64014712 Terapia Ocupacional Berenice Rosa Francisco
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do corpo biológico 
que surge a preocupação com o cotidiano da 
pessoa incapacitada, tendo como princípio a 
independência. Entretanto, independência que tem 
sua raiz na execução das ações físicas, do corpo 
biológico, necessárias para a efetivação do dia-a-
dia.
Sob essa premissa, as primeiras intervenções ocor-
reram è as a.v.d., foram caracterizadas como, 
apenas, aquelas destinadas aos cuidados pessoais. 
Nesse momento, a.v.d., é reduzida a: alimentação 
e higiene pessoal. Posteriormente, com o 
desenrolar do trabalho de terapia ocupacional nos 
programas de reabilitação, foram incorporados, ao 
uso do termo, outras atividades realizadas pelo 
homem no seu cotidiano, tais como: locomoção, 
comunicação, destrezas manuais e tarefas 
domésticas.
Nessa "evolução", foi-se codificando, regulamen-
tando e compartimentalizando as atividades diárias 
do homem. De maneira que neste processo, as 
atividades da vida diária vem sendo 
compreendidas e utilizadas, em larga escala, pelos 
terapeutas ocupacionais enquanto repetição 
mecânica de atos/ações físicas exigidas para que 
se efetive o dia-a-dia, cujo sentido não é questio-
nável.
Diante deste quadro se poderia questionar:
Cotidiano e rotina são as mesmas coisas?
Como e para quais fins o cotidiano do cliente é 
adaptado e quem decide a respeito dessa 
adaptação?
Será que o terapeuta ocupacional ao reduzir o coti-
diano às atividades da vida diária a meras ações 
mecânicas, está preparando as pessoas para o 
cotidiano concreto?
O EQUÍVOCO NA BUSCA DA COMPREENSÃO 
DO COTIDIANO ATRAVÉS DO BIOLOGISMO
Se aceitarmos o entendimento das atividades da 
vida diária pelos processos mecânicos, a utilização 
desta, constitui à nosso ver, autêntica execução do 
homem, que passa a ser substituído por 
funcionalismo.
Como expressa Vásquez: "O homem é um ser que 
tem de estar inventando ou criando 
constantemente novas soluções. Uma vez 
encontrada uma solução, não lhe basta repetir ou 
imitar o que ficou resolvido; em primeiro lugar, 
porque ele mesmo cria novas necessidades que 
invalidam as soluções encontradas e, em segundo 
lugar, porque a própria vida, com suas novas 
exigências, se encarrega de as invalidar." 
(Vásquez; p. 247). De maneira que lidar com o 
cotidiano é sempre intervenção que exige um lidar 
com a concretude do homem, esse movimento de 
múltiplas relações.
O cotidiano não é rotina, não é a simples repetição 
mecânica de ações que levam a um fazer por 
fazer. O cotidiano é o lugar onde buscamos exercer 
nossa atividade prática transformadora, é o social; 
é o contexto que vivemos.
Tomemos como exemplo o ato de comer (atividade 
de alimentação).
Sabe-se que o alimentar-se é um ato obviamente 
dirigido à necessidade de sobrevivência humana, e 
nesta compreensão a alimentação pode ser 
classificada como atividade primária e universal. 
Entretanto, este mesmo ato apresenta-se de 
diferentes maneiras para os diferentes povos e 
populações. Desde os gêneros alimentícios 
preferencialmente escolhidos, ou acessíveis, ou 
ainda disponíveis as formas e utensílios utilizados 
para o preparo até o ato, próprio, de levar o 
alimento à boca, mastigá-lo, etc.
Na perspectiva do reducionismo que se constituiu 
no modelo dominante da ciência contemporânea a 
redução do cotidiano a meras ações biológicas do 
homem nada mais é senão a redução da condição 
humana à biologia. Como modelo teórico "o 
biologismo é a tentativa de situar a causa atual da 
sociedade humana, e das relações dos indivíduos 
dentro dela, no caráter biológico do animal 
homem. (...) Toda a riqueza de experiências 
humanas e as várias formas históricas das relações 
humanas representam simplesmente o produto de 
estruturas biológicas subjacentes: as sociedades 
humanas são governadas pelas mesmas leis das 
sociedades primatas e o modo pelo qual o 
indivíduo responde ao seu meio ambiente é 
determinado pelas propriedades inatas das 
moléculas do DNA encontradas no cérebro ou nas 
células germinativas." (Rose; 63-64).
