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PSICANÁLISE E CRIMINOLOGIA 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Kohara 
 
2 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Em nossos estudos, percorremos um longo caminho até aqui, desde a 
apresentação das escolas criminológicas (clássica, clínicas, sociológicas e 
crítica), passando pelas teorias psicanalíticas clássicas sobre o crime, chegando 
à articulação entre os conceitos de Sujeito e Responsabilidade. Nesse percurso, 
foram objetos de nossa atenção as diferentes abordagens do comportamento 
delituoso, o papel da sociedade punitiva na resposta e na própria definição do 
crime, o papel da neurose e da culpa como desencadeadores da conduta 
criminal, a psicogênese das leis (tabus) e do psiquismo, a violência urbana, a 
Justiça Infanto-Juvenil, a Justiça Restaurativa, entre outros. 
Nesta etapa, dedicaremos nossa atenção à interface da Psicanálise com 
as Ciências Jurídicas no que se refere às atribuições e limites de suas 
competências. Esse contexto institucional no qual se insere a prática 
psicanalítica é importante para compreendermos limites e potencialidades atuais 
do psicanalista nessa seara, bem como para subsidiar, especialmente aqueles 
menos familiarizados com o Direito, para que tenham condições de fazer uma 
análise crítica e não ingênua do Sistema de Justiça Criminal. Vamos introduzir 
também a criminologia lacaniana e os subsídios que ela nos oferece para tratar 
do tema crime/loucura. Por fim, transversais em nossos estudos, serão tratadas 
as noções de Acesso à Justiça e o papel dos Direitos Humanos. 
TEMA 1 – SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL: FASE PRÉ-PROCESSUAL 
O Sistema de Justiça Criminal no Brasil é composto por diversas 
instituições responsáveis pela aplicação e execução da lei. Essas instituições 
incluem as polícias, o Ministério Público (MP), o Poder Judiciário e o sistema 
prisional. A primeira resposta estatal ao crime, evidentemente, começa pelas 
polícias, que, para uma eventual condenação criminal, também são 
responsáveis por inicialmente formalizar a ocorrência do delito e instruir, por 
meio de provas, o eventual processo penal. A polícia é responsável pela 
prevenção (na forma de policiamento ostensivo), investigação e repressão de 
crimes. No Brasil, existem diferentes polícias, sendo que as que se ocupam do 
enfrentamento dos crimes comuns são as polícias civis e militares estaduais. 
3 
 
 
A Polícia Civil tem o papel de polícia judiciária, ou seja, tem como função 
a investigação de crimes para instrução dos processos judiciais criminais. Cabe 
à investigação apurar os fatos (foi cometido um ato ilícito?), tipificar a conduta 
delitiva (quais leis foram infringidas pelo ato criminoso?) e identificar os prováveis 
autores. O principal instrumento da Polícia Civil em seu mister é o Inquérito 
Policial (IP), instituído no Brasil em 1871, no período monárquico, e que marcou 
a separação institucional entre justiça e polícia. 
Já a Polícia Militar é responsável pelo policiamento ostensivo, fardado, 
com vistas a coibir a ocorrência de crimes ou reprimi-los prontamente mediante 
denúncias da população. Detentora do legítimo uso da força para reprimir atos 
em contrariedade com a lei, o policiamento ostensivo em outros países não é 
necessariamente militarizado. No Brasil, essa militarização é histórica e data da 
polícia da província (predecessora dos estados), pré-republicana e anterior à 
formação do Exército Nacional. Destaca-se que, em razão da cisão entre 
policiamento ostensivo e polícia judiciária no Brasil, as detenções realizadas pela 
Polícia Militar devem ocorrer exclusivamente em casos de flagrantes (com 
instauração subsequente de IP para instrução do processo criminal) ou em 
operações previamente autorizadas pela Justiça (decorrentes de IP já em 
andamento). Não cabe aos Policiais Militares a investigação de crimes, mesmo 
que a presença no território desses agentes lhes deem acesso a elementos e 
informações que facilitassem tal investigação – as informações devem ser 
transmitidas à Polícia Civil a fim de instruírem eventual IP. 
O destinatário do IP na organização do Sistema de justiça Criminal é o 
Ministério Público (MP). Na seara criminal, o MP atua como fiscal da lei, tendo a 
responsabilidade de “promover a ação penal pública, zelar pela legalidade da 
investigação criminal, requisitar diligências e perícias, oferecer denúncia e atuar 
na fase de instrução do processo penal” (Barroso, 2012, p. 751). São integrantes 
do MP os/as Promotores/as de Justiça, figuras conhecidas no imaginário popular 
em função de seu papel de acusar, nos tribunais, os supostos autores de crimes. 
O MP é responsável também por acompanhar as investigações policiais, 
requisitar diligências e perícias, controlar prazos. Ao fim da investigação, caso 
encontre elementos suficientes para tanto, o Delegado de Polícia encaminha seu 
relatório ao promotor com o indiciamento de um ou mais suspeitos, ou com a 
sugestão de arquivamento do feito. Cabe aos promotores nesse momento 
analisar o material e, ou solicitar mais diligências, ou oferecer denúncia ao Poder 
4 
 
