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CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 10 Figura 1 – Primeira fotografia fixada quimicamente Fonte: Wikipedia. Niépce trabalhou alguns anos, (até sua morte, em 1833) com Louis Daguerre, que, segundo algumas referências, é tido como o inventor da fotografia. Daguerre teve imenso sucesso no desenvolvimento do processo que chamou de Daguerreó- tipo, apresentado oficialmente em 1839 e que logo teve sua patente comprada pelo governo da França. Daguerreótipo O daguerreótipo foi o primeiro processo fotográfico com estabilidade e logística suficiente para se espalhar de maneira comercial, como algo factível, e foi precisa- mente isso que aconteceu nas duas décadas seguintes. Do ponto de vista químico: O daguerreótipo era uma placa de cobre sensibilizada com iodeto de prata e exposta à luz na câmera escura. Posteriormente as imagens eram reveladas em vapor de mercúrio e inicialmente fixadas com uma solução de água salgada e depois com tiossulfato de sódio (conhecido como hipossulfito de sódio). Por ser uma placa de cobre, polida e banhada em prata, o daguerreótipo tinha como característica o reflexo, a imagem é única e positiva e eram guardadas em estojos de madeira com uma proteção de vidro (Calaça, 2012, p. 4-5). CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 11 Figura 2 – Pedro II, Imperador do Brasil. Joaquim Insley Pacheco (1883). Platinotipia, pb, 37,5 x 29,2 Fonte: Biblioteca Nacional. O imperador Dom Pedro II, cujo retrato é apresentado na figura acima, pode ser considerado o primeiro fotógrafo do Brasil. Seu trabalho com daguerreotipia se iniciou com a chegada do equipamento, trazido pelo Abade Comte em meados de 1840. O acervo produzido por Dom Pedro II contém, dentre outros assuntos, fotos de viagem da família real por diversos países. A indústria do daguerreótipo cresceu bastante nos anos seguintes e era comum a comercialização de daguerreótipos de famosos monumentos mundiais no Egito, Gré- cia, Espanha, etc. A imagem dessas placas apresentava detalhes ricos e isso ajudou em seu processo de se espalhar pelo mundo. Nos Estados Unidos, onde ele dominou por algumas décadas, havia muitos estúdios dedicados ao retrato (Vallencourt, 2016). Uma característica técnica importante para os processos do século XIX era o tem- po de exposição que, se comparados a hoje, eram demasiadamente elevados. Imagine ter que ficar imóvel por vários minutos enquanto seu retrato é realizado pela câmera! Vale ressaltar que um daguerreótipo era uma obra única e não podia ser repro- duzida em série. Mesmo com sua riqueza de detalhes, a ambição pela reprodutibili- dade técnica impulsionou outras criações de processos fotográficos. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 12 Colódio úmido Em 1851, o processo de colódio úmido revolucionou tecnicamente a fotografia ao introduzir a possibilidade de criação de negativos de vidro que podiam facilmente ser reproduzidos em papel fotográfico. O maior problema era que a imagem necessi- tava ser revelada imediatamente após sua exposição, o que fazia com que fotógrafos precisassem estar sempre com seu laboratório à disposição. Foi com esse processo que Roger Fenton fez a primeira cobertura fotográfica de um conflito armado, mais especificamente a Guerra da Criméia entre 1853 e 1856. Ao todo foram mais de 300 fotografias do conflito, embora elas tenham sido tiradas em momentos em que os conflitos propriamente ditos não estavam acontecendo. A maioria das fotos eram retratos e algumas encenações dos campos de batalha (Na- tional Geographic, 2011). Figura 3 – Guerra da Crimeia, Gen Brown e seus soldados. Fotografia de Roger Fenton (1885) Fonte: Wikipedia. Para realizar essa cobertura fotográfica, foi necessário utilizar um laboratório que era transportado em uma carroça. Nos 30 anos seguintes à sua invenção, o colódio úmido reinou como principal processo fotográfico, já que era menos dispendioso e trabalhoso que o daguerreóti- po, exigia menor tempo de exposição e podia facilmente ser reproduzido. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 13 Placa de gelatina e sais de prata (película fotográfica) A principal diferença do processo com gelatina e sais de prata é que esta emul- são fotossensível podia ser aplicada previamente a um papel, no primeiro momento, e posteriormente em uma superfície transparente, fazendo com que houvesse mais material pronto para ser fotografado e, ao mesmo tempo, permitindo que a imagem fosse revelada muito tempo depois de exposta à luz. As placas de gelatina eram cerca de 60 vezes mais sensíveis do que as placas de colódio. A maior velocidade libertou a câmera do tripé, e uma grande variedade de câmeras peque- nas e portáteis ficou disponível a um custo relativamente baixo, permitindo que fotógrafos tirassem instantâneos (Vallencourt, 2016, p. 47). Em 1888, a empresa de George Eastman lançou a câmera Kodak, sob o slogan “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”. A câmera podia fazer até 100 fotografias antes de ser enviada de volta à fábrica, para revelação e ampliação das fotos. Foi a primeira vez que os profissionais da fotografia se sentiram ameaçados pois, a partir desse ponto, supostamente, qualquer pessoa poderia ser fotógrafo (Freund, 1995). Esse processo permitiu, dentre outros avanços, o surgimento do cinematógrafo, e foi constantemente aperfeiçoado durante o século XX, em que foi o padrão da in- dústria fotográfica e cinematográfica. Fotografia digital A fotografia digital foi apresentada pela primeira vez durante a década de 1970, curiosamente pela empresa Kodak, líder em película fotográfica, mas que optou por não dar seguimento à fotografia digital. Quando esta começou a se popularizar, no início dos anos 2000, a Kodak teve sérios problemas financeiros e chegou a pedir fa- lência. Hoje a empresa ainda existe e tem uma atuação diferente no mercado, longe de ter a relevância que já teve. Praticamente todas as grandes empresas de câmeras já existentes no século XX entraram para o mercado da fotografia digital. É importante dizer que mesmo sen- do possível mudar o sensor digital drasticamente, muitos desenvolvimentos digitais tentaram aproveitar a herança cultural já estabelecida pela fotografia no século XX. A utilização de lentes compatíveis, os formatos das câmeras e dos sensores digitais são as principais características. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 14 Não por acaso, o principal sensor padrão do mercado digital é chamado de Full Frame e tem o mesmo tamanho da película de 35mm, a mais popular em termos de volume de produção. Entre as vantagens do processo digital estão o custo, a possibilidade de prever a imagem final antes de se fazer a exposição e a facilidade de retoque digital através de softwares. Figura 4 – Câmera digital de Pequeno Formato com tela de lcd para previsão da imagem Fonte: Unsplash. Outras considerações Como vimos, a fotografia não foi uma invenção que aconteceu em apenas um lugar e um momento específico. Os processos aqui descritos são os mais marcantes encontrados na maioria dos livros históricos. Há outros processos como a Cianotipia, os filmes de revelação instantânea na segunda metade do século XX; e o processo que Hércules Florence desenvolveu de maneira independente no Brasil, durante o século XIX, o qual só foi mostrado para o mundo a partir da década de 1970. Sua his- tória pode ser lida no livro Hercule Florence: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil (Kossoy, 2007). CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 15 1.2 Tipos de câmeras fotográficas Os tipos de câmeras fotográficas interferem diretamente na capacidade de re- presentação óptica da imagem (representação de detalhes), no formato da fotografia e no tipo de processo a ser utilizado. É comum pensarmos na fotografiacomo algo retangular, mas se prestarmos atenção aos detalhes, podemos ver que são retângulos de diferentes proporções ou até mesmo um quadrado. Para pessoas que se aventuram em fazer suas próprias câmeras (sim, é possível!), o formato pode variar ainda mais, como por exemplo uma fotografia redonda. Para nos orientarmos quanto às câmeras fotográficas, há três grandes forma- tos a serem distinguidos: Grande Formato, Médio Formato e Pequeno Formato. Cada um desses formatos possui variações, porém compartilham características que nos permitem, por exemplo, decidir que tipo de câmera é melhor para cada situação, a depender dos resultados que são esperados. Grande Formato A fotografia começou grande, ou melhor dizendo, com câmeras que estão na ca- tegoria de Grande Formato. Por questões de anatomia, essas câmeras são mais lentas, mais pesadas e quase que exclusivamente utilizadas sobre um tripé. Elas demandam negativos ou papéis fotográficos maiores e produzem imagens com menor profundi- dade de campo. Esse termo será estudado no próximo tópico. Por sua mobilidade re- duzida, as câmeras de grande formato são mais comumente utilizadas para retratos, fotos de arquitetura e de paisagem, embora seu uso não seja limitado a isso. O maior benefício das câmeras de Grande Formato é a qualidade de imagem fotográfica que, por partir de uma matriz fotográfica já grande, pode ser ampliada em grandes tamanhos (com metros de largura e altura) e em alta qualidade. Existem câmeras em Grande Formato digitais e, também, analógicas, de fabricação contem- porânea, com o formato mais comum de 10x12 cm. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 16 Um fotógrafo importante na história da fotografia, cuja carreira foi quase toda construída utilizando câmeras de Grande Formato, foi Ansel Adams. Sua contribui- ção, em especial para a fotografia em preto e branco (monocromática), foi essencial no desenvolvimento de imagens com muitos tons de representação. Sua trilogia de livros introdutórios à fotografia química do século XX, A câmera, O negativo e A cópia é, ainda hoje, uma referência para iniciantes. Figura 5 – Câmera de Grande Formato vista por trás, mostrando a imagem invertida no espelho polido Fonte: Unsplash. Figura 6 – Câmera de Grande Formato vista pela frente Fonte: Unsplash. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 17 Médio Formato As câmeras de Médio Formato são as intermediárias e possuem um pouco das características dos outros formatos, mas sem seus extremos. Elas conseguem produ- zir imagens com altíssima resolução e riqueza de detalhes e também aliam portabi- lidade e facilidade de uso. Por serem intermediárias, elas não terão a mesma qualidade do Grande Formato e nem a mesma portabilidade do Pequeno Formato. São bastante utilizadas para paisagem e fotografia de estúdio (retratos, ensaios, publicidade, produtos, etc.), ou seja, gêneros que não necessitam de grande agilidade ou mobilidade, como esportes e natureza selvagem, por exemplo. Como as câmeras de Grande Formato são, provavelmente, as menos utilizadas em termos de quantidade absoluta no mercado, as câmeras de Médio Formato são, na prática, as encarregadas de produzirem os trabalhos mais caros do mercado foto- gráfico, como as grandes campanhas de moda, retratos de celebridades, publicidade das maiores empresas e etc. Em resumo, sempre que se pede uma qualidade maior que a normal, a ten- dência é recorrer às câmeras de Médio Formato. É importante dizer que isso é uma tendência generalizada, ou seja, há trabalhos de grande porte realizados em outros formatos de câmeras, mas tendem a ser minoria. Imagine assim: se o orçamento de sua sessão fotográfica custará, ao todo, mais de um milhão de reais para a empresa que te paga, talvez ela te exija trabalhar em Médio Formato para garantir a qualidade do esforço. Curiosidade A câmera que foi para a Lua Uma curiosidade interessante é que a câmera de Médio Formato esteve, de fato, na primeira viagem à lua em 1969, mais especificamente um modelo da “Hasselblad 500 EL”, modificado especialmente para aquela viagem. O Médio Formato também possui uma grande variedade de proporção de enqua- dramento como 6x6 cm (quadrado), 6x7 cm, 6x4,5 cm e 6x17 cm (panorâmico). CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 18 Figura 7 – Câmera de Médio Formato do tipo lentes gêmeas (twins lens), que produz imagens quadradas (6x6 cm) Fonte: Unsplash. Figura 8 – Câmera Médio Formato modular de alta performance Fonte: Unsplash. CURSO LIVRE FOTOGRAFIA TóPICO 1 HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA E LINGUAGEM VISUAL 19 Figura 9 – Câmera de Médio Formato típica da primeira metade do século XX Fonte: Unsplash. Pequeno Formato Com a menor qualidade de imagem final dentre os formatos, as câmeras pequenas são parte da revolução do uso fotográfico. Isso porque os quesitos portabilidade, ve- locidade e praticidade, aliados à boa qualidade de imagem (mesmo sendo menor em relação aos demais formatos), fizeram com que as câmeras estivessem mais presentes no dia a dia das pessoas comuns e fossem utilizadas em diferentes situações de traba- lho que necessitavam de fotografia, como o fotojornalismo, por exemplo, possibilitando assim a captura de acontecimentos de toda sorte, incluindo viagens pelo mundo. A primeira câmera de Pequeno Formato foi lançada na década de 1920, pela em- presa Leica, com o objetivo de aproveitar os restos de negativos de 35mm do cinema. Isso acontecia porque o cinema, que é uma invenção 100% derivada da fotografia, necessitava de 16 quadros (fotogramas) para cada segundo de filmagem. Ainda na década de 1920, esse padrão cinematográfico foi fixado em 24 quadros por segundo. Com isso, pequenas quantidades de quinze ou trinta fotogramas eram, na prática, inúteis para filmagens.