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Conteudista Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual Aline de Fátima Camargo da Silva Currículo e Atendimento Educacional na Educação Infantil 2 Sumário Objetivos da Unidade ............................................................................................................3 Concepção de Currículo ...................................................................................................... 4 Currículo na Educação Infantil ............................................................................................7 Os Alunos da Educação Infantil ......................................................................................... 9 Interações Pessoais ............................................................................................................ 10 Interações Educador-Criança ........................................................................................... 11 Áreas da Criança na Educação Infantil ............................................................................17 Em Síntese .......................................................................................................... 19 Atividades de Fixação ........................................................................................ 20 Material Complementar ................................................................................... 21 Referências ......................................................................................................... 22 Gabarito .............................................................................................................. 23 3 Atenção, estudante! Aqui, reforçamos o acesso ao conteúdo on-line para que você assista à videoaula. Será muito importante para o entendimento do conteúdo. Este arquivo PDF contém o mesmo conteúdo visto on-line. Sua disponibili- zação é para consulta off-line e possibilidade de impressão. No entanto, re- comendamos que acesse o conteúdo on-line para melhor aproveitamento. • Abordar a concepção de currículo na Educação Infantil; • Conhecer os perfis de alunos(as) da Educação Infantil; • Aprender sobre as diferentes interações entre educador(a)-criança-família. Objetivos da Unidade 4 Concepção de Currículo Todas as pessoas envolvidas com educação, sejam docentes, discentes, governan- tes ou profissionais, embora por diversos objetivos ou motivações, preocupam-se com a maneira como a educação de crianças e jovens acontece, uma vez que se desenvolverá, por meio dela, o projeto de formação da sociedade. Espera-se que a educação dê conta da formação integral dos estudantes. Esses pensamentos aca- bam refletindo na busca de teorias que enfocam as questões curriculares, ou seja, com o currículo trabalhado nas escolas. VOCÊ SABE RESPONDER? Como a compreensão da concepção de currículo na Educação Infantil, o conheci- mento dos perfis dos(as) alunos(as) dessa etapa e a exploração das diversas inte- rações entre educador(a), criança e família contribuem para o desenvolvimento de práticas pedagógicas eficazes e inclusivas nesse contexto educacional? Reflita Você sabe o que é currículo? Se você pesquisar o significado dessa palavra, encontrará, entre outros, que currí- culo – do latim, curriculum – significa percurso, carreira, curso, ato de correr. O seu significado, porém, abrange não somente o ato de correr, mas também o modo, a forma de fazê-lo (a pé, de carro, a cavalo etc.), o local (estrada, pista, rua, hipódromo etc.) e o que ocorre no curso ou percurso efetuado. O que esse percurso tem a ver com a educação? Moreira (1999) mostra que se en- contram registros, ao longo dos tempos, de significados diferentes para o termo currículo. A maioria o relaciona a “conteúdos” ou “experiências de aprendizagem”. Alguns registros o mostram ligado à ideia de plano, objetivos educacionais ou texto, e, mais recentemente, como avaliação. Seguindo o significado literal da palavra currículo, 5 [...] pode-se dizer que este pode ser definido como o percurso que leva à aquisição de conhecimentos que possam fazer do indivíduo subme- tido a ele um profissional que domina sua área e está apto a exercer funções na mesma. Fonte: Moreira; Silva, 2000 Tratando-se de um percurso, você deve ter percebido que pode se tratar de algo parado e fixo, contudo flexível e contínuo, o qual direcione as atividades envolvidas nesse percurso para o objetivo da educação, que é a aprendizagem e o crescimento dos alunos. O processo de organização curricular precisa abarcar os conhecimentos teóricos e a prática educativa, isto é, a maneira como esses saberes serão