 
Judiciário quando entenderem que existem indícios suficientes de autoria e 
materialidade de um crime. Em caso de acolhimento da denúncia pelo juiz, tem-
se início efetivamente a fase processual. Cabe destacar que o MP tem como 
função institucional privativa a proposição de ação penal pública e, no caso 
concreto, se o/a promotor/a entender que não há indícios suficientes para a 
denúncia e optar pelo arquivamento da investigação, não haverá julgamento, 
mesmo que a vítima assim o deseje. Trata-se de informação relevante, pois, no 
senso comum, estamos habituados a compreender que diante de um crime 
apenas o juiz pode avaliar se alguém é culpado ou inocente, mas considerando 
que a vítima não tem o poder de capitanear a ação penal, antes do crivo do juiz 
há sempre um primeiro crivo do Ministério Público. 
Uma crítica relevante com relação à atuação do Sistema de Justiça 
Criminal no Brasil refere-se à violência policial. Existem diversas críticas quanto 
à manutenção de um modelo militarizado no seio de um Estado Democrático de 
Direito, uma vez que a formação e estrutura de uma instituição militar, de 
especialização no combate ao inimigo, enviesa a atividade policial e a condiciona 
para o uso da violência. A concepção de crime subjacente à uma polícia 
militarizada é a do delinquente essencial, uma vez que é esse alvo abstrato que 
justifica uma política de segurança pública de guerra. Uma consequência dessa 
ideologia é o combate aos criminosos e não ao crime, criminosos estes que são 
estereotipados e associados muito mais a uma determinada condição social do 
que aos atos cometidos, que, como apontamos, não são investigados pela 
Polícia Militar. Sob essa ideologia de guerra ao crime, de combate ao inimigo 
interno, que o país viu nascer o Esquadrão da Morte (Manso, 2012, p. 102-103), 
que, mais do que uma organização criminosa, tornou-se um significante que se 
irradiou nacionalmente, dando origem ao que popularmente conhecemos hoje 
como milícias. 
Institucionalmente, o Sistema de Justiça de Criminal dispõe também do 
MP para exercer o controle externo da atividade policial e enfrentar a violência 
policial. No entanto, o crime, quando cometido por agentes de Segurança 
Pública no exercício de sua função, é tema complexo, não somente por se 
afastar do estereótipo de criminalidade combatida pelas instituições, mas 
também por contar, muitas vezes, como o apoio da opinião pública e com a 
conivência dos órgãos de repressão ao crime. Paradoxalmente, das polícias 
5 
 
