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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 2 Profª Gabriela Eyng Possolli CONVERSA INICIAL Anteriormente, estudamos a Psicanálise enquanto área do conhecimento multidisciplinar, considerando que o próprio processo terapêutico da análise é um processo de pesquisa de casos clínicos na prática. A teoria e as práticas fundadas por Freud, e desenvolvidas ao longo do século XX, formaram um arcabouço de conhecimentos, teorias, orientações e práticas psicanalíticas, que por sua vez constituem uma ciência voltada para a técnica da livre associação, como encontro intersubjetivo entre terapeuta e pacientes, na comunicação e na linguagem, operando a cura pela palavra. Assim, a metodologia dos casos clínicos é uma base bem consolidada para o reconhecimento da psicanálise como ciência humana. Nesta etapa, vamos tratar da elaboração de uma fundamentação teórica para compreender um tema de pesquisa. Também veremos as pesquisas de revisão em linhas gerais, a fim de compreender alguns pontos em comum entre elas, como: definição de descritores de busca, tipos e bases de dados para pesquisa, critérios de inclusão e exclusão para a busca, bem com ajustes que possam ser necessários no processo de coleta de dados em revisões de literatura. As pesquisas de revisão seguem um método, que ajuda no levantamento do que foi publicado nos últimos anos sobre temas em psicanálise, o que é fundamental para avançar na ciência psicanalítica, considerando o que já foi estudado na área. Nesta etapa e na seguinte, vamos detalhar os alicerces que permitem estruturar e desenvolver pesquisas teóricas no campo psicanalítico, a partir de bases teóricas, calcadas em fundamentos conceituais que servem de contexto argumentativo para pesquisas em psicanálise. A utilização de pesquisa teórica na psicanálise deve atentar para o que destacam Lakatos e Marconi (2003) sobre a pesquisas de cunho bibliográfico: elas não devem ser mera repetição de conteúdos já escritos sobre um assunto, pois devem buscar sempre um novo enfoque, ou novas abordagens, para a resolução de problemas. A construção de pesquisas teóricas em psicanálise não pode desconsiderar a experiência psicanalítica historicamente acumulada, que ajuda na elaboração de uma série de pressupostos sobre a estrutura e o funcionamento do aparelho psíquico. Nós, que nos dispomos a desenvolver 3 pesquisas em psicanálise, estamos submetidos a esse funcionamento. O pesquisador psicanalítico não pode perceber-se como sujeito que observa, de fora, as bases conceituais e os relatos clínicos. Na psicanálise, assim como na educação, não há neutralidade: “nenhuma educação é neutra, portanto, nenhum educador deveria se isentar da responsabilidade de educar criticamente os seus educandos” (Freire, 1996, p. 57). Portanto, a educação é um ato político, o que também ocorre com a psicanálise: quando o estudante traz para a pesquisa, mesmo que teórica, o trabalho de outros autores, trará também algo de seu em suas análises e compreensões do processo psicanalítico. Saiba mais Qual a distinção entre realizar pesquisa "em psicanálise" e pesquisa "sobre psicanálise"? A pesquisa sobre psicanálise pode estar embasada em construtos psicanalíticos e outros, para refletir sobre conceitos, dados ou fenômenos do campo psicanalítico e de sua prática. Por exemplo, podemos propor uma revisão integrativa do que foi produzido no Brasil nos últimos dez anos sobre o tema “angústia de castração”. Tal pesquisa faria um levantamento bibliográfico, trazendo pressupostos das bases de busca e detalhando categorias de análise, em um formato metodológico vastamente aplicado na ciência, que em si mesmo não é psicanalítico, mas aplica-se a essa área do saber. Já a constituição de pesquisa em psicanálise está associada ao processo de concepção científica de seu fundador, em que é possível identificar momentos de ruptura e de continuidade, além de relatos detalhados de práticas psicanalíticas. Se Freud, paulatinamente, se aparta de métodos iniciais em sua trajetória como pesquisador (como pesquisas nos campos da fisiologia, neurologia e zoologia), deve-se reconhecer que foi a partir dessa experiência metodológica, com a qual depois rompeu, que construiu o método de pesquisa psicanalítica em toda a sua originalidade (Lameira; Costa; Rodrigues, 2017). TEMA 1 – FINALIDADE E CONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Na trajetória de uma pesquisa, após a definição de tema, problema e objetivos, uma das primeiras tarefas do pesquisador é construir as bases teóricas que sustentam a elaboração do encaminhamento metodológico da pesquisa. A elaboração dos pressupostos teóricos de uma pesquisa é fruto de reflexão, 4 leituras e estudos a respeito do tema, vinculando o interesse e o conhecimento prévio dos pesquisadores com as fontes e as bases de pesquisa, para aprofundamento e um olhar científico capaz de ir além do senso comum. A fidelidade a um método está no domínio e no emprego de conceitos e procedimentos de uma da visão de mundo evocada. Por isso, é preciso sempre ter em mente a corrente teórico-metodológica que a pesquisa vai seguir. Portanto, a fundamentação teórica não é mera introdução teórica, mas o norte que conduz a argumentação e as análises na pesquisa. Na fase da fundamentação teórica, os autores definem e assumem uma posição com relação ao seu marco teórico, o que é indispensável para a pesquisa científica e a concepção metodológica. Considera-se em que