trabalhados em sala de aula, considerando-se a relevância desses conteúdos para a vida do estudante, assim como “por que” e “como” trabalhá-los (Moreira, 1999). Figura 1 – Crianças desenhando Fonte: Freepik Leitura A maneira como a educação formal se apre- senta teve diversas mudanças ao longo do tempo. De perspectivas mais rígidas até mo- delos mais dinâmicos, ela se apresentou de diversas maneiras e gerou diferentes percep- ções sobre sua estruturação. Saiba mais sobre o tema lendo a matéria Percurso formativo: entre o tradicional e o disruptivo. http://http://google.com.br https://bit.ly/374su3J 6 Quais conteúdos são relevantes para a aprendizagem do discente e a forma como ele será disponibilizado e trabalhado, são escolhas que farão a diferença no alcance da aprendizagem. Importante O currículo não pode, portanto, ser estático, ele deve estar sem- pre em construção, uma vez que precisa acompanhar as mudan- ças e necessidades de cada aluno, de cada escola. Não se pode pensar em elaborar um currículo, determinando o quê, quando e como ensinar sem pensar no “para quem” e “onde”, elementos importantíssimos na determinação da organização curricular. Todos os envolvidos no processo de organização curricular vivem em uma socieda- de na qual o conhecimento, as tecnologias, relações sociais e políticas influenciam suas escolhas, trabalho, estudos, enfim, suas vidas. Assim, o currículo não deve se configurar como um meio neutro de transmitir uma série de conteúdos, conhecimentos ou informações a um estudante passivo. É ne- cessário reconhecer o processo de busca e aquisição do conhecimento, ensinando aos alunos que aprender não é armazenar resultados, mas, sim, participar do proces- so que torna possível a aprendizagem. Você deve pensar, então, que o currículo é muito mais abrangente em termos de aprendizagem, devendo realmente se preocupar com a maneira como serão orga- nizadas as atividades, os conteúdos e conhecimentos, de forma que os objetivos previstos em determinado curso possam ser alcançados. Ao aprofundar os estudos sobre esse tema, Masetto (2003) remete a três importan- tes conceitos: Currículo como um conjunto de disciplinas responsáveis pela transmissão dos co- nhecimentos específicos para a formação profissional. As disciplinas se sobrepõem e não interagem entre si. Cabe ao estudante tentar estabelecer ligações disciplina- res com o objetivo de sintetizar o conhecimento, alcançar a aprendizagem e adquirir competência profissional. 7 Diz-se oculto, pois não está previsto no currículo formal, documentado. Surge de colocações e discussões apresentadas no local de aprendizagem, referente a habilidades, valores e outros aspectos que aparecem e permitem que o pro- fessor trabalhe assuntos atuais e emergentes, que não estão expressamente colocados nos currículos. Currículo oculto Currículo como um conjunto de conhecimentos, de saberes, competências, habilidades, experiências, vivências e valores que os discentes precisam adqui- rir e desenvolver, de maneira integrada e explícita, mediante práticas e ativida- des de ensino e de situações de aprendizagem. Currículo integrado A noção de currículo apresentada dessa forma é mais abrangente, porque engloba a organização da aprendizagem na área cognitiva, e em outros aspectos fundamentais da pessoa humana e do profissional: saberes, competências,habilidades, valores, atitudes e ainda mais: ela mantém a idéia de que as aprendizagens sejam adquiridas explicita- mente, mediante práticas e atividades planejadas intencionalmente para que aconte- çam de forma efetiva, e não apenas por acaso, ou quando der certo (Masetto, 2003). Com isso, você precisa refletir sobre a questão do currículo como uma organização de diferen- tes elementos, os quais devem incluir disciplinas, conteúdos, atividades, pesquisas, discussões, dinâmicas, técnicas, métodos e recursos, que permitam ao aluno alcançar a aprendizagem. Ele necessita ser rico e flexível nas oportunidades de aprendizagem oferecidas aos discentes. Currículo na Educação Infantil Depois de sua leitura acerca da concepção de currículo, você já saberá que não esta- mos falando somente de conteúdos preestabelecidos a serem transmitidos ou ensina- dos aos estudantes, com base em técnicas e métodos geralmente usados para facilitar sua aprendizagem. Ressalte-se que “A idéia [sic] de currículo envolve a apresentação de conhecimentos e inclui um conjunto de experiências de aprendizagem que visam favorecer a assimilação e a reconstrução desses conhecimentos” (Moreira, 1999, p. 12). 