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Do ponto de vista construtivista, o investigador (...) vai consi
derar cada declaração mais como uma versao, que conta uma
história. Nem toda versáo tem a mesma validade (...). Deca
rações não discutidas reivindicam validade, ou seja, elas são
avaliadas como corretas de acordo com as medidas do pata
mar do conhecimento atual (na linguagem da lógica da argu
mentação como "verdadeiras"). A característica principal da
averiguação é, portanto, (..) consenso. (Haller, 1993, 144f.)
Weischenberg (1992a, 167) completa que objetividade não é uma
questão de verdade ou aproximaç�o da realidade, mas sim de
credibilidade, confiança ou utilidade.
A função do jornalista não seria mais conhecer a realidade, mas
Sim fornecer uma interpretação conveniente da realidade. Sua medi
da nãoé mais a verdade, mas sim se esta interpretação pode ser útil
para as pessoas (cf. Schönhagen, 1998, 250). Homogeneidade ou
variedade daquilo que se titula como saber passa a ser socialmente
reguladoe não através do conhecimento, comno na perspectiva realis
ta (Neuberger, 1996, 187).
Seé verdade o que a sociedade reconhece como tal, então a verdade
é ou o conjunto de todas as afirmações possíveis ou tudo aquilo com o
que a sociedade concorda (consenso). No primeiro caso, todas as fon
tes que a sociedade entende como `competentes" ou "aceitáveis (de
acordo com as regras sociais), devem ser ouvidas. Todo "conhecinmen
t¡", ou melhor, todas as "verdades" são igualmente legitimas. Não hà
diferença entre o tcor de realidade das diferentes versões.
No segundo caso, passa a ser verdade tudo aquilo que todos ou
pelo menos a maioria acredita que é. As consequências para O jornd lismo säo claras: como não se pode conhecer a realidade, todas as
afirmaçoes são válidas. Conscquentemente, não se poderia mus taar
em manipulação na mídia.
A primera possibilidade parte do pressuposto de que todas as declaraçoes säo igualmente verdadeiras, até mesmo quando elas se contradizem, o que na realidade não é possível. Dårante a tentat1va de golpe em abril de 2002, o presidente venezuelano Hugo Chávez
40
se encontrava ou na Venezuela ou em Cuba. Não é possível que Hugo
Chávez tenha estado em ambos os países n mesmo momento. Ambas
as afirmações não podem ser verdadeiras, independente da posição
política do jornalista ou do veículo para o qual trabalha. A outra
possibilidade é que ambas sejam falsas (cf. também Sokal, 1997).
Com a segunda alternativa � verdadeiroéaquilo que todos pensam
que oé-a busca da realidade se torna supérfluaea sociedade é conde
nada a ficar no mesmo patamar de conhecimento. Para a maior parte
dos norte-americanos brancos no século XIX, as pessoas negras vitimas
de linchamento eram "de fato" sequestradores de mulheres brancas,
como foi divulgado, embora não houvesse indícios ou provas para isto
(cf. Mindich, 1998, 118). Esta hipótese, no entanto, era falsa, Como
Ida Wells mostrou (cf. pluralismo ou fairness neste capítulo).
Apesar das críticas, o construtivismo apresenta uma contribuição
imprescindível para entender o problema da objetividade. Ele revela
a condição de construção da realidade pelos meios de comunicação,
mostrando claramente porque a teoria de espelhamento é equivoca
da. Evidentemente a realidade midiática não é igual à realidade pri
mária, mas sim uma representação desta. Isto não significa, no en
tanto, que não é possível haver uma correlação entre ambos os tipos
de realidade.
2.10 Posição "realista"
Para os defensores desta concepção, o que está no centro das dis
cussões éa relação entre as realidades midiática e social. Ao contrário
dos construtivistas radicais, eles afirmam que é possível ter acesso à
realidade. Se jornalistas podem conhecer a realidade social, também
é possível estabelecer uma correlação entre esta e a realidade que estes
profissionais produzem. Mais do que isso: o grau de concordância
entre ambas pode ser medido.
Para medir a "objetividade" da mídia, cles se valem de "indicadores
de realidade". Estes podem ser utilizados como "medidas de objetivi
dade" em comparações intra e extramidiáticas (Donsbach, 1990. 21).