 
nascem e se alimentam uma das expressões de crime mais difíceis de 
enfrentarmos na atualidade. 
TEMA 2 – SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL: PROCESSO PENAL 
Nos casos em que há o acolhimento da denúncia pelo Poder Judiciário, 
tem-se início a fase de instrução do processo penal, na qual cabe ao MPapresentar provas da acusação e realizar interrogatórios, nesse momento, sob 
o manto do contraditório, ou seja, com a possibilidade de advogados ou 
Defensores Públicos, representantes dos réus, também apresentarem suas 
provas e participarem das oitivas. Além disso, o MP também pode propor 
acordos de não persecução penal, acordos de colaboração premiada e acordos 
de leniência, a depender das circunstâncias envolvidas. Um destaque importante 
sobre a atuação do MP no processo é que, embora atue para responsabilizar os 
autores dos crimes, os promotores não representam a vítima, mas sim a lei, 
sendo que o dano subjetivo da vítima não é objeto de reparação no processo 
criminal. 
Acolhida a denúncia, o Poder Judiciário é responsável por garantir que as 
leis sejam aplicadas de forma justa e imparcial, e que os direitos individuais 
sejam respeitados durante todo o processo criminal. No contexto do Sistema de 
Justiça Criminal, isso significa que o Poder Judiciário é responsável por garantir 
a legalidade do processo (evitando excessos das partes na condução das oitivas 
por exemplo), julgar se os réus são culpados ou inocentes (exceto nos casos de 
crimes contra vida, em que esse papel cabe a um júri popular) e, em caso de 
condenação, qual a dosimetria da pena1. O Poder Judiciário também é 
responsável por proteger os direitos dos acusados, garantindo que eles tenham 
um julgamento justo e imparcial, regido pelo devido processo legal, com 
presunção de inocência e direito a um advogado. 
O processo penal é dividido em duas fases distintas: a fase de 
conhecimento e a fase de execução, necessariamente com dois juízes distintos 
responsáveis por cada fase. Na fase de conhecimento, ocorre a apuração dos 
fatos que envolvem o crime, a defesa do acusado, o julgamento e a sentença. 
Se o acusado for considerado culpado, o juiz fixará a pena a ser cumprida na 
 
1 A dosimetria da pena consiste em definir o tempo de prisão, o valor da multa ou outras medidas 
punitivas, que deverão ser aplicadas ao réu, caso ele seja considerado culpado. 
6 
 
 
fase de execução. Cabe destacar que, quando houver dúvida sobre a integridade 
mental do acusado, poderá ser instaurado, a pedido de qualquer um dos 
envolvidos no processo, um incidente de insanidade mental, na qual este, 
anteriormente à sentença, será avaliado quanto à sua imputabilidade. Nos 
próximos temas, abordaremos mais detidamente essa interface entre crime e 
loucura, com as contribuições da psicanálise lacaniana. 
Já a fase de execução é a segunda etapa do processo penal, que se inicia 
após a sentença. Seu objetivo é fazer com que a sentença seja cumprida de 
acordo com as determinações legais, tendo o juiz tem atribuições como: verificar 
se as condições impostas na sentença estão sendo cumpridas; decidir sobre 
pedidos de progressão de regime, saída temporária, remissão de pena, entre 
outros; verificar se o condenado tem direito à redução de pena por trabalho ou 
estudo; decidir sobre eventuais punições ou sanções disciplinares aplicáveis ao 
condenado que cometer infrações no cumprimento da pena; acompanhar a 
evolução do estado de saúde do condenado e decidir sobre a concessão de 
tratamento médico, se necessário. Na execução penal, o juiz também tem o 
papel de garantir que o cumprimento da pena seja feito de forma humanitária, 
respeitando os direitos humanos do condenado e evitando a prática de tortura 
ou tratamento cruel ou degradante. 
É ainda na fase de execução penal que juiz tem à disposição a 
possibilidade de requisitar o exame criminológico. No Brasil, o exame 
criminológico estava originalmente previsto em dois artigos da Lei n. 7.210/1984 
(Lei de Execução Penal): 8.º (para a individualização da pena) e 112.º (para 
progressão de regime). Com a reforma introduzida pela Lei n. 10.792/2003, a Lei 
de Execução Penal extinguiu o exame criminológico feito para instruir pedidos 
de progressão de regime. A maior crítica ao exame criminológico para esses fins 
é a expectativa dos magistrados de uma avaliação de periculosidade que possa 
prever a capacidade do indivíduo de reiterar na prática delitiva, condicionando 
assim seus direitos progressão de regime a essa avaliação. 
Tal expectativa esbarra em duas questões, uma de ordem técnica jurídica 
e outra de ordem científica: a primeira em razão de a pena não se destinar, no 
ordenamento jurídico, a um tratamento de periculosidade, mas sim à 
responsabilização objetiva decorrente de um ato cometido (na fase de 
conhecimento não foi julgada a personalidade do indivíduo, mas o ato por ele 
cometido); segundo que, cientificamente, não dispomos de instrumentos (a 
7 
 