8 Piletti (2000) nos mostra que nos últimos anos, a ideia de currículo se tornou mais rica e abrangente: A tendência, nas décadas recentes, tem sido de usar o termo currículo num sentido mais amplo, para referir-se à vida e a todo o programa da esco- la, inclusive às atividades extraclasses. Aliás, as atividades extraclasses são muito importantes para a formação da personalidade da criança. Elas enri- quecem o plano escolar e, consequentemente, a personalidade da criança. Além disso, são uma importante fonte de motivação. Fonte: Piletti, 2000, p. 52 Você deve estar se perguntando por que estudar currículo para desenvolver seu tra- balho na Educação Infantil. Realmente, falar sobre isso causa estranheza em muitas pessoas, até mesmo, da área da educação. Mas, como primeira etapa da educação básica, destinada ao atendimento de crianças de 0 a 5 anos e definitivamente in- serida no sistema educacional brasileiro, é preciso proporcionar a elas o bem-estar físico, afetivo-social e intelectual, mediante atividades lúdicas que criem oportuni- dades de desenvolvimento, a fim de estimular a curiosidade, a espontaneidade e a harmonia. Todas essas atividades contribuem para a sua integração no triângulo família-escola-comunidade, e serão desenvolvidas a partir do currículo adotado. Ao pensar na educação de nossas crianças, nós, professores, devemos ter em mente que currículo é tudo o que acontece na vida de uma criança, na vida de seus pais e na nossa vida, isto é, “[...] Consiste em experiências, por meio das quais as crianças alcançam a auto-realização[sic] e, ao mesmo tempo, aprendem a contri- buir para a construção de melhores comunidades e de um melhor futuro” (Ragan apud Piletti, 2000, p. 52). Atualmente, tudo que cerca o aluno, em todas as horas do dia, constitui matéria para o currículo (Reis apud Piletti, 2000, p. 52). E na Educação Infantil não podemos pensar ou agir de forma diversa. Independentemente da idade de nossos estudan- tes, devemos ter em mente que eles necessitam ser educados em sua totalidade, aprendendo conteúdos, ampliando suas habilida- des, desenvolvendo atitudes e valores, além de es- tarem equilibrados emocionalmente. Não podemos nos esquecer também de que, na educação infantil, o educar não pode excluir o cuidar. Ambos andam Tudo aquilo que o aluno vive e vê, pode-se constituir em currículo: con- teúdos, conhecimento científico, cultura, acontecimentos, conhecimentos gerais, meio ambiente, saúde, música etc. Ambos andam juntos nesse nível de ensino. 9 juntos nesse nível de ensino. Assim, mesmo que nossa disciplina esteja focada no trabalho com crianças entre 0 e 5 anos, você, como professor, deve ter uma postura que privilegie a construção de um currículo que possa, realmente, auxiliá-los a aprender, crescer, e a se desenvol- ver, independentemente do nível de ensino ou da idade de seus discentes, ou, ainda, no que diz respeito a conteúdos, mas como seres humanos, cidadãos prontos a levar para fora da escola as lições de vida as quais certamente podemos vivenciar juntos. Portanto, a postura do docente, a forma como ele vê seus alunos, como desenvolve sua prática, como acredita ou não na educação como instrumento de crescimento e transformação, vai influenciar na elaboração do currículo a ser trabalhado e na sua prática pedagógica. O estudante não é somente um reprodutor do conhecimento, mas, sim, produtor e construtor de saberes. O que nossas crianças aprendem não deve ter impacto ape- nas no instante em que se estuda e aborda determinado assunto, pelo contrário, ela precisa ser parte fundamental de construção de seu caráter e de seu futuro. É sob esse ponto de vista, da participação da criança na própria aprendizagem e de nossa responsabilidade, tanto nas oportunidades propiciadas para seu crescimento quanto no exemplo que somos para ela, que você necessita pensar no currículo. O objetivo maior dessas reflexões é colaborar na construção de um currículo arti- culado no atendimento educacional na Educação Infantil, discutindo as tendências teóricas e pedagógicas para esse nível de ensino, pensando na formação da criança e suas interações com pais, educadores e outras crianças. Para isso, é preciso que você saiba quem são as crianças que recebemos nas escolas de educação infantil e como elas aprendem. Os Alunos da Educação Infantil Entender quem são nossas crianças é crucial para que o trabalho com elas realizado renda bons frutos. É também importante saber como elas, independentemente da etnia, da religião, da cultura ou do nível socioeconômico, são vistas pela sociedade. O contexto familiar também é bastante relevante para essa percepção. Ao trabalhar com educação infantil, você vai perceber que as crianças vêm de dife- rentes formações familiares, situações socioeconômicas, culturas ou regiões. Além disso, elas vivem em um mundo globalizado e, portanto, têm grande capacidade de observação e de intervenção. 