5.1. Exame do Paciente   Anamnese e Exame Físico do Coração
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5.1. Exame do Paciente Anamnese e Exame Físico do Coração


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5.1Exame do Paciente: Anamnese e Exame Físico do Coração
Celso Ferreira Filho
ANAMNESE
O termo, originário do grego \u201canamnesis\u201d sig-
nifica lembrar-se, e engloba todas as in formações 
prestadas pelo próprio paciente, ou os que o co-
nhecem, desde o início da moléstia até o momento 
em que se apresenta à observação do médico.1 
A anamnese em Cardiologia reveste-se de extre-
ma importância, já que, em conjunto com o exame 
físico, possibilita diagnósticos com maior exatidão 
e a indica ção de exames complementares mais 
apropriados, evitando-se assim exames dispendio-
sos, muitas vezes invasivos e até desnecessários. 
Além da queixa e duração (QD) e história 
pregres sa da moléstia atual (HPMA), devem ser 
obtidos ante cedentes pessoais (AP), que incluem 
restrições para atividade física, hábitos, ocupação, 
alimentação e esporte, etilis mo, uso de drogas e 
via de administração, bem como dados comple-
mentares, tais como febre reumática, coréia, expo-
sição a doenças venéreas, patologias tireoi dianas, 
manipulações dentárias, fatores de risco, entre os 
quais hipertensão arterial, tabagismo, dislipide-
mias, diabetes mellitus, menopausa, uso de contra-
ceptivos hormonais, entre outros. Os antecedentes 
familiares (AF) também são pertinentes, visto que 
em muitas eventuali dades se constata a moléstia 
no mesmo núcleo familiar.2 
Os sintomas mais frequentes incluem dispnéia, 
dor ou desconforto torácico, palpitações, edema, 
tosse, síncope, hemoptise e cianose. 
DiSPNEiA
É o estado em que o paciente apresenta difi-
culdade respiratória de qualquer natureza, acom-
panhada da sensação de opressão e mal-estar.1-3 
Entre as principais causas encontram-se as car-
diopatias, as pneumopatias ou as grandes anemias. 
No entanto, a dispneia pode se apresentar em nu-
merosas outras situações, tais como a anafilaxia, 
tumores, neuropatias e até psicogênicas (nesta 
última situação, de caráter \u201csuspiroso\u201d, em geral 
acompanhando estados de ansiedade).2
Quando súbita, sugere embolia pulmo nar, 
pneumotórax, edema agudo de pulmão, pneu-
monia, ou obstrução de vias aéreas, ao contrário 
da insufi ciência cardíaca crônica, de instalação 
muito mais len ta.2 
Na insuficiência ventricular esquerda, a disp-
neia pode estar associada com a realização de 
exercícios, ou, ainda, ocorrer à noite durante 
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46 Cardiologia Clínica 
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o repouso, acompanhada de tosse. A história 
cuidadosa evidenciará que a disp neia precede a 
tosse, ao contrário das doenças pulmo nares obs-
trutivas crônicas, nas quais tosse e expectora ção 
precedem a dispneia.3
Na insuficiência cardíaca congestiva, é a ex-
pressão clínica da hipertensão venosa sistêmica 
e capilar pul monar, com ortopneia, edema, des-
conforto abdominal decorrente de hepatomegalia, 
e noctúria.2,4 
A dispneia pode acompanhar-se de dor toráci-
ca, como no infarto agudo do miocárdio, ou ser 
secundária à isquemia miocárdica, corresponden-
do a um equiva lente anginoso.5 
Dor ou DESCoNForto toráCiCo
A história de dor ou desconforto torácico6 é o 
item mais importante para o diagnóstico diferen-
cial da insu ficiência coronária com outras afecções 
torácicas, especialmente quando precordial. A 
gran de variedade de estruturas torácicas não-car-
díacas, como aorta, artéria pulmonar, brônquios, 
pleura, mediastino, esôfago, diafragma, parede 
torácica, coluna vertebral, junções costocondrais, 
entre outras, demonstram a grande gama de 
causas de dor e, portanto, passíveis de diagnós-
ticos diferenciais. Devem ser obtidos os dados: 
localização, irradiação, caracterização, horário de 
aparecimento, duração, fre quência, fatores de me-
lhora e piora, sinais ou sintomas acompanhantes. 
