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Como as democracias morrem
Livro de Levitsky & Ziblatt
Introdução e cap.4
Estado e Relações de Poder
Profa. Vanessa Elias de Oliveira (UFABC)
Contexto
Publicado em 2018, pelos cientistas políticos de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
Tema central: as democracias não morrem mais por golpes militares, mas muitas vezes por meio de líderes eleitos que corroem gradualmente normas e instituições.
Abordagem comparativa: múltiplos países, múltiplos casos históricos.
Introdução
Democracia: eleições livres + liberdades civis + alternância de poder.
Os autores argumentam que leis e constituições sozinhas não bastam — o que importa também são normas democráticas informais (como tolerância mútua, contenção institucional).
A “via eleitoral” para o autoritarismo é hoje a forma predominante.
Líderes eleitos podem destruir a democracia desde dentro, usando meios legais ou semilegais.
A mudança pode ser gradual, imperceptível, com “emblemas democráticos” intactos (eleições, parlamento), mas com o significado corroído.
Exemplos
Venezuela – Hugo Chávez e Nicolás Maduro
Chávez vence eleições livres em 1998.
Captura o Judiciário, muda a Constituição, pressiona mídia e oposição.
Rússia – Vladimir Putin
Eleito em 2000, gradualmente neutraliza a oposição, prende críticos e controla mídia.
Mantém aparência democrática (eleições, parlamento), mas sem competição real.
Turquia – Erdoğan
Eleito em 2003, inicialmente fortalecido por crescimento econômico.
Posteriormente, expande o controle sobre Judiciário, mídia e sociedade civil.
Exemplos
Estados Unidos – Donald Trump (1º mandato)
Usado como caso de alerta contemporâneo.
Autores analisam como suas atitudes desafiam normas democráticas (ataques à imprensa, questionamento de resultados eleitorais, politização da Justiça).
“Estamos vivendo o declínio e a queda de uma das mais velhas e mais bem-sucedidas democracias do mundo?”
É o foco do livro nos capítulos finais.
Normas democráticas em risco
Normas democráticas centrais:
Tolerância mútua: reconhecer a legitimidade dos adversários.
Contenção institucional: evitar usar os poderes legais apenas para esmagar a oposição.
Quando essas duas normas se erodem, o caminho para o autoritarismo se abre.
Capítulo 4: “Táticas para desmontar a democracia”
Apresenta três táticas principais para se desmontar as democracias:
Capturar os árbitros das regras do jogo.
Neutralizar ou “marginalizar” a oposição.
Mudar as regras do jogo para garantir vantagem permanente. 
Ex: caso de Alberto Fujimori no Peru.
O caso do Peru
“Fujimori teve que encarar um começo turbulento. O Congresso não aprovou nenhuma lei durante seus primeiros meses no cargo e os tribunais não pareciam estar à altura da tarefa de responder à crescente ameaça terrorista. (...) Assim, em vez de negociar com os líderes do Congresso, Fujimori os açoitou, chamando-os de “charlatões improdutivos”. Mandatários do governo começaram a se queixar de que a Constituição do Peru era “rígida” e “restritiva” (...) Em um discurso para líderes empresariais, Fujimori perguntou: “Somos nós realmente uma democracia? … Eu acho difícil dizer que sim. Nós somos um país que na verdade sempre foi governado por minorias poderosas, oligopólios, panelinhas, lobbies…”. Alarmado, o establishment do Peru reagiu negativamente. Quando Fujimori contornou os tribunais para libertar milhares de prisioneiros condenados por pequenos crimes a fim de abrir espaço para terroristas nas cadeias, a Associação Nacional de Juízes o acusou de “autoritarismo antidemocrático inaceitável. Com efeito, os tribunais declararam vários decretos de Fujimori inconstitucionais. Logo seus críticos o estavam denunciando como “autoritário”, e a mídia começou a descrevê-lo como um imperador japonês (...)”. 
O caso do Peru
“Sentindo-se sitiado, Fujimori dobrou a aposta. (...) Em novembro de 1991, ele enviou um pacote maciço de 126 decretos para aprovação do Congresso. Eram decretos de longo alcance, incluindo algumas medidas antiterrorismo que ameaçavam liberdades civis. O Congresso objetou. Não só repeliu ou diluiu vários dos decretos mais importantes, mas aprovou uma legislação restringindo o poder de Fujimori. O conflito se agravou. Fujimori acusou o Congresso de ser controlado por traficantes de drogas, e, em resposta, o Senado aprovou uma moção para “revogar” a Presidência devido à “incapacidade moral” de Fujimori. Embora a moção não tenha sido aprovada por poucos votos na Câmara dos Deputados, o conflito tinha chegado a ponto de um mandatário do governo preocupar-se com “ou o Congresso matar o presidente, ou o presidente matar o Congresso”. O presidente matou o Congresso. Em 5 de abril de 1992, Fujimori apareceu na televisão e anunciou que estava dissolvendo o Congresso e a Constituição. Menos de dois anos depois de sua surpreendente eleição, o outsider azarão tinha se tornado um tirano.”