10 Desse modo, ao entrarem na escola, elas já trazem conhecimentos adquiridos de sua vivência na família, com os amiguinhos, na comunidade religiosa a qual pertence. E ignorar este conhecimento prévio da criança é perder uma grande oportunidade de enriquecer a elaboração do currículo. [...] o desenvolvimento da criança é produto de instituições sociais e sis- temas educacionais, como família, escola, igreja, que ajudam a construir seu próprio pensamento e descobrir o significado da ação do outro e de sua própria ação. Fonte: Vygotsky, 1931, apud Cardoso; Oliveira, 2009, p. 2 Por esses motivos, o trabalho com Educação Infantil pede atenção especial às in- terações que se estabelecem envolvendo a criança, pois, a partir delas, pode-se fa- cilitar ou dificultar tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento dos pequenos. Interações Pessoais A criança não é um corpo a ser mantido limpo sob uma cabeça a ser mantida ocu- pada, como muito já se pensou. Ela é uma totalidade que integra aspectos físicos, afetivos e cognitivos, que tomam sentido por meio da linguagem e da cultura. As suas relações com outras pessoas, sejam pessoas adultas ou crianças, são oportunidades para que ela se constitua como sujeito único, com uma forma toda particular de reagir às situações. Uma educa- ção que cuida da criança dá atenção constante a todos esses aspectos. Vídeo O vídeo Currículo na Educação Infantil: de- finições legais apresenta as definições jurí- dicas e as possibilidades acerca do conceito de currículo. O vídeo faz parte do Programa do Curso de Pedagogia Unesp/Univesp, inte- grante da disciplina de Educação Infantil. Uma educação que cui- da da criança dá atenção constante a todos esses aspectos. http://google.com.br https://youtu.be/xgWFOKF-4oQ 11 A Educação Infantil deve criar para cada uma delas múltiplas oportunidades paraque ela possa se expressar e respeitar os sentimentos, ideias, costumes e preferências do outro. É preciso garantir, ainda, que cada criança seja aceita com suas caracterís- ticas físicas e morais. Uma educação cuidadosa seleciona experiências socialmente relevantes de aprendizagem e propõe metas valiosas à construção de competên- cias, apoiando, assim, a formação de um autoconceito positivo do educando. Nesse contexto, as relações afetivas das crianças se apresentam como fatores im- portantes em seu desenvolvimento e crescimento. Interações Educador-Criança Sabemos que as brincadeiras e os jogos infantis são fundamentais para o desenvolvi- mento e a aprendizagem da criança. Eles são recursos privilegiados que devemos ga- rantir enquanto direitos da infância. Mas, nesse processo, qual é o papel do educador? Para que a criança brinque e se envolva com a brincadeira, é primordial que ela se sinta emocionalmente bem na relação com quem a cerca, que, no contexto do CEI, são os educadores e as outras crianças. Essa ideia indica que, para ela, suas relações sociais têm muita importância e devemos considerá-las com seriedade. Quando compreendemos essa característica do desenvolvimento infantil, tornam- -se mais evidentes o papel e a função da interação enquanto um aspecto essencial a fim de que a criança se socialize, aprenda, cresça etc. Quando a criança brinca, é muito comum ouvirmos frases do tipo: “ela está apenas brincando, não é sério!” Ou, no outro extremo: “por que você não brinca disto? E agora daquilo outro?...”. Esses são exemplos de atitudes que não colocam o educa- dor como parceiro e interlocutor da criança: ou ele se afasta ou dita regras. Mas qual será a medida? O primeiro passo é entendermos que a brincadeira é um ritual interativo (por exem- plo, quando o adulto se esconde atrás de um pano e diz: “achou!”) no qual a função do educador é também assegurar a expressão da criança, acolhendo suas emoções Leitura “Interagir com a criança é muito importante para o seu desenvolvimento”, diz pediatra americana. http://http://google.com.br https://bit.ly/2Y1d0td 12 e necessidades, permitindo, assim, que ela estruture seu pensamento. Além disso, ele deve ser uma pessoa verdadeira, que se relaciona afetivamente com ela, gerando condições para que ela questione, reflita etc. Desse modo, na convivência cotidiana, o educador pode ser uma pessoa que trans- mita segurança para a criança, acolhendo suas emoções. Ele precisa ser capaz de ouvi-la, valorizando suas perguntas e produções, e de respeitar suas opiniões. Agindo assim, ele se torna um parceiro. A ação do educador como mediador da relação que as crianças estabelecem en- tre