Dor torácica, preferencialmente precordial ou re-
troesternal com irradiação ulnar, braço esquerdo, 
pescoço, mandíbula, acompa nhada de sudorese 
ou náusea, de curta duração, sugere fortemente o 
diagnóstico de angor pectoris. História similar nes-
sas características, porém prolongada, é coerente 
com o infarto agudo do miocárdio. Muito comum 
é o intenso cansaço concomitante.2 No entanto, o 
desconforto torácico, ou apenas aquele sintoma 
isoladamente, podem constituir \u201cequivalentes is-
quêmicos\u201d de síndrome coronária aguda.5 
A dor da pericardite aguda é frequentemente 
precedida de relato de infecção viral das vias res-
piratórias superio res, com localização mais à es-
querda do que central, pio rando com a respiração, 
mudanças de decúbito no leito ou posições, e me-
lhorando na posição sentada, com o tórax inclinado 
para frente.5 
A dissecção aórtica é sugestiva quando a dor é 
in tensa, persistente, irradiando-se para as costas, 
em pa ciente com antecedente de hipertensão ar-
terial sistêmi ca.5 
Entre outros, diagnósticos tais como herpes 
zoster devem ser lem brados e a causa psicológica2 
deve ser considera da apenas quando todas as cau-
sas orgânicas forem exaustivamente excluídas.
PAlPitAçõES
Caracterizam-se pela percepção de batimentos 
do coração fortes e rápidos, regulares ou não, em 
geral relatadas como sintoma preocupante.1
Frequentemente é um sintoma vago, indefinido, 
envolvendo grande variedade de apresentações de 
ritmos e mesmo da frequên cia cardíaca. Para a 
caracterização, deve-se solicitar ao paciente para 
imitá-la batendo com os dedos sobre a mesa,2 ou 
mesmo o médico poderá reproduzir o sintoma 
percutindo sobre o precórdio do paciente e, de 
acordo com este procedimento, inquiri-lo sobre, 
a semelhança com o sintoma e as características 
relatados: número, ritmo (regular ou não, bati-
mentos isolados ou em salvas), duração, início e 
término (súbitos ou progressivos), circunstâncias 
do início (repouso, emoções ou esforços físicos). 
Importante averiguar a repercussão destas palpi-
tações, pela eventual e concomitante presença de 
sintomas que sugiram queda do débito cardíaco. 
O significado das palpitações poderá fazer parte 
de qualquer patologia cardíaca ou extracardíaca, 
dependendo da caracterização, ou constituir parte 
da sintomatologia para diferentes síndromes, de-
vendo ser convenientemente elucidado.4
EDEMA
É caracterizado pelo aumento de líquido seroso 
no tecido conjuntivo intersticial. Ocorre princi-
palmente no tecido celular subcutâneo, nas muco-
sas e nos pulmões, acompanhado, muitas vezes de 
47Capítulo 5.1 » Exame do Paciente: Anamnese e Exame Físico do Coração
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derrame seroso nas cavidades adjacentes, como a 
pleura, o peritônio e o pericárdio. As causas mais 
frequentes são a insuficiência cardíaca e a nefro-
patia. O edema de causa renal, como o decorrente 
da síndrome nefrótica, ocorre em todas as partes 
do corpo, embora preferencialmente nos locais de 
predominância de tecido conjuntivo frouxo, tais 
como as pálpebras e a face. 
Referências quanto à localização são impor-
tantes. Os edemas de etiologia cardíaca são si-
métricos, visíveis muitas vezes nos pés, membros 
inferiores, região sacra, ou, ainda, ocorrendo de 
forma generalizada (anasarca). Ocorrendo apenas 
nas pálpebras, ao redor dos olhos e face, pode 
relacionar-se à nefropatia ou ao hipotireoidismo. 
Por in fluência da força da gravidade, os edemas 
de membros inferiores são habitualmente vesper-
tinos, ao passo que, pelo mesmo motivo, os da face 
costumam ser matutinos.2,4 
toSSE
É representada por brusca expiração com a glo-
te semifechada, produzindo ruído característico. 
Pode ser iniciada voluntariamente ou por reflexo. 
O mecanismo é complexo, porém tende a desobs-
truir as vias aéreas de material estranho que even-
tualmente lhe tenha proporcionado o sintoma, ou 
decorrente da existência de processo patológico 
de vias respiratórias.1 Pode ser causada por um 
grande número de patologias, destacando-se: