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O que é Bitcoin e por que ele foi criado? Com Fernando Ulrich MÓDULO 01 | AULA 03 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 03 A ERA DIGITAL E A TRANSFORMAÇÃO DA RIQUEZA 04 SATOSHI NAKAMOTO E O NASCIMENTO DO BITCOIN 06 08REGISTRO HISTÓRICO E O CETICISMO INICIAL 09O INÍCIO DA REDE BITCOIN 10AS MOTIVAÇÕES POR TRÁS DA CRIAÇÃO DO BITCOIN 13A LINHA DO TEMPO DA CRIPTOGRAFIA MODERNA 3 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Essa é a nossa aula sobre o que é o Bitcoin e por que ele foi criado. Até aqui, nós vimos o conceito de dinheiro, a história monetária dos últimos séculos e o contexto geral do sistema financeiro e das economias modernas. Com isso, conseguimos entender por que o Bitcoin foi inventado por Satoshi Nakamoto. Já compreendemos quem é essa figura misteriosa, mas agora precisamos introduzir o conceito da era digital e o surgimento da riqueza digital. INTRODUÇÃO 4 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A ERA DIGITAL E A TRANSFORMAÇÃO DA RIQUEZA No século XXI, as principais empresas do planeta — como Amazon, Apple, Microsoft e Google — são companhias que pro- duzem produtos e serviços que, em sua grande maioria, são pura- mente digitais. Eles não existem fisicamente. Trata-se de uma riqueza imaterial, intangível — e, ainda assim, são as empresas mais valiosas do mundo. Essas companhias foram criadas e seus produtos só foram possí- veis graças à era da computação, da internet, da revolução digital. É nesse contexto que precisamos entender o conceito de riqueza digital e de bens ou produtos puramente digitais. Além das empresas já mencionadas, temos exemplos como Coinbase, Airbnb, eBay e Netflix — uma série de negócios que sur- giram ou se tornaram viáveis a partir da era digital e da internet. Também são empresas valiosas, que geram empregos, criam renda e riqueza para seus acionistas e funcionários. Mais uma vez, estamos falando de riqueza digital. Diversas indústrias foram radicalmente transformadas desde o surgimento da internet, especialmente nos anos 1990 e 2000. A indústria fonográfica, por exemplo, passou por profundas mudanças com a invenção do MP3, do Napster e do iPod. Modelos de negócios inteiros foram modificados quase da noite para o dia. 5 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Isso aconteceu com várias indústrias ao longo da era digital. No entanto, é curioso observar que uma das grandes instituições do nosso tempo — o dinheiro — ainda não havia sido profundamente impactada. Nenhuma inovação havia, de fato, revolucionado as moedas nacionais ou o conceito de dinheiro como conhecemos. É verdade que surgiram o internet banking, os bancos digitais e diversas fintechs. Mas o dinheiro em si — especialmente o dinheiro em espécie, o papel-moeda — permaneceu basicamente inalte- rado. Nenhuma inovação fundamental havia transformado a pró- pria instituição do dinheiro nas economias modernas. Diante disso, muitos desenvolvedores, inventores e programa- dores, ao longo das décadas e com o crescimento da computação, começaram a imaginar maneiras de impactar esse setor. Eles se perguntavam se seria possível criar uma forma de dinheiro pura- mente digital — uma espécie de dinheiro online ou eletrônico. A grande questão era: seria possível criar um dinheiro baseado em software? Seria viável desenvolver um software de dinheiro? E mais: seria possível reproduzir, com simples linhas de código, as principais propriedades que tornaram certas mercadorias valiosas ao longo da história monetária — como escassez, durabilidade, transportabilidade e homogeneidade? 