si auxilia para que elas desenvolvam capacidades, como tomadas de decisões, construção e apreensão de regras, cooperação, diálogo, solidariedade etc. Assim, ele favorece o desenvolvimento de sentimentos de justiça e atitudes de cuidado que a criança passa a ter com ela própria e com as outras pessoas. O educador, quando considera a criança como um ser ativo em seu processo de de- senvolvimento, faz a mediação entre ela e seu meio, podendo usar inúmeros recur- sos como o próprio espaço físico do CEI, materiais, brinquedos, atividades plásticas etc. Mas é fundamental o modo pelo qual ele se relaciona com a criança: como a observa, apoia, dá respostas, explica os acontecimentos e as regras, questiona. Em outras palavras, o educador deve interagir com a criança, sendo um facilitador, interventor, problematizador e propositor, levando em conta suas reações e encora- jando e incentivando seus modos de brincar e de compreender o mundo. Assim, ele, em conjunto com as crianças, poderão se transformar e descobrir vários modos de se relacionar. Leitura Leia O papel do professor frente à questão do brincar para crianças de 04 (quatro) a 06 (seis) anos. http://http://google.com.br https://bit.ly/308uYfW 13 Quando o educador compartilha uma brincadeira ou jogo com a criança, ele pode ajudá-la a enfrentar eventuais insucessos, estimular seu raciocínio, sua criatividade, reflexão, autonomia etc. Isso quer dizer que, quando ele tem intenção de brincar junto com ela, há a possibilidade de criar diversas situações que estimulem o desen- volvimento dela, como a inteligência, a afetividade, entre outros. Vídeo No filme Sociedade dos Poetas Mortos (1990), o professor John Keating, interpreta- do por Robin Willians, ingressa como docen- te em um colégio somente de garotos. Por meio da criatividade, das artes e do pensa- mento crítico, ele usa abordagens diferencia- das para captar a atenção e o interesse dos jovens para a educação. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, em seu artigo 53, dispõe que a família tem o direito de conhecer e de participar da elaboração da proposta pedagógica das instituições educacionais que seus filhos frequentam. A relação entre o CEI e as famílias é importante para ambos, dado que compartilham a educação das crianças. Contudo, frequentemente, essa relação é atravessada por muitas emoções, que vão da alegria à tristeza, da raiva à gratidão. Por isso, a forma- ção do professor de Educação Infantil precisa discutir novas formas de diálogo e de trabalho compartilhadas com as famílias. Abrir a unidade educacional à presença constante e à participação ativa da família em seu cotidiano não é fácil! Ao frequentar o CEI, os pais passam a observar o que acontece lá dentro e a fazer mais perguntas, a dar sugestões e a fazer pedidos que nem sempre podemos atender. É, então, que apare- cem as distinções individuais, uma vez que cada pai ou mãe requer um tipo de atenção diferente. Cada grupo familiar pode ter uma história, uma baga- gem cheia de diversos valores, crenças e formas de ver o mundo. https://youtu.be/Oo9R1neW4lw https://youtu.be/Oo9R1neW4lw 14 Tentar enquadrar as famílias em modelos rígidos, com base em um pretenso “funcio- namento ideal”, é correr o risco de considerar a existência de apenas uma ou poucas formas possíveis de viver, de se relacionar e de experienciar o mundo. Agindo assim, pode-se cometer o engano de considerar as famílias que se afastam de um preten- so modelo ideal como sendo perigosas ao bom desenvolvimento psíquico e moral das crianças, sem avaliar a dinâmica daquele contexto familiar em uma sociedade concreta. Apesar de a legitimação do divórcio ter acontecido recentemente, a separação de casais é uma prática que já ocorre desde de longa data e a qual tem se acentuado cada vez mais. Hoje, não é difícil encontrarmos famílias em que tanto pai quanto mãe já tiveram outras uniões conjugais e filhos. Leitura Leia a matéria Divórcio sem traumas: como conversar com a criança, de acordo com a idade (2018). Além das separações, assistimos, atualmente, a uma grande diversidade de formas de organização familiar: famílias agregadas ou compostas por apenas um dos pais morando com os filhos, avós que assumem o neto de sua filha adolescente e pessoas solteiras ou casais homossexuais que adotam crianças. Essas novas configurações familiares de pais e irmãos biológicos separados, padrastos e meios-irmãos, exige-se constantes redefinições de valores e atitudes na família e na sociedade. O ambiente escolar ao ser considerado, junto com a família, um local de socialização, tem grande responsabilidade no modo de como vai se posicionar diante dos