[LIVRO] Direito Civil Esquematizado - Carlos Roberto Gonçalves

@direito-civil-ii FEEVALE

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razão, o novo Códi-
go evi  tou o bizantino, o complicado, afastando as perplexidades e comple-
xidades. Exem  plo desse posicionamento, dentre muitos outros, encontra-se  
na adoção de critério seguro para distinguir prescrição de decadência, 
solucionando, assim, interminável dúvida. No bojo do princípio da opera-
bilidade está implícito o da concretude, que é a obrigação que tem o le-
gislador de não legislar em abstrato, mas, tanto quanto possível, legislar 
para o indivíduo situado: para o homem enquanto marido; para a mulher 
enquanto esposa; para o filho enquanto um ser subordinado ao poder fami-
liar. Em mais de uma oportunidade, o novo Código optou sempre por essa 
concreção, para a disciplina da matéria12. O princípio da operabilidade 

10 O projeto, cit., p. 7-8.
11 Miguel Reale, O projeto, cit., p. 8-9.
12 Miguel Reale, O projeto, cit., p. 10-12.

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pode ser, portanto, visualizado sob dois prismas: o da simplicidade e o da 
efetividade/concretude.

 2.3.5. Direito civil-constitucional

Ao tutelar diversos institutos nitidamente civilistas, como a família, a proprieda-
de, o contrato, dentre outros, o legislador constituinte redimensionou a norma 
privada, fixando os parâmetros fundamentais interpretativos. Em outras palavras, 
salientam Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, “ao reunificar o sistema 
jurídico em seu eixo fundamental (vértice axiológico), estabelecendo como princí-
pios norteadores da República Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana 
(art. 1º, III), a solidariedade social (art. 3º) e a igualdade substancial (arts. 3º e 5º.), 
além da erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais, promovendo 
o bem de todos (art. 3º, III e IV), a Lex Fundamentallis de 1988 realizou uma inter-
penetração do direito público e do direito privado, redefinindo os seus espaços, 
até então estanques e isolados. Tanto o direito público quanto o privado devem obe-
diência aos princípios fundamentais constitucionais, que deixam de ser neutros, 
visando ressaltar a prevalência do bem-estar da pessoa humana”13.

Sob essa perspectiva, tem-se anunciado o surgimento de uma nova disciplina ou 
ramo metodológico denominado direito civil-constitucional, que estuda o direito 
privado à luz das regras constitucionais. Como já mencionado no item 1.5., retro, é 
digno de nota o fenômeno que se vem desenvolvendo atualmente, da acentuada in-
terferência do direito público em relações jurídicas até agora disciplinadas no Có-
digo Civil, como as contratuais e as concernentes ao direito de família e ao direito de 
propriedade, reguladas na Constituição Federal de 1988, a ponto de se afirmar hoje 
que a unidade do sistema deve ser buscada, deslocando para a tábua axiológica da 
Carta da República o ponto de referência antes localizado no Código Civil.

O direito civil-constitucional está baseado em uma visão unitária do sistema. 
Ambos os ramos não são interpretados isoladamente, mas dentro de um todo, me-
diante uma interação simbiótica entre eles. Segundo Paulo Lôbo, “deve o jurista in-
terpretar o Código Civil segundo a Constituição e não a Constituição segundo o Có-
digo, como ocorria com frequência (e ainda ocorre)”14. Com efeito, a fonte primá  ria 
do direito civil — e de todo o ordenamento jurídico — é a Constituição da Repú-
blica, que, com os seus princípios e as suas normas, confere uma nova feição à ciên-
cia civilista. O Código Civil é, logo após a incidência constitucional, o diploma legal 
bási co na regência do direito civil. Ao seu lado, e sem relação de subordinação ou 
dependência, figuram inúmeras leis esparsas, que disciplinam questões específicas, 
como, v.g., a lei das locações, a lei de direitos autorais, a lei de arbitragem etc.15.