41
Em comparações intramidiáticas, pode-se observar tanto comna
rações entre veículos e meios quanto Comparações dentro de um mecs
veículo. Compara-sc, por exemplo, a cobertura jornalística de ur
mesmo acontecimento em dois Jornais irerentes ou entre os iornaic
eaTV. No caso das comparaçöcs dentro do mesmo veículo, trata.ce
dos chamados cstudos de sincronização. Neste tipo de estudo. com
para-se a linha editorial do veículo (através dos seus editoriais) c
as notícias produzidas sobreo tema na tentativa de diagnosticar uma
possível correlação entre as posiçõcs políticas apresentadas em ambos
os formatos (cf., por exemplo, Schönbach, 1977).
A validade de comparações intramidiáticas em mensurar a con
cordância entre as realidades midiática e social é, no entanto, discu
tível. Nestes estudos, mede-se consonância ou dissonância midiática
e não adequação à realidade. Se as notícias de diferentes veículos tra
zem as mesmas informações, isto pode advir, por exemplo, do fato de
a busca de informação ser limitada politicamente (no caso de ditadu
ras) ou por fatores de produção jornalística (todas se baseiam, por
exemplo, na mesma fonte e não podem ser averiguadas com um se
gundo informante).
A comparação entre coberturas jornalísticas só têm validade para
apontar diferenças com relação ao que de fato aconteceu se houverem
dissonâncias no caso de informações no nível factual. Se dois jornais
ou o jornal e a TV trazem informações desencontradas sobre o que.
COn quem, quando e onde de um mesmo acontecimento, pode-se
cluir de que pelo menos uma parte da notícia não é objetiva. lais
comparações só são válidas neste nível.
Sc notícias diferentes sobre um mesmo acontecimento aprescu
tam versões diferentes sobre como e por que, isto não é necessara
mente umn problema de objetividade, uma veZ que rcspostas a Cstas
questQes não podem podem ser clasificadas na escala falsoBcorreto. O fato
de um jornal tender para a esquerda ou para a direita, noticiar de
torma pOSItiva ou negativa (cf. Westerstahl, 1983) não diz nada so
bre o teor de realidade do seu noticiário.
42
A alternativa a estes estudos seriam as comparações extramidiáticas,
também denominadas de análises de input e output. Neste caso, pro
cura-se observar contradições entre as realidades midiática e
extramidiática, seja csta advinda de vivências pessoais ou de outros
tipos de realidade secundária, mas não-midiática, como, por exem
plo, estatísticas e pareceres de experts (cf. Donsbach 1990, 21). No
primeiro caso, compara-se por exemplo a experiência de pessoas que
participaram diretamente de um comício com a das que o vivenciaram
pela TV (ct. Donsbach, 1993).
Um exemplo de estudos de comparação extramidiática conduzi
dos com base em dados estatísticos foi a análise de conteúdo realiza
da pelo Medien Tenor Institut em 1996. Neste estudo, o instituto
comparao número de crimes de extrema-esquerda e pela extrema
direita cometidos na Alemanha segundo o relatório da
Bundesverfassungsschutz (serviço nacional de inteligência alemão)
com os temas das notícias sobre estes crimes em jornais, revistas e
programas de TV. Os autores do estudo chegam à conclusão de que
os meios de comunicação analisados tematizam mais frequentemen
te crimes de extrema direita, enquanto as estatísticas do relatório
mostra que o número de crimes cometidos pela extrema esquerda
seja maior (Medien Tenor, 1996).
O estudo de Donsbach (1999a) combina estatísticas econômicas
com prognose de experts, que valem como indicadores extramidiáticos
de realidade para analisar o teor de realidade da cobertura jornalística
de cconomia durante as cleições parlamentares alem�s de 1998. Nes
tas campanhas eleitorais, temas econômicos, sobretudo sobre o mer
cado de trabalho, foram tematizados de forma intensiva. Donsbach(1999a) chegou à conclusão que a mídia mostrou, sobretudo, uma
tendéncia negativa no desenvolvimento do mercado de trabalho,
embora a prognose dos experts tosse mais positiva. Prognoses foram
apresentadas ao lado de dados estatísticos para mostrar que o desem
prego nos anos 90 - periodo em que o pas toi governado pelo
chanceler Helmut Kohl (1982-1998)- havia reduzido e que um
crescimento cconomico estava por vIr:
43
Este noticiário não cspellhou nccessariamente o estado real da
cconomia. A desCrição fíúncbre do mercado de trabalho aba.
teu as prognoses ligeiramente otimistas sobre o desenvolvi.
mento daquele e as apresentações positivas do estado e do
desenvolvimento da situação econômica. Com isso, a mídia
desacoplou a conexão causal entre ambos. (Donsbach, 1999a.