teorias o conhecimento construído na pesquisa está embasado. Para isso, é preciso coerência entre as referências escolhidas nessa fundamentação. Barros (2005) destaca que a fundamentação teórica tem como pressuposto possibilitar a interpretação da realidade e dos fenômenos em análise na investigação científica. A principal finalidade da fundamentação teórica é evidenciar os limites, as lacunas e as disposições da pesquisa, visando auxiliar na definição da problematização e de hipóteses, evidenciando o debate científico de outros pesquisadores sobre a temática. Os passos para uma boa fundamentação são: formular e contextualizar o problema, a fim de esclarecer o que é primordial ou supérfluo, direcionando o olhar para leituras focadas; em seguida, parte-se para a seleção e tabulação de textos e documentos, com posterior apreciação sobre a sua utilização ou não na pesquisa; por último, é feita a escrita do texto da fundamentação teórica, com uma interpretação de textos e citações e um diálogo entre as obras, de forma crítica, estabelecendo uma linha de raciocínio. (Caleffe; Moreira, 2006). A fundamentação teórica explicita os interlocutores do autor, a partir dos quais a argumentação acontece, considerando ainda fundamentos para a análise dos dados da pesquisa. É a apresentação do quadro teórico. Antes de iniciar a escrita da fundamentação teórica, é importante observar três guias importantes: • Quais são os objetivos da pesquisa: eles orientam a busca por referenciais que irão embasar a análise de dados; 5 • Quais são os tipos de referenciais: artigos, livros, documentos, legislações, enfim, onde estão publicadas as bases conforme a temática; • Atualidade e coerência: o quadro teórico apresentado precisa ser atual, mas ao mesmo tempo apresentar bases importante da área, com coerência interna (não podemos utilizar autores com visões opostas para analisar um mesmo cenário). A estruturação de subtemas e assuntos dentro do tema principal é uma forma de iniciar a fundamentação teórica. A definição de conceitos-chave dentro do objeto pesquisado é importante, e ajuda a evitar fuga do tema. Nas ciências humanas, inclusive na psicanálise, temos a publicação de dicionários temáticos especializados que ajudam com conceitos e referências. Os dicionários de psicanálise auxiliam com termos e conceitos específicosdo arcabouço da linguagem psicanalítica. Com as considerações descritas até aqui, fica claro que a construção de uma fundamentação teórica não se resume a reunir livros e artigos de forma aleatória, mas envolve um processo sistemático de pesquisa e análise de literatura existente sobre um determinado assunto, tendo em vista o planejamento da pesquisa. “O objetivo da fundamentação teórica é fornecer uma base concreta de conhecimento para a pesquisa, com as principais teorias, conceitos e descobertas relevantes para o tema em estudo” (Fonseca, 2002, p. 46). A respeitos das fontes e obras selecionadas para a fundamentação teórica, além de livros publicados sobre o tema, é importante incluir obras consideradas clássicas (no caso da psicanálise não podem faltar Freud e outros), ou aquelas recentemente publicadas que dão visibilidade ao tema. Uma boa fundamentação deve conter ainda artigos científicos de periódicos da área. Matérias publicadas em revistas ou jornais especializados são interessantes para lidar com temas inéditos ou pouco trabalhados. Consultas a dissertações e teses, por aprofundarem a pesquisa em um tema, também são relevantes. É possível definir passos para elaboração da fundamentação teórica? Sim! O quadro a seguir apresenta os passos básicos para construir uma fundamentação teórica. 6 Quadro 1 – Passos e para a elaboração de fundamentação teórica Passo Descrição 1. Delinear o tema e contexto de pesquisa A definição e contextualização do tema e do problema gerador da pesquisa é o início de tudo. Antes de iniciar a buscar por literatura, deve- se compreender o tema com suas nuances e desafios, definindo claramente os objetivos e as hipótese que podem responder ao problema de pesquisa. 2. Identificar possíveis fontes Buscar diretamente no Google não é uma boa, é importante realizar buscas em bases de dados científicas, bibliotecas físicas e digitais, revistas científicas, livros da área temática e outras fontes confiáveis. 3. Seleção de fontes Ao selecionar o que fará parte da fundamentação teórica, é importante verificar a qualidade e atualidade das fontes encontradas com relação aos objetivos a serem atingidos. 4. Leitura e fichamento Leia as fontes selecionadas com cuidado, compreendendo seus objetivos, metodologias e resultados. Faça anotações, destaque pontos importantes e faça uma síntese das informações. 5. Análise das fontes Analisar e comparar as fontes, verificando semelhanças entre as fontes, relacionando suas conclusões e argumentos. Verifique como elas contribuem para responder as questões de pesquisa. 6. Estruturação e escrita Organizar os subtemas e as fontes conforme a ordem em que o texto da fundamentação será escrito. Ordene as informações obtidas e produza um texto coeso, apresentando conceitos e pressupostos teórico-práticos para a pesquisa. 