Verifica-se que a ideologia do reducionismo é, por-
tanto, positivista, na medida em que considera que 
a racionalidade científica que ela representa 
fornece regras para o funcionamento adequado da 
sociedade humana.
Quanto à problematização inicial em torno do valor 
da utilização das a.v.d. sob essa ótica, pode-se 
dizer que está vinculado ao aprimoramento do 
funcionamento das instituições como 
mantenedoras de um ideal social harmônico, 
enquanto instituições que visam a manutenção de 
um todo social em harmonia, oferecendo sempre 
"soluções" que mantêm os mecanismos de ajusta-
mento do homem ao social.
No caso da terapia ocupacional sua transformação 
em instituição dessa natureza dá-se no momento 
em que esta assume o reducionismo do biologismo 
e passa a tratar as patologias, como algo 
autônomo, considerando o social como dado 
pronto, inquestionável e harmônico. No que se 
refere às atividades da vida diária, transforma o 
cotidiano em ações, atos classificáveis; cabendo a 
esta o fornecimento de um corpo de normas que 
orientem o fazer cotidiano-prático do homem, 
como legitimador da ordem social.
Diante destes antecedentes observa-se que os 
componentes ideológicos incluídos no modelo 
reducionista são bastante claros, à medida em que 
recusa-se a admitir, por exemplo, as formas de 
trabalho alienado como crítica das estruturas 
sociais; ao mesmo tempo que encoraja uma 
concepção terapêutica manipuladora.
Temos então, que a ideologia do modelo 
reducionista, se expressa no plano da ação social. 
Desta forma, encara os homens como objetos que 
podem ser manipulados para adquirir os padrões 
sociais aceitáveis.
SAÚDE E POLÍTICA
Em uma sociedade classista a transmissão dos mo-
delos sociais da classe dominante, como também a 
difusão das idéias políticas dessa classe, dá-se via 
as instituições.
Por sua vez, "As instituições médicas se tornam o 
único e legítimo lugar para 'falar e atuar' sobre os 
corpos, adquirindo a forma dos aparelhos de 
hegemonia no desempenho de sua atividade, onde 
elegem determinados agentes sociais \u2014 como, por 
exemplo, o médico \u2014 como os portadores dos 
instrumentos necessários para a execução e 
efetivação daquela atividade." (Merhy: 1985, 43)
Tomando a afirmação de Merhy, pode-se constatar 
que a Saúde sempre foi política. Como bem disse 
Moacir Gadotti, "(...) o que precisamos é ter clareza 
do projeto político que ela defende, politizando-a."
Em síntese, podemos dizer que a saúde é política 
porque em sendo a saúde uma instituição social, 
suas ações difundem, articuladamente, as idéias 
políticas e transmitem os modelos sociais.
FRENTE A UM O QUE FAZER
Entendemos que a problemática da saúde não 
deve ser tratada numa perspectiva mecanicista, 
funcionalista, anulando toda possibilidade de 
intervenção criadora do homem sobre as 
contradições da realidade, sequer numa 
perspectiva idealista e ideológica o que compro-
vadamente é o caráter da saúde classista.
Sabemos que romper com o passado é uma tarefa 
difícil. Entretanto, é necessário um esforço para 
exercermos uma crítica consciente no sentido de 
não alienar ainda mais o homem, implicando em 
simplesmente adequá-lo ao meio, mas sim fazer o 
homem refletir sobre seu mundo próximo, tal como 
se realiza. É necessário que a prática terapêutica 
seja problematizadora, para que possamos 
proporcionar àquele que se submete a um 
processo terapêutico ocupacional uma 
compreensão do mundo não, como a realidade que 
lhe é dada,
Rafaella
Rafaella fez um comentário
Boa noite, gostaria de saber se voce possui o livro Terapia Ocupacional: fundamentação e prática em pdf
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