Tática 1: Capturar os árbitros
“Árbitros” = tribunais, agências reguladoras, mídia independente, supervisão eleitoral.
Líderes autoritários eleitos buscam colocar seus aliados nesses órgãos ou enfraquecer sua independência.
“Capturar os árbitros dá ao governo mais que um escudo. Também oferece uma arma poderosa, permitindo que ele imponha a lei de maneira seletiva, punindo oponentes e favorecendo aliados.”
Isso mina a fiscalização e o equilíbrio de poder.
Tática 2: Sidelining da oposição
A oposição política, partidos, mídia crítica, grupos civis são enfraquecidos, marginalizados ou atacados.
A retórica polarizadora: os adversários são “inimigos da nação”, “traidores”, “terroristas”. 
“Os políticos norte-americanos agora tratam seus rivais como inimigos, intimidam a imprensa livre e ameaçam rejeitar o resultado de eleições”.
Esse tipo de divisão facilita a deslegitimação da oposição e da crítica.
Tática 3: Mudar as regras do jogo
Alterações legais ou institucionais para dar vantagem permanente ao incumbente: reformas eleitorais, emendas constitucionais, manipulação de distritos eleitorais, controle de mídia, etc.
Mesmo quando essas mudanças são “legais”, elas violam normas democráticas.
“Essas reformas são muitas vezes levadas a cabo sob pretexto de algum benefício público, mas, na realidade, estão marcando as cartas do baralho em favor dos poderes estabelecidos. E, por envolverem mudanças legais e mesmo constitucionais, permitem que os autocratas consolidem essas vantagens durante anos ou mesmo décadas.”
Esse processo torna a competição política desigual e mina a alternância.
Por que essas táticas funcionam?
Forma x conteúdo: Democracias modernas dependem de instituições e normas — se estas se corrompem, a “forma” democrática permanece mas o “conteúdo” se perde
A erosão muitas vezes é gradual — não há momento único de “corte”.
A combinação de polarização + debilitação de instituições facilita o processo.
Quando os adversários são vistos como ilegítimos ou malignos, a tolerância mútua e a contenção institucional se rompem.
Isso torna mais fácil para um líder utilizar as táticas descritas.
Conclusão do capítulo
Polarização exacerbada = terreno fértil para retrocesso democrático.
Mesmo democracias estáveis são vulneráveis.
A defesa institucional exige compromisso coletivo.
O papel dos cidadãos é essencial.
Novo livro dos autores (2023)
Ponto de partida: as instituições democráticas estão sob ataque, e que a democracia liberal está se tornando frágil diante da polarização e da desigualdade.
A democracia está em crise estrutural
A crise atual resulta de mudanças profundas nas sociedades ocidentais, como globalização, desigualdade e perda de segurança econômica.
Esses fatores geram raiva e ressentimento, que são explorados por líderes populistas autoritários.
Em Como as democracias morrem, os autores enfatizavam as “regras não escritas” (como tolerância e respeito mútuo) como pilares da democracia.
Nesta obra, argumentam que essas normas sozinhas não bastam — é preciso reformar as instituições políticas paraque a democracia seja mais estável e representativa.
Ataques à legitimidade democrática
A concentração extrema de riqueza cria um sistema onde as elites capturam o poder político.
Isso mina a confiança dos cidadãos e alimenta o discurso populista de que “as instituições não funcionam para o povo”.
Os autores defendem reformas estruturais:
Ampliação da representação política, buscando reduzir o peso desproporcional de minorias privilegiadas em sistemas eleitorais.
Reformas no financiamento de campanhas, para diminuir a influência do dinheiro. 
Modernização das instituições para refletir a diversidade social real.
Renovação cultural
Além de reformas institucionais, os autores defendem uma renovação cultural: reconstruir valores democráticos como respeito, pluralismo e confiança.
Isso envolve educação cívica, imprensa livre e fortalecimento das organizações da sociedade civil.
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