7. Citação e articulação das fontes É imprescindível citar as fontes perfeitamente, conforme normas da ABNT ou da publicação em pauta. Citações diretas e indiretas devem ser utilizadas, para conferir credibilidade e evitar plágio. Fonte: Possolli, 2023. Ressalta-se que a fundamentação deve ser clara, objetiva e coesa, trazendo uma argumentação estruturada e focada no caminho metodológico que vai ser trilhado pela pesquisa. Além disso, é comum que ela seja revisada e atualizada ao longo da pesquisa, conforme as necessidades teóricas que vão surgindo, inclusive nas fases de análise e discussão de resultados. O quadro a seguir apresenta uma tese de doutorado em psicologia, com pesquisa interessante em psicanálise, para elucidar a relação entre temática, problema, objetivos, metodologia e estrutura da fundamentação teórica construída. Ele destaca os tópicos da fundamentação teórica. Quadro 2 – Exemplo: itens metodológicos e fundamentação teórica em Psicanálise Referência CAMPOS, Viviane C. Barbosa. Tese do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. 2017. Tema A importância do diagnóstico no processo terapêutico: um estudo de caso na formação em clínica escola 7 Objetivo Compreender a importância do diagnóstico na direção do tratamento nos processos de atendimentos clínicos em uma clínica-escola de psicologia. Encaminhamen to metodológico As origens da pesquisa remontam a questionamentos sobre a direção do tratamento, tendo como objeto de estudo o “caso Bárbara”, em perspectiva psicanalítica. O encaminhamento metodológico buscou reconstruir um caso clínico problematizando a queixa psicológica com os atendimentos realizados, para refletir sobre a importância do diagnóstico no percurso dos atendimentos psicoterápicos. Tal reconstrução apresenta reflexões sobre a “queixa psicológica”, o sofrimento psíquico, o diagnóstico e a direção do tratamento. A hipótese diagnóstica é importante nessa orientação, devendo ser tratada não como fator estático, mas sim dinâmico. A perspectiva do diagnóstico em psicologia psicanalítica não adota uma postura generalista, e sim um estudo de cada caso para compreender a dinâmica e o funcionamento de cada sujeito, para que seja possível tratar o seu sofrimento. A intenção foi buscar uma metodologia clínica que pudesse compreender o sujeito e orientá-lo a aprender com seu próprio sofrimento. Abordagem de pesquisa Pesquisa de cunho qualitativo com ênfase na abordagem psicanalítica com o intuito de contribuir para a formação de profissionais que trabalham com processos psicoterápicos. Fundamentação teórica: capítulos 1 e 2 CAPÍTULO 1 – PRÁTICA CLÍNICA, DIAGNÓSTICO E PSICANÁLISE 1.1 Evolução histórica dos aspectos psicopatológicos 1.1.1 Configuração atual das psicopatologias e do diagnóstico 1.1.2 Psicopatologia na perspectiva psicanalítica 1.1.3 Entrevista inicial (queixa) na prática clínica 1.2 Prática clínica, avaliação diagnóstica e construção em psicanálise 1.2.1 Transferência e percurso do tratamento 1.2.2 Interpretação e construção em análise 1.2.3 Relato de caso clínico e pesquisa CAPÍTULO 2 – CLÍNICA-ESCOLA E FORMAÇÃO EM PSICOTERAPIA 2.1 Formação do psicólogo para psicoterapia 2.2 Clínica-escola, organização e processo terapêutico 2.3 Procedimentos e avaliação do processo terapêutico Método, relato de caso e discussão: capítulo 3 CAPÍTULO 3 – DIAGNÓSTICO, PROCESSO CLÍNICO E FORMAÇÃO NA CLÍNICAESCOLA: UM ESTUDO DE CASO 3.1 Estratégias metodológicas 3.1.1 Síntese da história do caso de Bárbara, “a estrangeira” 3.2 Discussão do caso clínico com base na relação entre queixa e diagnóstico 3.2.1 Caso de Bárbara, “a estrangeira” 3.2.2 Relação do diagnóstico médico com a queixa e o caso até o fim do processo 3.2.3 Construção do caso clínico Fonte: Possolli, 2023. TEMA 2 – COLETA DE DADOS EM PESQUISAS DE REVISÃO: DEFINIÇÃO DE FONTES DE BUSCA Dentro das pesquisas de revisão, um planejamento minucioso da coleta de dados é fundamental. Para que esse planejamento dê certo, é preciso que o pesquisador faça um roteiro das suas estratégias antes de começar a coletar dados. O roteiro deve conter, especialmente: • Nome e hiperlink de acesso de bases de dados importantes sobre o tema; 8 • Palavras-chave relacionadas ao tema e aos detalhes do estudo, e que possam ser validadas para encontrar estudos, considerando como identificar descritores de busca; • Definição de critérios de inclusão e exclusão de estudos encontrados na busca. • Indicação dos dados a serem registrados na planilha de estudos incluídos. Importante entender que mesmo com esse planejamento, que serve como guia, ajustes podem ser necessários, conforme os resultados encontrados, na efetivação da coleta de dados. As finalidades da base de dados incluem: • Promover acesso à informação; • Fornecer informações atualizadas, assertivas e confiáveis, multidisciplinares ou em uma áreaespecífica; • Atender as necessidades de pesquisa do público-alvo; • Fornecer mecanismos eficientes de recuperação de informações. Para definir as fontes de busca, deve-se ter em mente que existem bases de dados (portais de busca) gerais em pesquisa, que congregam variadas fontes de saber, linkando milhares de periódicos científicos, assim como repositórios e sites específicos em alguns campos de conhecimento. Como exemplo de bases de relevância geral, temos: portal Scielo, Google Acadêmico, periódicos da Capes, BDTD e PubMed. Para a psicanálise, os portais da PsycINFO, PEP, BVS e PePSIC são excelentes repositórios para busca. O quadro a seguir apresenta nomes, endereços de acesso online e descrição de escopo de bases de dados reconhecidas para pesquisa em psicanálise. Quadro 3 – Bases de dados para pesquisa em psicanálise Base de Dados Link de Acesso Descrição Scielo (Scientific Eletronic Library Online) https://www.scielo.br/ Portal eletrônico gratuito de periódicos