A expressão direito civil-constitucional apenas realça a necessária releitura 
do Código Civil e das leis especiais à luz da Constituição, redefinindo as categorias 

13 Direito civil: teoria geral, p. 12-13.
14 Teoria geral das obrigações, p. 2.
15 Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald. Direito civil, cit., p. 19.

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jurídicas civilistas a partir dos fundamentos principiológicos constitucionais, da nova 
tábua axiológica fundada na dignidade da pessoa humana (art.1º, III), na solidarie-
dade social (art. 3º, III) e na igualdade substancial (arts. 3º e 5º)16.

 2.3.6. Eficácia horizontal dos direitos fundamentais

Tem-se observado um crescimento da teoria da eficácia horizontal (ou irradian-
 te) dos direitos fundamentais, ou seja, da teoria da aplicação direta dos direitos 
fundamentais às relações privadas, especialmente em face de atividades privadas 
que tenham um certo “caráter público” como matrículas em escolas, clubes associa-
tivos, relações de trabalho etc. O entendimento é que as normas definidoras dos di-
reitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata (eficácia horizontal ime-
diata). Certamente essa eficácia horizontal ou irradiante traz uma nova visão da 
matéria, uma vez que as normas de proteção da pessoa, previstas na Constituição 
Federal, sempre foram tidas como dirigidas ao legislador e ao Estado (normas pro-
gramáticas). Essa concepção não mais prevalece, pois a eficácia horizontal torna 
mais evidente e concreta a proteção da dignidade da pessoa humana e de outros va-
lores constitucionais17.

Na atividade judicante, poderá o magistrado, com efeito, deparar-se com inevitá-
 vel colisão de direitos fundamentais, quais sejam, por exemplo, o princípio da auto-
nomia da vontade privada e da livre iniciativa de um lado (arts. 1º, IV, e 170, caput) 
e o da dignidade da pessoa humana e da máxima efetividade dos direitos fun -
damentais (art. 1º, III) de outro. Diante dessa “colisão”, indispensável será a “pon-
deração de interesses”, à luz da razoabilidade e da concordância prática ou harmo-
 nização. Não sendo possível a harmonização, o Judiciário terá de avaliar qual dos 
inte resses deverá prevalecer18.

Caso emblemático registra a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, em 
que foi mantida decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que reintegrara as -
sociado excluído do quadro de sociedade civil, ao entendimento de que houve ofen  sa 
às garantias constitucionais do devido processo legal e do contraditório, bem como 
ao seu direito de defesa, em virtude de não ter tido a oportunidade de refutar o ato 
que resultara na sua punição. Entendeu-se ser, na espécie, hipótese de aplicação 
direta dos direitos fundamentais às relações privadas (RE 201.819/RJ, rel. p/ o 
acórdão Min. Gilmar Mendes, j. 11.10.2005). Outros precedentes da mesma Corte, 
entendendo razoável a aplicação dos direitos fundamentais às relações privadas, po-
dem ser mencionados: 

 RE 160.222-8 — entendeu-se como “constrangimento ilegal” a revista em 
fábrica de lingerie; 

16 Gustavo Tepedino, Temas, cit., p. 1; Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, Direito civil, 
cit., p. 27.

17 Flávio Tartuce, Direito civil, v. 1, p. 114.
18 Pedro Lenza, Direito constitucional esquematizado, p. 677.

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 RE 158.215-4 — entendeu-se como violado o princípio do devido processo 
legal e ampla defesa na hipótese de exclusão de associado de cooperativa, sem 
direito à defesa; 

 RE 161.243-6 — discriminação de empregado brasileiro em relação ao fran-
cês na empresa “Air France”, mesmo realizando atividades idênticas. Determi-
nação de observância do princípio da isonomia.

 2.4. RESUMO

Conceito de direito civil Direito civil é o direito comum, que rege as relações entre os particulares. Não se li-
mita ao que consta do Código Civil, abrangendo toda a legislação civil que regula