73. grifo de L.S.)
Donsbach observou ainda que as causas do desemprego não fo
ram tematizadas em praticamente nenhuma matéria sobre o merca
do de trabalho. Dentro deste quadro, pôde-se concluir que o candi
dato da oposição na época, Gerhard Schröder, saiu beneficiado.
Tais "comparações de realidade já foram criticadas duramente
(cf., sobretudo, Schultz, 1990). A primeira crítica a ser feita é que,
para medir "objetividade", é preciso ter claramente definido o que se
entende como tal:
A validade das chamadas medidas de objetividade depende de
como se define a tarefa por meio da quala mídia deve retratar
a realidade (..) Cada uma destas chamadas medidas é válida e
legítima dentro dos limites de dois aspectos: Primeiro, o pes
quisador deve deixar claro de qual norma político-comunicati
va e democrática ele parte (...). Segundo, é necessário avaliar
até que ponto os critérios internos e externos podem ser utili
zados dentro da temática específica dos conteúdos midiáticos
(a ser analisada). (Donsbach, 1990, 24-25)
Na falta de uma definição clara, objetividade é associada a noções
que nao tem necessariamente ou qualquer ligação com o problema
da corrclação entre as realidades midiática e social. Em muitos casos,
pressupQe-se implicitamente uma "teoria do espelho".
4 Se o cenáno económico que Donsbah apresenta como "rea' realmente correspondeu
realidade ou se o candidato itado foi de fato beneticiado pela coberura jornalísica sao
qucstoes que nao pode) ser discuidas aqui. O que se clconra no cenro das atençöes aqui
sao os DSTUDCDtOS de mesuraçá0 de una conCordàucia cnre as realidade midiáuca e
social, bem cono sua validadc.
Como consequência desta postura implícita, acaba-se por ignorar
o status da mídia como instância mediadora entre a realidade e o seu
público ao exigir que a realidade midiática se iguale à primária, que
Ihe serve como base. Vivenciar um comício ao vivo não é e nem pode
ser o mesmo que assisti-lo pela TV. Portanto, o que se mede com este
tipo de comparação não é o grau de correlação entre ambas as reali
dades, mas sim as diferenças de percepção em uma vivência direta e
outra secundária.
No caso do estudo conduzido pelo Medien Tenor Institut, obser
va-se nitidamente que a falta de uma definiçáo intersubjetiva os im
pede de analisar de fato a relação entre as realidades midiática e soci
al. A mídia pode noticiar intensivamente sobre criminalidade, mas
não vai conseguir espelhar a complexidade deste problema. O co
nhecimento produzido pelo jornalista é marcado pelas mesmas ca
racterísticas básicas do conhecimento humano. Todo e qualquer co
nhecimento - inclusive o produzido pela mídia � deve ser tratado
como seletivo, perspectivo e construtivo (Bentele, 1982, 124). �
impossível conhecer a realidade como um todo. Por isso, seleção é
uma estratégia humana de conhecimento.
No estudo deste instituto, mensurou-se os critérios de relevância
utilizados na cobertura jornalística. (cf. relevância neste capítulo).
Estes critérios não podem ser justificados com relação ao seu teor de
realidade. Eles se baseiam na questão sobre o que é importante e não
sobre o que é real (cf. Neuberger, 1996, 89). Para tornar isto claro: o
fato de a mídia alem� noticiar mais sobre extremistas de direita não
significa nem que os crimes desteS não exiStam nem que não haja
extremistas de esquerda.
Além disso, enquanto a concordância de uma declaraç�o (descri
tiva) com a realidade pode ser verificada independente de um único
sujeito (cf. capítulo 3), é discutível se pode-se definir o que é impor
tante de maneira intersubjetiva.
Outro problema que esta postura implícita de uma teoria do es
pelho traz consigo é a ideia de que a realidade midiática não retrata
fielmente a realidade social, mas outras tentativas de reconstrução
45
desta o fazem. Quando se compara dados estatísticos com a realidade
primeiros espelham a realidade
midiática, pressupõe-se que $
Winfried Schulz argumenta com raz�o que estatísticas também sa
construcões da realidade (Schulz, I990, 25). Por que estas teriam
um teor de verdade maior do que a realidade midiática? Seriam elae
por acasO menos influenciadas por interesses, limites ou possibilida
des de conhecer a realidade do que a produção jornalística? E por qué
a realidade midiática deveria ser igual a clas?
