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Anatomohistopatologia do SNC

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Anatomohistopatologia do Sistema Nervoso
Central e Tópicos Relacionados
COMPÊNDIO TÉCNICO DE DIAGNÓSTICO INTEGRADO E CORRELAÇÕES CLÍNICAS
1. Tumores do Sistema Nervoso Central (SNC)
A classificação atualizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS 2021) estabeleceu uma mudança de
paradigma ao integrar os parâmetros moleculares aos critérios histológicos tradicionais. Essa abordagem
resulta em diagnósticos integrados e formulações prognósticas mais precisas.
1.1 Tumores Gliais
Tipo Tumoral Achados Histopatológicos Marcadores Moleculares
Astrocitoma difuso, IDH-
mutante
Celularidade moderadamente aumentada,
atipias nucleares, padrão de crescimento
marcadamente infiltrativo no parênquima
cerebral adjacente.
Mutação nos genes IDH1 ou IDH2,
perda de expressão de ATRX (imuno-
histoquímica) e mutação do gene 
TP53.
Oligodendroglioma Células uniformes com halo perinuclear
claro (aspeto em "ovo estrelado" devido ao
artefacto de fixação), rede capilar ramificada
semelhante a "fio de galinheiro" (chicken
wire).
Mutação nos genes IDH1/2 associada
à codeleção concomitante dos braços
cromossómicos 1p/19q.
Glioblastoma, IDH-
wildtype
Alto índice mitótico, áreas de necrose
serpiginosa circundadas por células
tumorais hipercelulares (necrose em
paliçada) e proliferação microvascular
(glomérulos vasculares).
Ausência de mutação em IDH (status
selvagem), amplificação do gene 
EGFR, ganho do cromossoma +7 e
perda do cromossoma -10.
1.2 Tumores Embrionários
O Meduloblastoma destaca-se como o tumor embrionário mais frequente do SNC em idade pediátrica.
Histologicamente, caracteriza-se por uma proliferação densa de pequenas células azuis redondas, com
citoplasma escasso, alto índice mitótico e formação de rosetas de Homer-Wright (arranjos circulares de
células em torno de um centro fibrilar). Atualmente, subdivide-se em quatro subgrupos moleculares com
perfis prognósticos distintos: WNT, SHH, Grupo 3 e Grupo 4.
1.3 Meningiomas
Originam-se das células meningoteliais da aracnoide. À macroscopia, são tumores bem delimitados e
aderidos à dura-máter. Histologicamente, exibem um padrão arquitetural sincicial, arranjos concêntricos em
turbilhão (whorls) e presença frequente de corpos psamomatosos (calcificações concêntricas laminadas). O
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grau histológico (I a III) é determinado pelo índice mitótico, presença de invasão do parênquima cerebral e
critérios de atipia celular.
2. Análise do Líquido Cefalorraquidiano (LCR)
O estudo do LCR constitui uma ferramenta diagnóstica essencial na diferenciação de processos infeciosos,
inflamatórios e neoplásicos do neuroeixo.
2.1 Análise Citológica e Bioquímica
Parâmetro Padrão Normal
Meningite
Bacteriana
Meningite Viral
Carcinomatose
Meníngea
Celularidade 1000/µL)
com predomínio de
PMN
Moderada (10-500/µL)
com predomínio
linfocitário
Variável, com presença de
células epiteliais atípicas
Proteínas 15 - 45 mg/dL Muito elevadas Levemente elevadas Marcadamente elevadas
Glicose 60% - 70% da
glicemia sérica
Baixa (hereditárias (como a doença de Charcot-Marie-Tooth tipo 1).
Degeneração Axonal (Dying-back): Degeneração retrógrada e progressiva que se inicia nas porções
mais distais dos axónios de maior calibre. Associa-se ao acúmulo focal de organelas e à formação de
esferoides axonais. Observada tipicamente em neuropatias metabólicas (diabetes, uremia) e tóxicas.
