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Questões Estilo UERJ 2026 (1º Exame de Qualificação) Profa. Érika Rodrigues 
Conto Amor, de Clarice Lispector (Laços de Família) 
 
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no 
bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco 
procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. 
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, 
exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o 
fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos 
pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse 
podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as 
sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. 
Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, 
cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo 
de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão 
pequena e forte, sua corrente de vida. 
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam 
dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida 
do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para 
os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico 
encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto 
pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo 
era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida 
podia ser feita pela mão do homem. 
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar 
perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa 
de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, 
os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma 
doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se 
vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem 
trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava 
para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com 
felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o 
quisera e escolhera. 
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava 
vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. 
Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não 
havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade 
que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para 
consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as 
crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração. De 
manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e 
sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes 
negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o 
quisera e escolhera. 
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava 
anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma 
grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. 
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi 
então que olhou para o homem parado no ponto. 
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se 
mantinham avançadas. Era um cego. 
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila 
estava sucedendo. 
Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. (...) 
LISPECTOR. Clarice. Laços de Família. Ed. Rocco.1998. p. 19 – 21. 
 
1. Após a leitura do trecho do conto Amor, de Clarice Lispector, podemos observar que, no início 
da narrativa, há um período de normalidade e de plena dedicação da personagem Ana à família e 
às tarefas cotidianas, como cuidar da casa. O trecho que melhor representa essa relação afetiva é 
(a) “Ana subiu no bonde.” 
(b) “Os filhos de Ana eram bons...” 
(c) “Exigiam para si instantes cada vez mais completos.” 
(d) “Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.” 
2. Os contos são narrativas curtas que costumam apresentar apenas um conflito gerador. Tendo 
em vista o desenrolar da história do conto Amor e as experiências da personagem principal, Ana, 
pode-se afirmar que 
(a) O conflito se dá quando a personagem perde o caminho de casa. 
(b) O clímax central é o encontro desproposital da personagem com o cego mascando chicles. 
(c) O ponto crítico acontece quando Ana sai de casa e esquece as tarefas diárias. 
(d) O conto apresenta, como eixo problemático, o desfecho sem resolução da história. 
 
3. No trecho “Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se 
quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte.”, presente no segundo 
parágrafo, o conectivo grifado apresenta-se como uma das marcas da escritora em relacionar 
períodos, no processo que chamamos de coesão textual. O conectivo destacado tem valor 
semântico de 
(a) adição. 
(b) contradição. 
(c) explicação. 
(d) causa. 
4. Na esfera da literatura, alguns recursos literários são explorados de modo a descrever sensações 
e percepções inseridas nas histórias narradas e descritas por seus personagens. Nesse sentido, 
ao se estabelecer uma sensação de descoberta e de súbita revelação da personagem Ana, damos 
o nome de 
(a) verossimilhança. 
(b) mímesis. 
(c) epifania. 
d) catarse. 
5. O trecho “Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber 
como se o tivesse inventado.”, tem o mesmo sentido de 
(a) Suas atribuições eram características de uma mulher destinada a cuidar dos outros. 
(b) A personagem não aceitava a realidade vivida. 
(c) O destino de Ana foi criado e inventado, causando-lhe desequilíbrio emocional. 
(d) Ana sofria com as atividades que exercia e não gostava do que fazia. 
6. O fluxo de consciência é uma das marcas da escritora Clarice Lispector ao compor suas 
narrativas e personagens. Essa característica é perceptível no conto Amor, pois 
(a) A personagem Ana se preocupa em relatar seu passado em ordem cronológica. 
(b) O conto apresenta perguntas entre as ações da personagem que revelam a reflexão e o tempo 
psicológico narrado. 
(c) Há descrição das personagens e das ações de forma linear e objetiva. 
(d) Ana preocupa-se com os fatos de seu cotidiano presente sem lembranças do que viveu. 
SENTIR UM PENSAMENTO – Frases e reflexões 
“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.” 
(A hora da estrela) 
“Só queria agora uma coisa deste mundo: caber nele. Mas como?” 
(A maçã no escuro) 
“Somos aquilo que tem de acontecer.” (Felicidade Clandestina) 
 
“Só os grandes amam a monotonia.” (A paixão segundo G.H.) 
 
“Como se estivesse fora de mim, olhei-me e vi-me.” (Um sopro de vida) 
 
“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” (Perto do coração selvagem) 
 
“Amor é quando é concedido participar um pouco mais." (A legiãoestrangeira)

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