6 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN SATOSHI NAKAMOTO E O NASCIMENTO DO BITCOIN A resposta de Satoshi Nakamoto, no dia 31 de outubro de 2008, foi um sonoro “sim”. Foi nesse dia que ele anunciou ao mundo sua grande invenção. Em uma mensagem enviada para uma lista de discussão online sobre criptografia, ele escreveu: Tradução: “Tenho trabalhado em um novo sistema de dinheiro eletrônico que é totalmente peer-to-peer, sem a necessidade de um terceiro de confiança.” Com isso, Satoshi apresentava ao mundo a proposta do Bitcoin: um sistema monetário descentralizado, baseado em software, que operaria diretamente entre indivíduos — sem bancos, sem governos, sem intermediários. Essa foi a mensagem inicial de Satoshi Nakamoto naquele e-mail. Junto dela, ele também apresentou as principais ideias do sistema e anexou um paper de nove páginas — o chamado Whi- tepaper do Bitcoin — uma espécie de artigo acadêmico em que descrevia os principais conceitos desse novo sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer (P2P), sem a necessidade de um terceiro de confiança. “I’ve been working on a new electronic cash system that’s fully peer-to-peer, with no trusted third party.” 7 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Na prática, tratava-se de um paper de oito páginas, já que a nona era composta apenas pelas referências bibliográficas. Até esse momento, o nome Satoshi Nakamoto simplesmente não existia publicamente. E, até o ano de 2025, ninguém sabe quem é a verdadeira identidade por trás desse criador. No entanto, como veremos ao longo das aulas, isso pouco importa. Esse mis- tério acabou permanecendo como uma grande curiosidade em torno da origem do Bitcoin. 8 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN REGISTRO HISTÓRICO E O CETICISMO INICIAL Um aspecto interessante dessa mensagem inicial — especial- mente para aqueles que gostam de estudar a fundo essa história — é que tudo está devidamente documentado. Desde a primeira comunicação de Nakamoto nessa lista de discussão sobre crip- tografia, até as respostas e os debates que surgiram a partir dela. Essa lista era frequentada por grandes criptógrafos e especialistas da área, e não por qualquer pessoa. Era, portanto, um grupo muito seleto que tinha acesso àquelas mensagens. Todas as trocas de e-mails, as primeiras perguntas, os questio- namentos sobre a viabilidade do sistema — tudo está registrado. Porque, naquele 31 de outubro de 2008, Nakamoto estava apenas anunciando os conceitos fundamentais do Bitcoin. O sistema em si ainda não existia. O software não estava disponível; era apenas uma ideia no campo teórico. Muitos céticos, mesmo entre especialistas em criptografia, redes distribuídas e economia, duvidavam que um projeto como aquele pudesse decolar. Especialmente por se tratar de um sistema des- centralizado, sem uma empresa por trás, sem um responsável visível para controlar ou garantir o seu funcionamento. A ideia de que algo assim pudesse operar com sucesso — e mais ainda, durar — parecia improvável naquele momento. Ainda assim, todas as mensagens e o intenso debate técnico e filosófico em torno do sistema estão presentes nesse histórico de e-mails que teve início com a primeira mensagem de Satoshi Nakamoto, em outubro de 2008. 9 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN O INÍCIO DA REDE BITCOIN Foi somente depois dessa mensagem inicial que o sistema começou a funcionar de fato. No dia 3 de janeiro de 2009, a rede do Bitcoin foi ativada, inicialmente operada apenas por Satoshi Nakamoto. Poucos dias depois, em 9 de janeiro, também na mesma lista de discussão sobre criptografia, Nakamoto enviou uma nova mensagem. Nela, ele disponibilizava a versão 0.1 do software para download, permitindo que qualquer pessoa interessada pudesse participar da rede e expandir o Bitcoin ao redor do mundo. Esse foi o ponto de partida para o envolvimento de entusiastas — pessoas dispostas a testar, explorar e desenvolver esse novo sis- tema de dinheiro eletrônico. Começava então a tentativa de des- cobrir se aquilo poderia de fato funcionar: será que teria sucesso? Será que conseguiria algum nível de adoção? Será que, em algum momento, poderia alcançar algum valor de mercado? Até os primeiros dias, semanas e meses, o Bitcoin era apenas uma rede nova e experimental — mas que viria a transformar para sempre a históriado dinheiro. Era mais um experimento de computação — um experimento de criptografia com a ideia de criar um sistema de dinheiro ele- trônico peer-to-peer (P2P). Essa era a proposta, e ali, em janeiro de 2009, começava o experimento. 10 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN AS MOTIVAÇÕES POR TRÁS DA CRIAÇÃO DO BITCOIN Mas surge a pergunta: qual foi a motivação por trás dessa grande invenção? O que levou Nakamoto a criar o Bitcoin? Por que ele decidiu inventar esse novo sistema de dinheiro eletrônico P2P? Temos alguns indícios. O primeiro deles está na própria primeira transação registrada na rede do Bitcoin, ocorrida no dia 3 de janeiro de 2009, quando foram criados 50 bitcoins. Essa foi a primeira tran- sação da história do sistema. Dentro dessa transação, Nakamoto incluiu uma mensagem que, tecnicamente, não fazia parte da operação em si, mas funcionava como uma referência ao contexto mundial da época. A mensagem era a seguinte: “The Times. 03 de janeiro de 2009. Chancellor on brink of second bailout for banks.” O The Times era um jornal britânico, e essa era a manchete daquele dia: “Ministro da Fazenda à beira do segundo resgate para os bancos”. Essa mensagem carregava uma crítica implícita ao sis- tema financeiro, ao risco moral, aos banqueiros sendo socorridos por bancos centrais e por governos. Ali já havia uma indicação clara do contexto e da proposta do Bitcoin como uma alternativa ao sistema monetário vigente — às moedas fiduciárias, que dependem da confiança nos bancos 11 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN centrais, que podem ser emitidas sem limite, e em que bancos falidos ainda podem ser resgatados — especialmente quando são os “amigos do rei”. Essa foi a crítica inicial de Nakamoto ao sistema financeiro tra- dicional. Mas ele foi além. Nas mensagens trocadas nas semanas seguintes, podemos perceber uma base filosófica e econômica consistente por trás do projeto. Em uma dessas mensagens, enviada no dia 9 de fevereiro de 2009, Nakamoto escreveu: Com isso, ele deixava claro que identificava o problema da moeda convencional: a necessidade de confiança em instituições que his- toricamente falharam. Para Nakamoto, os bancos centrais desvalo- rizam sistematicamente as moedas e os bancos comerciais atuam com irresponsabilidade, especialmente durante bolhas de crédito. “O problema raiz com a moeda convencional é toda a confiança que é necessária para fazê-la funcionar. O banco central precisa ser confiado de que ele não irá desvalorizar a moeda, mas a história das moedas fiduciárias é repleta dessas quebras de confiança. Os bancos precisam ser confiados de que vão guardar o nosso dinheiro e transferi-lo eletronicamente, mas eles acabam emprestando em ondas de bolhas de crédito com quase nenhuma fração em reserva.” 12 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN É importante lembrar que a divulgação da mensagem inicial, em 31 de outubro de 2008, ocorreu apenas um mês e meio após a quebra do banco americano Lehman Brothers — o auge da grande crise financeira daquele ano. Foi a maior falência da história dos Estados Unidos, e até 2025, continua sendo. Nesse contexto, a criação do Bitcoin surge como resposta direta à fragilidade estrutural do sistema financeiro global — e como uma proposta concreta de alternativa monetária. Então, em meio à grande crise financeira, uma nova invenção — uma inovação financeira, uma inovação monetária — surgia como talvez uma alternativa ao dinheiro vigente. Essa era a ideia por trás e uma das grandes motivações de Satoshi Nakamoto para criar o Bitcoin. 13 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN A LINHA DO TEMPO DA CRIPTOGRAFIA MODERNA Mas, ao contrário do que muita gente imagina — que o Bitcoin surge do nada e que, lá em 2008, esse ser desconhecido simples- mente anuncia um novo sistema de dinheiro eletrônico como se fosse uma tecnologia sem antecedentes — a verdade é que o Bitcoin é resultado de pelo menos duas décadas de pesquisa e desenvolvimento em criptografia, redes distribuídas e no próprio conceito de dinheiro eletrônico na economia. Satoshi Nakamoto, na realidade, estava sobre os ombros de gigantes quando finalmente anunciou o Bitcoin e o disponibilizou para o mundo. E é importante traçar uma linha do tempo com os grandes marcos dessa história de mais de duas décadas em crip- tografia, redes e dinheiro eletrônico. · A revolução da criptografia assimétrica Talvez o grande ponto de partida dessa história seja um paper técnico de 1976, escrito por dois autores americanos, Whitefield Diffie e Martin Hellman, intitulado New Directions in Crypto- graphy. Em princípio, nem era um artigo diretamente relacionado ao dinheiro eletrônico, mas ele foi seminal porque transformou a história da criptografia naquele momento. 