 
psicanálise incluída) para prever o cometimento de novos crimes. Apesar disso, 
em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) admitiu o uso do exame pelos juízes 
de forma facultativa (Súmula Vinculante 26). Em maio de 2010, o Superior 
Tribunal de Justiça (STJ), que desde 2003 refutava a realização do exame por 
ausência de previsão legal, passou a acompanhar o STF por meio da Súmula 
439: “Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que 
em decisão motivada”. Em contrapartida, sem a mesma visibilidade, o exame 
criminológico quando do ingresso no Sistema Prisional, com vistas à 
individuação da pena e que poderia ser utilizado em favor da futura reinserção 
do preso na sociedade, segue negligenciado, massificando a execução penal 
sem qualquer propósito ressocializador. 
TEMA 3 – CRIME E LOUCURA EM LACAN: AIMÉE E AS IRMÃS PAPIN 
Com relação à discussão sobre imputabilidade e doença mental no 
Sistema de Justiça Criminal, em razão de nossa proximidade temática, cabe nos 
determos um pouco mais. Aproveitaremos o tema para introduzir algumas 
contribuições de Jacques Lacan, já sinalizando que em razão da complexidade 
e especificidade de sua obra, cujo universo semântico é bastante singular entre 
os demais autores da psicanálise, nossa proposta aqui é apenas apresentar 
alguns conceitos que poderão ser aprofundados individualmente por aqueles 
que se interessam pela abordagem lacaniana ou queiram ampliar seus estudos 
sobre Psicanálise e Criminologia. 
Essa introdução passa necessariamente por visitarmos os crimes 
cometidos por Aimée e pelas irmãs Papin, trabalhados por Lacan em sua tese 
de doutorado em Psiquiatria, publicada em 1932, sob o título “Psicose paranoica 
e sua relação com a personalidade”. Texto seminal não apenas de suas 
considerações sobre o crime, mas de sua própria incursão pela psicanálise, ele 
nos apresenta justamente uma análise de casos em que as acusadas foram 
submetidas a exames de sanidade mental em razão do cometimento de crimes 
aparentemente imotivados, ou cometidos por motivação fútil. 
Aimée, em determinada noite parisiense, foi ao teatro em que a atriz 
Huguette Duflos, figura pública que nunca conhecera pessoalmente, se 
apresentaria e a atacou com uma faca, ferindo sua mão. Embora ambas nunca 
houvessem tido qualquer contato, Aimée estava convencida de que a atriz a 
8 
 
 
ameaçava e desejava a morte de seu filho. Suas primeiras vivências 
persecutórias se manifestam anos antes, durante a primeira gravidez. Aimée 
começou a acreditar que as pessoas a seu redor desejavam o seu mal e a morte 
de seu bebê. Passou a identificar ameaças contra si em jornais e voltou-se 
também contra o esposo. Com o nascimento de sua filha natimorta, Aimée tem 
reforçada sua persecutoriedade, voltando sua agressividade especialmente para 
sua irmã mais velha. Aimée volta a engravidar e, após o nascimento da criança, 
Aimée tornou-se cada vez mais hostil. Aimée foi internada para tratamento, mas 
a medida apenas reforçou suas fantasias persecutórias. Ela se mudou para Paris 
e lá passou a ouvir sobre Huguette Duflos (por se tratar de uma famosa atriz de 
teatro), a quem passou a atribuir a responsabilidade pelo complô daqueles que 
querem seu mal e de seu filho. Aiméefoi presa após o atentado e, na prisão, 
admitindo sua culpa, seu delírio se desvaneceu. 
Em uma outra noite francesa, em 1933, as irmãs Christine e Lea Papin, 
empregadas domésticas de uma família rica da cidade de Le Mans, atacaram e 
desfiguraram suas patroas, mãe e filha. Cada uma das duas atacou uma das 
patroas, as espancaram e arrancaram seus olhos das órbitas. Cortaram coxas e 
nádegas, abandonaram os corpos com os órgão genitais despidos. Lavaram a 
si e aos instrumentos do crime, deitaram-se juntas em uma cama como 
conclusão: “agora está tudo limpo” (Lacan, 1987, p. 382). Quando foram 
encontradas pela polícia, não demonstraram remorso e admitiram o crime, mas 
não souberam dar explicações sobre o ato. Sua única preocupação era partilhar 
a responsabilidade pelo crime. 
Apurou-se que cotidianamente elas eram dedicadas ao trabalho, não 
incomodavam suas patroas e pouco conversavam com elas. Ficavam grande 
parte do dia reclusas, quietas, convivendo somente uma com a outra. De origem 
pobre, passaram a infância em um orfanato e quiseram ser colocadas juntas na 
casa de um mesmo patrão (na qual viera a ocorrer o crime). Chegaram a 
denunciar que foram perseguidas ao comissário central da cidade, situação que 
teve consequências por parte da autoridade policial. Christine e Lea tinham ainda 
uma irmã mais velha, Emília, que entrou em um convento após anos 
denunciando os abusos sexuais de um pai alcoólatra. Já na prisão, as irmãs 
foram separadas e Christine passou a conviver com delírios e alucinações, além 
de expressar diversos sintomas melancólicos. Alternava comportamentos de 
exibições eróticas e rezas, vez ou outra anunciava que em uma outra vida seria 
9 
 