científicos, permitindo acesso eletrônico à artigos completos de revistas no Brasil, América Latina, Caribe, e países de língua portuguesa e espanhola. Google Acadêmico https://scholar.google. com.br/ Base de busca com vasto repositório indexado pelo Google, que acessa também outras bases de dados vinculadas. O Google acadêmico ganhou mais relevância atualmente porque muitas agências de pesquisa (como a Capes) estão em transição do antigo 9 modelo Qualis para o índice H (que usa a plataforma Google) para classificar o impacto das publicações. Portal de Periódicos da Capes https://www.periodicos. capes.gov.br/ Biblioteca virtual gratuita que elenca os melhores artigos científicos do mundo via verificação de fator de impacto e número de citações. Conta também com acervos de pesquisa de instituições de ensino brasileiras, enciclopédias, obras de referência, normas técnicas, material audiovisual. Conta com 39 mil artigos completos, com busca em 126 bases. BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações) https://bdtd.ibict.br/ Biblioteca que integra, em portal único, os sistemas de informação de teses e dissertações de várias instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Acesso nacional e internacional com busca em outras línguas para dar visibilidade a pesquisas brasileiras. PubMed https://pubmed.ncbi. nlm.nih.gov/ Portal para busca de artigos científicos na área de saúde e biomedicina, organizado pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. Conta com 4.800 revistas dos Estados Unidos e em 70 países. PsycINFO http://psycnet.apa. org/Search Criada pela APA (American Psychological Association), é a mais importante base de dados da área de psicologia e psicanálise. Organiza e divulga literatura relevante publicada na área da psicologia e disciplinas correlatas. PEP http://www.pep- web.org/ Busca exclusivamente por conteúdo em psicanálise. Inclui obras completas de Freud, pesquisa, textos, seminários de psicanalistas, ensaios psicanalíticos de obras literárias, filmes e arte. BVS (Biblioteca Virtual de Saúde) https://bvsalud.org/ A Plataforma da BVS integra fontes de informação em saúde, científica e técnica, na América Latina e no Caribe. Desenvolvida pela Bireme em 3 idiomas (inglês, português e espanhol). Congrega bases de dados produzidas pela Rede BVS, LILACS, Medline, além de recursos educacionais abertos, sites e eventos científicos. Também dá acesso aos DECS. PePSIC http://portal.pepsic. bvsalud.org/ O Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC) acessa um conjunto de revistas científicas em psicologia e áreas correlatas, com textos completos. A organização e estrutura segue a mesma metodologia da Scielo. Fonte: Possolli, 2023. Não há necessidade de buscar dados em todas as bases aqui indicadas. É possível ainda selecionar outras bases. Uma dica de ouro é iniciar a busca por bases mais abrangentes e depois ir afunilando para bases mais restritas ou temática, conforme a necessidade. Para isso, é preciso ter bons descritores de busca, o que aprenderemos a seguir. TEMA 3 – COMO DEFINIR E TESTAR PALAVRAS-CHAVE DE BUSCA Primeiramente, precisamos deixar bem clara a distinção entre palavras- chave e descritores na pesquisa científica, pois são conceitos que não se aplicam apenas ao processo de elaboração de revisões. 10 As palavras-chave podem ser termos simples ou termos compostos, selecionadas pelo pesquisador para a busca com base no tema, no problema e no desenho da pesquisa. Os descritores são termos necessariamente convencionados, criados por especialistas, para identificar assuntos publicados em artigos científicos, livros e publicações com registro. Há uma base, conforme a área, para pesquisar esses descritores. Os descritores da área da saúde, por exemplo, que incluem descritores em psicologia e psicanálise, podem ser acessados no portal da BVS, por meio dos DECS (Descritores em Ciências da Saúde), acessível pelo link: . A importância de se usar esses descritores junto com o resumo do seu trabalho, ou no cadastramento de sua pesquisa em uma revista científica, é simples de entender: por meio dos descritores, os temas e assuntos publicados são indexados, buscados e divulgados em plataformas científicas. Até mesmo a Biblioteca Nacional, quando registra um livro físico ou um material online, ao atribuir o registro de ISBN ou ISSN, faz a catalogação por meio de descritores. É como um índice de assuntos que conecta a sua produção como pesquisador com outras na área. Vamos entender a partir de um exemplo? Suponha que você irá escrever uma revisão integrativa de literatura sobre a importância da transferência e do rapport na relação terapêutica paciente-analista. Com base no problema e no encaminhamento metodológico da pesquisa, você chega às seguintes palavras, ou termos-chave: psicanálise; transferência; rapport; relação paciente e analista. Esses termos foram definidos por você no papel de pesquisador. Geralmente, fazemos isso ao final do trabalho de pesquisa, quando vamos elaborar o resumo, podemos até ter algumas palavras indicadas de início, mas é ao final que iremos confirmá-las ou reescrevê-las. A partir da definição, você precisa checar quais termos, relacionados ou próximos a esses, estão presentes nos DECS. Para isso, siga os seguintes passos: 1. Acesse a página: . 