diferen- tes valores e atitudes, de ordem familiar e social. As relações familiares, tal como as relações entre a escola e as famílias, são, em geral, permeadas por conflitos e tensões inevitáveis, porém, promoto- res do desenvolvimento, pois é do conflito que resulta a inovação cultural. Contudo, muitas vezes, ocorrem formas de violência as quais requerem do educa- dor/professor alguma atitude em defesa dos direitos da criança. Ao se constatar alguma forma de violência dirigida a ela – física ou simbólica, ocorrida em casa ou na escola, sejam espancamentos, castigos, humilhações, abuso sexual, abandono http://http://google.com.brhttps://glo.bo/2MqddAO 15 (desde não lhe trocar fraldas por muitas horas até trancá-la no quarto ou deixá-la por longo tempo vendo TV) –, é preciso consultar o ECA, discutir com os colegas e refletir sobre qual deverá ser a atitude mais adequada em benefício dessa criança. Situações de insegurança e risco sociais, como pobreza, desemprego, violência, uso de drogas, morte, doenças físicas e mentais, podem ser fatores de desagregação que prejudicam a família no exercício de suas funções de apoio e de socialização, tornando-se problemáticas à medida que as pessoas deixam de ter perspectivas para compreender e superar esses conflitos. A instituição de Educação Infantil, apesar de não substituir políticas de assistência à família, deve pensar um trabalho com a família, pois cabe à creche ou pré-escola oferecer um espaço no qual ela possa ser acolhida para ampliar sua aprendizagem sobre o que é ser cidadã, sendo respeitada em suas particularidades e apoiada, de modo a repensar e a traçar formas mais produtivas de participação e, aos poucos, transformar sua realidade. Muitos docentes de Educação Infantil que assumem uma postura autoritária, co- brando das famílias das crianças condutas as quais elas não podem adotar e de acre- ditar que elas nada têm a contribuir para o trabalho da instituição só faz aumentar os conflitos, os desentendimentos, as mágoas recíprocas. Com essa postura, eles perdem valiosas oportunidades de entender a realidade dos pais e a das crianças, ao mesmo tempo em que, os familiares são prejudicados com relação a entender os propósitos educativos da escola, bem como as possibilidades e limitações pessoais, materiais ou institucionais nele presentes. Importante Nas relações entre a família e a escola, as aproximações explici- tam conflitos e requerem negociações que considerem os sen- timentos que vão surgindo. Para resolvê-los, é necessário buscar, no diálogo, uma definição cada vez mais nítida do papel e das fun- ções de cada parte. Dito assim, parece fácil desenhá-la, mas não é. Para promover maior diálogo com as famílias, é necessário “desacomodar” nossos sistemas de crenças e valores. Isso exige disponibilidade para ouvir sem julgamentos prévios e, ao mesmo tempo, um exercício de objetividade para explicar o trabalho que é feito. 16 Não podemos nos esquecer de que o homem é passional. Amor, ódio, carinho, rejeição, aceitação são sentimentos que temos para com nossos fi- lhos, irmãos, marido, esposa e também para com as crianças, colegas de trabalho e famílias. Devemos, portanto, saber lidar com essas emoções. Sem isso, brigaríamos todos os dias e teríamos, em seguida, de pedir desculpas ou continuar brigando durante toda a vida! Para conquistar um ambiente mais tranquilo e harmonioso junto às famílias, pode- mos, além das festas tradicionais e reuniões, criar alguns eventos a fim de incentivar a participação dos pais: quando possível, organizar um café da manhã no pátio em comemoração à chegada da primavera; um sarau; uma feirinha de exposição das produções das crianças; um teatrinho rápido, encenado por pais e educadores jun- tos em um final de tarde. Não podemos nos esquecer de que o homem é passional. Importante Ao prepararmos uma reunião, é primordial encontrar meios de fazer com que os pais se sintam bem recebidos. Quando os chamamos para apontar o que devem ou não fazer, eles aca- bam deixando de comparecer, a menos que sejam obrigados. É mais interessante quando os chamamos para informar a respei- to do projeto pedagógico ou para debater um tema específico. Nessas ocasiões, aqueles que estiverem mais motivados e inte- ressados, certamente, mudarão de postura em relação à escola e a seus profissionais. Podemos investigar, entre os familiares, aqueles que têm habilidades especiais, como saber tocar um instrumento, ser um bom contador de histórias, saber lidar com marcenaria e com pintura, ter dotes culinários, jardinagem etc. e convidá-los para ir à escola desenvolver essas atividades com as crianças. Essa é uma forma de participação na qual contribui para que a família passe a conhecer um pouco mais o cotidiano escolar, principalmente, a fim de que as crianças participem da integração entre suas famílias e sua escola. 