5.2 Achados Diagnósticos na Biópsia de Nervo (Nervo Sural)
Padrão Histológico Características Principais Etiologias Principais
Vasculite do Nervo Necrose fibrinoide da parede dos vasos da vasa
nervorum, acompanhada por um infiltrado
inflamatório transmural e assimetria lesional focal.
Poliarterite Nodosa (PAN),
vasculites sistémicas ou
primárias do SNP.
Amiloidose Depósitos amorfos, acelulares e eosinofílicos no
endotélio, perineuro ou interstício. Demonstram
coloração positiva com Vermelho do Congo e
birrefringência verde-maçã sob luz polarizada.
Amiloidose AL (cadeia leve) ou
mutações na Transtirretina
(ATTR).
Hanseníase Infiltrado inflamatório granulomatoso perineural ou
endoneural. Identificação de bacilos álcool-ácido
resistentes no interior de macrófagos e células de
Schwann através da coloração de Fite-Faraco.
Infeção por Mycobacterium
leprae.
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6. Doenças Desmielinizantes do SNC
6.1 Esclerose Múltipla (EM)
A esclerose múltipla caracteriza-se histologicamente pela presença de placas de desmielinização focais
distribuídas pela substância branca do SNC, demonstrando predileção perivenular.
Placa Ativa: Infiltrado inflamatório denso composto por linfócitos T CD8+ (predominantes), linfócitos
CD4+ e macrófagos espumosos carregados de debris lipídicos de mielina. Observa-se desmielinização
em curso com preservação relativa dos axónios e evidência de apoptose de oligodendrócitos.
Placa Crónica Inativa: Área bem demarcada e hipocelular, caracterizada por uma marcada gliose
astrocitária cicatricial, perda absoluta das bainhas de mielina e redução acentuada da densidade axonal
secundária à lesão crónica.
Placa Shadow (Sombra): Representa áreas periféricas com evidência de remielinização parcial abortiva,
caracterizadas por bainhas de mielina visivelmente mais finas e entrenós curtos.
Perfil Imuno-histoquímico na EM: A coloração histoquímica de Luxol Fast Blue (LFB/PAS) é utilizada para
documentar a perda da mielina (que perde a tonalidade azul típica) com permanência da arquitetura axonal.
O anticorpo anti-Neurofilamento cora os axónios, evidenciando o grau de integridade estrutural ou
fragmentação. O marcador CD68 identifica os macrófagos ativados, cujos vacúolos citoplasmáticos contêm
proteínas da mielina fagocitadas (MBP+ e MOG+).
6.2 Neuromielite Óptica (NMO / Doença de Devic)
Patologia autoimune mediada por autoanticorpos patogénicos direcionados contra o canal de água celular
Aquaporina-4 (AQP4), localizado nos prolongamentos astrocitários. Histologicamente, as lesões são
extensas, necrosantes e cavitadas, envolvendo a substância branca e cinzenta da medula espinhal e do
nervo ótico. Há um infiltrado inflamatório proeminente com eosinófilos e neutrófilos, deposição de
imunocomplexos e perda total da imunorreatividade para AQP4 à imuno-histoquímica, distinguindo-a
nitidamente da Esclerose Múltipla.
6.3 Encefalomielite Disseminada Aguda (ADEM)
Processo desmielinizante agudo, tipicamente pós-infecioso ou pós-vacinal. Apresenta-se histologicamente
com áreas focais e restritas de desmielinização perivenular "em manguito", com infiltrado mononuclear e
preservação dos axónios, sem a cronicidade observada na EM.
7. Anatomia do Conduto Auditivo e Schwannoma
7.1 Anatomia Estrutural do Conduto Auditivo
Conduto Auditivo Externo (CAE): O terço lateral é composto por um arcabouço de cartilagem elástica,
revestido por pele contendo folículos pilosos, glândulas sebáceas e glândulas ceruminosas (glândulas
apócrinas modificadas). Os dois terços mediais situam-se no osso temporal, revestidos por um epitélio
escamoso estratificado extremamente fino, desprovido de anexos cutâneos.
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Conduto Auditivo Interno (CAI): Canal ósseo localizado na porção petrosa do osso temporal que serve
de passagem para o nervo facial (VII), nervo vestibulococlear (VIII) e artéria labiríntica. É revestido
internamente por dura-máter e contém uma extensão do espaço subaracnoideo preenchido por LCR.
7.2 Schwannoma (Neurilemoma)
Neoplasia benigna encapsulada originada a partir das células de Schwann dos nervos periféricos ou
cranianos. Histologicamente, exibe um padrão bifásico clássico:
Padrão Antoni A: Áreas hipercelulares compostas por células fusiformes compactas, cujos núcleos
organizam-se em paliçadas paralelas, delimitando zonas acelulares fibrilares designadas corpos de
Verocay. Observa-se uma rica rede de fibras reticulínicas.
Padrão Antoni B: Áreas hipocelulares com matriz mixoide frouxa, células tumorais esparsas e
microcistos. É comum a presença de vasos sanguíneos ectásicos de paredes hialinizadas e espessadas.
Perfil Imuno-histoquímico: Apresenta positividade citoplasmática e nuclear forte e difusa para a proteína
S100 e para o fator de transcrição SOX10. A cápsula tumoral (composta por perineuro reacional) cora
positivamente para EMA. O marcador de Neurofilamentos é negativo no interior da massa tumoral (os
axónios nativos são deslocados para a periferia da cápsula, o que diferencia o schwannoma do
neurofibroma).
O Schwannoma Vestibular localiza-se no ângulo pontocerebelar, com origem na porção vestibular do VIII
par craniano. A ocorrência desta neoplasia de forma bilateral é um critério patognomónico da
Neurofibromatose tipo 2 (NF2), decorrente de mutações inativadoras no gene NF2 (codificador da proteína
merlina).
7.3 Colesteatoma
Definido patologicamente pela presença de um epitélio escamoso estratificado queratinizado em localização
anómala no interior da orelha média ou da mastoide. Compreende uma estrutura histológica tripartida:
Matriz: Camada epitelial escamosa queratinizada bem diferenciada.
Perimatriz: Tecido conjuntivo fibroso periférico habitualmente infiltrado por células inflamatórias crónicas
(linfócitos, plasmócitos e histiócitos).
Conteúdo Central: Lâminas concêntricas de queratina descamada amorfa (conhecidas macroscopically
como "pérolas de queratina").
A capacidade de destruição e erosão óssea local, característica do colesteatoma, decorre da ativação local
de osteoclastos estimulados por citocinas pró-inflamatórias (IL-1, TNF-α) e metaloproteinases da matriz
(colagenases) sintetizadas pela perimatriz.
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8. Alterações Histopatológicas do Pâncreas no Diabetes Mellitus
8.1 Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)
A base fisiopatológica do DM1 consiste na destruição autoimune seletiva das células produtoras de insulina
nas ilhotas de Langerhans.
Insulite: Lesão histológica inicial caraterística, definida por um infiltrado inflamatório linfocitário intra e
peri-insular. Este infiltrado é composto predominantemente por linfócitos T citotóxicos CD8+, com menor
participação de linfócitos T auxiliares CD4+ e macrófagos. A insulite precede e acompanha a destruição
celular ativa.
Perda de Células β: Em fases avançadas ou estádios terminais da doença, observa-se uma redução
drástica (> 90%) ou ausência completa de células β. Em contrapartida, as células α (produtoras de
glucagon) e as células δ (produtoras de somatostatina) permanecem estruturalmente preservadas. As
ilhotas tornam-se atróficas ou "pseudoatróficas" e progressivamente fibróticas.
8.2 Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)
O DM2 cursa com disfunção celular progressiva associada à resistência periférica à insulina, sem
componente autoimunesubjacente.