2. Na barra de pesquisa, digite um a um os termos ou palavras-chave que selecionou para a sua pesquisa. Aqui, cabe um detalhe importante, oferecido nas instruções de pesquisa do portal, logo nessa página, em que encontramos o detalhamento dos cinco métodos para buscar descritores: 11 Qualquer termo: pesquisa pela palavra digitada no campo de busca em todos os termos, Descritores e Termos Alternativos, independentemente da ordem da palavra no termo. Termo exato: pesquisa pelo termo que corresponde exatamente à palavra digitada. ID do descritor: pesquisa pelo identificador único do registro DeCS/MeSH de descritores. Código Hierárquico: pesquisa por código da hierarquia DeCS/MeSH e recupera o registro que possui a posição específica na árvore de conceitos. Qualquer qualificador: pesquisa pela palavra digitada no campo de busca em todos os Qualificadores, independentemente da ordem da palavra no termo. Para pesquisar por parte da palavra utilize o truncador * ou $ antes ou após a sequência digitada. (BVS, 2023) Essas instruções esclarecem como buscar para não cometer erros, com base nas informações temática que o pesquisador tem. Também ajudam a pesquisar trechos de palavras. Por exemplo, ao digitar “análise”, você vai encontrar todos os descritores que terminem com “análise”, como: “psicanálise”, “metanálise” etc. Colocando “psica$” pode-se obter resultados como: “psicanalítico”, “psicanalista” etc. 3. Busque pelaspalavras-chave. Caso não encontre, inclua variações. 4. Ao buscar a palavra transferência, encontramos como resultado a aplicação desse termo em várias subáreas em saúde. Temos 72 resultados com expressões que contém a palavra transferência no DECS (ordenadas das mais relevantes, com mais aderência ao termo, às menos relevantes, em que a palavra transferência aparece em alguma descrição ou subtema). Observe o exemplo a seguir: Resultado 1/72: “transferência de gases” em bioquímica; Resultado 2/72: “transferência tendinosa” em ortopedia; Resultado 57/72: “RNA de transferência” em genética; entre tantos resultados não aplicados ao nosso exemplo de temática. Temos alguma descritores que se aplicam, como: Resultado 10/72: “transferência psicológica”, em que encontramos os termos equivalentes (variações no português e nos idiomas inglês, espanhol e francês), código do DECS, e uma curta definição chamada de “nota de escopo”: “A transferência inconsciente a outros (incluindo os psicoterapeutas) de sentimentos e atitudes que estavam originalmente associados a pessoas importantes (pais, irmãos) do início da vida do indivíduo”. Também encontrmaos o link () do correspondente internacional desse DECS no U.S. National Library of Medicine. 12 5. No caso dessa busca, para publicar a pesquisa, considerara-se o termo como “transferência psicológica”, e não apenas “transferência”, como estava previsto. 6. Realizar o mesmo processo para as demais palavras-chave, a fim de selecionar todos os descritores correspondentes presente no DECS. TEMA 4 – CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO Nas pesquisas de revisão de literatura (integrativas, sistemáticas ou narrativas), o processo de registro do caminho metodológico exige que seja assumido um protocolo de inclusão e exclusão de estudo, detalhando o motivo pelo qual inclui-se ou exclui-se um estudo que aparece na busca em bases de dados. A função principal desse protocolo é guiar a pesquisa, para manter coesão e a credibilidade quanto à seleção dos estudos para a revisão. Assim, o pesquisador, ao mapear os resultados nas bases de dados e registrar os achados em uma planilha, deve indicar em uma aba os estudos incluídos com seus dados completos, como: autoria, ano, título, tipo de estudo, link de acesso, palavras-chave e resumo. Em outra aba, deve contabilizar quantos estudos foram excluídos, apresentando o motivo. Entre os critérios de inclusão aplicados junto com as palavras-chave na busca, destacamos: • Definição das bases pertinentes para busca na literatura da área temática; • Idiomas de publicação (aplicando-se assim os termos de busca equivalentes); • Período de busca (geralmente considera-se um período entre 5 a 10, anos conforme a relevância e originalidade do tema escolhido; • Verifica-se se os termos de busca aparecem no título e/ou resumo do artigo, como critério de aderência do estudo ao tema; • Tipo de publicação (pode-se filtrar apenas artigos científico, mas conforme a temática, pode ser muito importante incluir também teses e dissertações, que são trabalhos de validade científica que podem abordar temas atuais com mais profundidade). Dentre os motivos mais comuns para exclusão, estão: 13 • Fuga do tema: quando o estudo tangencia a temática central, mas não entra nela de fato, considera-se fuga do tema alvo da revisão; • Tipo de estudo: a revisão pode incluir apenas artigos publicados em periódicos (o que pode ser critério para temas complexos ou com viés), excluindo-se outros tipos de materiais; • Saturação: quando um aspecto do problema em estudo na revisão já foi suficientemente abordado em vários estudos incluídos, o critério de saturação é aplicado, removendo-se os menos relevantes; • Período da busca: mesmo incluindo na pesquisa da plataforma a vigência de um período, é comum que apareçam estudos fora do período indicado – portanto, eles serão excluídos. Por exemplo, se uma busca em certa base de dados resulta em 150 resultados, dos quais 60 foram incluídos, a partir dos critérios de exclusão especificados é preciso indicar para os não incluídos (no caso, 90 estudos) quais os critérios de exclusão aplicados. Vejamos um exemplo prático na pesquisa de Santos (2019) com o tema "As contribuições da escuta