 
o marido de sua irmã. Em uma crise, tentou arrancar os próprios olhos. Em razão 
das crises, foi contida com o uso de camisa-de-força. Quando questionada por 
que ela despiu a vítima, Christine respondeu: “eu estava procurando uma coisa 
cuja posse me teria tomado mais forte” (Roudinesco, 1988, p. 143). Apesar disso, 
os peritos psiquiatras convocados declaram as irmãs Papin sadias e imputáveis, 
atribuindo as atitudes de Christine a simulações. No julgamento, Christine, de 
joelhos, recebeu a sentença de morte2. 
TEMA 4 – PARANOIA DE AUTOPUNIÇÃO 
Os dois casos apresentados por Lacan servem ao intuito de ilustrar as 
teses inovadoras do autor sobre a relação entre crime e loucura, nos orientando 
também, enquanto psicanalistas, para uma escuta que vai além do exame de 
sanidade operado pela Justiça Criminal. 
O conceito-chave para essa primeira incursão do jovem psiquiatra Lacan 
na Psicanálise e na Criminologia é a paranoia. O sujeito paranoico é comumente 
caracterizado por um sentimento de que o mundo está contra ele, o que 
compreende delírios persecutórios, mas também erotomaníacos e 
megalomaníacos. Entretanto, nem todo sujeito paranoico cometerá um crime. O 
delírio é um esforço racional do sujeito para explicar experiências de distúrbios 
momentâneos de percepção, sendo o ato criminoso uma reação passional 
motivada pela convicção delirante. As condições psíquicas que sustentam esse 
mecanismo de passagem ao ato do sujeito paranoico são estudadas por Lacan, 
tomando o caso Aimée como paradigmático. Em sua tese, baseado na 
formulação freudiana de que na paranoia há um recalcamento da pulsão 
homossexual, o autor interpreta que Aimée tem dirigida sua pulsão às mulheres, 
que haviam sido eleitas, em seu inconsciente, para o lugar de seu eu ideal. 
Denegado, o amor transforma-se em ódio ao objeto do mesmo sexo, o que 
redunda no tema da perseguição, com o ódio sendo projetado no outro. Na óptica 
de Lacan, primeiro a irmã, depois outras perseguidoras e finalmente Huguette 
Duflos, são investidas dessa pulsão sexual recalcada, proibida, e que retorna na 
forma de sentimento de perseguição. “A mesma imagem que representa seu 
ideal é o objeto de seu ódio” (Lacan, 1932/1987, p. 253). É por meio dessa 
constatação, percebida com base no caso Aimée, de que o crime contra a 
 
