Aparelho Locomotor Funcao Neuromuscular e Adaptacoes Atividade Fisica Volume 2.69
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Aparelho Locomotor Funcao Neuromuscular e Adaptacoes Atividade Fisica Volume 2.69


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do movimento.
 Papel dos músculos fi xadores
 Para que os músculos agonistas e antagonistas possam atuar efi cazmente nos 
segmentos corporais onde se inserem, as suas origens têm que estar fi xas, fornecendo 
ao músculo um ponto estável para produzir a sua força. Essa estabilização das origens 
dos músculos agonistas e antagonistas é garantida pela força de outros músculos, atra-
vés de uma ação estática gerada em sentido contrário e com força igual à desenvolvida 
por aqueles músculos. Quando tal acontece, diz-se que o músculo se comporta como 
músculo fi xador ou músculo estabilizador (Figura 10). Músculos que frequentemente fun-
cionam como fi xadores são os que atuam nas cinturas pélvica e escapular. Para que a 
contração dos músculos agonistas dos movimentos do braço seja efi caz, é necessário 
que a sua origem \u2013 a omoplata \u2013 esteja fi xa contra a tendência para se deslocar. Essa 
fi xação da omoplata é assegurada por músculos fi xadores como o trapézio ou o grande 
dentado. É também exemplo dessa função fi xadora a ação dos músculos da parede 
ântero-lateral do abdómen na estabilização da bacia, permitindo a utilização dos potentes 
COORDENAÇÃO NEUROMUSCULAR
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músculos fl exores da coxa que aí têm origem. Por sua vez, a fi xação da origem dos mús-
culos fi xadores tem também de ser garantida, exigindo a contração de outros músculos 
que podemos designar como fi xadores de segunda ordem.
 Os músculos fi xadores assumem um papel determinante no nosso corpo. Uma 
execução conseguida exige um controlo coordenado e temporalmente adequado dos 
grupos musculares agonistas e fi xadores. Como a ação dos músculos fi xadores não 
é tão evidente, e também porque normalmente são músculos com menor visibilidade 
por se localizarem mais profundamente, são pouco valorizados do ponto de vista do 
treino e do condicionamento muscular. No entanto, é importante ter presente a neces-
sidade de trabalhar este tipo de musculatura, dado que a sua fraqueza acarreta menor 
efi ciência de movimentos e maior risco de lesão musculoesquelética. 
 Uma outra forma de estabilização muscular está presente quando utilizamos 
músculos multiarticulares. No caso de movimentos que são produzidos por músculos 
que atuam em mais do que uma articulação, a ação dos músculos fi xadores é impor-
tante quando é necessário anular o movimento indesejável que seria produzido numa 
das articulações que o músculo atravessa. Consideremos a contração do músculo 
fl exor comum dos dedos para produzir a fl exão dos dedos da mão necessária para 
realizar a pega numa raquete. A força desenvolvida por esse músculo tende a pro-
mover a fl exão da mão. Essa tendência é anulada graças à contração dos músculos 
extensores da mão, como os radiais externos, que atuam em ação estática no sentido 
de estabilizar o pulso, contrariando a fl exão da mão. 
Figura 10. Durante a abdução do braço, a contração estática do trapézio (principalmente da sua 
porção superior) é necessária para fi xar a origem do deltoide, principal agonista do movimento. 
O trapézio funciona como fi xador. Por sua vez, para poder estabilizar a omoplata, o trapézio pre-
cisa também de ter a sua origem na coluna fi xa, o que é garantido pela contração dos músculos 
espinais que funcionam como fi xadores de segunda ordem.
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Regulação Medular do Movimento
O Motoneurónio Alfa como Ponto de Convergência
 
 Como vimos no capítulo anterior, a regulação das contrações baseia-se essen-
cialmente na forma como o SNC otimiza os mecanismos de coordenação intramuscu-
lar: recrutamento e frequência de descarga das unidades motoras. Estes mecanismos 
assentam na gestão da atividade do conjunto de motoneurónios alfa que inervam 
cada músculo, através do tipo e quantidade de excitação neural que converge para os 
seus corpos celulares. A ativação e frequência de disparo de um motoneurónio resul-
tam do balanço entre dois fatores: o valor do seu limiar de excitação e a intensidade 
do sinal que lhe é fornecido por vias descendentes e/ou periféricas. 