psicanalítica nas enfermarias hospitalares: uma revisão de literatura". Quadro 4 – Exemplo de critérios de inclusão e exclusão em revisão na psicanálise Resumo Objetivou-se explorar as contribuições que a escuta psicanalítica realizada nas enfermarias hospitalares pode oferecer ao sujeito hospitalizado. Utilizou-se a revisão integrativa de literatura orientada nas 4 etapas de sistematização de busca: (a) identificação; (b) triagem; (c) elegibilidade e (d) inclusão. O recorte temporal foi de 10 anos, produções disponíveis na íntegra e de língua portuguesa. Resultados: 28 artigos foram encontrados. Após uma leitura minuciosa, apenas 6 artigos foram selecionados para análise. Conclusão: a escuta é estratégia valiosa para investigar a subjetividade; favorece a singularidade do sujeito, implica a promoção da autonomia ao promover não só a humanização do atendimento, mas também potencialização de significados. Vínculo, adesão e adaptação foram identificados como contribuições, somadas à possibilidade de o psicólogo ser um educador, fortalecendo o sujeito no enfrentamento da hospitalização. Palavras-chave Psicanálise; Enfermaria; Escuta psicanalítica; Psicologia hospitalar. Problema (questão norteadora) Quais as possíveis contribuições da prática da escuta psicanalítica ao sujeito hospitalizado em enfermarias hospitalares? Método Revisão integrativa da literatura, com 4 fases em função dos artigos: (a) identificação; (b) triagem ou seleção); (c) elegibilidade e (d) inclusão. Critérios de Inclusão Busca nas bases BVS, SciELO e PePSIC. Arrtigos originais, de pesquisa no contexto hospitalar com referencial da psicanálise; texto completo disponível, no idioma português e publicados entre 2011 e 2021. 14 Critérios de Exclusão Excluídas 17 publicações por não abordarem o objeto central de pesquisa, resultando em 11 publicações para leitura na íntegra. Apenas 6 artigos foram selecionados para análise e os demais excluídos por estarem fora do período e idioma português. Fonte: Possolli, 2023. TEMA 5 – CONCEITO E FINALIDADE DA REVISÃO INTEGRATIVA Veremos agora a revisão integrativa, para em outro momento analisar outros tipos de revisão. A revisão integrativa surgiu como forma de revisar rigorosamente o que foi publicado sobre um assunto, aproximando obras com variadas metodologias. É um tipo de revisão com potencial de promover estudos teóricos em diversas áreas do conhecimento, mantendo o rigor metodológico. Traz um panorama científico das produções em um tema, o que é importantíssimo como primeiro passo para qualquer pesquisa teórico-prática: basear-se no que a ciência já produziu em um campo do saber. O método de revisão integrativa possibilita combinar “dados da literatura empírica e teórica que podem ser direcionados à definição de conceitos, identificação de lacunas nas áreas de estudos, revisão de teorias e análise metodológica dos estudos sobre um determinado tópico” (Unesp, 2015, p. 2). Para empreender a revisão integrativa, diferentemente da composição de fundamentação teórica, é preciso seguir parâmetros e passos metodológicos que permitam aumentar a clareza de resultados, para identificar características reais dos estudos incluídos. A síntese de conhecimento produzida pela revisão amortiza as incertezas com relação a recomendações práticas, permitindo generalizações relevantes sobre o objeto de estudo, por intermédio de informações que facilitam a arguição na pesquisa e a tomada de decisões quanto às intervenções e à análise em uma pesquisa em psicanálise.A revisão integrativa é o tipo mais amplo, o que é uma vantagem, já que consente incluir simultaneamente pesquisas experimentais e quase- experimentais, proporcionando um entendimento mais completo do objeto de estudo. Também permite vincular, em sua discussão de literatura, dados teóricos e empíricos. Podem ser empregados propósitos variados, como: definição de conceitos; revisão de teorias; análise metodológica dos estudos incluídos; sistematização de práticas e ações em um determinado contexto. Um processo amostral rico também contribui para um cenário compreensivo do objeto de estudo, tornando a pesquisa acessível a diversas 15 realidades de aplicação, o que frequentemente é importante na produção científica em psicanálise. É importante compreender como realizar uma revisão integrativa de literatura, considerando as etapas que vão ser desenvolvidas e como coletar e analisar os resultados da revisão. Vamos estudar esses aspectos com base no manual da Unesp (2015). A 1ª etapa é de identificação de tema, hipótese e problema de pesquisa para a revisão integrativa. A partir da clareza da temática, o processo de revisão integrativa começa com a definição do problema a ser resolvido pela pesquisa e com a formulação de uma hipótese principal para orientar o encaminhamento metodológico. Um aspecto relevante para a pesquisa em psicanálise é a escolha de um tema ligado à prática clínica. Essa primeira etapa norteia a revisão integrativa, levando a um raciocínio teórico que inclui conceitos já aprendidos pelas pesquisador, em consonância com as obras presentes na revisão. Uma vez que o problema de pesquisa está bem delineado, os descritores (palavras-chave) serão prontamente identificados para guiar a busca por estudos em bases dados. O problema de pesquisa, norteador para a revisão, pode ser demarcado, por exemplo, com uma intervenção específica, ou abrangente, com a pesquisa de várias intervenções ou práticas na área da psicanálise. A 2ª etapa