As conexões entre dados econômicos diferentes traçadas por experts
não precisam ser espelhadas pela mídia (c. Klammer, 1999), já que
verdade. Além disso, é estes profissionais também não possuem a
altamente discutível se é possível falar-se sobre a posição dos experts.
Neste grupo, também há diferentes posições e estas fontes podem
fornecer explicações diferentes.
Estatísticas podem ser instrumentos importantes para aproximar
se da realidade e revelar muitas coisas, mas dados também são so
mente instrumentos que jornalistas utilizam para testar suas hipóte
ses. Eles não são a priori a realidade primária. Um índice de desem
prego não é o desemprego em si.
Uma comparação entre estatísticas (como representação fiel da
realidade) e a realidade midiática só tem sentido se estes dados fun
cionarem como a realidade primária a ser apresentada pela mídia.
Concretamente falando, uma notícia sobre o índice de desenmprego
Corresponde à realidade social se noticiar sobre este índice correta
mente, mas esta correspondência OCorre neste caso em uma notiCU
sobre o indice, e não sobre o desemprego em si. Neste caso, uma
comparação é possível e faz sentido.
Além disso, em análises tanto incra quano extrammidiáicas, un
comparação só é válida se permanecer no nível facual, uma vez que
causs e consequénGas näo sao, via de regra, passíveis de serem
verificadas, ultrapassando o limite das possibilidades de estabelecer
uma concordáncia com a realidade. Esta esá limitada a declaraçoes
do tipo descritivo (c. Searle, 2004, 58: Popper, 2000, 53: Rokeach.
1968, 113).
46
Neste caso, é possível mensurar a adequação da realidade midiática
à social. Se o menino dependente de drogas descrito na reportagem
existe', se os tais diários foram realmente escritos por Hitler, isto
pode ser averiguado.
As condições imprescindíveis para a cientificidade de tais compa
rações s�o: a) uma clara posição com relação ao processo de conheci
mento (por exemplo, é possível conhecer a realidade?); b) a conside
ração das suas características inerentes (seleção, perspectividade, cons
trução); c) um conceito preciso e intersubjetivo de objetividade e d)
uma definição explícita do que consiste na realidade primária no caSO
a ser analisado.
Além disso, como estes estudos se concentram pratIcamente so
com o problema da objetividade textual, ou seja, com a representa
ção da realidade pela mídia, eles só contribuem limitada e indireta
mente para entender o problema da objetividade jornalística, ou seja,
da busca do jornalista pela realidade.
2.11 A objetividade pragmática
Esta definição de objetividade foi desenvolvida pelo jornalista ca
nadense Stephen Ward em uma tentativa de reocupar o termo. Como
Ward (2004, 4) escreve, a noção tradicional, baseada na separação de
fatos e valores, nãoé nem sustentável nem praticável. Desta forma,
Ward segue uma determinada tendência na discussão sobre objetivi
dade no contexto cultural norte-americano.
Nos anos 70 e 80, os estudoS norte-americanos sobre o tema se
concentravam no (ab)uso político e econômico do termo (cf. por
exemplo Schudson, 1977; Tuchmann, 1973, 1977: Schiller, 1981:
mais tarde no Canadá, Hackett e Zhao, 199).
5 Acx-iornalista Janct Cooke, que trabalhava para o jornal lWshington lost, ganhou o prestigiado
prêmio Pulitzer em 1981 com uma reportagem sobre um garoO de oito anos, que seria
dependente de heroína. Diante da repercussao da notÍcia e da busca policial pelo menino,
a repórter admiiu que o garoto nunca exIsiu e ton obrigada a devolver o prêmio pela matéria
Jimnys World (cf. Paterson e Urbanski, 2006).
6 Em 1983, a revista alemå Stern anunciou ter encontrado diários de Hitler. Duas semanas
mais tarde, comprovou-se a falsidade dos diários (ct. Stuttgarter Zeitung, 19.04.2003)
47
Em seguida, observa-se a fase na qual tenta-se definir este concei
to poliss�mico e a ènfase cai sobre as diversas noções de objetividade
e as diferenças entre elas. Um dos exemplos paradigmáticos deste
momento é o estudo de Mindich (1998).
A tendência atual é de tentar redefinir objetividade, problema
que se tornou ainda mais relevante com o desempenho da mídia
americana na cobertura sobre a Guerra do Iraque. Antes da guerra,
em março de 2003, o então presidente norte-americano George
Walker Bush afirmou que o governo iraquiano de Saddamn Hussein
tentou comprar urânio (material necessário para a produção de ar
mas nucleares) de um país africano.