 A grande dimensão do corpo celular do motoneurónio alfa e a superfície por 
onde se estendem as suas dendrites1 estão de acordo com o elevado número de co-
nexões sinápticas que recebe de múltiplas fontes e com a noção de via fi nal comum 
de Sherrington. O motoneurónio alfa apresenta, portanto, características estruturais 
que lhe permitem ser um ponto de convergência de informação de fontes muito diver-
sas: encéfalo, recetores e interneurónios. Em última análise, toda esta informação é 
passível de interferir no controlo do movimento, infl uenciando as alterações de poten-
cial dos motoneurónios. 
 A infl uência das vias descendentes originadas nos andares superiores e pro-
venientes dos diferentes centros corticais e subcorticais com intervenção no controlo 
motor é fundamental e será descrita posteriormente. No entanto, é fundamental ter 
presente que uma parte muito considerável do controlo do músculo esquelético é rea-
lizado ao nível medular, com base na informação periférica proveniente de um amplo 
conjunto de recetores somáticos e nas redes de interneurónios da substância cinzenta 
medular.
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1 As dendrites dos motoneurónios alfa estendem-se para além da lâmina IX de Rexed, onde se encontram os seus corpos celulares, 
até às lâminas VII e VIII. A maior parte das dendrites encontra-se, no entanto, orientada longitudinalmente na coluna a que perten-
ce o motoneurónio, principalmente nas colunas respeitantes aos músculos do tronco e músculos proximais das extremidades. As 
dendrites de um motoneurónio podem sobrepor-se a muitas centenas de motoneurónios adjacentes (Brodal, 1981).
Universidade Técnica de Lisboa
FACULDADE DE MOTRICIDADE HUMANA
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 No que compete às infl uências refl exas a que os motoneurónios estão sujeitos, 
oriundas de recetores variados como os localizados na pele, nas articulações e nos 
músculos, dois mecanorrecetores musculares apresentam um papel bastante rele-
vante (Figura 1). Os fusos neuromusculares (FNM) que encontramos no interior do 
músculo, paralelamente às fi bras musculares, são sensíveis ao alongamento do mús-
culo e estão na base do mais importante mecanismo refl exo, o refl exo miotático. Os 
órgãos tendinosos de Golgi (OTG) estão dispostos em série com as fi bras musculares, 
encontrando-se na junção miotendinosa, sendo, assim, sensíveis à tensão que o mús-
culo transmite ao tendão. Estes dois tipos de recetores musculares continuam-se por 
fi bras aferentes, as fi bras Ia, II e Ib, que terminam na substância cinzenta medular. Aí, 
para além de originarem informação ascendente, que fornece aos centros superiores 
conhecimento sobre o estado do músculo, têm terminações que infl uenciam, direta ou 
indiretamente, os motoneurónios. Estabelecem, assim, mecanismos refl exos muito 
importantes, o refl exo miotático, com base no FNM, e o refl exo miotático inverso, que 
resulta da estimulação do OTG.
Figura 1. Mecanorrecetores do músculo esquelético e respetiva inervação sensitiva. A \u2013 Músculo 
esquelético com localização de um fuso neuromuscular e de um órgão tendinoso de Golgi. B \u2013 
Fuso neuromuscular com a sua inervação motora (a azul) feita através do motoneurónio gama 
e inervação sensitiva (a amarelo) através das fi bras Ia e II. C \u2013 Órgão tendinoso de Golgi e sua 
inervação sensitiva, as fi bras Ib.
A
C
B
Ib
II
Ia
REGULAÇÃO MEDULAR DO MOVIMENTO
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verifi ca. Assim, informam apenas sobre o grau de estiramento. Apesar de produzirem 
uma ação excitatória sobre os