implica demarcar critérios de inclusão e exclusão de estudos para busca na literatura. A abrangência do tema gera a seleção de amostragem, ou seja, quanto mais amplo for o objeto em estudo (por exemplo, o estudo de diferentes intervenções psicanalíticas), mais seletivo deverá ser o pesquisados para decidir sobre a inclusão na etapa de revisão. Aqui cabe o cuidado de não selecionar uma quantidade muito alta de literatura na primeira filtragem de estudos, já que uma demanda alta pode inviabilizar a fluidez do processo de revisão ou trazer muitos vieses para as etapas subsequentes. Depois da abrangência do tema e da formulação do problema de pesquisa, iniciamos a varredura em bases de dados, para a coleta de estudos para a decisão sobre a inclusão na revisão integrativa. A internet é indispensável para essa busca, já que as bases de dados hoje têm acesso eletrônico, muitas exclusivamente online, sem versão impressa. A triagem dos estudos relevantes para a temática em estudo é fundamental, pois ajuda a atestar a validade interna do processo de revisão. Um erro do procedimento de coleta da amostragem pode ameaçar a confiabilidade da revisão e tornar o processo não científico. 16 A decisão sobre a inclusão ou exclusão de estudos da revisão deve ser criteriosa e transparente. A representatividade da amostra é um indicador importante sobre a qualidade, a profundidade e a credibilidade das conclusões do estudo de revisão. As decisões tomadas no primeiro filtro, em relação aos critérios de inclusão e exclusão, devem ser registradas e justificadas, para que tenhamos um parâmetro de número de estudos encontrados com os descritores e o número de estudos incluídos para próxima fase da filtragem. Recomenda-se que a busca nas bases de dados e a seleção dos estudos incluídos na revisão sejam feitas por dois pesquisadores, para garantir maior confiabilidade na escolha, a partir da concordância entre eles. Chegamos à 3ª etapa, quando devem ser verificadas informações pertinentes nos estudos selecionados. Essa fase diz respeito à definição das informações a serem extraídas dos estudos incluídos, usando uma planilha ou quadro para registrar as informações-chave. O grau de evidência dos estudos incluídos, considerando as relações entre os estudos, deve ser avaliado para estruturar a argumentação e as categorias de análise, buscando fortalecer os resultados da revisão, que irão estabelecer o estado do conhecimento da temática investigada. Nessa etapa, os pesquisadores objetivam extrair e sumarizar informações de forma concisa, criando um banco de dados organizado. Esse banco, geralmente organizado em uma planilha, pode abranger dados de estudos, como ano da publicação, autores, título da obra, objetivos, palavras-chave, metodologia, resultados e principais conclusões. A 4ª etapa é de apreciação dos estudos incluídos na revisão integrativa. Ela equivale à análise de dados em uma pesquisa convencional, com uso de instrumentos apropriados. A fim de garantir a legitimidade da revisão, os estudos incluídos precisam ser considerados detalhadamente, com análise crítica, buscando convergências e divergências entre as obras. “Dentre as abordagens, o revisor pode optar para a aplicação de análises estatísticas; a listagem de fatores que mostram um efeito na variável em questão ao longo dos estudos; a escolha ou exclusão de estudos frente ao delineamento de pesquisa” (Unesp, 2015, p. 8). Cada abordagem de apresentação da revisão tem as suas vantagens e desvantagens. A escolha é uma tarefa para os pesquisadores, na busca por resultados imparciais, justificando suas escolhas e trazendo explicações para as variações argumentativas. 17 A habilidade clínica dos pesquisadores em psicanálise é importante para a avaliação crítica dos estudos na revisão integrativa, direcionando a tomada de decisão sobre a aplicação de resultados obtidos prática clínica. A conclusão da quarta etapa leva a mudanças nas recomendações e na conclusão da revisão para a prática psicanalítica. Cabe apontar algumas questões indicadas para a avaliação crítica dos estudos selecionados, a saber: qual o problema de pesquisa dos estudos; a base contextual dos problemas; a aproximação entre os problemas de pesquisas; a metodologia indicada nos estudos como aprendizagem para pesquisa em psicanálise; os participantes selecionados nos estudos e sua abordagem na clínica psicanalítica; como o problema de pesquisa é respondido; quais as pesquisas futuras indicadas ou suscitadas após a revisão. A 5ª etapa é de interpretação dos resultados. Corresponde à fase de discussão e explicitação dos resultados da pesquisa, em que os pesquisadores embasam os resultados da avaliação crítica dos estudos incluídos, realizando uma comparação com o conhecimento teórico, além da identificação de conclusões e implicações resultantes da revisão integrativa. Como a revisão integrativa é abrangente, a ampla revisão de resultado leva à identificação de aspectos que afetam a condução de casos clínicos em psicanálise. Assim, a leitura de revisões integrativas com temáticas de psicanálise é uma ótima forma de estar por dentro dos avanços científicos da área. O apontamento de lacunas de conhecimento a partir das revisões leva os pesquisadores e a comunidade científica da psicanálise a levantar sugestões para futuras pesquisas, buscando ampliar os estudos e as evidências científicas do método psicanalítico. A 6ª etapa abarca a apresentação da revisão e a síntese do conhecimento. A estruturação da revisão integrativa e a escrita da argumentação devem incluir informações para que o leitor compreenda a pertinência dos encaminhamentos utilizados na elaboração da revisão, os aspectos relativos ao tópico abordado e o detalhamento dos estudos incluídos. É essencial seguir os passos para a confecção da revisão integrativa. Se as iniciativastomadas pelos pesquisadores forem adequadas, teremos diminuição dos vieses e inconsistências. 