17 Áreas da Criança na Educação Infantil Além de considerar o contexto geral da infância na educação infantil, é preciso en- tender que essa etapa do desenvolvimento também não é homogênea. Em cada ida- de, são desenvolvidas habilidades e potencialidades que se desenvolvem à medida que a criança aprende novas atividades, noções e conceitos. O que ela sabe fazer em determinado momento de sua vida depende de variados fatores. Uma criança é capaz de começar a falar, por exemplo, por imitação de sons. Ou pode ter sido estimulada a determinar algumas relações com a pessoa que cuida dela, desenvolvendo o interesse em se comunicar, aguçando a vontade de entender e fazer-se entendida. Você já deve ter observado que, de um modo geral, as crianças apresentam estágios de desenvolvimento os quais são determinados por conhecimentos e habilidades inerentes à sua faixa etária e, normalmente, comuns a todas as crianças da mesma idade. Essas fases representam avanços na qualidade daquilo que elas têm possibi- lidade de realizar antes ou depois dessa mudança, representando a passagem para outra etapa de desenvolvimento. Os estágios são universais, ou seja, todos os seres humanos passam pelas mesmas etapas, ainda que não necessariamente na mesma idade. O biólogo Jean Piaget ob- servou que as crianças passam por estágios de desenvolvimento nos quais permi- tem que avancem no conhecimento e ação. Mesmo assim, as crianças não são iguais. Os momentos em que ocorrem os saltos qualitativos podem ser variados, conforme cada uma delas e dos grupos culturais aos quais pertencem. Daí a relevância de percebermos e entendermos o contexto no qual elas se desenvolvem. Os meios ricos em estímulos e afeto proporcionam uma evolução mais rápida no desenvolvimento das capacidades do que contextos menos ricos em estímulos ou afetividade. Leitura Dica de artigo: Da Ação à Compreensão: um passeio pela Teoria de Piaget. https://bit.ly/49SfpL7 18 Existem, dessa maneira, traços gerais da evolução da criança na etapa da educação infantil. Podemos dividir o desenvolvimento infantil em três grandes áreas: Área motora relaciona-se com o desenvolvimento dos movimentos do corpo humano, tanto em sua globalidade como dos segmentos corporais. Nas crianças, destacamos o equilíbrio, o andar, falar, correr, pular, a coordenação motora, entre outros. Área cognitiva refere-se à capacidade de compreender o mundo e de atuar nele, em diferentes idades, por meio da linguagem ou da resolução de situações-problema que são apresentadas às crianças. É preciso lembrar que, na faixa etária da educação infantil, a criança tem grande capacidade de criação e comunicação, fazendo uso de diversas linguagens: verbal, gestual, artística, do faz-de-conta, entre outras. Área afetiva engloba o desenvolvimento do equilíbrio pessoal, o qual faz com que a criança se sinta bem consigo mesma; da relação interpessoal, que auxilia no confronto com situações e pessoas novas; e da atuação e inserção social, a qual permite à criança estabelecer relações cada vez mais alheias, distanciadas, bem como atuar no mundo que a rodeia. Apresentar etapas ou estágios de desenvolvimento divididos dessa forma é muito útil como um recurso de estudo e para que você entenda as diferentes áreas de desenvolvimento das crianças, porém, sabemos que o desenvolvimento é global e há constantes relações entre as capacidades desenvolvidas, inclusive entre as áreas. Além disso, as crianças se diferem entre si, o que faz com que as de uma mesma idade estejam em diferentes graus de desenvolvimento. Entender de que modo os estágios do desenvolvimento afetam o aprendizado é fundamental no contexto do currículo escolar. Igualmente, é essencial compreenderquais são as formas de aprendizado – brincadeiras e interações, por exemplo – já que elas influenciam diretamente as metodologias e premissas que devem ser consi- deradas no planejamento. Esses desdobramentos do aprendizado serão abordados futuramente. 