Deposição de Amiloide das Ilhotas (IAPP / Amilina): Achado histopatológico clássico presente em mais
de 90% dos casos de longa data. Manifesta-se como uma acumulação de material amorfo, eosinofílico e
hialino nos espaços extracelulares entre as células endócrinas e os capilares sinusoidais. À coloração de
Vermelho do Congo, este depósito exibe uma birrefringência verde-maçã característica sob microscopia
de luz polarizada.
Alterações Estruturais das Células β: Ocorre uma redução numérica moderada das células β (estimada
entre 20% e 65%). As células remanescentes revelam sinais de exaustão funcional, tais como
degranulação citoplasmática, vacuolização e taxas aumentadas de apoptose celular. Observa-se também
o desenvolvimento de fibrose intra e peri-insular e o espessamento das membranas basais capilares.
8.3 Quadro Comparativo e Critérios Clínico-Laboratoriais
Comparativo Histopatológico Intra-insular:
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Característica
Histopatológica
Diabetes Mellitus Tipo 1 Diabetes Mellitus Tipo 2
Insulite Linfocitária Presente de forma marcante nas
fases iniciais
Ausente
Extensão da Perda de
Células β
Acentuada e severa (> 90%) Moderada (20% - 65%)
Deposição de Amiloide
(IAPP)
Ausente Presente e progressiva (> 90% dos casos
crónicos)
Fibrose Insular Discreta, restrita ao colapso
estrutural
Moderada a acentuada, peri e intra-
capilar
Mecanismo Primário Destruição autoimune mediada por
células T
Resistência insulínica + exaustão/
disfunção celular
Critérios Laboratoriais Diagnósticos do Diabetes Mellitus:
Parâmetro Laboratorial Limiar para Diagnóstico Conclusivo
Glicemia de jejum (período de 8 horas) ≥ 126 mg/dL
Glicemia plasmática às 2 horas pós-TOTG (carga de 75g de glicose) ≥ 200 mg/dL
Hemoglobina Glicada (HbA1c) ≥ 6,5%
Glicemia plasmática aleatória obtida em doente com sintomas clássicos ≥ 200 mg/dL
Referências Histopatológicas e Diagnósticas: Conteúdo estruturado de acordo com as diretrizes e critérios estabelecidos pela
Organização Mundial da Saúde (OMS 2021) para o Sistema Nervoso Central e tumores neuroendócrinos, bem como padrões
consolidados em patologia cirúrgica e dermatopatologia (PathologyOutlines).
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	Anatomohistopatologia do Sistema Nervoso Central e Tópicos Relacionados
	1. Tumores do Sistema Nervoso Central (SNC)
	1.1 Tumores Gliais
	1.2 Tumores Embrionários
	1.3 Meningiomas
	2. Análise do Líquido Cefalorraquidiano (LCR)
	2.1 Análise Citológica e Bioquímica
	2.2 Citologia para Neoplasias
	3. Anatomia Histológica e Patologia da Hipófise
	3.1 Anatomia Histológica
	3.2 Tumores Neuroendócrinos Hipofisários (PitNET / Adenomas)
	4. Histopatologia da Glândula Suprarrenal (Adrenal)
	4.1 Córtex Adrenal
	4.2 Medula Adrenal
	4.3 Patologia Adrenal
	5. Neuropatias Periféricas: Padrões Histopatológicos
	5.1 Alterações Fundamentais
	5.2 Achados Diagnósticos na Biópsia de Nervo (Nervo Sural)
	6. Doenças Desmielinizantes do SNC
	6.1 Esclerose Múltipla (EM)
	6.2 Neuromielite Óptica (NMO / Doença de Devic)
	6.3 Encefalomielite Disseminada Aguda (ADEM)
	7. Anatomia do Conduto Auditivo e Schwannoma
	7.1 Anatomia Estrutural do Conduto Auditivo
	7.2 Schwannoma (Neurilemoma)
	7.3 Colesteatoma
	8. Alterações Histopatológicas do Pâncreas no Diabetes Mellitus
	8.1 Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)
	8.2 Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2)
	8.3 Quadro Comparativo e Critérios Clínico-Laboratoriais

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