2 Comutada em prisão perpétua posteriormente. 
10 
 
 
pessoa idealizada é, inconscientemente, uma tentativa de se autoferir, que 
Lacan propõe a definição de uma paranoia de autopunição. 
Para além dos sintomas paranoicos que precederam sua passagem ao 
ato (ataque a Huguette Duflos), é para seu desvanecimento após o crime que 
Lacan nos chama a atenção: “pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da 
lei, Aimée atinge a si mesma e, quando ela o compreende sente então a 
satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil se desvanece. A natureza 
da cura demonstra, quer nos parecer, a natureza da doença” (Lacan, 1932/1987, 
p. 254). 
É em razão do desvanecimento posterior das interpretações 
autorreferentes e das ideias de perseguição que ocorreram após o crime, que 
Lacan forma a convicção de que a motivação inconsciente de Aimée repousava 
na autopunição. Por meio da materialização da punição pela perda da liberdade, 
Aimée se liberta dos delírios e alucinações que a mantinham em um 
aprisionamento subjetivo, em grau muito mais intenso e complexo do que os 
aventados por Freud em seus criminosos neuróticos por sentimento de culpa. 
Destaca-se que, com a passagem ao ato, Aimée não se liberta da autopunição 
sobre a qual se organiza seu psiquismo, mas a transfere para uma dimensão 
concreta que a liberta dos delírios. 
No caso das irmãs Papin, embora não as tenha atendido, Lacan especula 
que o mesmo mecanismo de passagem ao ato tenha se operado. Assim como 
Aimée, o autor interpreta que as irmãs Papin mataram suas patroas em 
decorrência de uma pulsão homossexual recalcada que, ao mesmo tempo, as 
elegia como eu ideal e objeto de ódio. “Essa tendência homossexual só se 
expressaria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a 
convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor” (Lacan, 
1932/1987, p. 388). Essa homossexualidade latente seria observada na 
declaração de Christine, que em seus delírios se toma por marido de Léa, 
revelando a folie à deux que sustenta tanto a relação entre as irmãs quanto a 
relação delas com suas patroas/vítimas. No que se refere à autopunição, no caso 
de Christine, a prisão e a separação da irmã não foram suficientes, como para 
Aimée, o que a impele a tentar arrancar seus próprios olhos. Há que se destacar 
ainda como o enigma da castração feminina ronda as fantasias de Christine, que 
desnuda o sexo das vítimas atrás de algo que não existia e que “a tornaria mais 
forte”. 
11 
 
 
Desde a época em foi construída a tese de Lacan até os dias atuais, a 
questão que se apresenta à justiça criminal diante dos crimes aparentemente 
imotivados é a da responsabilidade penal dos sujeitos, ou sua imputabilidade, 
que tratamos em momento anterior. A psiquiatria é convocada a dar o seu 
parecer quanto à racionalidade e à consequente responsabilidade do indivíduo 
por seu ato criminoso. Ante a prática psiquiátrica, consolidada até hoje, no qual 
o médico coteja os sintomas do periciado com os sintomas previstos em seu 
manual diagnóstico e conclui sobre a doença mental com base na convergência 
ou divergência dessas listas, Lacan inova e propõe o que poderíamos nomear 
de uma escrita da loucura. Nos termo de Roudinesco (1988, p.131-145): 
Em vez de preparar um catálogo dos sintomas da doente, Lacan 
procura captar a significação inconsciente do motivo paranoico […]. 
Em face dos partidários da psiquiatria dinâmica que tentam subtrair os 
loucos da guilhotina, e frente aos peritos oficiais que se tomam 
cúmplices dos carrascos, Lacan formula […] a hipótese de urna 
terceira via […]. Segundo ele, explicar o crime não é nem perdoá-lo 
nem condená-lo, nem puni-lo nem aceitá-lo. É, ao contrário, irrealizá-
lo, ou seja, restituir-lhe sua dimensão imaginária e, depois, simbólica. 
Dentro dessa ótica, se o criminoso é louco, nem por isso ele é um 
monstro reduzido a instintos assassinos.Dito de outra maneira […], 
nosso herói recusa o conjunto das doutrinas provenientes da raça e da 
degenerescência. Só que vai ainda mais longe. Critica também o 
dinamismo, ramo mais novo da teoria da hereditariedade, mostrando 
que o louco não é irresponsável quanto a seus atos, já que a loucura é 
a realidade alienada do homem, e não o avesso de uma razão ilusória. 
Com a mensagem freudiana, portanto, Lacan irrealiza o crime sem 
desumanizar o criminoso. 
O que se destaca na síntese de Roudinesco sobre as inovações 
propostas por Lacan com base na tese deste, é que o autor não se contenta com 
a classificação simplista de que a loucura, por si só, seria suficiente para explicar 
o ato criminoso. Mesmo dentro da realidade alienada do autor do crime, Lacan 
procura captar como essa realidade resultou no ato criminoso, investigação esta 
que nos aponta para uma responsabilidade distinta daquela tratada pelo Direito 
Penal. Dessa forma, Lacan radicaliza a ideia do tratamento como resposta penal 
adequada, em oposição à mera repressão penitenciária, o que poderia ser 
realizado mesmo nos casos inimputáveis de psicose. 
TEMA 5 – DIREITOS HUMANOS E ACESSO À JUSTIÇA 
Para concluirmos nossos estudos, dediquemos algumas palavras à 
reafirmação dos Direitos Humanos, questão transversal a todos os conteúdos 
apresentados até aqui. Ante a esse quadro complexo de organização do Sistema 
12 
 
