Aparelho Locomotor Funcao Neuromuscular e Adaptacoes Atividade Fisica Volume 2.69
69 pág.

Aparelho Locomotor Funcao Neuromuscular e Adaptacoes Atividade Fisica Volume 2.69


DisciplinaAnatomia I44.477 materiais368.410 seguidores
Pré-visualização17 páginas
Locomotor: Função Neuromuscular e Adaptações à Atividade Física 25
da intensidade dos períodos de ativação que podem ser relacionados com parâmetros 
caracterizadores da consequência mecânica da intervenção dos músculos estudados 
(Figura 2). O fácil manuseamento e controlo para o investigador, o maior conforto para 
o executante e a possibilidade de uma análise global do comportamento dos músculos 
Figura 2. O sinal EMG em bruto (A) apresenta valores positivos e negativos de amplitude apro-
ximadamente idênticos, resultando numa média igual a zero. A retifi cação do sinal EMG (B) 
consiste na transformação da curva EMG em bruto numa curva de valores todos positivos. Uma 
forma de reduzir a variabilidade que caracteriza o sinal EMG consiste na eliminação das varia-
ções muito bruscas dos valores de amplitude do sinal, através da suavização da curva que pode 
ser realizada com recurso a diferentes métodos. No presente caso, a suavização (C) foi obtida 
através de um fi ltro passa-baixo de 12 Hz (Butterworth de 4.ª ordem). Quando pretendemos com-
parar execuções do mesmo indivíduo realizadas em dias diferentes ou execuções de diferentes 
indivíduos, o valor absoluto da intensidade do sinal EMG fornece-nos pouca informação, porque 
pode ser infl uenciado por outros fatores, como o local onde foram colocados os elétrodos ou a 
impedância da pele nesse instante. Uma das formas de ultrapassar esta limitação é a normali-
zação em amplitude das curvas EMG, que consiste na transformação dos valores absolutos de 
amplitude do sinal EMG, expressos em milivolts, em valores relativos a uma EMG de referência. 
Nesta fi gura, o sinal EMG foi normalizado (D) utilizando como referência (100%) a amplitude do 
sinal EMG obtido pelo mesmo músculo deste indivíduo durante uma contração isométrica volun-
tária máxima. Assim, o sinal EMG das diferentes execuções é expresso em valor percentual, que 
traduz um nível de ativação relativo à ativação máxima do músculo.
COORDENAÇÃO NEUROMUSCULAR
Aparelho Locomotor: Função Neuromuscular e Adaptações à Atividade Física 27
 O número de fi bras de uma unidade motora designa-se por taxa de inervação e 
pode variar entre menos de uma dezena e alguns milhares, dependendo do músculo 
em causa. Músculos relacionados com ações muito precisas, como os músculos ocu-
lomotores, responsáveis pelo movimento dos olhos, apresentam cerca de dez fi bras 
por unidade motora. Os músculos que atuam nos dedos da mão, também sujeitos 
a um controlo preciso, podem apresentar unidades motoras com cem ou algumas 
centenas de fi bras musculares. Já os músculos relacionados com atividade grosseira, 
como os músculos dos braços, das coxas e das pernas, podem apresentar unidades 
motoras com mais de mil fi bras. 
 O conjunto de unidades motoras de um músculo designa-se por grupo motor 
e distribui-se por vários segmentos medulares. Um grupo motor pode incluir apenas 
poucas dezenas de unidades motoras, no caso dos músculos mais pequenos, ou 
mais de um milhar para os músculos mais volumosos. Os comandos centrais gera-
dores dos movimentos atuam nas cadeias de motoneurónios espinais, modulando 
a atividade muscular através da quantidade de estimulação que fornecem ao grupo 
motor de cada músculo. 
 As fi bras musculares que constituem uma unidade motora são todas do mes-
mo tipo. A homogeneidade estrutural e funcional que encontramos entre as fi bras 
musculares que constituem uma unidade motora está adaptada a um certo tipo de 
contração e é determinada pelas características e pelo tipo de atividade do motoneu-
rónio respetivo, como foi verifi cado em experiências de inervação cruzada2. A varie-
dade de características das diferentes unidades motoras que constituem um músculo 
Figura 3. Cada um dos três motoneurónios vai ramifi car-se dentro do músculo
e inervar um conjunto de fi bras musculares constituindo uma unidade motora.