19 Nesta Unidade, você aprendeu que elaborar um currículo no trabalho com a Educação Infantil não é algo estranho, mas necessário. Para isso, o docente precisa saber como integrar o conhecimento que se espera que a criança adquira com situações cotidia- nas, com a vivência dela e de suas expectativas. Além disso, você viu como as relações interpessoais são importantes para a criança, pois ela aprende e cresce a partir dessas interações. Ainda, verificamos que o pro- fessor e a escola devem estabelecer relações de parceria com a família, para que a criança tenha o sentimento de pertencimento aos dois grupos: familiar e escolar. A partir do seu conhecimento sobre currículo e do entendimento da importância das relações estabelecidas entre você e as crianças e seus pais, respeito às relações entre as próprias crianças, você poderá desenvolver um rico trabalho junto a elas na Educação Infantil. Em Síntese 20 1 – Qual é a característica fundamental da concepção de currículo na Educação Infantil? a. Currículo rígido e padronizado para todas as crianças, sem flexibilidade. b. Ênfase exclusiva em atividades acadêmicas, como alfabetização e matemática. c. Abordagem centrada apenas no desenvolvimento cognitivo das crianças. d. Reconhecimento da importância de considerar as experiências e culturas das crianças em sua construção. e. Foco exclusivo na preparação das crianças para o ensino fundamental. 2 – Das alternativas a seguir, qual representa uma das principais razões para promover uma forte interação entre educador, criança e família no processo de aprendizagem? a. Minimizar o papel da família na educação da criança, garantindo que a escola seja a única influência educativa. b. Isolar a criança de influências externas para criar um ambiente de aprendizado mais controlado. c. Reduzir a importância do educador como mediador do processo de aprendizagem. d. Promover uma aprendizagem mais holística, considerando a influência de dife- rentes contextos na vida da criança. e. Limitar a participação da família à supervisão das tarefas de casa. Atividades de Fixação Atenção, estudante! Veja o gabarito desta atividade de fixação no fim deste conteúdo. 21 “Começo da Vida” Detalha o Desenvolvimento Infantil na Primeira Infância https://bit.ly/3cBZukV Um Estudo Reflexivo sobre o Currículo na Educação Infantil https://bit.ly/3GEiIbr O Interacionismo Social e a Investigação da Brincadeira Infantil: Uma Análise Teoricometodológica https://bit.ly/3RiORv7 Leituras Material Complementar 22 Referências BASSEDAS, E. et al. Aprender e Ensinar na Educação Infantil. Artmed, 1999. BRANCO, R.; LIMA, L.C. Práticas dos professores frente ao currículo oculto: Aula para além do planejado no ensino da matemática. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (EDUCERE), 12., Curitiba, 2015. Anais [...] Curitiba: [s.n.]. v.12, p. 2328- 2337, 2015. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 06/10/2023. CARDOSO, I.; OLIVEIRA, J. S. Prática da atividade de Vygostky. 2009. Disponível em: . Acesso em: 05/10/2023. MASETTO, M. T. Didática: a aula como centro. São Paulo: FTD, 1997. MASETTO, M. T. Competência Pedagógica do professor universitário. São Paulo: Summus, 2003. MOREIRA, A. F. B.; CANDAU, V. M. Indagações sobre currículo. Caderno Currículo, Conhecimento e Cultura. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. MOREIRA, A. F. B. Currículo: Questões atuais. Campinas, SP: Papirus, 1997. MOREIRA, A. F.; SILVA, T. T. (orgs). Currículo, Cultura e Sociedade. 2000. PILETTI, C. Didática Geral. São Paulo: Ática, 2000. SÃO PAULO. Secretaria Municipal de Educação de. Organização do Trabalho Pedagógico. Módulo 2. São Paulo: SME/DOT, 2002. 23 Questão 1 d) Reconhecimento da importância de considerar as experiências e culturas das crianças em sua construção. Justificativa: uma característica fundamental da concepção de currículo na Edu- cação Infantil é o reconhecimento da importância de considerar as experiências e culturas das crianças em sua construção. O currículo na Educação Infantil deve ser sensível às necessidades e interesses individuais das crianças, bem como às suas experiências familiares e culturais. Isso promove um ambiente de aprendizado mais inclusivo e relevante. Questão 2 d) Promover uma aprendizagem mais holística, considerando a influência de dife- rentes contextos na vida da criança. Justificativa: promover uma forte interação entre educador, criança e família no processo de aprendizagem é fundamental para uma abordagem mais holística da educação. Isso reconhece que a aprendizagem não ocorre apenas na escola, mas também é influenciada pelo ambiente familiar e outras experiências da criança. Integrar esses diferentes contextos ajuda a criar uma compreensão mais comple- ta das necessidades e interesses dela, promovendo, assim, um aprendizado mais significativo. Gabarito _nb1ke4e4w8x9 _iqzdslrs1yej _wy77nl9kuc3w _9e5p1lrlne27 _3ioi52bpx5l4 _u0a1gfeko16r _ze5yisfwpfmr _vpxuebphtpxm _51h9tqtu7shq _b37chi85xd93 _6r192hm932ir Concepção de Currículo Currículo na Educação Infantil Os Alunos da Educação Infantil Interações Pessoais Interações Educador-Criança Áreas da Criança na Educação Infantil