Em julho de 2003 o governo norte-americano acabou por reco
nhecer que a declaração de Bu_h não correspondia à realidade
(Greenberg, 2003). Seguiu-se uma série de "informações" sobre ar
mas de destruição em massa que o governo Iraquiarno supostamente
possuiria e sobre uma também suposta ligação de Saddam Hussein
com o grupo terrorista Al-Qaeda. O primeiro-ministro britânico Tony
Blair também contribuiu para esta discussão ao afirmar que Hussein
poderia produzir tais armas em 45 minutos.
Partindo destes acontecimentos, a renomada revista Columbia
lournalism Review dedicou um número especial ao problema da ob
jetividade. Nela, os autores perguntam se jornalistas podem den0
minar uma mentira como tal. Greenberg (2003) supõe que as no
ções de objetividade dos jornalistas os levaram auma postura pass1va
e, com isso, à propagação de informações falsas. Uma crítica seme
Ihante já havia sido formulada por Bennett (2003).
Ryan (2006), por sua vez, vê no desrespeito dos jornalistas às
regras clássicas de objetividade as razões para o fracasso da mída
americana em informar o público sobre as razões da guerra.
Ward (2004) não se refere à Guerra do Iraquc, mas tenta concre
tamente atender à reivindicação de Greenberg (2003) de redetinir
objetividade. Esta significa para Ward (2004, 280) umn método
holístico, falível e contextualizado de testar interpretações. Sua defl
nição pragmáica difere das concepções clássicas por não tratar opini
48
ões como uma barreira para a objetividade. A interpretação do jorna
lista é vista como uma tarefa legítima e indispensável.
Estes profissionais também não devem comportar-se passivamente nviso
e tomar a iniciativa de investigar. "Objetividade pragmática é um com
promisso apaixonado com uma investigação desapaixonada , define Ward
(2004, 282). Neutralidade é substituída por desinteresse, o que sign1
tica que a paixão pela busca da verdade não deve ser subordinada a
outras. Neste contexto, Ward identifica um ponto em comum entre a
sua objetividade pragmática e o racionalismo crítico de Karl Popper.
O autor canadense distingue entre objetividade ontológica,
epistemológica e procedual. A primeira. se concentra com a diterença
entre realidade e aparência, entre "objetivo" e 'subjetivo".
A objetividade epistemológica trata dos standards, da averiguação
rigorosa de hipóteses sobre a realidade. Neste sentido uma hipótese
pode ser epistemologicamente objetiva, ou seja, comprovada depois
de uma averiguação cuidadosa, e mesmo assim ser falsa.
A objetividade procedual envolve a tomada de decisões justas (fair).
Neste tipo de objetividade, não se trata de correspondência
realidade, mas sim de fairness. Isto se deve ao fato de Ward retratar
objetividade não só do ponto de vista jornalístico, mas sim como
uma norma de várias áreas, como, por exemplo, o direito e a ciência
(Ward, 2004, 281).
Com a
ser constatada através de A objetividade de um julgamento pode
standards empíricos, de coerência e de acordo com o debate racional.
Os standards empíricos pertencemà esfera da objetividade ontológica.
Através destes standards, concretamente, da averiguação empírica,
procura-se saber se uma declaração corresponde à realidade No cen
tro da questão encontra-se portanto a teoria da verdade como corres
pondéncia (cf. Popper, 1984, 44).
(Os standards de coerência, por sua vez, partem de um outro con
ceito de verdade e correspondemà objetividade epistemológica. Tais
standards referem-se à interpretação lógica. Esta não pode ou não
deve contradizer experiências anteriores e/ou os modelos de interpre
tação escolhidos.
49
Já os standards do debate racional correspondem à regra de fairmes.
Concretamente, Ward explica-os da seguinte forma: "E importante
que todas as vozes racionais no debate recebam um tratamento res
peitoso e justo, que o processo de debate seja inclusivo e que as hie
rarquias de poder não distorçam a deliberação" (Ward, 2004, 285).
Segundo Ward (2004, 289), para entender a busca do jornalismo
pela realidade, é preciso considerar que aquele produz
esfera da informação", o sistema
tempo é produzido por uma
midiáico de troca de informações. Isto significa que o jornalismo
tanto media informações sobre a realidade quanto fornece a matéria
prima para as discussões públicas, que por sua vez forma a realidade:
e ao mesmo
Jornalismo é a expressão cultural organizada de um fato bioló
gico: que todas as criaturas t¿m necessidade de informação.