 
de Justiça Criminal e o contexto histórico e macropolítico brasileiro de extrema 
desigualdade, social e racial, um dos tópicos mais relevantes para a garantia dos 
direitos humanos no Brasil refere-se às condições de acesso à justiça da 
população, incluídos os encarcerados. 
A expressão “acesso à justiça” refere-se ao direito fundamental de todas 
as pessoas de acessar a tutela jurisdicional do Estado para a proteção de seus 
direitos. O acesso à justiça não se limita apenas ao acesso físico aos tribunais e 
órgãos do sistema de justiça, mas também engloba aspectos relacionados à 
efetividade da justiça, como a qualidade da assistência judiciária, a celeridade 
do processo, a adequação dos procedimentos, a disponibilidade de recursos e a 
igualdade de oportunidades para todos os envolvidos. A relevância do acesso à 
justiça foi reafirmada pela Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da 
Assembleia Geral das Nações Unidas, da Organização das Nações Unidas 
(ONU), em 2015, que estabeleceu como um de seus Objetivos de 
Desenvolvimento Sustentável (ODS) “promover sociedades pacíficas e 
inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça 
para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos 
os níveis”. O pós-segunda guerra fez com que esses princípios de acesso à 
justiça se materializassem nos países ocidentais na forma de serviços jurídicos 
gratuitos custeados pelo Estado – conhecido em países anglo-saxônicos como 
Judicare. Como aponta Boaventura de Sousa Santos, “a consagração 
constitucional dos novos direitos econômicos e sociais e a sua expansão 
paralela à do Estado-Providência transformou o direito ao acesso efectivo à 
justiça num direito charneira, um direito cuja denegação acarretaria a de todos 
uso demais” (Santos, 2008, p. 167). 
A principal instituição responsável por trabalho em favor do acesso à 
justiça no Brasil é a Defensoria Pública. Além da defesa nos processos judiciais 
daqueles que não tem recursos para contratar um advogado, a atuação da 
Defensoria Pública em prol dos direitos humanos reflete-se em ações em prol 
dos diretos da população carcerária. Tratam-se de ações em favor de 
atendimento médico ou odontológico adequado, acesso a medicamentos, 
exames ou cirurgias, garantia de condições higiênicas e sanitárias adequadas, 
visitas dos familiares, prevenção à prática de tortura, ações de educação em 
direitos para que presos e seus familiares saibam de seus direitos. 
13 
 