14 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Até 1976 — e nos 500 anos anteriores à publicação desse artigo — praticamente não houve evolução significativa na criptografia. Os métodos de cifrar e decifrar mensagens permaneciam os mesmos. Mas este artigo revolucionário trouxe o conceito de crip- tografia de chave pública, também chamado de criptografia assi- métrica, que, em síntese, é o que garante a segurança no mundo digital — a segurança na era da internet se deve, em grande parte, a esse paper. Ele possibilitou diversas outras inovações no campo da compu- tação e da criptografia nos anos seguintes. Outro momento importante veio em 1981, com um artigo cientí- fico sobre correio eletrônico não rastreável, endereços de retorno e pseudônimos digitais. A ideia de pseudônimo digital é funda- mental para entender a rede do Bitcoin e seu funcionamento. O autor desse artigo foi um fotógrafo americano chamado David Chaum, que já escrevia sobre as primeiras ideias de dinheiro ele- trônico e pagamentos no ciberespaço. Ele previa como o mundo evoluiria para uma presença cada vez maior na internet, com os computadores dominando boa parte da vida cotidiana, e anteci- pava que muitas das transações econômicas passariam a ocorrer nesse espaço digital. Em 1982, Chaum publicou um novo artigo científico, agora já relacionado diretamente ao sistema financeiro, intitulado Blind · Os primeiros passos do dinheiro digital 15 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Signatures for Untraceable Payments. Esse trabalho trouxe muitos dos conceitos que depois seriam aproveitados por Satoshi Nakamoto na criação do Bitcoin. Em 1989, David Chaum fundou uma empresa chamada Digi- Cash, sediada em Amsterdã, na Holanda. A proposta era colocar em prática o que antes eram apenas ideias, conceitos e artigos científicos. Com a DigiCash, ele tentou implementar um sistema de dinheiro eletrônico e desenvolveu o eCash, já na década de 1990. Esse sistema permitia pagamentos com alto grau de privacidade e não rastreabilidade, ainda que dependesse de uma empresa centralizadora por trás. Ou seja, não era descentralizado como o Bitcoin, mas foi a primeira implementação concreta do conceito de dinheiro eletrônico ou de pagamentos digitais. Outro marco muito importante para a criação do Bitcoin e para o funcionamento da rede foi o artigo científico de Adam Back, um criptógrafo inglês, intitulado Hashcash. A ideia desse paper era a criação de “selos digitais”. · David Chaum e a criação da DigiCash · Hashcash e o problema do spam 16 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Naquele momento, a internet estava se expandindo rapida- mente, com o crescimento do uso de correios eletrônicos e e-mails em larga escala. Ao mesmo tempo, começaram a surgir tentativas de spam, com o objetivo de inundar a rede com mensagens inde- sejadas. O Hashcash propunha um mecanismo simples: impor um pequeno custo computacional para cada mensagem enviada. Para o usuário comum, esse custo seria quase desprezível. No entanto, para um agente malicioso tentando enviar milhares ou milhões de mensagens,esse custo tornaria a prática inviável. Assim, o selo digital funcionava como uma espécie de barreira contra abusos. Essa lógica de imposição de custo computacional antecipou o mecanismo de proof of work que seria usado por Satoshi Naka- moto no Bitcoin. Outro marco importante na trajetória do dinheiro eletrônico foi o B-Money, um paper bastante conciso escrito por Wei Dai, um integrante do movimento dos cypherpunks. Pouco se sabe sobre Wei Dai, que nunca apareceu publicamente, mas seu artigo já deli- neava a proposta de um dinheiro digital para o ciberespaço. No B-Money, ele descrevia um sistema em que pagamentos poderiam ser feitos de forma privada, na internet, sem depender de uma autoridade central. Seria um dinheiro