18 NA PRÁTICA O quadro a seguir apresenta um exemplo de revisão integrativa com tema pertinente à psicanálise. Quadro 5 – Exemplo de revisão integrativa em psicanálise Referência SANTOS, Álvaro da Silva (et.al.). Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: focalizando a produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 2019. Disponível em: . Método / Objetivo Revisão integrativa. Objetivo Geral: Conhecer a produção científica em psicanálise na relação entre o idoso e o envelhecimento. Detalhamento da busca Período: 2011 a 2015; Bases de dados: Index-Psicologia, LILACS e MedLine. Descritores (palavras-chave da busca): Aged (Idoso), Elderly (Envelhecimento) e Psychoanalysis (Psicanálise). Resultando em 89 estudos antes de aplicar critérios de exclusão. Critério de Exclusão Excluíram-se editoriais, artigos repetidos e aqueles que não se adequavam à questão norteadora, restando 11 artigos selecionados. Estudos Incluídos Dos 11 artigos, em português foram 81,8% (9), uma publicação em inglês e outra em francês. Anos de 2014 e 2011 tiveram quatro publicações cada, cuja maioria (72,7%) foi encontrada na base Index-Psi. Os estudos se qualificaram como Reflexão (7), Relato de Experiência (2), Atualização (1) e Pesquisa (1), sendo que, seis publicados em revistas específicas de psicanálise. Categorias de Análise Quatro categorias foram construídas a partir do material recuperado: 1- Clínica Psicanalítica com Idosos (sete artigos); 2- Abordagens Psicanalíticas do Envelhecimento (dois artigos); 3- Representação do Envelhecimento para Profissionais de Saúde à Luz da Psicanálise (um artigo); 4- Geracionalidade e Psiquismo (um artigo). Características dos Estudos incluídos Estudos incluídos foram categorizados por similaridades temáticas e apresentados em quadro com a referência (identificação da produção pelo autor e dados do periódico), a proposta do estudo (que sintetizam numa releitura crítica a direção do artigo - objetivo, e o caminho seguido - metodologia, sem a pretensão de copiar as afirmações dos autores da produção, por isso, a releitura crítica) e, a sinopse (interpretação na leitura dos autores dos artigos as contribuições, novidades, resultados e abordagens defendidas). Conclusões A psicanálise pode ser bastante útil aos idosos e pessoas em processo de envelhecimento, uma vez que pode estabelecer uma ponte entre aquilo que fomos, somos e seremos. É notável que existem poucos estudos que relacionem a psicanálise e o idoso. A comunidade e os periódicos científicos precisam criar movimentos pendulares (de diálogo, de ir e vir, de crítica) que estimulem não só a produção e interesse da psicanálise no envelhecimento, como a formação de psicanalistas também interessados em atuar com este grupo, demanda que possivelmente será destaque das novas décadas. Fonte: Possolli, 2023. FINALIZANDO Nesta etapa, estudamos a importância da fundamentação teórica. A partir dela, o pesquisador assume as bases para a argumentação, estabelecendo uma visão científica sobre certa temática. Nesse contexto, avaliamos a revisão integrativa, método de revisão abrangente, que possibilita levantar evidências 19 cientificas mais amplas sobre um assunto, sendo a primeira fase teórica relevante, inclusive para estudos empíricos. Posteriormente, vamos estudar a revisão sistemática, que é o tipo de revisão mais aceito pela ciência, estando presente em protocolos de pesquisa de laboratório, institutos e comunidade científica, por apresentar um método rígido de registro das evidências e uma análise estatística e qualitativa integradas para a compreensão dos resultados. A pesquisa teórica sempre será o primeiro passo para que você se aproxime de um assunto de interesse dentro das temáticas da psicanálise. Nesta etapa, aprendemos os passos para estabelecer essa aproximação de forma científica, o que pode inclusive render um trabalho de apresentação em eventos e outras publicações. Que tal começar? 20 REFERÊNCIAS BARROS, J. D. Projeto de pesquisa em história. Petrópolis: Vozes, 2005. BVS – Biblioteca Virtual em Saúde. DeCS/MeSH: Descritores em Ciências da Saúde. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023 CALEFFE, L. G.; MOREIRA, H. Metodologia da pesquisa para o professor pesquisador. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. FONSECA, J. S. Metodologia da Pesquisa Científica. Fortaleza: UEC, 2002. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 36. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. LAMEIRA, V. M.; COSTA, M. C. da S.; RODRIGUES, S. de M. Fundamentos metodológicos da pesquisa teórica em psicanálise. Rev. Subj., v. 17, n. 1, jan. 2017. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023. SANTOS, Á. da S et al. Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: focalizando a produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 2019. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023. UNESP – Universidade Estadual Paulista. Tipos de Revisão de Literatura. Botucatu: Unesp, 2015. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023.