 
Compreender os Direitos Humanos e afastar-se da polarização rasa que 
insiste em organizar a vida social na busca de inimigos, passa, necessariamente, 
por compreendermos que estamos tratando de uma conquista histórica (e ainda 
em processo) da humanidade. Sob efeito da Segunda Guerra Mundial, a 
Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, afirma já em seu primeiro 
considerando: “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da 
família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da 
liberdade, da justiça e da paz no mundo”. Notemos a convergência da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos com o conjunto da obra que 
percorremos ao longo de nossos estudos. O reconhecimento à dignidade 
inerente a todos os membros da família humana, em nossos termos, significa 
romper definitivamente com a concepção de um delinquente nato, de um 
criminoso essencial abstrato e não humano, que nos afasta da igualdade de 
direitos e daquilo que é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. 
A Psicanálise pode e deve ser veículo também da disseminação dos 
Direitos Humanos na medida em que ela converge para o entendimento dessa 
igualdade humana essencial, que ao mesmo tempo não ignora a diversidade de 
expressões do psiquismo. Como observa o professor Fábio Konder Comparato 
(2005, p. 224): “a vigência dos direitos humanos independe de sua declaração 
em constituições, leis e tratados internacionais, exatamente porque se está 
diante de exigências de respeito à dignidade humana, exercidas contra todos os 
poderes estabelecidos, oficiais ou não.” 
Nesse sentido, é inequívoco o alinhamento da Psicanálise aos Direitos 
Humanos, independentemente do que venham a ser as crenças pessoais e 
familiares do aspirante à psicanalista – inclusive fora do campo criminológico. 
Não há cura analítica que não tenha no horizonte a dignidade da pessoa 
humana, não se pode aspirar libertar o sujeito de seus sintomas para admitir seu 
aprisionamento a condições intersubjetivas alienantes. Em suma, não há 
Psicanálise sem afirmação dos Direitos Humanos. 
NA PRÁTICA 
A atuação da psicanálise em conjunto com as polícias, no Brasil, não 
atinge o campo investigativo, como idealizaria Reik, focando-se no cuidado em 
saúde mental de policiais realizado por psicólogos psicanalistas. Isso não 
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significa que esse cuidado esteja desconectado do contexto criminológico que 
estudamos ao longo de nossos estudos. O impacto do contexto de franca 
exposição à violência a que o policial está submetido exige dele, pela via do 
trabalho, um nível de autocontrole, controle de suas pulsões, de seus afetos, que 
comumente faz com que os valores da corporação policial extrapolem o exercício 
da função e passem a se configurar como um modo de vida. 
Em estudo realizado pela Ouvidoria das Polícias de São Paulo, em 2019, 
constatou-se que o suicídio policial é quatro a cinco vezes maior que no conjunto 
da sociedade paulista e na população brasileira. O número também é 
47% superior ao número de policiais mortos na ativa, em razão de confrontos 
com criminosos. Assim, trata-se de um cuidado em saúde mental intimamente 
ligado ao ofício do policial, variável que amplia o risco de sofrimento e 
adoecimento mental. 
Com relação à esfera judicial, a intervenção da psicanálise é ainda mais 
restrita. Ainda que nos incidentes de insanidade a condição psíquica do sujeito 
seja analisada, essa perícia tem como produto laudos médico-psiquiátricos com 
pouca ou nenhuma permeabilidade ao referencial psicanalítico. Setenta anos 
após a tese lacaniana, embora existam muitos psiquiatras psicanalistas, a 
atividade pericial segue resumida à distinção positivada entre loucura e sanidade 
a fim de que se estabeleçam as consequências legais devidas – pena ou medida 
de segurança. Mesmo no caso dos autores de crimes considerados 
inimputáveis, é também a psiquiatria mais tradicional que tende a se ocupar dos 
internos. No caso das medidas de segurança cumpridasem meio aberto, o 
tratamento tende a ser realizado nos Centros de Atenção Psicossocial – Caps, 
o que torna mais acessível o atendimento de base psicanalítica. 
Por fim, cabe destacar que vem crescendo no país a oferta de 
atendimento multidisciplinar pelas Defensoria Públicas. Para além da função 
pericial, esse atendimento prevê a possibilidade de intervenções diretas em 
ações extrajudiciais que favoreçam os direitos de pessoas atingidas pelo 
Sistema Penal. Tais ações vão desde o amparo as famílias de pessoas presas 
até ações de educação em direitos dentro das penitenciárias. Há permeabilidade 
para entrada do saber psicanalítico que, muitas vezes, orientam a prática de 
psicólogos nessas carreiras, entretanto, a admissão via concurso público direta 
de psicanalistas segue obstruída pela não regulamentação da profissão no país. 
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FINALIZANDO 
Ao longo desta etapa, procuramos apresentar o funcionamento da Justiça 
Criminal no Brasil, que institucionalmente faz o enfrentamento da criminalidade 
da qual nos ocupamos ao longo de nossos estudos. Discutimos ainda a relação 
crime e loucura, introduzindo noções lacanianas sobre a paranoia e sua interface 
com o crime. Por fim, apresentamos a noção de Direitos Humanos como algo 
indissociável da prática psicanalítica. Esperamos que tenham aproveitado o 
curso e que ele possa ter oferecido bases sólidas para uma análise crítica do 
crime, com base na perspectiva psicanalítica. 
 
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REFERÊNCIAS 
BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas 
normas: limites e possibilidades da constituição brasileira. 12 ed. rev. atual. São 
Paulo: Saraiva, 2012. 
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. 
ed. revista e atual. São Paulo: Saraiva, 2005. 
LACAN, Jacques [1932]. Da psicose paranoica em suas relações com a 
personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. 
MANSO, Bruno Paes. Crescimento e queda dos homicídios em SP entre 1960 
e 2010: uma análise dos mecanismos da escolha homicida e das carreiras no 
crime. 2012. Tese (Doutorado em Ciências Políticas) – Faculdade de Filosofia, 
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. 
ROUDINESCO, Elisabeth. História da psicanálise na França: a Batalha dos 
Cem Anos, v. 2, 1925-1985. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988. 
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-
modernidade. 12 ed. São Paulo: Cortez, 2008.

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