__________________________
2 Ver artigo de Buller e colaboradores (1960).
COORDENAÇÃO NEUROMUSCULAR
Aparelho Locomotor: Função Neuromuscular e Adaptações à Atividade Física 37
o número de articulações que atravessa ou o braço de momento do músculo são fatores 
determinantes na apetência desse músculo para um determinado papel funcional. 
 Mesmo o movimento mais simples requer a intervenção coordenada de vários 
músculos simultaneamente, cada um deles desempenhando um papel bem defi nido 
no leque de funções complementares necessárias. Podemos, assim, falar de múscu-
los agonistas, músculos antagonistas, músculos fi xadores e músculos neutralizado-
res. Desta forma, para além da gestão da contração de cada músculo individualmen-
te, abordada no ponto anterior, o SNC tem que assegurar, para cada tarefa motora, a 
coordenação entre todos os músculos implicados na ação. 
 Coordenação agonista-antagonista
 As noções de músculo agonista e de músculo antagonista são relativas ao tipo 
de movimento articular realizado, procurando descrever o modo de participação dos 
músculos no movimento. Os grupos musculares agonista e antagonista têm capaci-
dade para produzir movimentos opostos numa determinada articulação (Figura 6). 
Um músculo é designado como agonista quando é responsável pela realização do 
movimento através de uma ação dinâmica concêntrica. A designação de antagonista 
é atribuída ao músculo cuja ação potencial é contrária ao movimento realizado. 
Figura 6. Relação agonista-antagonista utilizando como exemplo a relação entre o bicípite bra-
quial e o tricípite braquial. A contração dos músculos agonistas gera a força necessária para 
a deslocação do segmento corporal onde atuam. Durante a fl exão do antebraço (A) o bicípite 
braquial é agonista e o tricípite braquial é antagonista. Estes papéis invertem-se durante o movi-
mento de extensão do antebraço (B), em que o tricípite braquial é agonista e o bicípite braquial 
é antagonista.
A B
Universidade Técnica de Lisboa
FACULDADE DE MOTRICIDADE HUMANA
44
 De uma forma simplifi cada, podemos dizer que, enquanto os músculos mono-
articulares se encarregam de gerar a força com grandes intensidades de contração, 
os músculos biarticulares servem para transmitir forças propulsivas produzidas por 
esses poderosos músculos até à extremidade. Isso ocorre em ações em que o mús-
culo biarticular sofre uma alteração muito reduzida de comprimento, dado funcionar 
como músculo antagonista numa das articulações e agonista na outra. É o caso do 
comportamento do reto femoral ou dos gémeos durante a impulsão vertical. A chave 
para este tipo de movimento explosivo está numa efi ciente cooperação entre múscu-
los monoarticulares e biarticulares. A capacidade de transferência de energia entre 
articulações, atributo principal dos músculos biarticulares, depende dos processos de 
coordenação neuromuscular entre esses músculos e os músculos monoarticulares. 
 As ações motoras em que os músculos biarticulares são simultaneamente 
agonistas nas duas articulações que atravessam são menos frequentes. A extensão 
vigorosa da perna com fl exão da coxa (em que o reto femoral é agonista nas duas arti-
culações), que pode ser observada no remate de futebol ou no ataque a uma barreira, 
exemplifi ca essa situação. Durante estes movimentos, a velocidade de encurtamento 
dos músculos biarticulares é maior do que a dos monoarticulares correspondentes, 
dado que o movimento de ambas as articulações que o músculo atravessa concor-
re para o encurtamento do músculo. Por essa razão, a capacidade de os músculos 
biarticulares gerarem forças elevadas nessas ações é menor, de acordo com a curva 
velocidade-força que preconiza uma relação inversa entre velocidade de encurtamen-
to e força de contração. Em contrapartida, o seu rápido encurtamento fornece um 
contributo bastante importante para a velocidade