos consumidores,
sindicatos, meios de comunicação, entre outros.
Quando falamos em contextos sociais de riscos
para as empresas e para a tomada de decisões
pelos administradores estamos nos referindo aos
encargos e ônus da culpa que precisam assumir
Adcontar, Belém, v. 5, n.1. p. 15-34, junho, 20046
por algo visto como antiético. Isto representa
uma forma de mostrar que a empresa tem leal-
dade com os clientes, e um nítido espaço para a
\u201cética nos negócios se justificarem\u201d.
No caso de uma administradora de re-
cursos de terceiros, como uma corretora ou ban-
co, como administrar os conflitos financeiros entre
esta e os clientes? É claro que em função de inte-
resses particulares as informações sigilosas dos
clientes podem terminar nas mãos de adminis-
tradores em proveito próprio. O sigilo se estabe-
lece pela \u201cMuralha da China\u201d que, segundo Srour
(2000, p.37), evita a invasão nas informações do
cliente, isolam informações públicas das priva-
das, estabelecem barreiras tecnológicas e físi-
cas, dividindo departamentos e proibindo aces-
sos, criando dispositivos de vigilância dos pró-
prios funcionários, criando departamentos de fis-
calização com autonomia para controlar saltos
sobre a \u201cmuralha\u201d. A lealdade é devida aos cli-
entes e investidores, mostrando que a ética nos
negócios tem também a nítida cautela pela pre-
servação de sua permanência num mundo exi-
gente de segurança e onde o \u201cpoder do merca-
do\u201d pode detonar resultados negativos do ponto
de vista econômico e moral.
A ética empresarial, como toda moral,
é historicamente compreendida de acordo com
sua função no mundo, pressionada por outros va-
lores regidos pelo mercado. Neste aspecto, quan-
do uma administração assume uma postura de
vigilância interna de seus funcionários, em fun-
ção da ética nos negócios, é difícil imaginar que
ela tome partido do \u201cbom-mocismo\u201d, pois como
se colocam em termos políticos e sociológicos,
\u201cé mais crível aceitar que ela tenha conjugado
seu credo organizacional \u2014 que considera a em-
presa responsável pelos clientes, empregados,
comunidade e acionistas \u2014 com uma análise es-
tratégica da relação de forças no mercado\u201d
(SROUR, 2000, p.42). Fica mais fácil imaginar
que a \u201cética nos negócios\u201d, pressionada pelo
mercado e por transformações ocorridas no seio
social, tem sido fruto de um contexto histórico
bem demarcado e de uma dinâmica social preci-
sa, conforme dissemos até aqui. Neste sentido, o
credo organizacional de administradores e de
empresas se viu tomado pela necessidade de se
voltar para uma nova perspectiva social, que criou
a mentalidade da \u201cresponsabilidade social\u201d, a
busca pela formação de padrões de condutas éti-
cas de seus funcionários (mesmo que seja ape-
nas como discurso) e a introdução de mecanis-
mos que prezam pela valorização da opinião pú-
blica sobre os produtos da empresa.
A bem da verdade, em ambientes com-
petitivos, as empresas têm uma imagem a res-
guardar, uma reputação e uma marca. A ampli-
ação dos direitos deu condições para que a socie-
dade reunisse elementos para se mobilizar e re-
taliar empresas socialmente vistas como irres-
ponsáveis e inidôneas. A cidadania organizada e
educada, associando a isso o crescente custo da
vida social, exige uma postura dos dirigentes e
administradores para agirem de forma mais res-
ponsável. Neste aspecto, enveredamos nesta dis-
cussão a fim de mostrar como se situa a mudan-
ça de mentalidade de uma ética empresarial
meramente preocupada com os interesses pró-
prios pelo lucro e a eficiência, e passamos a en-
tender que as mudanças ocorridas nas esferas
sociais mais amplas exigiram uma transforma-
ção da postura em torno da ética empresarial.
Como diz o estudo da professora de ad-
ministração Laura Nash (1993), podemos perce-
ber uma reflexão nesse campo, que tem discuti-
do que os objetivos das empresas devem mudar
suas condutas para uma ética mais responsável
com o social, definindo objetivos que possam
transcender a mera funcionalidade dos negócios.
Segundo diz Nash (1993, p.24-25), \u201cas declara-
ções de objetivos empresarias é, em sua nature-
za, funcional e mais do que ética\u201d, ou que as
empresas buscam nos seus negócios apenas a
\u201cexcelência, sem nunca definir o objetivo geral
que se visa com tais atividades\u201d, pois é preciso
entender a atividade da administração e da em-
presa como \u201cuma entidade social... uma organi-
zação de pessoas onde as ações de uns têm efeito
sobre o bem-estar e os direitos dos outros\u201d. Em
outros termos, estas exigências têm refletido
mudanças exigidas pela sociedade civil como
possibilidade de fazer \u201cpolítica pela ética\u201d e
viabilizar aos empresários posturas éticas nos
seus negócios, bem como posturas morais das
empresas por meio de intervenção social (NASH,
Adcontar, Belém, v. 5, n.1. p. 15-34, junho, 2004 7
2000, p.43). Vamos simplificar a questão mos-
trando no fluxograma abaixo, em que as agênci-
as de controle (Procon, organizações sociais, tri-
bunais de justiça, leis ambientais, centros de vi-
gilâncias sanitárias, Ong\u2019s, mídia, entre outros)
efetuam um trabalho de pressão política por uma
ética nos negócios:
A NECESSIDADE DA ÉTICA: O
MUNDO NÃO GIRA SOMENTE EM
TORNO DE NÓS
Como vivemos em permanente