Biologicamente, seres humanos têm uma fome epistemológica
por informações novas e acuradas sobre o seu meio ambiente.
O desenvolvimento de sociedades dependentes de informação
tem fortalecido esta necessidade biológica. O segundo fato (..)
(do jornalismo, L.S.) é o da geração de informação e opinião
que se torna parte de um sistema de discussão social de
termina a política pública. Notícias não são só fatos para indi
víduos. São material para as políticas dos cidadãos. (Ward,
2004, 289)
50
que
Embora haja pontos comuns entre a concepção defendida neste
trabalho ea objetividade pragmática de Ward, há outros em qu
ambas as perspectivas se contradizem.
Em primeiro lugar, Ward não se concentra nas características �o
jornalismo como tipo de conhecimento, e por isso não são tiradas as
Consequéncias geradas por esta especificidade. O problema da obje tividade no jornalismo e na ciência é essencialmente diferente do Justiça e do direito. Em um processo judicial, não se trata neCessa amente de "um método de testar interpretaçóes , mas sim de julgar. Por desconsiderar o jornalismo como um processo de conneC mento, Ward associa aspectos ontológicos e epistemológicos com fairness (o que cle chama de objetividade procedual). Apresentar opi
nióes opostas de forma justa e respcitosa é importante, mas não tem
necessariamente a ver com a busca da verdade e não tem nada a ver
com adequaç�o de uma declaração à realidade. Na mlhor das hipó
teses fairnes pode ser um instrumento da objetividade epistemológica,
mas nãoé o único c nem mesmo suficiente, como já discutido.
Ward acaba por cair na armadilha de querer fazer de "objetivida
de' uma palavra mágica, como ocorre tanto no senso comum quanto
também em muitos estudos nas ciências da comunicação. Esta pala
vra mágica deve resolver todosos problemas do jornalismo. Por isso,
cste princípio deve resolver não somente o problema epistemológico
da mediação da realidade, como também as funções sociais de articu
lação e integração.
Objetividade refere-se à tarefa do jornalismo de mediar informa
ções adequadas à realidade sobreo meio ambiente natural e social. As
demais funções - apresentar opiniões diversas e promover o debate
político eo diálogo � não podem ser resolvidas por ser resolvidas por este princípio.
Tais funções também não envolvem necessariamente uma questão de
verdade. Agir e decidir se distinguem de conhecer e não se baseiam
somente neste. A força motriz das discussões públicas não são neces
sariamente fatos, mas sim juízos de valor.
Estes não podem ser avaliados segundo o seu teor de realidade.
Em janeiro deste ano, o jornal Die Welt titulou uma matéria sobre
um estudo sobre migrantes na Alemanha da seguinte forma: Turcos
recusam-se friamente a se integrar" (ct. Solms-Laubach, 2009). Esta
declaração não pode ser averiguada empírica e intersubjetivamente.
Trata-se de um julgamento, de um juízo de valor.
Além disso, juízos de valor podem basear-se em declarações des
critivas ou serem justificados por estas, ainda que já tenha sido de
monstrado quc são falsas. Embora haja provas claras das mais diver
sas fontes, ainda há atores na esfera pública que negam a existência
do holocausto.
Outro problema neste conceito de objetividade � o da objetivida
de epistemológica. sta parte de uma teoria da coerència, segundo a
qual a verdade pode ser conhecida através de experiências anteriores
51
elou consideraçócs metafísicas. Com isso, Ward contradiz racionalisno critico de Popper. Segundo o filósofo austríaco austríac0, a verda
de de uma frasc não depende de outras. Um sistema de frases pode até não conter contradiçõcs, mas nem por isso é verdadeiro (cf. Popper, 1994. 9). A aproximação da realidade Cxige verificação empírica e não cocrência.
Além disso, uma concordância de um novo conteúdo com aquil,
que já se sabc não é um indicador de adequação à realidade, mas
algo inerente ao processo de conhecimento (cf. cap. 3).
Sim
A objetividade pragmática difere do conceito epistemológico de.
fendido aqui porque abrange não somente o problema da media
ção da realidade. Como resultado, fairness passa a ser vista como ob ietividade. Além diso, esta noção parte do princípio de que adequa
ção à realidade pode ser alcançada por meio de testes de coerência.
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