digital com as carac- terísticas do ouro físico: escasso, valioso e independente de inter- mediários. · B-Money e os cypherpunks 17 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN Wei Dai fazia parte do grupo dos cypherpunks, uma comuni- dade de entusiastas da criptografia surgida no início dos anos 1990. Eles discutiam ativamente ideias sobre liberdade individual, privacidade e criptografia na era digital. Muitos dos nomes citados até aqui também participaram dessas discussões, trocando ideias em listas de e-mails e fóruns especializados. Também em 1998, outro artigo conceitual foi publicado por Nick Szabo, intitulado Bit Gold — literalmente, “ouro digital”. O paper traçava as bases teóricas de um ativo digital escasso, que funcio- naria como o ouro no mundo virtual. Szabo explorava quais atributos seriam necessários para criar um ouro puramente digital, quais os problemas técnicos envol- vidos e como ele poderia ser protegido contra fraudes e manipu- lação. Embora nunca tenha sido implementado, o Bit Gold foi um projeto altamente influente. Outro marco importante surgiu em 2004, com Hal Finney, um criptógrafo americano que criou o RPOW (Reusable Proof of Work). Ele imaginou a criação de produtos ou mercadorias digitais geradas por meio de força computacional — seguindo a mesma · Bit Gold: o ouro digital de Nick Szabo · Hal Finney e o RPOW: escassez digital reutilizável 18 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN lógica dos colares de conchas usados em algumas sociedades: artefatos físicos cuja escassez e custo de produção são garantidos e não podem ser falsificados. Ninguém cria do nada um colar de conchas — é preciso tra- balho manual, tempo, e material. Essa lógica foi incorporada no RPOW, com a ideia de criar ativos digitais escassos, produzidos via trabalho computacional, mas que poderiam ser reutilizados. A proposta era justamente permitir que essas “mercadorias digitais” pudessem ser transferidas de uma pessoa para outra, mantendo a escassez e o valor. Hal Finney, aliás, foi o primeiro grande entusiasta da ideia do Bit- coin. Quando Nakamoto publicou sua proposta em 31 de outubro de 2008, Finney rapidamente mostrou otimismo: afirmou que a ideia tinha potencial, embora fosse necessário resolver desafios como a escalabilidade e a privacidade. Hal Finney se envolveu intensamente nos primeiros dias do Bitcoin. Foi ele quem recebeu a primeira transação da história, enviada diretamente por Satoshi Nakamoto, ainda em 2009 — tor- nando-se o primeiro usuário da rede a participar de uma operação de envio e recebimento de bitcoins. Esse envolvimento direto, aliado ao seu conhecimento técnico e à sua trajetória no meio cypherpunk, fez com que muitos pas- · O envolvimento de Finney com Nakamoto 19 E-BOOK BP · A NOVA MOEDA: O GUIA COMPLETO DO BITCOIN sassem a especular se Finney não seria, ele próprio, o criador do Bitcoin — ou ao menos um dos integrantes de um possível grupo por trás da identidade de Satoshi Nakamoto. Hal Finney faleceu em 2015, mas seu nome figura entre os principais candidatos, ao lado de Nick Szabo e Adam Back. Foi então, finalmente, em 2008, que Satoshi Nakamoto anun- ciou sua grande invenção: Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System — um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto. Esse paper, publicado em outubro de 2008, marcou o verdadeiro início do dinheiro eletrônico funcional e descentralizado. Em janeiro de 2009, Nakamoto disponibilizou o software que implementava todas aquelas ideias que, até então, existiam apenas como teoria. O que antes eram apenas conceitos e papers acadêmicos — como Hashcash, B-Money e Bit Gold — foi, enfim, transformado em realidade com o lançamento do Bitcoin. Nesta aula, vimos o surgimento do Bitcoin entre 2008 e 2009, o contexto em que isso ocorreu, as motivações por trás de sua criação, os conceitos centrais da tecnologia, e um pouco da tra- jetória histórica que tornou essa invenção possível — passando por décadas de discussões sobre criptografia, redes distribuídas e propostas de dinheiro eletrônico. Nas próximas aulas, veremos como o Bitcoin funciona de fato. · O anúncio do Bitcoin